A Medicina da Saúde é baseada na preservação e na promoção. É sempre superior à Medicina da Doença focada na cura e na prevenção. Somos seres humanos e não "teres humanos”. A doença começa quando se deixa o SER pelo TER; saúde e vitalidade aumentam na direção do SER. A busca pelo SER leva à ampliação da consciência, guia do homem saudável e espelho para o doente. Refletindo o exemplo a ser imitado mostra como sair da horizontalidade do adormecimento e entrar na verticalidade do despertar.
O suicídio físico é uma
opção desesperada e pode ser consciente ou inconsciente. No primeiro caso um
ato abrupto de desespero, no segundo decorrência de atitude ignorante que se
perpetua no tempo (hábito alimentar precário, uso de drogas lícitas e ilícitas,
sedentarismo, pouca leitura, hábito musical pobre). Estatísticas atuais apontam
que a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo. No Brasil os
dados mais recentes apontam uma média de 32 suicídios por dia.
Mas, o suicídio mais
surpreendente é o espiritual. Quando o materialista se descuida de seus
veículos (corpos) suprafísicos, demonstra coragem surpreendente. Veículos que a
tradição designa como corpo vital, corpo de desejos e mente. Sim, não é preciso
ver para saber. A pessoa sensível pressente que a vida é o “mistério” que anima
a matéria, mas que não pode ser encontrada quando se disseca a matéria em sua
intimidade. Quem deseja deveria refletir de onde vem as tendências desejosas e quem
pensa deveria fazer investigação semelhante em relação ao pensamento. Desejo e
pensamento, qualidades materiais de outra natureza que não a física.
A visão, o sentido
predileto da atualidade, nos impede ver além das aparências. Mas veja você
mesmo então. Nascer arredondado, ver o corpo esticar e crescer, a seguir ficar
enrugado, pontudo e desvitalizado é percebido na superfície, mas que tipo de
forças determinam esse efeito sobre a matéria animada?
O suicídio espiritual não
é tão falado quanto o suicídio físico. Finge-se não ver, mas quem teria olhos
para isso não é mesmo?
A pessoa que vive em
espírito torna a vida material leve, torna-se
permeável à graça. A pessoa que vive para a matéria é cega à luz do
espírito e sua vida se torna opaca, escura, densa, azeda, cheia de reclamações
e emperrada. É aquela pessoa que não entende o porquê de certas situações (padrões)
se repetirem em sua vida. A graça, assim como a graxa, serve para lubrificar. A
primeira lubrifica as engrenagens da vida, a outra as engrenagens da matéria.
Em outras palavras, uma vida sem graça é uma vida sem graxa, assim como uma
vida sem graça é também sinônimo de desgraçada.
Para que a graça permeie o
corpo humano, o mesmo precisa estar poroso em todas as suas instâncias. Assim
como a obstrução dos poros da pele leva à morte rapidamente, a obstrução dos
poros dos corpos suprafísicos (corpo vital, corpo de desejos e mente) leva à
morte lenta. Essa morte lenta se apresenta aos olhos do observador como as
pessoas que apenas existem, à semelhança das pedras. Viver é atributo do reino
humano; fundamental para isso é a consciência dimensional adequada do que seja
SER HUMANO. A vida material, horizontal, cotidiana da família, do trabalho, da
política, da filosofia niilista, da diversão é apenas palco, sombra e
efemeridade. Sem a graça, a vida material culmina em cadeia, hospital, falta e
inconformidade. Mas cadeia, hospital, falta e inconformidade, lembremos, são
escolhas pessoais. Toda escolha, entretanto, é permitida a Fausto, em Goethe, ao se perder
para se encontrar.
Se afastar da graça (ser
desgraçado) por opção ou por ignorância é suicídio espiritual. O espiritual diz
respeito a tudo o que está além dos cinco sentidos. O interesse também é um
sentido que podemos vivenciar e experimentar. Mais interesse e menos
indiferença é alternativa válida na profilaxia do suicídio espiritual.
“No
princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus.” (João
1:1).
Tudo começa com a palavra – pensada, falada ou
escrita. Por meio dela, o ser humano constrói realidades internas e externas,
define roteiros que podem levá-lo a prazeres carnais, objetivos materiais,
reinos celestiais ou aspectos sombrios do inconsciente. Da abundância à ruína,
da felicidade à depressão, da saúde à enfermidade.
Um olhar atento constata que em toda escolha de
vida os “mantras”, mensagens de caráter repetitivo, recebidas e emitidas,
interferem muito em nossas decisões. De origem sânscrita, a palavra mantra
possui dois significados: 1) palavra ou som repetido para ajudar a concentração
na meditação, 2) declaração ou slogan repetido com frequência
(Dicionário Oxford, 2016).
O uso da palavra “mantra” com o significado de
declaração ou palavra de ordem é frequente entre jornalistas, professores de
economia e até mesmo autoridades. Haja vista declaração recente de um
ex-ministro brasileiro de que a “austeridade” seria o “mantra” permanente do
novo governo (FERREIRA, 2016).
Na presente obra, resultado de monografia
apresentada no curso de especialização em Cuidados Integrativos da Unifesp, o
termo foi considerado em sentido amplo (lato sensu), desde o aspecto
sagrado – sons, ladainhas e orações, como o OM, o AUM e o Pai-Nosso – ao
profano dos decretos, slogans e afirmações presentes na estrutura
familiar, cultural, cotidiana e, principalmente nos meios de comunicação, os
maiores difusores de mensagens liminares e subliminares.
Vale saber que 95% dos brasileiros passam mais de
quatro horas por dia em frente à televisão, absorvendo informações muitas vezes
de caráter questionável. O rádio figura em segundo lugar nas preferências,
seguido das plataformas digitais, dos jornais (a fonte mais confiável, segundo
a Pesquisa Brasileira de Mídia, SECOM, 2015) e das revistas. Já as novas
mídias, as redes sociais, são as favoritas de 92% dos internautas.
Dos sons, imagens e textos veiculados neste
universo, entre 50% a 90% possui teor negativo, estando ligado a temas como
violência, corrupção, desarmonia familiar, traição e sexo doentio. A exposição
intensa a estas temáticas, aliada à falta de sentido existencial, provoca reações
em nosso cérebro, incentiva e “legaliza” comportamentos, dessensibiliza para a
realidade e torna o pensar e agir compulsivos. Como atraímos tudo por
ressonância interna, acabamos sempre atraindo mais do mesmo.
Afinal, podemos fechar os olhos e escolher não
olhar para algo, mas nossos ouvidos permanecem abertos e sensíveis durante toda
a vida, mesmo durante o sono. Quem de nós não conhece pessoas que têm televisão
no dormitório e adormecem com o aparelho ligado? Ou que perdem horas preciosas do
dia com programas, leituras e conversas que não lhes acrescentam nada...
Estas atitudes ativam um “poder” criativo
gigantesco, se considerarmos que a mente humana gera, em média, 60 mil
pensamentos por dia, 60% a 70% deles negativos. O que fazemos com esses
pensamentos, essas palavras e imagens que surgem em nossas mentes, define em
parte o roteiro de nossa vida. Se os interiorizamos, ruminamos ou simplesmente
deixamos ir...
Daí a importância de conhecer mais de perto as
mensagens que recebemos do entorno desde o nosso nascimento e também o Universo
de Comunicação, com sua capacidade imensa de transformação que pode ser usada
de forma terapêutica a qualquer momento. A partir da identificação de nossos mantras
dominantes, podemos refletir com mais clareza sobre seus efeitos na nossa
conduta e saúde. Podemos começar a mudar...
O manejo consciente e terapêutico das mensagens,
imagens e sons que dominam nosso cotidiano representa alternativa interessante
para alterar as memórias celulares de dor e a dinâmica de pensamentos e
crenças, no sentido de promover a maturidade e o equilíbrio necessário para uma
vida plena e saudável, assim como para exercer qualquer atividade ligada à
cura.
Com essas ponderações, esperamos fortalecer em
outros humanos o exercício do livre pensar e o ressurgir do Ser tão essencial.
Hoje na Avenida Rebouças o menino descalço colocava balas no retrovisor
dos carros para vender enquanto o farol permanecia vermelho. O farol abriu... O
menino descalço havia colocado balas em tantos carros, que mesmo correndo, não acabava
de retirar as que não foram compradas. Um senhor de maior idade, um dos
prejudicados pela demora, passou fazendo movimentos com as mãos e expressando
sua indignação em palavras graves e com a face moldada pelo seu zango.
Ficou então o pensamento: esse senhor, de algum modo, será um menino sem
sapatos para compreender melhor o tempo daquele outro menino que desconhece
totalmente as neuras do trânsito e o que vai dentro dos motoristas apressados e
estressados de Sampa... Ficou também esse outro pensamento: esse menino, de
algum modo, será um senhor motorista para compreender melhor o tempo daquele
outro senhor que desconhece totalmente a necessidade e o esforço de quem vende
balas, especialmente os descalços no asfalto...
Falta compreensão mútua? Falta Martin Buber? Falta “Eu e Tu” nas escolas?
Aqueles de nós que dirigem veículos, aqueles que dirigem escolas, os que
dirigem empresas, os que dirigem municípios, os que estados e mesmo os que
dirigem países, sejamos um pouco mais reverentes aos descalços, seus tempos e
necessidades. Aqueles de nós em situações descalças, cuidemos em pensar se nossos
pés já não foram cegos ao "chão" que pisáramos.
Tem o reino mineral, tem o reino vegetal, depois tem o reino animal e finalmente o humano. Para se tornar humano a relação com a animalidade deve ser repensada. É preciso que se perca o medo de se tornar humano. É preciso coragem para se tornar humano.
Senhores políticos, organizadores do caos, das coisas escusas e das cosas
nostras, piedade!!
A
Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa
reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns
dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é
escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não
pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o
queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do
mundo.
Não
se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por
nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Não se entra para ela por
querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres:
«Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também». E é na palavra
«pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.
Fiel
à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à
Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade,
Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros — chamemos-lhes sempre assim — não
dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da
Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus
cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros;
acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus
cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim
são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque
nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.
Ela, sendo assim tão semelhante à
Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é
como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem,
embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem.
s.d.
Fernando Pessoa e a
Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio .
Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa:
Presença, 1985. - 47.
No texto abaixo, Chardin sugere o Cristianismo como alternativa aos regimes políticos atuais. Um exercício para a imaginação...
"Em caso algum o Cosmo
poderia ser concebido, realizado, sem um Centro supremo de consistência
espiritual. Não apenas por força das fórmulas especiais da União criadora, mas
em qualquer Metafísica que se preze, imaginar a criação Isolada de um átomo ou
de um grupo de mônadas seria absurdo: o que é desejado e obtido, na Criação, é
primeiro o Todo, e em seguida o resto nele, depois dele. Em qualquer hipótese, o
Mundo, para ser pensável, exige ser centrado. Por conseguinte, a presença à sua
frente, de um ômega nada tem a ver com o fato de sua “elevação sobrenatural”. O
que faz exatamente a característica “graciosa” do Mundo, é que o lugar de Centro
universal não foi dado a um nenhum supremo intermediário entre Deus e o
Universo; mas foi ocupado pela própria Divindade, - que nos introduziu, assim,
in et cum Mundo, no seio trinitário de sua imanência.
Em suma – o Mundo é uma vasta
Cosmogênese? Cristo é o motor. Essa Cosmogênese é processo que se orienta?
Cristo é seu alvo, Cristo a atrai. Alfa e ômega, Cristo é um ser em que o
Pessoal se expande até se fazer Universal. O Cristianismo impregna, então todo um
programa que, ao mesmo tempo, ultrapassa as correntes confusas da Democracia decadente,
do Comunismo e do Fascismo nascentes e se superpõe aos ateísmos militantes, aos
espiritualismos desencarnados, às religiões anêmicas. Não é mais necessário,
portanto, procurar a “ponte” entre as naturezas ou as Coisas num Universo em que
a unidade é o estado de equilíbrio para o qual tendem os seres,
espiritualizando-se."
Desde há muito tempo, o vocábulo ócio está ligado ao estigma pejorativo
de vagabundagem, menosprezo por quaisquer compromissos de trabalho, sejam eles
quais forem.
Para isso, não importava o
motivo de sua existência, apenas se enxergava o fator da ausência da vontade
implícita do trabalho no indivíduo, quer para sustento de si ou de seus
familiares.
Nesse contexto Paulo
Prado, 1869-1943 evoca:
"São desgraças do Brasil
Um patriotismo fofo
Leis com parolas, preguiça
Ferrugem, formiga e mofo."
A essa situação, em tempos
idos, veio juntar-se a descoberta de motivações várias, como doenças
provenientes da existência de vermes no indivíduo, a tendência à fadiga
motivada pela ingestão de excesso de bebidas alcoólicas, incidência de doenças várias
que, em conjunto ou separadamente, impedem o indivíduo e sua vontade, a
qualquer ato em seu beneficio ou de outrem ao seu redor.
Foi o que demandou talvez
Monteiro Lobato, em sua obra Urupês ao criar o Jeca Tatu, trabalhador rural
paulista abandonado pelos poderes públicos às doenças, atraso e à indigência.
Personagem este
configurado, porém, como portador de todos os males sociais, em especial a
preguiça e com ela a característica principal então definida, em última
instância, como vagabundagem.
Com o passar do tempo e as
mudanças sociais ficou constatado, que, na maioria dos casos, eram as doenças
parasitárias endêmicas que levavam os indivíduos ao ócio, à vagabundagem, à
preguiça, à leseira, ou mesmo, influíam para a existência de tal modorra para
qualquer atividade.
Mas, hoje, felizmente,
tudo mudou ou vem mudando, e o ócio deixou de ser pejorativo, para tornar-se
sinônimo de saúde, bem estar, de configurar-se o procurar por si mesmo, em sua
intimidade mais profunda, em promover e valer-se do tão almejado lazer, de dar
vazão à criatividade, configurado na frase cunhada por Domenico De Masi, “Ócio
Criativo”.
E, então, como Macunaíma,
de Mário de Andrade, libertos de todas as pechas, juntamo-nos ao coro dos
contentes e, em alto e bom som, voltamos a bradar:
“Ai, Que Preguiça!”
Pronto: Estamos, enfim,
leves, livres e soltos. Livres para, em preces, cultuar a preguiça, como ócio,
meditação intelectual, maneiras de encarar a vida, de filosofar, tendo como máquina
fundante geradora de um aprazível viver, em sentidos os mais diversos, como, falar,
escrever, se comportar e amar, a exemplo, prazerosamente, do fazer de Manoel
Bandeira:
“Então me levantei.
Bebi o café que eu mesmo preparei
Depois me deitei
novamente,
acendi um cigarro e fiquei
pensando…
- Humildemente nas
mulheres que amei”
A tardança dessa nova
situação, entretanto, não só se faz sentir de maneira abrupta como ainda se
mostra infinitamente difícil de usufruir, nos tempos atuais, do ócio e seu
lazer, nos moldes pretendidos e exigíveis ao atendimento de nosso bem estar e
saúde.
Isto porque já não somos primitivos, como nos
viam os colonizadores, e também pelo fato de que com a engrenagem e suas
amarras, é manifestamente muito difícil de voltarmos ao primitivismo
existencial, e assim desfazer as amarras, nós e laços que ora nos prendem ou
envolvem. Primeiro, pela existência de fatores preponderantes à nossa
existência, como os inúmeros compromissos que nos envolvem e nos levam a
atender, em tempo rápido e necessário, como obter maiores ganhos, destinados a
suprir as demandas pessoais de trabalho, de lazer, de imagem e outras tantas
que nos fazem derrogar o slogan “mais ócio menos negócio”, em favor de um viver
social construído e oferecido por toda a gama de fatores de merchandising, a
que estamos atados em “nós” impossíveis de serem desatados, sem a perda, muitas
vezes, de conquistas que nos custaram os olhos da cara, e das quais não nos
podemos livrar, impunemente.
Ademais, como abraçar o
ócio, em meio a tantas injunções sociais e particulares, impingidas
autoritariamente contra nós, fazendo-nos, até intuitivamente a portarmo-nos
como “robôs”, ou “clowns”, tantas são as demandas e exigências viscerais que
nos engolem ou nos fazem engolir a vida cotidiana, agora não mais apenas em
grandes metrópoles mas também em cidades circunvizinhas ou não?
Isso sem consideramos as
ofertas, que nos impigem diuturnamente pelos meios de comunicação, ou por
estabelecimentos bancários, concursos, propaganda e que tais, para usufruirmos
de uma vida sempre sonhada, mas nunca, ou raramente, alcançada., a não ser com
esforços de maquinações de toda ordem, aceitas por pais e inculcada aos filhos,
como obrigação rotineira, desde muito cedo como herança de “ouro de tolo” como
muito bem proclamou Raul Seixas em sua música do mesmo nome.
E mais, os índices em
baixa, a inflação em alta, a moeda capengando e o desemprego se avolumando dia
a dia, a aflição noturna e os pesadelos crescem e o suor noturno aumenta,
mormente quando se pensa o que e como fazer para não perder o emprego, o pouco
de sono tranquilo e o resquício de ócio, que porventura possa restar, nessa situação
tão aflitiva, de durabilidade ou piora a perder de vista, põe em sobressalto um
viver que se vislumbrava duradouro, e sem percalços, ainda que delineado por
algumas dívidas a serem liquidadas com o correr do tempo, do vento a favor sem
menosprezar - claro - a proteção e ajuda divina, continuamente invocadas.
Essa materialidade feroz
faz do homem um ser acuado, desalojado de seus valores, que se recusa a formar
uma visão de mundo e nela interagir, pois não pretende se enfronhar em encontrar
verdades, mas apenas acontecimentos, situações e principalmente, como ele,
homens com um olhar assustado sobre a realidade em que vive e atua.
Quer nos parecer,
portanto, que o ócio ora preconizado veio em má hora, ou tardiamente, a nossa
vagabundagem foi arrastada quiçá, para outras plagas, onde subsistem em sonho,
fantasia ou ficção, tal como usufruíram os personagens de “O Mágico de Oz”, de
L Frank Baum (1856 -1919) ou os de Alice no País das Maravilhas ou dos Espelhos
de Lewis Carroll (1832-1898), e tantos outros personagens à nossa disposição,
para usufruir condignamente, em nosso favor, o privilégio do “Ó-C-I-O”, (criativo
ou não) que não seja apenas: aquele de “tirar caca do nariz”, ou fazer caretas basbaques,
para rir de si mesmo, ou ainda bocejar e espreguiçar, ou lavar a alma em
impropérios mil, quando dentro do carro, protegido por Insulfilm, durante um
congestionamento infindo e habitual, depois de reuniões de diretoria, almoço de
negócio, colocação do expediente em dia, e dar palestra a um público, para
merchandising de produtos da firma. Esse minúsculo espaço de ócio, serve para mostrar,
- até que enfim! - então, a nossa face inteiriça, primitiva e verdadeira, sem
os subterfúgios usuais, de quaisquer maquiagens impostas socialmente, ou de
cobranças familiares, bem assim, de dever de ofício ou, ainda salvar-se de imprecações,
de caras feias, chiste, ou menosprezo, num raro momento de ócio não
programático, numa paz de bebê enlevado pelo sono.
De todo modo, valer-se do
ócio, como forma de alcançar, talvez, um substrato para atingir-se “a saúde” tem
seu quinhão de validade nada desprezível, e, como tal, não deve ser subestimado,
apesar de todos os fatores negativos existentes em pauta.
Começo o ano recebendo em
casa a revista “Ser Médico” do Conselho Regional de Medicina do Estado de São
Paulo, e lá li:
Artigo especial sobre
“Como formar um bom médico humanista?”. Artigo interessante na contramão do que
se vê no momento em que o humano, aprendiz a partir de exemplos, nada na
abundância daqueles que papel higiênico algum bastaria. Isso por Hygeia ser a representante grega da
higiene na saúde pública. Humanismo é busca insólita nesse momento em que valores
humanistas são recebidos sob-risos, risadas e gargalhadas pelas “altas esferas”
do plano físico, enquanto aguardamos mais um carnaval, a nova novela e o
próximo campeonato.
Estava lá escrito assim,
dito por um xará quartanista de renomada instituição: “Quando um aluno fala em ética ou bioética, os outros riem dele”.
Um convite à meditação. O homem meditabundo é semente humanista a germinar.
Germinemos em amor.
Mas, considerando,
desconfiado, haver algo louvável no texto, pingo um tijolo nessa obra: assista
ao filme brasileiro “O Cheiro do Ralo”, atente à dinâmica de relação entre opressor e oprimido e depois me digam. Com os votos cordiais de que aprendamos a eleger melhores "opressores" para dividir o orçamento dos impostos de modo mais fraterno.
Depois, li lá também um
artigo bem legal sobre armamentos e a perda da capacidade de indignação. Estava
escrito que o gasto com armamentos atual é mais de 200 vezes maior que o que se
gasta para combater a fome. Para nós brasileiros isso é muito chocante, pois
aqui nasceu o maior estudioso do mundo sobre essa questão, o inigualável médico
Josué de Castro. Leiamos nas escolas médicas a obra desse ilustre médico,
especialmente “Geografia da Fome” e “Geopolítica da Fome”.
Lembremos apenas que fome
não deve ser combatida ou morta, senão apenas as pessoas alimentadas; e a meu
ver, não há nenhum combate quando alimentamos alguém. Quando aprenderemos a
usar melhor as palavras? Enquanto a linguagem for de combate e morte, me parece
óbvio que se gaste cada vez mais com armamentos. Meditemos. O estado
meditabundo é a promessa do médico humanizado. O que acha?
Ainda sobre os
armamentos, estava lá escrito sobre o recente bombardeio pela força aérea
estadunidense em três de outubro de 2015 de uma unidade do Médico Sem
Fronteiras (MSF) no Afeganistão. Apesar das desculpas do presidente Obama à MSF
pela morte de doze profissionais do MSF e doze pacientes, a médica Joanne Liu,
presidente internacional da MSF fala em crime de guerra e interpreta o fato
como violação imperdoável do Direito Internacional Humanitário. O que leva
alguém a trabalhar no Médico Sem Fronteiras?
Depois ainda li lá um
artigo assim: “Um mundo tão desigual é viável?”. Disse que, segundo o banco
Credit Suisse, 1% da população mundial detém quase 50% da riqueza produzida no
planeta. Os outros 99% dividem, em partes também desiguais, os cerca de 50%
restantes. A autora, Kátia Maia se mostrou indignada com o fato de 85 pessoas
apenas serem donas da quantia equivalente ao que a metade da população mais
pobre do planeta tem.
O jornal El País fez uma
reportagem interessante sobre isso em 17/10/2015:
Um Amigo falou certo dia
sobre a economia: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, mas
com o advento da modernidade Deus foi anexado aos domínios de César. Assim,
humanizamos a moeda! Ao menos é o que se nota nas Américas quando ao norte
lemos nos dólares “In God we Trust” (Acreditamos em Deus) ou mais recentemente ao
sul nas notas de dinheiros dos Estados Unidos do Brasil onde se lê: “Deus seja
louvado”. Talvez “Deus nos proteja” seja alternativa evolutiva interessante a
se considerar nas impressões futuras.
Essas reportagens da
revista “Ser Médico” iniciando 2016, ano chinês macaco de fogo, aliadas ao
estado atual das coisas fazem pensar se cabe um “salve 2016” ou um “salve-se
quem puder em 2016”! Será que as autoridades falam de coração quando o assunto
é humanizar?
Mais tempo de trabalho é
sinônimo de maiores ganhos? Com este questionamento inocente, se inicia o
capítulo sobre “Ócio, Consciência e Saúde” no livro Saúde é Consciência...
A mentalidade atual é
profundamente trabalhista, de modo que elogiar o ócio é reprender o modelo
atual que insiste em negar o ócio ou de modo mais incisivo afirmar e propagar o
neg-ócio. De fato, estresse e diminuição do tempo
livre caminham lado a lado. Trabalhar com moderação gera ganho
relativo superior assim
como maior
potencial de realização
e felicidade vivenciada. É fundamental o tempo
de saborear as conquistas,
caso contrário
elas se transformam em degraus para o abismo do nada ou apenas outra
forma de vício
já encontrado entre
aquelas pessoas que
não conseguem relaxar,
pois viciaram em trabalho.
Para o observador atento
e de humor sensível, fique a máxima: “Quem mexe com gestão geralmente sofre de
indigestão”; ora, basta respeitosamente e de soslaio observar o diâmetro
abdominal dos gestores e afeitos para melhor compreensão. Fato a se lamentar,
pois quando o gestor, especialmente os do tipo CEO entram no cio, só resta a
seus súditos correrem com as mãos na cabeça... Diz o poeta sobre esse anareta:
“Se houver filantropia, aí que a misantropia, com sua miopia, lê pilantropia. Sobra
então só a questão: cadê o meu filão? ”.
“Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas
o sentir e saborear as coisas internamente” (Inácio de Loyola).
Fonte geradora de estresse social, à semelhança do trator que arrasta a terra por onde passa, o viciado em tripalium arrasta e impõe seu comportamento,
gerando perturbação nos que por ignorância se
aproximaram deste ser em
processo temporário
de desequilíbrio interior.
Domenico Demasi se
dedicou ao estudo do ócio e seus efeitos
na manutenção da saúde
e ainda como ferramenta de
estímulo ao potencial criativo.
Josef Pieper descreve o
demônio de três faces que os defensores do ócio têm a enfrentar: a
supervalorização da atividade em geral, a incapacidade de aceitar que
simplesmente aconteça algo e a inaptidão em receber e admitir suceder algo
consigo mesmo. Para o autor, o ócio (skholé)
é uma atitude de celebração e celebrar significa o contrário de esforço. Quem
desconfia categoricamente da facilidade é tanto incapaz do ócio como de
celebrar uma festa. Quando esse desconfiado celebra é alcoolizado e, portanto
antes se alienando que propriamente celebrando. Celebrar sugere consciência
apolínea (Solar), já alcoolizar, sua contraparte dionisíaca (Marciana).
Existem várias situações
evitáveis, ciladas que conduzem ao
empobrecimento, consequentes a contextos relativos a tempo perdido. Abundam
ainda os que pensam riqueza como posses materiais! Não percebem rico ser aquele
com tempo e milionário aquele cujo tempo
transcorre com liberdade e qualidade. (veja o pescador e o empresário: http://o-grande-nada.blogspot.com/2006/11/histria-do-pescador_18.html). É nesse espaço de liberdade
temporal que a saúde germina enquanto a vida ganha em significado, sentido e plenitude.
O termo felicidade
interna bruta (FIB), criado pelo rei do Butão em 1972 é outro exemplo perfeito
disso. Em contrapartida aos modelos convencionais baseados no crescimento
econômico, o conceito se sustenta no princípio do simultâneo desenvolvimento
espiritual e material de uma nação, sendo seus fundamentos:
1-Promoção de um desenvolvimento socioeconômico
sustentável e igualitário
2-Preservação e promoção dos valores
culturais
3-Conservação do meio-ambiente natural
4-Estabelecimento de uma boa governança.
A falta
de tempo, fundamento da pobreza, é o
principal fator responsável pelas situações
conhecidas como “doenças do mundo moderno”.
Se um dia a corrente e a chibata foram sinônimos de escravidão, hoje o relógio
cumpre papel social semelhante, silenciosa e metodicamente. Esse tema abordado de forma
genial em “Momo e o Senhor do Tempo” de
Michael Ende, desperta o olhar para o óbvio e fundamental no momento presente.
O livro conta
sobre uma menina abandonada que todos
queriam ajudar, mas
acabavam ajudados por ela que possuía
algo raro entre seus vizinhos. Esse algo, nada mais que tempo livre, ela usava para escutar as pessoas, que se curavam na medida em que eram escutadas.
Ser escutado e poder
falar de si próprio com alguém que se importa, constituem a base de várias linhas
terapêuticas. Além disso, quando alguém fala de si ao mesmo tempo pode se escutar
e promover mudanças com
base nesse movimento.
Falar traz para fora a realidade interior desorganizada favorecendo melhor compreensão
e reorganização daquele que se expressa.
O distanciamento do mundo
interior é importante fator gerador
de desintegração, visto desviar a atenção para assuntos relativos
à vida alheia.
Falar do outro em sua
ausência é lugar humano comum e gera
esvaziamento interior com consequente repercussão negativa sobre a saúde
dos praticantes. As atitudes de bisbilhotar e especular são becos sem saída
decorrentes de um modelo social baseado na comparação e na competição.
Cooperação eu?
É comum
que a imagem
de pessoas famosas seja associada a produtos
e lugares, estimulando aqueles que as
têm como referencial de conduta ou de beleza a imitarem seu
comportamento. Em uma população com desnível social e educacional
grandes, isso bloqueia o desenvolvimento
da autoestima saudável, base do sucesso social. Eu preciso desse chinelo
assinado ou com a foto de fulano, o triplo do que vale de fato? A questão financeira é importante em nosso meio e orientar os menos
favorecidos é crucial na prevenção de situações
relacionadas à desintegração familiar e
à escravidão das prestações
e dos juros. É preciso aprender a
expandir o conceito de saúde além do pessoal, englobando os níveis familiar,
social e econômico ao primeiro. Uma população socialmente desnivelada é
geradora de doenças que repercutem sobre os próprios idealizadores. Seu carro é
blindado?
A bexiga
nova oferece uma resistência grande
quando o ar é assoprado em seu interior na primeira
tentativa. Observe-se que após a primeira enchida, quando
esvaziada, a bexiga nunca
mais volta
ao seu tamanho
inicial, fica mais
dilatada. A consciência funciona de forma semelhante, nunca mais volta ao seu tamanho inicial
uma vez desperta. A transformação pessoal promovida por
informações de qualidade
é fundamental para
o buscador da saúde, e ocorre de forma quase imperceptível. A
sabedoria popular sugere que usemos o passado
como trampolim
e não como
sofá. A rigidez de pensamento e a dificuldade de adaptação são diretamente
relacionados à maior predisposição
para adoecer. A vida
é transformação contínua e mesmo as doenças devem ser vistas sob perspectiva mais
positiva e integrativa.
É comum que a doença se
apresente como grande oportunidade da pessoa rever uma atitude que
não conseguiu mudar
de outro modo, pois se sentia confortável
vivendo daquele modo. Assim, repensemos se a doença
deve ser combatida ou
compreendida e vivenciada da forma mais plena possível. Se um dia você adoecer, espero que não, faça
a pergunta: por que eu quero recuperar a saúde? Caso a resposta seja para
voltar a viver a vida como vinha vivendo, preocupe-se... A doença é convite a
repensar o viver, aproveite-o! As situações
de estresse e doença são como sinalizadores que
se compreendidos e incorporados podem promover uma recuperação mais
natural e produtiva
para a vida
de cada pessoa.
Um pouco mais de ócio e
um pouco menos de negócio e logo você compreenderá o que estou a falar...