sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A PARTE E O TODO


 

          O termo holos em grego expressa a ideia de inteireza e integridade. Para o conhecimento médio o todo se compõe das partes que o constituem, o todo é a soma dessas partes. Essa forma de conhecer associa parte e todo com o quebra-cabeça, assim como com a natureza inorgânica.

O inusitado surge, no entanto, quando se adentra o universo do orgânico onde um princípio organizador atua não apenas sustentando a forma, como também a transformando. Esse princípio pode ser compreendido como um epifenômeno ou como um nível superior de organização que atua sobre o nível inferior. Em qualquer desses casos, observáveis nos reinos vegetal, animal e humano, o que denominamos todo é sempre maior que a soma de suas partes.

Em outras palavras, enquanto no mundo inorgânico um mais um resulta dois, no mundo orgânico o resultado é sempre maior que dois. Saímos da matemática do inorgânico e adentramos a “matemágica” do orgânico. Esse conceito do todo poder ser maior que suas partes é a melhor aproximação desse termo holos.

Os termos shalom e salam, derivados de línguas semíticas, chegam à nossa gramática como paz. No entanto, naquelas línguas eles compreendem um sentido de integridade que pode ser inclusive transposto para objetos inanimados. Ou seja, posso dizer que uma vassoura está em paz! Pois está inteira e, portanto, íntegra.

Podemos então resgatar a compreensão de saúde enquanto estado pleno do ser. Se estou em paz e se estou inteiro, estou íntegro e integrado. As práticas integrativas almejam e propõem algo justamente nesse sentido.

Pessoas não integradas, ou seja, que romperam consigo mesmas, perderam a relação com sua essência, que em grande parte das tradições está relacionada ao coração. Daí o termo corrupto (cor – coração / rupto – roto); quando rompo com minha porção mais essencial é como se rompesse com o coração. Nessa corrupção, nessa rotura cardíaca está o princípio do adoecimento. Adoecimento que não ocorre como uma patologia que se instala instantaneamente, senão como estado de mal-estar ou de perda da paz interior. As práticas integrativas visam restabelecer a paz interior, a integridade perdida, antes que a doença se manifeste no corpo físico.


terça-feira, 21 de janeiro de 2020

LEIS DA NATUREZA


Alex Grey
O humano e também as leis da natureza que o cercam parecem evoluir, conforme Sheldrake aprofunda no livro "Presença do Passado". A Terra pode ser pensada como um “ser” em evolução bem como campo evolutivo para outros seres; o mesmo vale para o Sol, planetas e suas luas assim como o próprio sistema solar. No caso do sistema solar, os próprios planetas podem ser simbolicamente vistos como seus órgãos constituintes à semelhança do fígado, pulmões rins etc. no corpo humano.
Prosseguindo nesta linha, um zodíaco assim como qualquer campo arquetípico representativo de hierarquias superiores ao humano, também são “seres” em seus processos intrínsecos e peculiares. Tudo isso impulsiona o pensar na direção de um sentido maior inquietante, frente ao qual Kant fala assim:
“Duas coisas enchem de maravilha meu ser, a lei moral no interior do homem e o céu estrelado acima de minha cabeça”. (Kant - Crítica da razão pura)


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A PERGUNTA É A MÃE DA RESPOSTA

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        Perguntas e respostas são irmãs em diferentes estágios de maturidade. A pergunta é a resposta que ainda não nasceu. Como não nasceu, pode ser todas as respostas imagináveis e inimagináveis. Ainda que a pergunta seja mais antiga que a resposta, e, portanto, com mais saber em si, a pessoa média quer respostas.
        A pessoa média não aprecia pensar sobre a morte, mas não percebe que respostas se assemelham a perguntas mortas. Pobres aqueles que têm suas perguntas todas respondidas. As perguntas tecem o chão que sustentam os corajosos. Sim, pois a ação do coração é a melhor resposta e que sempre pode acontecer de outros modos, ainda que a pergunta se repita.
        Cada pulso do coração é a resposta necessária para que a vida prossiga. Se o coração não responde, a pergunta cala. No calabouço, é a pergunta que tem o poder de renovar, reanimar, ressuscitar. Perguntas vibram com a vida. Uma resposta representa a morte de todas as possibilidades.
        Quando penso quem sou, devo lembrar de incluir se sou mais pergunta ou resposta, mais nascimento ou morte em meus encontros e ainda se sou mais possibilidades ou certeza. E uma vez sabendo, me corrigir em cada respiração, essa pequena fatia de porvir que nos define.
        A pergunta está grávida! Conhece esse estado? Sabe o que nascerá?
      Então? Como alcançar esse estado de portar em si todas as perguntas? Como suportar a tensão dilacerante das respostas indigestas? Como viver a tentação da escolha de possibilidade que exclui as demais? Como na esperança do parto normal aceitar a necessidade da eventual cesariana?
Enfim, como libertar a mente dos vícios e compreender que todo preconceito reside na resposta certa e na certeza, que é ainda mais mortal e cada vez menos vital, quando absoluta. Como será portar todas as perguntas? Não lhe parece mais do que portar todas as respostas?
Existem coisas que sabemos e também coisas que sabemos que não sabemos. Mas existe uma terceira natureza de coisas, as mais interessantes. Falo das coisas que não sabemos que não sabemos. Ouso dizer que as perguntas estão mais próximas dessa última classe de coisas, do que as respostas. Perguntas são movimentos e respostas são paradas; sim é preciso parar eventualmente, mas sem perder de vista o fluxo e o fluir.
A pergunta é uma das, senão a maior conquista na vida da pessoa. Quando a pessoa atinge sua maturidade plena surge a pergunta. A pergunta é a melhor síntese que alguém pode alcançar em relação a um assunto. Todas as respostas moram nela. Quem seria esse ser capaz de suportar em si o movimento de todas as respostas. Quem poderia suportar em seu íntimo a liberdade de arbítrio de cada resposta e ainda assim sustentar a vida da pergunta?
A pergunta é curva e nela não é possível a visão definir o que está por vir. A resposta é reta, não se esconde, pode ser vista. Mas, e sempre há um mas, quando eu vejo, meu interior se dobra, se curva, tende a...
Na insuficiência da prosa, com a devida licença:
Ainda que curvas, uma dentro e outra fora, diferentes aspectos afloram. A curva dentro deforma o ser enquanto a outra reforma. Reformar é o efeito vivificante da morte. Deformar é seu lado que nos faz temer; que nos impossibilita permanecer quando o aspecto físico já não mais pode se sustentar.
Quando aprendo a caminhar nas curvas da vida e com o “pão de cada dia”, de surpresa, de coincidência, da mudança me alimento, cada vez menos terei que comer do “pão que o diabo amassou”.
O sobrenome da certeza é absoluta e seus irmãos gêmeos a prepotência e a soberba.
Não saber não é um estado vazio, senão de posse de todas as perguntas associado a outro estado, o de permeabilidade plena a todas as possibilidades. Essa permeabilidade é o princípio da sabedoria, assim como a certeza é o princípio da vida infernal. Claro que me refiro aqui ao inferno grego - entrada, tribunal e as três regiões comandadas por Hades.

SUGESTÃO DE EVENTO MENSAL - CONSCIÊNCIA - ATMA

terça-feira, 9 de abril de 2019

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POR: GERALDO DRUMOND


Viajo na emoção.... Sou só emoção. Onde ela me leva eu vou e fico, até que outra venha e me leve. E assim vou vivendo torcendo para que o próximo lugar que eu vá seja ameno, leve, amoroso! Parece que dependo do mundo estar bem e das emoções serem amorosas para que eu me sinta bem. Penso que é por isto que desejo tanto amor, partilhar, pois assim vou me beneficiar dos ventos benfazejos das paixões dos afetos, dos quereres bem... O mal me desnorteia o medo me apavora a separação me aniquila. Será que sou só emoção? Cresci assim vou morrer assim, vou sempre estar ao sabor das emoções? Cadê minha razão para contrapor a tanto amor, a tanto querer?