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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

AINDA SOBRE O ÓCIO EM 2016

Por: Mário Inglesi
Sobre o texto: Por um pouco mais de ócio e menos de negócio



Dr. Ricardo,
Desde há muito tempo, o vocábulo ócio está ligado ao estigma pejorativo de vagabundagem, menosprezo por quaisquer compromissos de trabalho, sejam eles quais forem.
Para isso, não importava o motivo de sua existência, apenas se enxergava o fator da ausência da vontade implícita do trabalho no indivíduo, quer para sustento de si ou de seus familiares.

Nesse contexto Paulo Prado, 1869-1943 evoca:

"São desgraças do Brasil
Um patriotismo fofo
Leis com parolas, preguiça
Ferrugem, formiga e mofo."

A essa situação, em tempos idos, veio juntar-se a descoberta de motivações várias, como doenças provenientes da existência de vermes no indivíduo, a tendência à fadiga motivada pela ingestão de excesso de bebidas alcoólicas, incidência de doenças várias que, em conjunto ou separadamente, impedem o indivíduo e sua vontade, a qualquer ato em seu beneficio ou de outrem ao seu redor.
Foi o que demandou talvez Monteiro Lobato, em sua obra Urupês ao criar o Jeca Tatu, trabalhador rural paulista abandonado pelos poderes públicos às doenças, atraso e à indigência.
Personagem este configurado, porém, como portador de todos os males sociais, em especial a preguiça e com ela a característica principal então definida, em última instância, como vagabundagem.
Com o passar do tempo e as mudanças sociais ficou constatado, que, na maioria dos casos, eram as doenças parasitárias endêmicas que levavam os indivíduos ao ócio, à vagabundagem, à preguiça, à leseira, ou mesmo, influíam para a existência de tal modorra para qualquer atividade.
Mas, hoje, felizmente, tudo mudou ou vem mudando, e o ócio deixou de ser pejorativo, para tornar-se sinônimo de saúde, bem estar, de configurar-se o procurar por si mesmo, em sua intimidade mais profunda, em promover e valer-se do tão almejado lazer, de dar vazão à criatividade, configurado na frase cunhada por Domenico De Masi, “Ócio Criativo”.
E, então, como Macunaíma, de Mário de Andrade, libertos de todas as pechas, juntamo-nos ao coro dos contentes e, em alto e bom som, voltamos a bradar:
“Ai, Que Preguiça!”
Pronto: Estamos, enfim, leves, livres e soltos. Livres para, em preces, cultuar a preguiça, como ócio, meditação intelectual, maneiras de encarar a vida, de filosofar, tendo como máquina fundante geradora de um aprazível viver, em sentidos os mais diversos, como, falar, escrever, se comportar e amar, a exemplo, prazerosamente, do fazer de Manoel Bandeira:

“Então me levantei.
 Bebi o café que eu mesmo preparei
Depois me deitei novamente,
acendi um cigarro e fiquei pensando…
- Humildemente nas mulheres que amei”

A tardança dessa nova situação, entretanto, não só se faz sentir de maneira abrupta como ainda se mostra infinitamente difícil de usufruir, nos tempos atuais, do ócio e seu lazer, nos moldes pretendidos e exigíveis ao atendimento de nosso bem estar e saúde.
 Isto porque já não somos primitivos, como nos viam os colonizadores, e também pelo fato de que com a engrenagem e suas amarras, é manifestamente muito difícil de voltarmos ao primitivismo existencial, e assim desfazer as amarras, nós e laços que ora nos prendem ou envolvem. Primeiro, pela existência de fatores preponderantes à nossa existência, como os inúmeros compromissos que nos envolvem e nos levam a atender, em tempo rápido e necessário, como obter maiores ganhos, destinados a suprir as demandas pessoais de trabalho, de lazer, de imagem e outras tantas que nos fazem derrogar o slogan “mais ócio menos negócio”, em favor de um viver social construído e oferecido por toda a gama de fatores de merchandising, a que estamos atados em “nós” impossíveis de serem desatados, sem a perda, muitas vezes, de conquistas que nos custaram os olhos da cara, e das quais não nos podemos livrar, impunemente.
Ademais, como abraçar o ócio, em meio a tantas injunções sociais e particulares, impingidas autoritariamente contra nós, fazendo-nos, até intuitivamente a portarmo-nos como “robôs”, ou “clowns”, tantas são as demandas e exigências viscerais que nos engolem ou nos fazem engolir a vida cotidiana, agora não mais apenas em grandes metrópoles mas também em cidades circunvizinhas ou não?
Isso sem consideramos as ofertas, que nos impigem diuturnamente pelos meios de comunicação, ou por estabelecimentos bancários, concursos, propaganda e que tais, para usufruirmos de uma vida sempre sonhada, mas nunca, ou raramente, alcançada., a não ser com esforços de maquinações de toda ordem, aceitas por pais e inculcada aos filhos, como obrigação rotineira, desde muito cedo como herança de “ouro de tolo” como muito bem proclamou Raul Seixas em sua música do mesmo nome.
E mais, os índices em baixa, a inflação em alta, a moeda capengando e o desemprego se avolumando dia a dia, a aflição noturna e os pesadelos crescem e o suor noturno aumenta, mormente quando se pensa o que e como fazer para não perder o emprego, o pouco de sono tranquilo e o resquício de ócio, que porventura possa restar, nessa situação tão aflitiva, de durabilidade ou piora a perder de vista, põe em sobressalto um viver que se vislumbrava duradouro, e sem percalços, ainda que delineado por algumas dívidas a serem liquidadas com o correr do tempo, do vento a favor sem menosprezar - claro - a proteção e ajuda divina, continuamente invocadas.
Essa materialidade feroz faz do homem um ser acuado, desalojado de seus valores, que se recusa a formar uma visão de mundo e nela interagir, pois não pretende se enfronhar em encontrar verdades, mas apenas acontecimentos, situações e principalmente, como ele, homens com um olhar assustado sobre a realidade em que vive e atua.
Quer nos parecer, portanto, que o ócio ora preconizado veio em má hora, ou tardiamente, a nossa vagabundagem foi arrastada quiçá, para outras plagas, onde subsistem em sonho, fantasia ou ficção, tal como usufruíram os personagens de “O Mágico de Oz”, de L Frank Baum (1856 -1919) ou os de Alice no País das Maravilhas ou dos Espelhos de Lewis Carroll (1832-1898), e tantos outros personagens à nossa disposição, para usufruir condignamente, em nosso favor, o privilégio do “Ó-C-I-O”, (criativo ou não) que não seja apenas: aquele de “tirar caca do nariz”, ou fazer caretas basbaques, para rir de si mesmo, ou ainda bocejar e espreguiçar, ou lavar a alma em impropérios mil, quando dentro do carro, protegido por Insulfilm, durante um congestionamento infindo e habitual, depois de reuniões de diretoria, almoço de negócio, colocação do expediente em dia, e dar palestra a um público, para merchandising de produtos da firma. Esse minúsculo espaço de ócio, serve para mostrar, - até que enfim! - então, a nossa face inteiriça, primitiva e verdadeira, sem os subterfúgios usuais, de quaisquer maquiagens impostas socialmente, ou de cobranças familiares, bem assim, de dever de ofício ou, ainda salvar-se de imprecações, de caras feias, chiste, ou menosprezo, num raro momento de ócio não programático, numa paz de bebê enlevado pelo sono.
De todo modo, valer-se do ócio, como forma de alcançar, talvez, um substrato para atingir-se “a saúde” tem seu quinhão de validade nada desprezível, e, como tal, não deve ser subestimado, apesar de todos os fatores negativos existentes em pauta.


Mário Inglesi

2 comentários:

  1. Muito prolixo e vazio!

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    Respostas
    1. Sobre o singelo e sintético comentário compartilhado, sugiro o seguinte vídeo para apreciação oportuna em um momento tranquilo, se possível em tempo não odioso senão ocioso.

      https://youtu.be/hU6ey_2socU

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