segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SAÚDE x DOENÇA - GERAÇÃO Z & TDAH




Caro Mário, irmão de caminhada, em resposta a seu convite de comentar a interessante reflexão sobre o déficit de atenção e a geração Z em seu blog: http://tdahnoadulto.com/2011/09/05/geracao-z-tdah/ , penso o seguinte:

Suas análises sempre me surpreendem! Mas nesse caso não comentarei a genialidade e profundidade da sua pessoa, mas o tema em si. Percebo há algum tempo que existe uma “fábrica” de doenças que se esconde por trás de algumas siglas: TDAH, PMD, TAB, HAS, DM, síndrome do pânico e síndromes afins. Que tal se as enquadrássemos todas em um termo único, algo como Síndrome da falta de educação ou Síndrome da consciência pouco desenvolvida?


Muitas dessas “coisas” são produtos de uma sociedade “moderna” e doente nos seus hábitos, sejam eles alimentares, comportamentais ou mesmo dissociativos midiáticos, se me permite o neologismo. Os aparelhos eletrônicos são geradores de doenças, a quantidade de informações a que somos expostos são geradores de doenças, a começar pela ansiedade que promovem na forma ostensiva de publicidade, na inconseqüência das informações e assim vai... Acho que TDAH e suas siglas irmãs, não são transtornos propriamente, mas uma resposta natural do corpo ao que a sociedade contemporânea está oferecendo às pessoas! O corpo está nos ensinando que a direção para a qual estamos indo não é legal! Não devemos apenas anestesiar o corpo com medicamentos, mas escutar o que ele nos está falando!
Cada vez mais virtual, não importa mais gostar ou não do que faz, o homem está obsoleto, não consegue mais processar informações. A criança diante de brinquedos de plástico e do videogame toma decisões rápidas e na frustração de não superar a máquina, molda seu futuro. Como você sabe, algumas companhias já oferecem, após a morte, serviços de criopreservação para cérebro apenas ou corpo todo, de acordo com quanto o cliente esteja disposto a pagar. Já se fala em downloads de cérebro num novíssimo e atualizado corpo humano virtual que seja capaz de viver a partir dos desejos e sonhos do outro... Fundamental aqui parar para lembrar as palavras do sábio Inácio de Loyola:

"Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente”

Finalmente pergunto: tudo isso para quê? Para sustentar uma estrutura comercial que produz supostas substâncias que podem melhorar estes sintomas?!?! Aprendi cedo na medicina que muitas vezes, tratar sintomas é risco de enganar ao paciente e se enganar como médico. Claro que aqui é preciso o bom senso de analisar cada caso e eventualmente medicar quando necessário. O fato é que a real necessidade de medicar é mínima frente à grande necessidade de conscientizar, dar significado à existência, promover sentido na vida do dia a dia.


TDAH - Escolas matam a criatividade?

Finalmente, se faz fundamental resgatar a simplicidade no viver, indiscutível medicamento que vai além do corpo, chega até a alma da pessoa, onde ela pode se lembrar, em termos socráticos (vide: Mênon, na República de Platão), daquilo pelo que ela veio à vida!

“Saúde é Consciência” e oportunidade para a vida plena. Acredito cada vez menos em siglas de doenças e cada vez mais na lucidez no viver. Uma lucidez que ajude a pessoa a se preparar a cada dia com mais seriedade e serenidade para o grande dia, o dia em que deixará o corpo físico, o dia de sua morte. Falar e pensar na morte não é mórbido; aliás se a tivéssemos como conselheira, certamente pensaríamos melhor antes de fazer certos acordos, veja por exemplo o filme “Encontro Marcado” com Anthony Hopkins. Quanto mais leveza e quanto mais coerência no viver, menos seremos reféns das circunstâncias e truques da atualidade que oferecem soluções medicamentosas que não promovem consciência, mas pelo contrário, a obscurecem.

Veja você, Mário, que o medo hoje move o mundo. Observe as notícias, veja que toda a idéia de seguros e segurança se baseia no medo! As pessoas que acabam de ter filhos, como vários amigos meus, são visitadas por outras que vendem seguros para mascarar o medo de que algo possa comprometer o futuro da criança. Esquecemos do presente para viver no futuro! Isso só pode gerar ansiedade e distúrbios afins, é normal, só um doente apático não responderia com ansiedade ou depressão. A ansiedade e a depressão estão nos ensinando algo e nesse sentido não devem ser combatidas, mas compreendidas e sanadas em suas raízes sociais. Você já leu o livro de dois autores alemães: “A doença é o caminho”? Nele, os autores desenvolvem de forma criteriosa este pensamento que compartilho com você.

Acho que o pensamento Steineriano é uma saída honesta para o que se apresenta atualmente, veja você este texto escrito por ele em 1910:

"É preciso erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem. É preciso adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro. É preciso que olhemos para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir. Precisamos pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria. Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver em pura confiança. Sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do mundo espiritual. Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar. Disciplinemos nossa vontade e busquemos o despertar interior todas as manhãs e todas as noites."
(Rudolf Steiner - Bremen 27.11.1910)

Não será preciso aumentar impostos para a fábrica de doenças se os governantes se derem conta de que são necessários apenas pequenos ajustes nos meios de comunicação, em suas próprias condutas e na conscientização pelo exemplo de nossa imensa população de analfabetos funcionais (que se formam sem terem aprendido nada), na direção da saúde. Doença e Saúde são conceitos distintos e dissociados entre si, e dizem respeito à forma como se escolhe viver. Note que hoje existem inúmeros planos de doenças, que salvo raras exceções, estão falindo em conjunto com a saúde pública, mas nenhum, até onde eu sei que seja plano de saúde conforme o nome propõe! Ou você já viu algum plano orientando pessoas saudáveis quanto a conselhos para um bom viver? Eu nunca vi! Aliás, fica aqui a dica para os empreendedores, dos quais não cobrarei nada pelo sucesso que os aguarda, podem usar a idéia... Nesse sentido cabe a nós profissionais, produtos da ciência, doutorados e pós graduados, apontar para quem não viu o que sustenta esse universo, um pouco de sua realidade...
      Para quem quiser mais, veja também na revista TRIP e no New York Times até onde vai o absurdo:



Bem, é isso o que penso. E você, Dr. Mário e leitor, o que acham disso tudo?


11 comentários:

  1. É isto aí Guru! Este é o mundo que vivemos, teremos que diminuir a intensidade ou se tivermos a capacidade de selecionar, priorizar as informaçoes e seus meios, chegaremos a um equilibrio?
    Desafios do mundo moderno...
    obrigado pelos seus pensamentos sempre iluminados!
    Mario Peres

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  2. Olá,
    Segundo o dicionário misericórdia significa: Piedade, compaixão, sentimento despertado pela infelicidade de outrem.
    Perdão concedido unicamente por bondade; graça.
    Punhal que outrora os cavaleiros traziam à cintura no lado oposto àquele em que estava a espada, e que lhes servia para matar o adversário, depois de derrubado, se ele não pedia misericórdia.
    Misericórdia divina, atribuição de Deus que o leva a perdoar os pecados e faltas cometidos.
    Bandeira de misericórdia, pessoa bondosa, sempre pronta a ajudar o próximo e a desculpar-lhe os defeitos e faltas.
    Com carinho...
    Mayra Lopes

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  3. Ouvi na decada de 70,um Psiquiatra dizer"todos somos neuróticos"Hoje ele poderia dizer"todos temos tdah.Achei certíssimas As conclusōes do Dr. Mario, quanto à geraçāo Z(vítima do desenvolvimento desenfreado da tecnologia e do consumismo ,em prejuizo do desenvolvimento espiritual.Um corre a mil ,enquanto o outro anda Como tartaruga.Tudo decorre do excesso de materialismo esquecendo-se do crescimento Interno.Já em 1910 R.Steiner priorizava o espiritual, e o despertar interior; ou há Mais Tempo ainda Confûcio dizia" aprenda mais sobre a VIDA em primeiro lugar e aí você entenderá Mais sobre a Mörtel,ou ainda quando Jesus nos alertava"Busque primeiro a riqueza da alma e todo o resto lhe será acrescentado.É isso que você tāo bem explica, Dr.Ricardo" CUIDAR DO BEM VIVER".Obrigado para os dois doutores.José

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  4. Quanta lucidez, dr. Ricardo! Que maravilha! Um médico falando sobre como seria mais simples curar essas rentosas doenças geradas pelo. sistema que nos governa. Você deve saber que as crianças estão sendo tratadas como idiotas por pais,educadores (donos e coordenadores de escolas) que as estão submetendo a tratamentos psiquiátricos desnecessários, por pura incompreensão e alienação diante da vida. Hoje não se concebe a vida sem medicamentos. É um absurdo! E os pais ignorantes acreditam nessas muletas, impondo-as aos seus pobres filhos, pois já estão tão acostumados com as suas que encaram isso até como status no mundo do ter em que estão mergulhados. Pobres crianças, pobres mestres e pobres seres (des) humanos limitados por essa visão mercantilista do mundo. Ainda bem que temos cabecinhas como a sua, que vão plantando as sementinhas que um dia poderão germinar e ajudar a transformar tudo isso. Que seja logo! pois isto aqui tá difícil de engolir. Parabéns dr. Ricardo. Consciência é saúde, é sabedoria, é bem viver.
    Grande Abraço a voçê e aos seus instigadores.

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  5. Juliana Dias Inglesi9 de setembro de 2011 19:36

    Bom ler coisas como essa e ver que eu, como professora, não estou tão errada quando penso que muitos dos meus alunos se escondem atrás de seus "problemas" para que isso possa, até, ser um facilitador na vida, pois com essas siglas milagrosas, fica fácil se justificar uma nota baixa na prova ou falta de tempo para fazer as lições.
    Não que não haja problemas de verdade, que não se precise vez ou outra de medicações, mas o problema atual é que a criança parece nascer com o kit (plano de saúde, psicólogo, psicopedagogo, psicquiatra, etc), não existem mais "normais" e qualquer tipo de malcriação é facilmente justificada com esses TDAHs, depressões infantis, dislexia, etc, etc, etc.
    É uma pena tudo estar tão revirado e não termos mentes conscientes como a sua para orientar familiares de gerações tão perdidas.
    Excelente texto.

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  6. Primo querido...que importante reflexão!!!
    Neste cenário atual, tão bem descrito no seu texto, agir torna-se verbo fundamental. Sei que não podemos mudar o começo, mas certamente, através do conhecimento, podemos mudar o final!!!

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  7. Pais conscientes criam filhos conscientes.
    Primeiro vamos mudar a nós mesmos,(o que já é dificil!), e quem sabe num dia futuro nossos filhos possam mudar a sociedade que tanto criticamos.
    Cris

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  8. Por vezes considero que a grande dificuldade é já encontrarmos um mkundo pronto, com tecnologia a ser aprendida, com muita informação.
    Mas deve ficar claro que existem crianças que sofrem da patologia.
    Deve ficar claro também que existem aquelas que só precisam de limites.
    Creio que o principal problema na atualidade é que os pais não conseguem conferir segurança para as crianças.
    Eu atendo muitas criancinhas e percebo que quando a verdade é explicada a elas de forma que entendam e quando ela sentem a segurança de que a intenção é fazer o melhor por elas, elas cooperam e aderem.
    Não culpo os pais, pq são almas tão fragilizadas quanto os pequeninos, os filhos são um grande reflexo.
    Exite forma de mudar?
    Sinceramente acredito que sim, mas não sei como.
    Isso tudo só me faz pensar em Dostoievski em um trecho em que o mesmo diz que mesmo o pior dos homens nos despertaria piedade se o olhassemos de perto.
    São superações inerentes à existencia, continuo achando que precisamos de misericórdia mediante a essa questão.
    Mayra.

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  9. Ola, Vamos entender o tdah como uma doença que causa sofrimento para crianças, adolescentes e pais, sem diagnóstico, sem tratamento (remédios e orientações não medicamentosas) as crianças podem ter mais acidentes, uso de drogas, não atingir os degraus acadêmicos, quando adultos mais chances de separação do cônjuge, perder oportunidades de emprego, e tudo isto porque seus pais, educadores e psicologos nao permitiram o acesso a um tratamento eficaz, dentre eles um remédio, um dos mais eficazes em toda a medicina e psiquiatria.
    Não podemos achar que o tdah foi inventado pela indústria farmacêutica se toda a sociedade a reconhece como de alto impacto.
    O remédio não esquiva os pais (que pela genética comumente também tem tdah) do seu papel na educação.
    O desafio com o aumento da informação é saber priorizar.
    Leia sobre os mitos do tdah no http://tdahnoadulto.com
    Mario Peres

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  10. Caro Mário, sua colocação aqui é fundamental para criarmos uma visão ideal da dimensão do que se conhece por TDAH. Muito grato pela contribuição! Reforço as palavras que utilizei no texto: "Claro que aqui é preciso o bom senso de analisar cada caso e eventualmente medicar quando necessário. O fato é que a real necessidade de medicar é mínima frente à grande necessidade de conscientizar, dar significado à existência, promover sentido na vida do dia a dia.". Torçamos para que o discernimento se desenvolva em todos os assuntos que dizem respeito à interface saúde x doença.

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  11. Ola Ricardo,
    Sem dúvida o trabalho de conscientizar é prioritário, mas dos que tem TDAH de fato, ainda poucos recebem adequado tratamento medicamentoso e não medicamentoso.

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