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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

SUICÍDIO ESPIRITUAL


O suicídio físico é uma opção desesperada e pode ser consciente ou inconsciente. No primeiro caso um ato abrupto de desespero, no segundo decorrência de atitude ignorante que se perpetua no tempo (hábito alimentar precário, uso de drogas lícitas e ilícitas, sedentarismo, pouca leitura, hábito musical pobre). Estatísticas atuais apontam que a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo. No Brasil os dados mais recentes apontam uma média de 32 suicídios por dia.
Mas, o suicídio mais surpreendente é o espiritual. Quando o materialista se descuida de seus veículos (corpos) suprafísicos, demonstra coragem surpreendente. Veículos que a tradição designa como corpo vital, corpo de desejos e mente. Sim, não é preciso ver para saber. A pessoa sensível pressente que a vida é o “mistério” que anima a matéria, mas que não pode ser encontrada quando se disseca a matéria em sua intimidade. Quem deseja deveria refletir de onde vem as tendências desejosas e quem pensa deveria fazer investigação semelhante em relação ao pensamento. Desejo e pensamento, qualidades materiais de outra natureza que não a física.
A visão, o sentido predileto da atualidade, nos impede ver além das aparências. Mas veja você mesmo então. Nascer arredondado, ver o corpo esticar e crescer, a seguir ficar enrugado, pontudo e desvitalizado é percebido na superfície, mas que tipo de forças determinam esse efeito sobre a matéria animada?
O suicídio espiritual não é tão falado quanto o suicídio físico. Finge-se não ver, mas quem teria olhos para isso não é mesmo?
A pessoa que vive em espírito torna a vida material leve, torna-se permeável à graça. A pessoa que vive para a matéria é cega à luz do espírito e sua vida se torna opaca, escura, densa, azeda, cheia de reclamações e emperrada. É aquela pessoa que não entende o porquê de certas situações (padrões) se repetirem em sua vida. A graça, assim como a graxa, serve para lubrificar. A primeira lubrifica as engrenagens da vida, a outra as engrenagens da matéria. Em outras palavras, uma vida sem graça é uma vida sem graxa, assim como uma vida sem graça é também sinônimo de desgraçada.
Para que a graça permeie o corpo humano, o mesmo precisa estar poroso em todas as suas instâncias. Assim como a obstrução dos poros da pele leva à morte rapidamente, a obstrução dos poros dos corpos suprafísicos (corpo vital, corpo de desejos e mente) leva à morte lenta. Essa morte lenta se apresenta aos olhos do observador como as pessoas que apenas existem, à semelhança das pedras. Viver é atributo do reino humano; fundamental para isso é a consciência dimensional adequada do que seja SER HUMANO. A vida material, horizontal, cotidiana da família, do trabalho, da política, da filosofia niilista, da diversão é apenas palco, sombra e efemeridade. Sem a graça, a vida material culmina em cadeia, hospital, falta e inconformidade. Mas cadeia, hospital, falta e inconformidade, lembremos, são escolhas pessoais. Toda escolha, entretanto, é permitida a Fausto, em Goethe, ao se perder para se encontrar.


Se afastar da graça (ser desgraçado) por opção ou por ignorância é suicídio espiritual. O espiritual diz respeito a tudo o que está além dos cinco sentidos. O interesse também é um sentido que podemos vivenciar e experimentar. Mais interesse e menos indiferença é alternativa válida na profilaxia do suicídio espiritual.



sábado, 15 de julho de 2017

O PODER DOS MANTRAS COTIDIANOS


“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus.” (João 1:1).
Tudo começa com a palavra – pensada, falada ou escrita. Por meio dela, o ser humano constrói realidades internas e externas, define roteiros que podem levá-lo a prazeres carnais, objetivos materiais, reinos celestiais ou aspectos sombrios do inconsciente. Da abundância à ruína, da felicidade à depressão, da saúde à enfermidade.
Um olhar atento constata que em toda escolha de vida os “mantras”, mensagens de caráter repetitivo, recebidas e emitidas, interferem muito em nossas decisões. De origem sânscrita, a palavra mantra possui dois significados: 1) palavra ou som repetido para ajudar a concentração na meditação, 2) declaração ou slogan repetido com frequência (Dicionário Oxford, 2016).
O uso da palavra “mantra” com o significado de declaração ou palavra de ordem é frequente entre jornalistas, professores de economia e até mesmo autoridades. Haja vista declaração recente de um ex-ministro brasileiro de que a “austeridade” seria o “mantra” permanente do novo governo (FERREIRA, 2016).
Na presente obra, resultado de monografia apresentada no curso de especialização em Cuidados Integrativos da Unifesp, o termo foi considerado em sentido amplo (lato sensu), desde o aspecto sagrado – sons, ladainhas e orações, como o OM, o AUM e o Pai-Nosso – ao profano dos decretos, slogans e afirmações presentes na estrutura familiar, cultural, cotidiana e, principalmente nos meios de comunicação, os maiores difusores de mensagens liminares e subliminares.
Vale saber que 95% dos brasileiros passam mais de quatro horas por dia em frente à televisão, absorvendo informações muitas vezes de caráter questionável. O rádio figura em segundo lugar nas preferências, seguido das plataformas digitais, dos jornais (a fonte mais confiável, segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia, SECOM, 2015) e das revistas. Já as novas mídias, as redes sociais, são as favoritas de 92% dos internautas.
Dos sons, imagens e textos veiculados neste universo, entre 50% a 90% possui teor negativo, estando ligado a temas como violência, corrupção, desarmonia familiar, traição e sexo doentio. A exposição intensa a estas temáticas, aliada à falta de sentido existencial, provoca reações em nosso cérebro, incentiva e “legaliza” comportamentos, dessensibiliza para a realidade e torna o pensar e agir compulsivos. Como atraímos tudo por ressonância interna, acabamos sempre atraindo mais do mesmo.
Afinal, podemos fechar os olhos e escolher não olhar para algo, mas nossos ouvidos permanecem abertos e sensíveis durante toda a vida, mesmo durante o sono. Quem de nós não conhece pessoas que têm televisão no dormitório e adormecem com o aparelho ligado? Ou que perdem horas preciosas do dia com programas, leituras e conversas que não lhes acrescentam nada...
Estas atitudes ativam um “poder” criativo gigantesco, se considerarmos que a mente humana gera, em média, 60 mil pensamentos por dia, 60% a 70% deles negativos. O que fazemos com esses pensamentos, essas palavras e imagens que surgem em nossas mentes, define em parte o roteiro de nossa vida. Se os interiorizamos, ruminamos ou simplesmente deixamos ir...
Daí a importância de conhecer mais de perto as mensagens que recebemos do entorno desde o nosso nascimento e também o Universo de Comunicação, com sua capacidade imensa de transformação que pode ser usada de forma terapêutica a qualquer momento. A partir da identificação de nossos mantras dominantes, podemos refletir com mais clareza sobre seus efeitos na nossa conduta e saúde. Podemos começar a mudar...
O manejo consciente e terapêutico das mensagens, imagens e sons que dominam nosso cotidiano representa alternativa interessante para alterar as memórias celulares de dor e a dinâmica de pensamentos e crenças, no sentido de promover a maturidade e o equilíbrio necessário para uma vida plena e saudável, assim como para exercer qualquer atividade ligada à cura.
Com essas ponderações, esperamos fortalecer em outros humanos o exercício do livre pensar e o ressurgir do Ser tão essencial.

Regina e Ricardo

sábado, 20 de maio de 2017

EU e TU - HOJE


Hoje na Avenida Rebouças o menino descalço colocava balas no retrovisor dos carros para vender enquanto o farol permanecia vermelho. O farol abriu... O menino descalço havia colocado balas em tantos carros, que mesmo correndo, não acabava de retirar as que não foram compradas. Um senhor de maior idade, um dos prejudicados pela demora, passou fazendo movimentos com as mãos e expressando sua indignação em palavras graves e com a face moldada pelo seu zango.
Ficou então o pensamento: esse senhor, de algum modo, será um menino sem sapatos para compreender melhor o tempo daquele outro menino que desconhece totalmente as neuras do trânsito e o que vai dentro dos motoristas apressados e estressados de Sampa... Ficou também esse outro pensamento: esse menino, de algum modo, será um senhor motorista para compreender melhor o tempo daquele outro senhor que desconhece totalmente a necessidade e o esforço de quem vende balas, especialmente os descalços no asfalto...
Falta compreensão mútua? Falta Martin Buber? Falta “Eu e Tu” nas escolas?

 
Aqueles de nós que dirigem veículos, aqueles que dirigem escolas, os que dirigem empresas, os que dirigem municípios, os que estados e mesmo os que dirigem países, sejamos um pouco mais reverentes aos descalços, seus tempos e necessidades. Aqueles de nós em situações descalças, cuidemos em pensar se nossos pés já não foram cegos ao "chão" que pisáramos.
Tem o reino mineral, tem o reino vegetal, depois tem o reino animal e finalmente o humano. Para se tornar humano a relação com a animalidade deve ser repensada. É preciso que se perca o medo de se tornar humano. É preciso coragem para se tornar humano.  

Senhores políticos, organizadores do caos, das coisas escusas e das cosas nostras, piedade!!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

SOBRE POLÍTICA – FERNANDO PESSOA

        A ordem de Cristo não tem graus, templo, rito,
Subsolo.
A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do mundo.
Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Não se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: «Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também». E é na palavra «pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.
Fiel à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros — chamemos-lhes sempre assim — não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.
Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem.

s.d.

Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 47.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

SOBRE POLÍTICA - PIERRE TEILHARD DE CHARDIN

No texto abaixo, Chardin sugere o Cristianismo como alternativa aos regimes políticos atuais. Um exercício para a imaginação...


"Em caso algum o Cosmo poderia ser concebido, realizado, sem um Centro supremo de consistência espiritual. Não apenas por força das fórmulas especiais da União criadora, mas em qualquer Metafísica que se preze, imaginar a criação Isolada de um átomo ou de um grupo de mônadas seria absurdo: o que é desejado e obtido, na Criação, é primeiro o Todo, e em seguida o resto nele, depois dele. Em qualquer hipótese, o Mundo, para ser pensável, exige ser centrado. Por conseguinte, a presença à sua frente, de um ômega nada tem a ver com o fato de sua “elevação sobrenatural”. O que faz exatamente a característica “graciosa” do Mundo, é que o lugar de Centro universal não foi dado a um nenhum supremo intermediário entre Deus e o Universo; mas foi ocupado pela própria Divindade, - que nos introduziu, assim, in et cum Mundo, no seio trinitário de sua imanência.
Em suma – o Mundo é uma vasta Cosmogênese? Cristo é o motor. Essa Cosmogênese é processo que se orienta? Cristo é seu alvo, Cristo a atrai. Alfa e ômega, Cristo é um ser em que o Pessoal se expande até se fazer Universal. O Cristianismo impregna, então todo um programa que, ao mesmo tempo, ultrapassa as correntes confusas da Democracia decadente, do Comunismo e do Fascismo nascentes e se superpõe aos ateísmos militantes, aos espiritualismos desencarnados, às religiões anêmicas. Não é mais necessário, portanto, procurar a “ponte” entre as naturezas ou as Coisas num Universo em que a unidade é o estado de equilíbrio para o qual tendem os seres, espiritualizando-se."

Pierre Teilhard de Chardin

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

AINDA SOBRE O ÓCIO EM 2016

Por: Mário Inglesi
Sobre o texto: Por um pouco mais de ócio e menos de negócio



Dr. Ricardo,
Desde há muito tempo, o vocábulo ócio está ligado ao estigma pejorativo de vagabundagem, menosprezo por quaisquer compromissos de trabalho, sejam eles quais forem.
Para isso, não importava o motivo de sua existência, apenas se enxergava o fator da ausência da vontade implícita do trabalho no indivíduo, quer para sustento de si ou de seus familiares.

Nesse contexto Paulo Prado, 1869-1943 evoca:

"São desgraças do Brasil
Um patriotismo fofo
Leis com parolas, preguiça
Ferrugem, formiga e mofo."

A essa situação, em tempos idos, veio juntar-se a descoberta de motivações várias, como doenças provenientes da existência de vermes no indivíduo, a tendência à fadiga motivada pela ingestão de excesso de bebidas alcoólicas, incidência de doenças várias que, em conjunto ou separadamente, impedem o indivíduo e sua vontade, a qualquer ato em seu beneficio ou de outrem ao seu redor.
Foi o que demandou talvez Monteiro Lobato, em sua obra Urupês ao criar o Jeca Tatu, trabalhador rural paulista abandonado pelos poderes públicos às doenças, atraso e à indigência.
Personagem este configurado, porém, como portador de todos os males sociais, em especial a preguiça e com ela a característica principal então definida, em última instância, como vagabundagem.
Com o passar do tempo e as mudanças sociais ficou constatado, que, na maioria dos casos, eram as doenças parasitárias endêmicas que levavam os indivíduos ao ócio, à vagabundagem, à preguiça, à leseira, ou mesmo, influíam para a existência de tal modorra para qualquer atividade.
Mas, hoje, felizmente, tudo mudou ou vem mudando, e o ócio deixou de ser pejorativo, para tornar-se sinônimo de saúde, bem estar, de configurar-se o procurar por si mesmo, em sua intimidade mais profunda, em promover e valer-se do tão almejado lazer, de dar vazão à criatividade, configurado na frase cunhada por Domenico De Masi, “Ócio Criativo”.
E, então, como Macunaíma, de Mário de Andrade, libertos de todas as pechas, juntamo-nos ao coro dos contentes e, em alto e bom som, voltamos a bradar:
“Ai, Que Preguiça!”
Pronto: Estamos, enfim, leves, livres e soltos. Livres para, em preces, cultuar a preguiça, como ócio, meditação intelectual, maneiras de encarar a vida, de filosofar, tendo como máquina fundante geradora de um aprazível viver, em sentidos os mais diversos, como, falar, escrever, se comportar e amar, a exemplo, prazerosamente, do fazer de Manoel Bandeira:

“Então me levantei.
 Bebi o café que eu mesmo preparei
Depois me deitei novamente,
acendi um cigarro e fiquei pensando…
- Humildemente nas mulheres que amei”

A tardança dessa nova situação, entretanto, não só se faz sentir de maneira abrupta como ainda se mostra infinitamente difícil de usufruir, nos tempos atuais, do ócio e seu lazer, nos moldes pretendidos e exigíveis ao atendimento de nosso bem estar e saúde.
 Isto porque já não somos primitivos, como nos viam os colonizadores, e também pelo fato de que com a engrenagem e suas amarras, é manifestamente muito difícil de voltarmos ao primitivismo existencial, e assim desfazer as amarras, nós e laços que ora nos prendem ou envolvem. Primeiro, pela existência de fatores preponderantes à nossa existência, como os inúmeros compromissos que nos envolvem e nos levam a atender, em tempo rápido e necessário, como obter maiores ganhos, destinados a suprir as demandas pessoais de trabalho, de lazer, de imagem e outras tantas que nos fazem derrogar o slogan “mais ócio menos negócio”, em favor de um viver social construído e oferecido por toda a gama de fatores de merchandising, a que estamos atados em “nós” impossíveis de serem desatados, sem a perda, muitas vezes, de conquistas que nos custaram os olhos da cara, e das quais não nos podemos livrar, impunemente.
Ademais, como abraçar o ócio, em meio a tantas injunções sociais e particulares, impingidas autoritariamente contra nós, fazendo-nos, até intuitivamente a portarmo-nos como “robôs”, ou “clowns”, tantas são as demandas e exigências viscerais que nos engolem ou nos fazem engolir a vida cotidiana, agora não mais apenas em grandes metrópoles mas também em cidades circunvizinhas ou não?
Isso sem consideramos as ofertas, que nos impigem diuturnamente pelos meios de comunicação, ou por estabelecimentos bancários, concursos, propaganda e que tais, para usufruirmos de uma vida sempre sonhada, mas nunca, ou raramente, alcançada., a não ser com esforços de maquinações de toda ordem, aceitas por pais e inculcada aos filhos, como obrigação rotineira, desde muito cedo como herança de “ouro de tolo” como muito bem proclamou Raul Seixas em sua música do mesmo nome.
E mais, os índices em baixa, a inflação em alta, a moeda capengando e o desemprego se avolumando dia a dia, a aflição noturna e os pesadelos crescem e o suor noturno aumenta, mormente quando se pensa o que e como fazer para não perder o emprego, o pouco de sono tranquilo e o resquício de ócio, que porventura possa restar, nessa situação tão aflitiva, de durabilidade ou piora a perder de vista, põe em sobressalto um viver que se vislumbrava duradouro, e sem percalços, ainda que delineado por algumas dívidas a serem liquidadas com o correr do tempo, do vento a favor sem menosprezar - claro - a proteção e ajuda divina, continuamente invocadas.
Essa materialidade feroz faz do homem um ser acuado, desalojado de seus valores, que se recusa a formar uma visão de mundo e nela interagir, pois não pretende se enfronhar em encontrar verdades, mas apenas acontecimentos, situações e principalmente, como ele, homens com um olhar assustado sobre a realidade em que vive e atua.
Quer nos parecer, portanto, que o ócio ora preconizado veio em má hora, ou tardiamente, a nossa vagabundagem foi arrastada quiçá, para outras plagas, onde subsistem em sonho, fantasia ou ficção, tal como usufruíram os personagens de “O Mágico de Oz”, de L Frank Baum (1856 -1919) ou os de Alice no País das Maravilhas ou dos Espelhos de Lewis Carroll (1832-1898), e tantos outros personagens à nossa disposição, para usufruir condignamente, em nosso favor, o privilégio do “Ó-C-I-O”, (criativo ou não) que não seja apenas: aquele de “tirar caca do nariz”, ou fazer caretas basbaques, para rir de si mesmo, ou ainda bocejar e espreguiçar, ou lavar a alma em impropérios mil, quando dentro do carro, protegido por Insulfilm, durante um congestionamento infindo e habitual, depois de reuniões de diretoria, almoço de negócio, colocação do expediente em dia, e dar palestra a um público, para merchandising de produtos da firma. Esse minúsculo espaço de ócio, serve para mostrar, - até que enfim! - então, a nossa face inteiriça, primitiva e verdadeira, sem os subterfúgios usuais, de quaisquer maquiagens impostas socialmente, ou de cobranças familiares, bem assim, de dever de ofício ou, ainda salvar-se de imprecações, de caras feias, chiste, ou menosprezo, num raro momento de ócio não programático, numa paz de bebê enlevado pelo sono.
De todo modo, valer-se do ócio, como forma de alcançar, talvez, um substrato para atingir-se “a saúde” tem seu quinhão de validade nada desprezível, e, como tal, não deve ser subestimado, apesar de todos os fatores negativos existentes em pauta.


Mário Inglesi

domingo, 10 de janeiro de 2016

SALVE 2016! x SALVE-SE QUEM PUDER EM 2016!




Leia na íntegra: Edição 73 http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=RevistaSerMedico

Começo o ano recebendo em casa a revista “Ser Médico” do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, e lá li:
Artigo especial sobre “Como formar um bom médico humanista?”. Artigo interessante na contramão do que se vê no momento em que o humano, aprendiz a partir de exemplos, nada na abundância daqueles que papel higiênico algum bastaria. Isso por Hygeia ser a representante grega da higiene na saúde pública. Humanismo é busca insólita nesse momento em que valores humanistas são recebidos sob-risos, risadas e gargalhadas pelas “altas esferas” do plano físico, enquanto aguardamos mais um carnaval, a nova novela e o próximo campeonato.
Estava lá escrito assim, dito por um xará quartanista de renomada instituição: “Quando um aluno fala em ética ou bioética, os outros riem dele”. Um convite à meditação. O homem meditabundo é semente humanista a germinar. Germinemos em amor.
Mas, considerando, desconfiado, haver algo louvável no texto, pingo um tijolo nessa obra: assista ao filme brasileiro “O Cheiro do Ralo”, atente à dinâmica de relação entre opressor e oprimido e depois me digam. Com os votos cordiais de que aprendamos a eleger melhores "opressores" para dividir o orçamento dos impostos de modo mais fraterno.


Depois, li lá também um artigo bem legal sobre armamentos e a perda da capacidade de indignação. Estava escrito que o gasto com armamentos atual é mais de 200 vezes maior que o que se gasta para combater a fome. Para nós brasileiros isso é muito chocante, pois aqui nasceu o maior estudioso do mundo sobre essa questão, o inigualável médico Josué de Castro. Leiamos nas escolas médicas a obra desse ilustre médico, especialmente “Geografia da Fome” e “Geopolítica da Fome”.
Lembremos apenas que fome não deve ser combatida ou morta, senão apenas as pessoas alimentadas; e a meu ver, não há nenhum combate quando alimentamos alguém. Quando aprenderemos a usar melhor as palavras? Enquanto a linguagem for de combate e morte, me parece óbvio que se gaste cada vez mais com armamentos. Meditemos. O estado meditabundo é a promessa do médico humanizado. O que acha?
Ainda sobre os armamentos, estava lá escrito sobre o recente bombardeio pela força aérea estadunidense em três de outubro de 2015 de uma unidade do Médico Sem Fronteiras (MSF) no Afeganistão. Apesar das desculpas do presidente Obama à MSF pela morte de doze profissionais do MSF e doze pacientes, a médica Joanne Liu, presidente internacional da MSF fala em crime de guerra e interpreta o fato como violação imperdoável do Direito Internacional Humanitário. O que leva alguém a trabalhar no Médico Sem Fronteiras?
Depois ainda li lá um artigo assim: “Um mundo tão desigual é viável?”. Disse que, segundo o banco Credit Suisse, 1% da população mundial detém quase 50% da riqueza produzida no planeta. Os outros 99% dividem, em partes também desiguais, os cerca de 50% restantes. A autora, Kátia Maia se mostrou indignada com o fato de 85 pessoas apenas serem donas da quantia equivalente ao que a metade da população mais pobre do planeta tem.


O jornal El País fez uma reportagem interessante sobre isso em 17/10/2015:
Quem quiser ver o relatório e a pirâmide de distribuição acesse:
http://ep00.epimg.net/descargables/2015/10/14/81cef5bbe2878e321682f7adfde25ec6.pdf
Um Amigo falou certo dia sobre a economia: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, mas com o advento da modernidade Deus foi anexado aos domínios de César. Assim, humanizamos a moeda! Ao menos é o que se nota nas Américas quando ao norte lemos nos dólares “In God we Trust” (Acreditamos em Deus) ou mais recentemente ao sul nas notas de dinheiros dos Estados Unidos do Brasil onde se lê: “Deus seja louvado”. Talvez “Deus nos proteja” seja alternativa evolutiva interessante a se considerar nas impressões futuras.
Essas reportagens da revista “Ser Médico” iniciando 2016, ano chinês macaco de fogo, aliadas ao estado atual das coisas fazem pensar se cabe um “salve 2016” ou um “salve-se quem puder em 2016”! Será que as autoridades falam de coração quando o assunto é humanizar?

domingo, 19 de julho de 2015

POR UM POUCO MAIS DE ÓCIO E MENOS DE NEGÓCIO



Um olhar ao ócio

Mais tempo de trabalho é sinônimo de maiores ganhos? Com este questionamento inocente, se inicia o capítulo sobre “Ócio, Consciência e Saúde” no livro Saúde é Consciência...

A mentalidade atual é profundamente trabalhista, de modo que elogiar o ócio é reprender o modelo atual que insiste em negar o ócio ou de modo mais incisivo afirmar e propagar o neg-ócio. De fato, estresse e diminuição do tempo livre caminham lado a lado. Trabalhar com moderação gera ganho relativo superior assim como maior potencial de realização e felicidade vivenciada. É fundamental o tempo de saborear as conquistas, caso contrário elas se transformam em degraus para o abismo do nada ou apenas outra forma de vício já encontrado entre aquelas pessoas que não conseguem relaxar, pois viciaram em trabalho.


Para o observador atento e de humor sensível, fique a máxima: “Quem mexe com gestão geralmente sofre de indigestão”; ora, basta respeitosamente e de soslaio observar o diâmetro abdominal dos gestores e afeitos para melhor compreensão. Fato a se lamentar, pois quando o gestor, especialmente os do tipo CEO entram no cio, só resta a seus súditos correrem com as mãos na cabeça... Diz o poeta sobre esse anareta: “Se houver filantropia, aí que a misantropia, com sua miopia, lê pilantropia. Sobra então só a questão: cadê o meu filão? ”.

“Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente” (Inácio de Loyola).


Fonte geradora de estresse social, à semelhança do trator que arrasta a terra por onde passa, o viciado em tripalium arrasta e impõe seu comportamento, gerando perturbação nos que por ignorância se aproximaram deste ser em processo temporário de desequilíbrio interior.

Domenico Demasi se dedicou ao estudo do ócio e seus efeitos na manutenção da saúde e ainda como ferramenta de estímulo ao potencial criativo.


Josef Pieper descreve o demônio de três faces que os defensores do ócio têm a enfrentar: a supervalorização da atividade em geral, a incapacidade de aceitar que simplesmente aconteça algo e a inaptidão em receber e admitir suceder algo consigo mesmo. Para o autor, o ócio (skholé) é uma atitude de celebração e celebrar significa o contrário de esforço. Quem desconfia categoricamente da facilidade é tanto incapaz do ócio como de celebrar uma festa. Quando esse desconfiado celebra é alcoolizado e, portanto antes se alienando que propriamente celebrando. Celebrar sugere consciência apolínea (Solar), já alcoolizar, sua contraparte dionisíaca (Marciana).

Existem várias situações evitáveis, ciladas que conduzem ao empobrecimento, consequentes a contextos relativos a tempo perdido. Abundam ainda os que pensam riqueza como posses materiais! Não percebem rico ser aquele com tempo e milionário aquele cujo tempo transcorre com liberdade e qualidade. (veja o pescador e o empresário: http://o-grande-nada.blogspot.com/2006/11/histria-do-pescador_18.html). É nesse espaço de liberdade temporal que a saúde germina enquanto a vida ganha em significado, sentido e plenitude.

O termo felicidade interna bruta (FIB), criado pelo rei do Butão em 1972 é outro exemplo perfeito disso. Em contrapartida aos modelos convencionais baseados no crescimento econômico, o conceito se sustenta no princípio do simultâneo desenvolvimento espiritual e material de uma nação, sendo seus fundamentos:

1-      Promoção de um desenvolvimento socioeconômico sustentável e igualitário

2-      Preservação e promoção dos valores culturais

3-      Conservação do meio-ambiente natural

4-      Estabelecimento de uma boa governança.

A falta de tempo, fundamento da pobreza, é o principal fator responsável pelas situações conhecidas como “doenças do mundo moderno”. Se um dia a corrente e a chibata foram sinônimos de escravidão, hoje o relógio cumpre papel social semelhante, silenciosa e metodicamente. Esse tema abordado de forma genial em “Momo e o Senhor do Tempo” de Michael Ende, desperta o olhar para o óbvio e fundamental no momento presente. O livro conta sobre uma menina abandonada que todos queriam ajudar, mas acabavam ajudados por ela que possuía algo raro entre seus vizinhos. Esse algo, nada mais que tempo livre, ela usava para escutar as pessoas, que se curavam na medida em que eram escutadas.

Ser escutado e poder falar de si próprio com alguém que se importa, constituem a base de várias linhas terapêuticas. Além disso, quando alguém fala de si ao mesmo tempo pode se escutar e promover mudanças com base nesse movimento. Falar traz para fora a realidade interior desorganizada favorecendo melhor compreensão e reorganização daquele que se expressa.

O distanciamento do mundo interior é importante fator gerador de desintegração, visto desviar a atenção para assuntos relativos à vida alheia. Falar do outro em sua ausência é lugar humano comum e gera esvaziamento interior com consequente repercussão negativa sobre a saúde dos praticantes. As atitudes de bisbilhotar e especular são becos sem saída decorrentes de um modelo social baseado na comparação e na competição. Cooperação eu?

É comum que a imagem de pessoas famosas seja associada a produtos e lugares, estimulando aqueles que as têm como referencial de conduta ou de beleza a imitarem seu comportamento. Em uma população com desnível social e educacional grandes, isso bloqueia o desenvolvimento da autoestima saudável, base do sucesso social. Eu preciso desse chinelo assinado ou com a foto de fulano, o triplo do que vale de fato? A questão financeira é importante em nosso meio e orientar os menos favorecidos é crucial na prevenção de situações relacionadas à desintegração familiar e à escravidão das prestações e dos juros. É preciso aprender a expandir o conceito de saúde além do pessoal, englobando os níveis familiar, social e econômico ao primeiro. Uma população socialmente desnivelada é geradora de doenças que repercutem sobre os próprios idealizadores. Seu carro é blindado?


Sobre ócio – Ricardo Leme – UOL



A bexiga nova oferece uma resistência grande quando o ar é assoprado em seu interior na primeira tentativa. Observe-se que após a primeira enchida, quando esvaziada, a bexiga nunca mais volta ao seu tamanho inicial, fica mais dilatada. A consciência funciona de forma semelhante, nunca mais volta ao seu tamanho inicial uma vez desperta. A transformação pessoal promovida por informações de qualidade é fundamental para o buscador da saúde, e ocorre de forma quase imperceptível. A sabedoria popular sugere que usemos o passado como trampolim e não como sofá. A rigidez de pensamento e a dificuldade de adaptação são diretamente relacionados à maior predisposição para adoecer. A vida é transformação contínua e mesmo as doenças devem ser vistas sob perspectiva mais positiva e integrativa.

É comum que a doença se apresente como grande oportunidade da pessoa rever uma atitude que não conseguiu mudar de outro modo, pois se sentia confortável vivendo daquele modo. Assim, repensemos se a doença deve ser combatida ou compreendida e vivenciada da forma mais plena possível. Se um dia você adoecer, espero que não, faça a pergunta: por que eu quero recuperar a saúde? Caso a resposta seja para voltar a viver a vida como vinha vivendo, preocupe-se... A doença é convite a repensar o viver, aproveite-o! As situações de estresse e doença são como sinalizadores que se compreendidos e incorporados podem promover uma recuperação mais natural e produtiva para a vida de cada pessoa.

Um pouco mais de ócio e um pouco menos de negócio e logo você compreenderá o que estou a falar...