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sábado, 22 de outubro de 2011

SOBRE LOUCOS, SANTOS E AMIGOS

POR MÁRIO INGLESI 
Sobre o texto: http://saudeconsciencia.blogspot.com/2011/09/loucos-e-santos.html


Oscar Wilde, ao desenvolver sob o titulo Loucos e Santos suas noções de amigos e amizades, sua escolha, motivação, criação e desenvoltura, dispôs ter amigo (s) para conhecer-se pelo avesso, uma vez que “normalidade” para ele, manifestava-se uma ilusão “imbecil e estéril”

De fato, por tudo de mal e pior que lhe aconteceu: preso, julgado, dilacerado em sua individualidade, escorraçado socialmente, em decorrência de um moralismo inócuo e injustificável, mesmo para a época, restou-lhe, entretanto, a consciência de que “somente aquilo que é bom, e pelo bem concebido, é capaz de se alimentar. (De Profundis). Isto marca bem o cerne de amizade e amigos encontrado em Wilde, em sua subjetividade.
Mas, amizade e amigos têm também em seu bojo elementos mais corriqueiros e não menos importantes e profundos.
A começar, a amizade e amigos nascem do ocasional, do fortuito: um olhar, uma palavra, em encontro ocasional, em lugares os mais inusitados, Não exige teste de DNA, não tem genes especiais para subsistir, não se prende a contratos, e a obrigações. Não tem hora para nascer ou acabar, floresce sem limites, mas sempre no convívio e na vazão à intimidade. Não se alicerça em discursos palavrosos inúteis. Ao contrário, prende-se muito ao silêncio, à alegria, ao companheirismo, à disposição de trocas de informações, e divisão de experiências.
O lugar propício a seu desenvolver é, sem dúvida, o compartilhar no futebol - ah, sempre ele, o futebol! Nos estádios ou na TV, nas “peladas” de rua, na mesa de um bar, ou na de qualquer boteco ou de bilhar em meio a cervejas, piadas, e confidências amorosas, muita risada, muita alegria, e muita lavação de roupa suja, mas – claro!  -em meio a muita molecagem, chistes e disparates, apostas de virilidade, mostras de macheza e demonstração de vantagens sempre em alta como nos versos do “desafio”, abaixo. Tudo isto isento de qualquer pretensão ao politicamente correto:

Sou Balbino, cantador
Violeiro respeitado
Em disputa de peleja
Eu sou mestre renomado.
Tenho a força do tufão
Tenho o giro do tornado,
A ciência do sabido
E a coragem do soldado.

Eu me chamo Marcolino
De Balbino sou irmão.
Só que tenho mais juízo
E mais imaginação.

Sabe-tudo não me assusta
Nem tornado, nem tufão.
Eu derrubo dez soldados
Com o dedinho de uma mão.

A Lenda do Violeiro Invejoso, (sic) de Fábio Sombra, ed. Rocco, 2005
Em meio a tudo isso, vigora também, na precisão da vida, a seriedade, a sobriedade, o ombro amigo, a camaradagem, no esforço pelo bem gostar

Vai ter uma festa
Que eu vou dançar
Até o sapato pedir pra parar.
Aí eu paro, tiro o sapato
E danço o resto da vida

Chacal (RJ) poema Rápido e Rasteiro, do poeta Chacal, extraído do Livro Poesia Jovem Anos 70, ed. Abril 1982.

Mas, mais imprescindível que tudo, a desconcentração, o prazer de se estar junto, tecendo rabiscos de vida com fios de amizade na teia do “descompromisso” da alegria de viver.

Nós somos quatro rapazes
Dentro de uma casa vazia.

Nós somos quatro amigos íntimos
Dentro de uma casa vazia.

Nós fomos ver quatro irmãos
Morando na casa vazia.

Meu Deus! Si uma saia entrasse
A casa toda se encheria!

Mas era uma vez quatro amigos.

Moda dos Quatro Rapazes, de Mário de Andrade, em Poesias Completas – Círculo do Livro S/A – 1976, pág. 149.

É preciso não deixar de lembrar que a amizade e os amigos deram vazão a trocas infindas de cartas – ao tempo em que as cartas eram de próprio punho e assinadas com caligrafia personalizada, entre os nossos mais famosos poetas (Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, e muitos outros), formando com elas uma torrente de informações, sobre a obra, de cada um, suas angústias, suas confidências, dúvidas e posicionamento político e social.
Sem amizade, sem amigos, - que tristeza!  Que aflição!- tem-se uma mensagem sem resposta, como:

CONTO EM LETRAS GARRAFAIS

Todo o dia esvaziava
uma garrafa, colocava
dentro sua mensagem, e a
entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra

Marina Colasanti, em Contos de amor rasgados, ed. Rocco, 1986, pág.95

Finalmente, com a sua enorme carga de humanidade, a amizade, e os amigos, sejam estes loucos ou santos, ou ambos, contribuem, sem dúvida, como entes especiais, à plenitude da saúde humana e, como tais - é de se crer - devem figurar com destaque na listagem de Consciência e Saúde.
Isto posto Dr. Ricardo, um brinde em sua homenagem, como promotor de amigos e de saúde,

Mário Inglesi 07/10/2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

PREVENINDO O PACIENTE DO "MÉDICO" - PARTE III


Complemento aos artigos:

Robert C. Hinckley's oil painting " The First Operation Under Ether" (1894)
         Existe uma medicina baseada em evidências (MBE) que tem seu valor, mas é imperativo que ela não seja soberana à medicina baseada no indivíduo (MBI). Cada pessoa é única e pode estar fora de uma distribuição de normalidade populacional. Converso sempre com um amigo neurologista sobre aqueles pacientes que constituem os 5% que sobrevivem às doenças graves. Muitas vezes, estes 5% não são estudados com a profundidade que mereceriam, talvez justamente por constituir uma minoria. Grosso modo as terapias são idealizadas em modelos protocolares, fato que eventualmente pode “negligenciar” particularidades individuais (veja: http://saudeconsciencia.blogspot.com/2011/09/saude-x-doenca-geracao-z-tdah.html). Exemplo disso é a reportagem da Folha SP de 18/10/11, em que médica de Harvard e consultora do periódico New England Journal of Medicine (NEJM) alerta para o uso excessivo de medicações psiquiátricas em crianças.

Na verdade o tema é de primordial importância e retorna quase que diariamente às colunas dos jornais. Chama atenção outra reportagem da Folha de SP de 10/10/11, em que o articulista explora a idéia de que procedimentos sem necessidade também ameaçam a saúde da população. Na mesma reportagem, Rosemary Gibson, médica especialista em políticas e economia da saúde, afirma a seguinte pérola: “Mais cuidado não significa melhor cuidado” e aponta procedimentos e exames em excesso como questões a serem repensadas pela própria comunidade médica (veja mais em: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/988245-tratamento-medico-em-excesso-custa-quase-us-7-bilhoes.shtml).

Cabe aqui lembrar as palavras de Rui Barbosa na Câmara dos Deputados, em 1903, época em que se deu a Revolta da Vacina, em resposta às idéias de Osvaldo Cruz (http://www.riodejaneiroaqui.com/portugues/rui-barbosa-2.html):

“Assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme. Até aqui, até a pele que nos reveste, pode chegar a ação do Estado. Mas introduzir-me nas veias, em nome da higiene pública, as drogas da sua medicina, isso não pode, sem se abalançar ao que os mais antigos despotismos não ousaram”.

Protocolos, métodos, pacotes empresariais e esquemas terapêuticos são recursos que vêm em auxílio de minimizar gastos das instituições. Entretanto, como matéria biomédica, a medicina não deve perder de vista as necessidades dos pacientes, além de zelar para que sua prática não se baseie no medo da doença e da morte, mas na promoção e preservação da saúde e da vida. Recentemente vêm em auxílio desta disparidade, especialidades como os cuidados paliativos em que o intervencionismo excessivo das unidades de terapias intensivas (UTI) é questionado em favor de uma discussão saudável sobre o momento da morte e a dificuldade em sua aceitação. Apego, medo, culpa e hábitos culturais arraigados são algumas das questões que respondem pela dificuldade em aceitar fatos consumados e insistir em situações insolúveis. Aprender sobre o perdão, discutir os medos e a insegurança relativos à imponderabilidade do viver é matéria médica que cada vez mais estará presente no curso de formação. A medicina antroposófica baseada nos pensamentos do filósofo Rudolf Steiner, parece ter dado um grande passo nesse sentido. Nas palavras de Steiner:

"É preciso erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem. É preciso adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro. É preciso que olhemos para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir. Precisamos pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria. Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver em pura confiança. Sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do mundo espiritual. Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar. Disciplinemos nossa vontade e busquemos o despertar interior todas as manhãs e todas as noites." (Rudolf Steiner - Bremen 27.11.1910)

Abaixo a terceira parte do estudo sobre prevenção quaternária na atenção primária à saúde em que pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Norman e Tesser) nos presenteiam com uma pérola de saúde para reflexão. Fatores de risco, os perigos da estatística como prova, sugestões para uma vida saudável são alguns dos temas por eles abordados nesta parte final do estudo. Em caso de interesse, para entrar em contato com os autores: charlestesser@ccs.ufsc.br. Artigo completo acessível em: http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2009000900015

Medicalização de fatores de risco
Do ponto de vista histórico a prevenção migrou da Saúde Pública para a clínica das doenças. Assim, a identificação de fatores de risco como parte da prevenção inaugurou uma nova era na Saúde Pública e na Medicina. Fatores de risco, como a hipertensão arterial, são agora considerados como "doenças".
O termo "fator de risco" diz respeito a um aspecto do comportamento pessoal, a uma exposição ambiental ou a uma característica pessoal, biológica ou social em relação à qual existe evidência epidemiológica de que está associada à determinada condição relacionada com a saúde, condição essa que se considera importante prevenir. Numa linguagem mais simples, usa-se o termo "fator de risco" para descrever características (fatores) que estão associadas positivamente ao risco de desenvolvimento de doença, mas não são necessariamente fatores causais. Um fator causal é aquele que ficou estabelecido com um razoável consenso científico como agente causal de uma enfermidade.
Este tipo de medida (estabelecimento de fatores de risco) baseia-se em cálculos de probabilidades e a evidência é obtida pelos estudos com grupos de indivíduos, eventualmente do somatório de vários grupos de indivíduos (metanálises). Na sua prática clínica, cada médico acaba por fazer uma extrapolação da evidência obtida com esses grupos de indivíduos para o seu paciente individual, com as suas próprias especificidades. Esta extrapolação não é linear, muito menos consensual e necessita de elevada perícia e arte médica, mas pretende, especialmente, aplicar o princípio da beneficência: agir no melhor interesse do paciente.
O fator de risco não é necessário nem suficiente para que se apresente a enfermidade. O fator de risco é simplesmente algo que se associa estatisticamente à doença, e cuja evitação diminui a freqüência da doença, no entanto não a exclui. Este conceito é muito diferente da idéia predominante no imaginário coletivo da população - e inclusive dos profissionais - que associa fator de risco à causa necessária e suficiente de doença. Em geral, os profissionais identificam erroneamente os fatores de risco como agentes etiológicos de doença. Por isso, supõe-se que a evitação do fator de risco elimina a possibilidade da doença e se aceita que a presença dos fatores de risco levará ao desenvolvimento futuro da doença. A realidade se opõe tenazmente a estas assertivas, todavia o leigo e o profissional se apegam a uma interpretação que atribui causalidade ao fator de risco.
A simples presença ou ausência dos fatores de risco, mesmo somados (o que multiplica o risco) não assegura nem exclui o episódio. De fato, é muito chamativo o escasso valor discriminante dos fatores de risco, de modo que sua simples presença não permite predição válida acerca do futuro do indivíduo concreto considerado. Tal dificuldade em transladar os resultados de grupos e populações para os indivíduos foi assinalada por Feinstein como uma "tragédia clínico-epidemiológica".
O mal-entendido se baseia na imprecisão provocada pela situação do conceito de fator de risco, na encruzilhada entre a causalidade (teoria), a estatística (técnica) e a medicina (ação de cuidado). A ambigüidade do conceito de fator de risco não é inocente e se baseia no poderoso efeito associativo sobre a mente humana da concatenação de episódios. Com tal bagagem de erros e imprecisão, o fator de risco se converte em carro-chefe de uma atividade sanitária que vai da saúde pública ao tratamento do paciente, não sem grande dose de ideologia preventivista e linguagem moralizante, que se ocultam sob o manto da estatística, em benefício das agendas farmacológicas e comerciais que "combatem" fatores de risco. A alquimia dos números deslumbra os pacientes e a sociedade, e prefere-se a segurança de uma resposta errônea envernizada de estatística à incerteza da ignorância.
Uma vez que os fatores de risco têm pouco poder preditivo, o prudente é empreender programas que interfiram nas condições básicas de toda a população, que não sejam centrados nos fatores de risco de alguns pacientes, por muito "de risco" que sejam. A medicalização excessiva dos fatores de risco tem levado a uma verdadeira transformação cultural nas populações, de modo que hoje, segundo Gérvas & Pérez-Fernández, encontramos na população pessoas sãs (por sê-lo e, sobretudo, por ausência de contato com o sistema de saúde), sãs preocupadas (com os fatores de risco e com a probabilidade de estarem enfermas), sãs estigmatizadas (marcados com algum fator de risco, tipo hipertensão, que lhes introduz no circuito dos cuidados médico-sanitários), e enfermas, reais ou imaginárias (por transformação de fatores de risco em pseudodoenças). Transformamos os sãos em sãos preocupados e, depois, em sãos estigmatizados e em pseudo-enfermos, com o que os deixamos indefesos ante os danos desnecessários, diários e extraordinários, previsíveis e imprevisíveis. Esse processo demanda e reitera a necessidade de prevenção quaternária.

Arte e ciência da prevenção quaternária
Talvez uma das formas mais importantes de se evitar a medicalização excessiva das pessoas e praticar a prevenção quaternária é aliar três ferramentas importantes para o cuidado clínico: abordagem centrada na pessoa, medicina baseada em evidências e centramento do cuidado na atenção primária à saúde, com longitudinalidade. A primeira ferramenta diz respeito ao fato de que existe um sujeito que vive o drama da existência, com seu saber próprio e suas incertezas, medos, angústias, uma bagagem cultural marcada pela vida. Para realizar sua abordagem, deve-se colocar entre parênteses a idéia de diagnosticar doenças e colocar a ciência a serviço do ser humano, como apenas uma ferramenta que poderá ser utilizada ou não. O paciente geralmente tem uma agenda a respeito do assunto para o qual veio consultar o médico, um modelo explanatório sobre como sofre, sua causa e os medos com respeito à sua saúde que agora está abalada. Portanto, mais do que fechar diagnósticos, há de se ouvir as queixas e refletir conjuntamente sobre as possibilidades diagnósticas, terapêuticas e prognósticas. A construção de um plano terapêutico deve ser compartilhada a fim que se possa caminhar junto com o paciente no processo do cuidar.
A segunda ferramenta é a medicina baseada em evidências, a utilização de conhecimentos da biomedicina que tenham o melhor grau de comprovação de sua eficácia pela ciência, aliados ao contexto e anseios do paciente. Ou seja, o consciencioso uso da melhor evidência atual para tomar uma decisão sobre o cuidado de um paciente individual. Pode-se classificar a evidência cientifica em dois tipos: Disease Oriented Evidence - DOE e Pacient Oriented Evidence that Matters - POEM. Os estudos do tipo DOE (evidência orientada à doença) versam sobre desfechos intermediários, como controle de arritmias, redução do colesterol, controle da pressão etc. Despertam mais atenção da mídia e das pessoas, têm raiz numa tendência unicausal e se correlacionam bem com a visão leiga de que "isso é bom para aquilo" - "tome chá disso que é bom para abaixar o colesterol". Esse tipo de pensamento também ocorre na ciência: no exemplo da terapia de reposição hormonal (TRH) para mulheres menopáusicas, cujos estudos preliminares demonstravam que o uso de estrogênio e progestágeno reduzia o colesterol total e aumentava o colesterol-HDL (colesterol bom), logo se deduziu que a TRH era boa para o coração.
Porém, o que mais interessa é saber se a intervenção trouxe real benefício ao paciente, a saber: se aliviou o sofrimento, reduziu a morbidade e a mortalidade e foi menos custosa para o paciente. Esta é a evidência POEM (evidência orientada ao paciente e a que tem importância). Depois que se realizou um ensaio clínico de alta qualidade pode-se verificar que as mulheres que usavam hormônio, apesar de terem um perfil lipídico melhor, morriam mais. Não interessa somente saber que o colesterol melhorou, mas sim se as pessoas estavam vivendo mais e melhor. A promessa da TRH era que, ao se reduzir a perda de massa óssea, diminuir-se-iam os riscos de fratura de colo de fêmur nas senhoras idosas no futuro e ainda se teria um plus de proteger o coração. As mulheres não estavam sofrendo no presente e, sim, tratava-se de medidas preventivas que, uma vez prescritas, só muito tempo depois seriam revertidas.
A terceira ferramenta é o fortalecimento da atenção primária à saúde e da longitudinalidade nela, com o exercício do conceito de watchful waiting ("observação assistida"), ou demora permitida, particularmente importante para os médicos de família e comunidade e para a Estratégia Saúde da Família. Nesta última, o mecanismo de adscrição territorial dos usuários às equipes de saúde da família induz e supõe a longitudinalidade. Starfield estima que 40% dos pacientes que trazem um novo problema ao médico de família melhoram sem que seja estabelecido um diagnóstico específico. A estratégia usada pelos médicos generalistas ou de família é monitorar os indivíduos que apresentam sintomas e sinais inespecíficos por várias semanas. Como o quadro sintomático de uma parte deles, na sua evolução, torna-se mais específico, a hipótese sobre o diagnóstico pode emergir. Durante esse período de observação assistida (ou demora permitida), a probabilidade pré-teste de que o problema seja uma doença passível de definição diagnóstica ou de um teste diagnóstico aumenta. Logo, a prevalência da doença no grupo a ser investigado cresce e/ dessa forma os riscos de falso-positivo e falso-negativo do teste são reduzidos. Assim, a chamada "tintura do tempo" desempenha um papel importante em melhorar os valores preditivos positivos dos testes diagnósticos.
Cabe, então, aos profissionais de saúde aplicar o que diz Gérvas & Pérez-Fernández (p. 68) "A chave da prevenção quaternária é não iniciar a cascata de exames, não classificar o paciente, não abusar do poder de definir o que é enfermidade, fator de risco e saúde. Há que se resistir tanto à pressão da corporação farmacêutica, tecnológica e profissional como também dos pacientes. Há que se desenvolver e estruturar uma ética negativa, baseada no contrato social implícito que exige do médico o comprimento de sua obrigação, mesmo que haja uma demanda insaciável para iniciar a cascata diagnóstica e preventiva desnecessária".
O desenvolvimento e o ensino em larga escala da prevenção quaternária podem e devem se tornar um verdadeiro front estratégico da educação permanente no SUS e na formação dos profissionais de saúde, para que práticas de excelência em atenção primária à saúde possam ser desenvolvidas e consolidadas na Estratégia Saúde Família, que diminuam a medicalização e a iatrogenia do cuidado, ainda relativamente pouco percebidas no Brasil.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

PERDOANDO DEUS - CLARICE LISPECTOR


 
Andando pela Avenida Copacabana, ela teve uma sensação insólita: sentiu-se a mãe de Deus, o qual era a própria Terra, o mundo. Teve um carinho maternal por Deus. Foi quando quase pisou num rato morto. Encheu-se de susto e pavor como uma criança. Então revoltou-se contra Deus. Por que num momento de tanta beleza interior ela tinha topado exatamente com um rato? Teve vontade de negar que Deus existisse como Deus...

Mas percebeu que esse pensamento é a vingança dos fracos quando tomam consciência de sua fraqueza. Concluiu que a sensação tão solene que tivera era falsa, estivera amando um mundo que não existe (“ no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. E porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.(...) Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza?”)
Finalmente, ficou esclarecido na mente dela que estava querendo amar a um Deus só porque ela não se aceitava. Ela estaria amando um Deus que seria seu contraste, esse Deus seria apenas um modo de ela se acusar. “Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe”.

domingo, 9 de outubro de 2011

CARTA AO PROFESSOR - ABRAHAM LINCOLN

CARTA DE ABRAHAM LINCOLN AO PROFESSOR DE SEU FILHO:
"Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, para cada vilão há um herói, que para cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder, mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.
Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.
Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou pedindo muito, mas veja o que pode fazer, caro professor."
Abraham Lincoln, 1830

ESPIRITUALIDADE - COMPLEMENTO


POR MÁRIO INGLESI


Dr. Ricardo

Não sei se é normal, mas manifesta-se interessante como, às vezes, determinadas coisas que fazemos, ao rememorá-las não nos satisfazem e, voltamos a elas para repará-las ou complementá-las quando possível.
É o que aconteceu com o meu texto sobre “espiritualidade”. Ele me trouxe certo desconforto. Não que esteja mal elaborado ou, que suas idéias não estejam condizentes com o assunto. Mas, a visão que o envolveu foi um tanto romântica, talvez irrealista,  por não considerar, certamente, uma realidade que afronta as possibilidades propostas para a existência efetiva da floração da  “espiritualidade”.
Isto porque a realidade médico-hospitalar, em seu conjunto, apresenta-se tão disparatada que nos faz crer difícil, e em muitos casos, impossível a adoção de maiores  providências em favor do paciente e seu bem estar. Isto porque a realidade imediata deles, é geralmente, muito mais diversa do que a imaginamos, assim como a dos médicos e dos atendentes, dos fisioterapeutas, e de todo gigantismo de pessoas que atuam num complexo hospitalar.
Por isso, talvez a medida imediata mais eficaz em prol dos pacientes, afora a retirada de suas dores, seja o estreitamento, o quanto possível dos laços entre  eles e todos os demais envolvidos no seu bem-estar, em prol de sua saúde tendo como complementação possível, a  sua “espiritualidade”.
É o que acho necessário esclarecer  em  meu  texto sobre o  assunto.
Grato por tudo
Mário Inglesi 28/09/2011

ESPIRITUALIDADE


POR MÁRIO INGLESI


Dr. Ricardo

O universo exposto em favor da Saúde e Consciência vem se oferecendo cada vez mais extenso e, - por que não enfatizar – mais e mais complicado em sua abrangência, uma vez que envolve formas de viver, hábitos, maneiras de encarar a vida, e seu sentido.
A pluralidade de questões que o envolve é tamanha que, a cada passo, nos deparamos com um labirinto de difícil saída para a decifração do que realmente se fazer em prol de uma vida saudável.
Toda essa complexidade, que o mundo atual ainda mais exacerbou, parece querer configurar uma nova direção: a da espiritualidade, em consonância – com o saber científico – coisa inimaginável e impensável ao longo dos tempos.
Essa espiritualidade talvez advenha da impossibilidade de compreender com clareza os fenômenos que nos cercam e nos envolvem com uma volúpia sem precedentes.
O nosso pasmo, a nossa perplexidade são de tal monta que muitas e muitas vezes nos vemos na situação desesperadora de Nietzsche, em “Oração ao Deus Desconhecido, ou então, o que nos leva a bradar, em alto e bom som, como Castro Alves:

“Deus! ó Deus onde estás que não respondes
Em que mundo, em qu’estrela tu t’ escondes
Embuçado nos céus?”

Mas com tudo isso, é preciso crer, entretanto, que sempre haverá – basta procurar – um momento de alento, para uma reflexão sobre nossa vida, como vivenciá-la no sentido do ser, de não apenas constituí-la no parecer circunstancial e efêmero.
Isto sim, é um momento fundamental para uma vida plural e saudável.
Para isso, é preciso objetivamente abrir espaços para todos os tipos de pessoas e seus pensares, para que haja reflexões que conduzam a práticas realmente condizentes com um viver saudável, sem preconceitos, exclusões, ou maniqueísmos, para que, por exemplo, espiritualidade e ateísmo não revelem tão somente oposição, mas apenas uma configuração de pontos de vista diferencial, mas não excludente, como aliás, muito bem configurou, com o humanismo de sempre, o dr. Drauzio Varella em sua exposição expressa no link que acompanha o texto em apreço.
Nesse contexto deve emergir a espiritualidade como arcabouço de conteúdos e perspectivas, não de simples soluções atinentes ao bem estar da pessoa humana, seja ela um mero doente ou um paciente terminal.
Para começar, abstraindo-se com a mais abstrata e de maior inteireza de comunicação das artes: a MÚSICA, seja ela sacra ou profana, dadas as sensações díspares e profundas de enlevo a patamares nunca dantes atingidos de alegria, de enternecimento e, mais ainda, de espiritualidade, sempre que ouvida, provoca um renascer saudável.
Se a música não satisfizer, leia ou escute, por alguém que o possa dizê-lo, um poema, um capítulo de um livro, uma crônica, e então, certamente os maus fluidos desaparecerão e o seu estado recuperará o ânimo de enfrentar os revezes que o acometem e, sem dúvida, florescerá em sua boca, ainda que por breves momentos o esboçar de um sorriso de contentamento, com a paz e a serenidade que o renascer da espiritualidade trará, indubitavelmente, o aprendizado, e o significado do “Bem.”, como nos poemas de Brecht:

Eis o Bem

Não fazer mal a si próprio
Nem a ninguém,
Encher de alegria a todos
E a si também
-eis o bem.

Elogio do Aprendizado

Aprende o que é mais simples!
Para aqueles cujo momento chegou,
nunca é tarde demais.
Aprende o ABC: não basta, mas
aprende-o! Não desanimes!
Tens que assumir o comando!

Aprende, homem no refúgio!
Aprende homem na prisão!
Mulher na cozinha aprende!
Aprende o sexagenário!
Tens de assumir o comando!
Procura a escola, tu que não tens casa!
Cobre-te de saber, tu que tens frio!
Tu, que tens fome, agarra o livro: é uma arma!
Tens de assumir o comando!

Não tenhas medo de fazer perguntas:
não te deixes levar por convencido,
vê com teus próprios olhos!
O que não sabes por experiência própria,
a bem dizer, não sabes
Tira a prova da conta: és tu quem vai pagar!
Aponta o dedo sobre cada item,
pergunta. Como foi parar ali?
Tens de assumir o comando!

 (Bertolt Brecht “Poemas e Canções”,tradução de Geir Campos, Ed. Civilização Brasileira, 1966 )

Caro Doutor, encerro por aqui, talvez estafado, mas com sorriso de satisfação nos lábios. Afinal “assumi o comando!”
Abraços afetuosos
Mário Inglesi 26/09/2011

sábado, 1 de outubro de 2011

A FORÇA DA VONTADE E AS DROGAS


ALEXANDRE ALDRED (Médico da Saúde e Consciência)

A principal ferramenta que você tem para conseguir parar de fumar é sua própria VONTADE!


Depoimento de um fumante morto

 


O que é a VONTADE?

É uma força que parte das entranhas do nosso organismo, coordenada pela consciência.

O que isso quer dizer?

Que é preciso QUERER para CONSEGUIR. Só consegue aquele que QUER com VONTADE. Só para de fumar quem QUER MUITO!

Aquele que não quer muito, aquele que quer, mas não quer pensar nisso hoje, nem amanhã e nem esse ano, esses estão com a Força de Vontade enfraquecida.

Eles não querem parar!

Esse é um efeito importante e pouco comentado sobre o cigarro (ou a nicotina). Ele diminui a força de vontade, faz com que você não queira parar de fumar.

E sabe por que você não quer parar de fumar?

Porque ao fumar você tem prazer, o cigarro te dá uma sensação boa, que é sentida de maneira diferente por cada pessoa. Tem gente que fuma quando bebe, tem gente que fuma para se concentrar mais, tem gente que fuma por solidão, tristeza, irritabilidade, e muitos outros motivos.

Aí vem uma pergunta crucial, para que parar de fumar se eu gosto e me dá prazer?

Pronto! Está explicado o mecanismo de recompensa do cérebro. Ao chupar a fumaça, a nicotina vai até seus pulmões e de lá até o cérebro e o corpo inteiro através do sangue e da circulação.

No cérebro, a nicotina aumenta a quantidade de dopamina. Essa dopamina é quem dá a sensação de prazer. A falta da dopamina é “lida” pelo cérebro como Vontade de Fumar.

Na cocaína, no crack e na heroína, a dopamina também é liberada!! Claro que existem outros neurotransmissores envolvidos, mas nessas drogas, a fissura, ou a vontade descontrolada (desejo) de sentir aquela sensação de novo tão logo for possível, é mais fácil de observar.

Conforme você vai fumando, seu organismo se acostuma com o efeito. Então você tem que fumar outro cigarro para manter o nível de dopamina no cérebro e isso te leva a fumar cada vez mais ao longo do tempo e a tolerar cada vez menos tempo sem fumar. Esse é o mecanismo do vício, da dependência química.

Se você está nesse caminho, fumando cada vez mais cigarros desde que começou a fumar, você foi pego.

Nesse ponto sua Força de Vontade está mais à disposição do cigarro que de você mesmo.

Se você sai de casa à noite, na chuva para comprar cigarro, mas não sai para comprar a pizza, então seu QUERER está a serviço do cigarro.

Veja o quanto você QUER FUMAR.

Perceba o esforço que faz para conseguir o cigarro quando ele acaba.

Essa é a SUA FORÇA de VONTADE, a força que você usa para conseguir o cigarro a qualquer custo é a mesma FORÇA que você tem para CONSEGUIR parar de fumar.

Exercício para aumentar a Força de Vontade!

Esse é um exercício prático para você aumentar sua força de vontade. Do mesmo jeito que fazer musculação deixa os músculos fortes, fazer exercícios mentais deixa seu cérebro mais ”forte”

Regras Básicas

1 – Você tem que cumprir toda tarefa que você planejar para si!

2 – Comece com uma tarefa que você tem certeza que vai conseguir.

3 – A tarefas não tem prazo de validade. Quanto mais tempo você conseguir realizar aquela tarefa ao longo dos meses, tornando-a um hábito, mais fica fortalecida sua vontade e você ainda ganha uma aptidão nova!

O mais importante nesse caso é conseguir efetuar a tarefa regularmente, sem falhar (criar o hábito). Em um primeiro instante, a tarefa em si não é o principal, mas a vontade empregada em executar a tarefa que você se propôs. É isso que ajuda a fortalecer sua vontade!

Dica prática: É importante lembrar que a atividade física é o caminho de ouro para ajudar no fortalecimento da vontade. É preciso movimentar o corpo! A tarefa, nesse caso, cada um escolhe a que preferir! Lembre-se de praticar pelo menos 30 minutos e quanto maior a regularidade melhor!
A vontade reside no sangue, no sistema digestório, e nos músculos. Então, além de mexer os músculos, também é importante falarmos sobre alimentação, mas isso é tema para um próximo artigo...


Locais que auxiliam a parar de fumar:

Serviço público: Hospital Universitário Cid. Universitária USP – Ambulatório Antitabagismo – 2ª feira 9h – Sala 14
      Serviço privado: Rua Marechal Hastimphilo de Moura 277, (Clinica OCA) - 3742-1615