FRIEDERICH SCHILLER
– nota de rodapé da obra “A Educação Estética do Homem”
Para leitores que não estejam
familiarizados com a significação deste termo tão mal-empregado pela
ignorância, sirva de explicação o seguinte. Todas as coisas que de algum modo
possam ocorrer no fenômeno são pensáveis sob quatro relações diferentes. Uma
coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa existência e
bem estar): esta é a sua índole física. Ela pode, também, referir-se a nosso
entendimento, possibilitando-nos conhecimento: esta é sua índole lógica. Ela pode, ainda, referir-se à
nossa vontade e ser considerada como objeto de escolha para um ser racional:
esta é sua índole moral. Ou,
finalmente, ela pode referir-se ao todo de nossas diversas faculdades sem ser
objeto determinado para nenhuma isolada dentre elas: esta é sua índole
estética. Um homem pode ser-nos agradável por sua solicitude; pode, pelo
diálogo, dar-nos o que pensar; pode incutir respeito pelo seu caráter; enfim,
independentemente disso tudo e sem que tomemos em consideração alguma lei ou
fim, ele pode aprazer-nos na mera contemplação e apenas por seu modo de
aparecer. Nesta última qualidade, julgamo-lo esteticamente. Existe, assim, uma educação
para a saúde, uma educação do pensamento, uma educação para a moralidade, uma educação
para o gosto e a beleza. Esta tem por fim desenvolver em máxima harmonia o todo
de nossas faculdades sensíveis e espirituais. Para contrariar a corriqueira sedução
de um falso gosto, fortalecido também por falsos raciocínios segundo os quais o
conceito do estético comporta o do arbitrário, observo ainda uma vez (embora
estas cartas sobre a educação estética de nada mais se ocupem além da refutação
deste erro) que a mente no estado estético, embora livre, e livre no mais alto
grau, de qualquer coerção, de modo algum age livre de leis; e acrescento que a
liberdade estética se distingue da necessidade lógica no pensamento e da
necessidade moral no querer, apenas pelo fato de que as leis segundo as quais a
mente procede ali não são representadas
e, como não encontram resistência, não aparecem como constrangimento.
