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sexta-feira, 19 de julho de 2013

“E TALVEZ MAIS ALTO” APLICADO À PRÁTICA MÉDICA



Texto autoral de Ana Cristina Guimarães

A medicina atual é dominada pela técnica científica, pensamento racional e mercantilismo. Caduceu e Bastão de Asclépio, acima representados, dois símbolos, duas realidades diversas que ilustram a tensão entre comércio e medicina; mas qual é qual? quem é quem?
No argumento técnico científico os seres humanos são considerados aglomerados de células comandados pela genética e pelo cérebro. Todos são considerados iguais, o que possibilita o desenvolvimento de “protocolos” para o tratamento de doenças, onde a individualidade do paciente ou do médico é desconsiderada. Eles são “peças de uma máquina”, comandados por “operadores da saúde”, onde o principal objetivo não é mais a cura, mas sim o lucro financeiro.

Nos “seguros- saúde” o paciente é um “cliente” e o médico uma mão de obra “qualificada e barata” como afirmou publicamente um presidente de uma destas empresas.  A lógica do “bem comum” proposta pela saúde massificada foi transformada em planilha de custo, e o homem e sua saúde, avaliados tais como um fazendeiro avalia o seu rebanho para venda.
 No microcosmo de uma consulta médica, a relação médico paciente foi progressivamente se deteriorando, a ponto de pacientes escolherem o seu médico através de uma relação do convênio, e entrarem na consulta sem sequer saberem o nome do profissional que irá atendê-lo.

-Se sou insignificante, também quem cuida de mim deve ser insignificante!- é o pensamento arquetípico por detrás desta conduta.

Segundo o filósofo Bauman, Z.(4), as relações humanas se tornaram líquidas, frouxas, permeadas de uma falta de compromisso de ambas as partes. Assim também aconteceu na prática médica. O paciente não conhece mais o profissional que o atende, e nem este também tem interesse em conhecer o paciente a sua frente. Pede-se apenas uma resolução objetiva, prática e rápida da doença apresentada. Se isto não ocorre, segue-se ao próximo profissional da lista. 

A modernidade produziu segurança e abundância, isto é inquestionável. Na medida em que a população vai aumentando em número, mecanismos de controle vão se intensificando em nome da “paz, felicidade e segurança”. Um destes mecanismos de controle é a afirmação de que o homem nada mais é do que um animal racional e biológico, igual a todos os outros. Isto bloqueia a procura por um pensamento original, criativo. E pessoas que não pensam por si podem ser facilmente controladas.
 Soma-se a isso o narcisismo doentio, característico de nossa sociedade - “Se sou apenas um animal e tenho só esta vida, então é melhor aproveitá-la o máximo possível”. A finalidade da vida deixa de ser construir significados e relacionamentos ou adquirir sabedoria para apenas se tornar uma busca interminável de prazeres momentâneos, como ressaltado por Lash, C.(2,6) – O consumo torna-se desenfreado. No âmbito da saúde vemos isto transformado na busca do médico da moda, o melhor tratamento e o hospital mais caro para os que podem arcar financeiramente com estes custos. Para os que não podem, resta apenas o “muro das lamentações” no serviço público.

Como o Homem se permite ser tratado assim? Como um ser que era a imagem e semelhança de Deus, considerado único, um ser com alma e espírito imortal, permitiu-se involuir para uma engrenagem de uma máquina, mais insignificante que uma barata ou um animal de rebanho... - esta é a grande questão!

E o médico, cujo símbolo era o bastão de Asclépio, conhecedor dos mistérios da vida e da morte da Grécia e Egito foi transformado em mão de obra barata e qualificada, portando um crachá de Prescritor em Congressos Médicos?!
 Os profissionais da saúde precisam aprender novamente a “pensar mais alto”. A ciência e a técnica são extremamente bem vindas desde que o Homem as controle, e não seja dominado por elas. O nível da consciência do Homem deve se elevar acima delas para poder manipulá-las, associando-as a outros conhecimentos e a uma visão ampliada que o Homem antigo possuía. Neste âmbito de conhecimento é tão importante o estudo da filosofia, história, psicologia entre outros, tanto quanto a biologia e a química.

O entendimento ou a busca do que é verdadeiramente o Homem deveria ser fundamental na esfera da saúde e da pesquisa.

Raciocinando em longo prazo, nas escalas cosmológicas, estamos cotidianamente sendo alertados por cientistas da importância da mudança de nosso estilo de vida, padrões de consumo e prioridades, para que o Homem sobreviva na Terra. Precisamos decidir o que somos e se vale a pena se preocupar com nossa espécie. A vida e a consciência são raras e preciosas no Universo, ou apenas um evento insignificante, no qual o desaparecimento produziria apenas mais um relampejar de luz? O paciente a minha frente é único, também raro e precioso ou apenas mais um animal no rebanho...