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segunda-feira, 8 de maio de 2017

SIMETRIA VI – O PARADOXO, UM PARADIGMA?


Continuação de:

Jesus disse: Se a carne foi criada por causa do espírito, isto é uma maravilha, mas se o espírito foi criado por causa do corpo, isto é a maravilha das maravilhas. No entanto, maravilha-me como essa grande riqueza veio a estar nessa pobreza. (Apócrifo – Tomé: 29)


No artigo "A mente mente", encontramos um curioso caso de simetria, de um lado o convite à fonte e de outro um caminho ao umbigo, contingências da tensão na caminhada entre aquele que é buscador e aquele que busca a dor. A mente é o ponto de inflexão desta simetria. Mente que para o ocultista é filtro das qualidades superiores em manifestação e que o manifesta, enquanto que para o cientista é espelho que reflete o mundo dos sentidos e o explica.
O paradoxo, um disfarce da simetria, é uma situação além do alcance da razão. Grosso modo, a ciência moderna foge dos paradoxos como “o diabo da cruz”; aliás, eventualmente utiliza-os, de forma marota, como substrato para aumentar a consistência de suas premissas e metodologias. Veja aqui uma lista de paradoxos:

        A negação apriorística de possibilidades, modus operandi de alguns cientistas, é o caminho escolhido pelos cruzados da ciência moderna, a despeito da máxima: “Ausência de evidência não significa evidência de ausência”. Todo cientista pode e deve sempre refletir sobre seus pressupostos.
        Assim, um paradoxo, bem como a simetria, não trata necessariamente de um par de opostos, mas de um par semelhante, que longe de oposição, aponta o novo à luz de perspectiva inusitada; a partir de um de seus inúmeros pontos de vista. O oposto de “algo” é mais próximo de um “não algo” que sua reflexão (pensamento espelhado).
        Das simetrias que me fascinam, a questão do material e do espiritual está entre as que mais despertam “anticorpos” no cientista materialista, dada a impossibilidade atual de aproximação qualitativa e quantitativa da mesma. Vista pelo materialista como relação do tipo “existe – não existe”, torna a priori infundada qualquer tentativa de estudo. Entretanto, pode haver benefícios práticos ao bem viver em tentativas salutares e não apriorísticas de abordagem do desconhecido, do improvável, do impossível, do espiritual.
Claro que a ciência deve zelar pela construção racional da compreensão do mundo físico em suas manifestações; refiro-me aqui apenas à necessidade de algum ramo (Ex. Fenomenologia de Goethe), que se dedique ao campo de fronteira entre a compreensão do físico (possível de ser desmembrado) e o suprafísico, que antes de ser permeado, quiçá desmembrado, precisa ser concebido pela ciência. Conceber algo guarda longa distância de conceituar algo. Ser concebido implica possibilidade (potência), situação muito aquém de ser compreendido.
Na proposta de Heidegger, o compreender algo foi levado à sua máxima expressão. Segundo ele (Os conceitos fundamentais da Metafísica - Mundo, Finitude e Solidão), nunca conceberemos conceitos se não formos tomados pelo que eles compreendem. Este "ser tomado por", seu despertar e seu cultivo vigem como esforço fundamental do filosofar. Assim, compreender é sempre ao mesmo tempo um ser tomado por isso que se compreende. Isso pode ser aproximado analogicamente a um processo respiratório de outra qualidade natural, em que o “ar” é compreendido em mim na inspiração e como contraparte eu sou compreendido no “ar” quando expiro.
E se não entendeu, continue respirando, calmamente e será compreendido...

terça-feira, 8 de abril de 2014

SIMETRIA IV - UMA POSSIBILIDADE INSÓLITA

Continuação de:

Simetrias I
Simetrias um pouco mais
Simetrias II
Simetrias III




Narciso e Eco - Observe-se a verticalidade x horizontalidade além da cor das vestes


Existe como que uma simetria linguística, conceitual, envolvendo as ciências duras e moles. Dura e mole são, neste caso, sinônimos para o entendimento respectivo das ciências natural e social (Ciência - wikipedia). Grosso modo, a sustentação conceitual para que uma ciência seja considerada dura é a existência de um paradigma (modelo) sobre o qual ela possa ser constituída (Paradigma - wikipedia). Os proponentes mais exaltados deste pensar argumentam que as "ciências moles" não usam o método científico, e que ousam admitir evidências “anedotais” ou não matemáticas, carecendo de rigor em seus métodos!

Oponentes moderados argumentam que as "ciências sociais" se articulam sobre sistemáticos estudos estatísticos em ambientes estritamente controlados e que essas condições nem sempre são respeitadas sequer pelas ciências naturais. Cite-se a Astronomia, ciência observacional que se desenvolve peculiarmente, haja vista as grandezas e distâncias envolvidas.

Galáxia Sombrero

De fato, para uma teoria classificar-se como científica, deve obedecer aos rigores do método científico sem que transcenda o paradigma vigente sob o qual foi concebida. Mas, e se a teoria não couber no paradigma, for maior que ele? Isso implica que para um conhecimento em humanidades adquirir grau de científico, deveria se articular sobre um paradigma. Neste caso, isso implicaria em estabelecer um modelo ou compreensão básica em relação à questão magna: “O que é a Vida?”. Mas como alcançar questionamentos desta envergadura neste momento em que o humano chafurda em preconceitos? Pré conceitos falsos assumidos a priori decorrentes de seu próprio desinteresse a respeito do que seja a vida. Para muitos, até hoje, a Terra orbita um Sol central estático, ignorando o fato do mesmo ser um viajor sideral a cerca de 72000 Km/h ou 20 Km/s!


Supondo que tal paradigma pudesse ser estabelecido, uma ciência, gramaticalmente constituída e funcionalmente equipada, com sua matemática própria e com suas leis daria os ares de sua graça. Curioso notar, entretanto que o próprio método científico e seu atual paradigma dificulta a possibilidade de um novo olhar, visto ser hoje pedra angular de toda estrutura social. Na mesma medida em que é palavra última a respeito do que se trata a vida e sobre qual é a direção do “progresso” e sobre o que é desenvolvimento, silenciosa e sub-repticiamente determina como as pessoas devem viver.



“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (J.G.)



Lembre-se que o humano, sendo sugestionável e respondendo instintivamente a muitas situações, presentemente tem pouca consciência do processo maior que subjaz à própria existência. De fato, viver menos de um século deveras dificulta esta compreensão, especialmente em momentos de liquefação nas relações e aceleração do ritmo de vida decorrente do estado sutil de adoecimento social. Fundamentalmente isso deságua em outra questão magna da qual o humano se afasta mais a cada dia: “Qual é o sentido da vida?”. Ocuparam-se desta questão com propriedade solene, dois pensadores de ascendência judaica, Viktor Frankl e Erich Fromm.

Em vista da insolubilidade epistemológica desta questão, Schrödinger, físico fundamental na elaboração da teoria quântica (cuja equação de onda leva seu nome), interessado em religiões tradicionais e filosofia da física, deu um pequeno passo em seu modesto e profundo ensaio: “O que é a vida” (What is life – 1944). Sem entrar nos pormenores, a parte curiosa diz respeito à sua colocação em relação às simetrias e à biologia. Nesta obra, leitura imprescindível, o autor esmiúça um olhar simétrico e comparativo aos cristais periódicos e aperiódicos. O cromossomo (DNA) pode ser visto como um cristal aperiódico carregador da vida, segundo ele. Em suas palavras:


“Para dar à sentença vida e cor, permita-me antecipar o que será explicado em muito mais detalhes à frente; seja que a parte mais essencial de uma célula viva, o cromossomo, possa ser chamada apropriadamente um cristal aperiódico. Em física temos lidado, até então, apenas com cristais periódicos. Para a mente de um físico humilde, estes são objetos muito interessantes e complicados, constituindo uma das mais fascinantes e complexas estruturas materiais pela qual a natureza inanimada arquiteta sua perspicácia. Ainda assim, comparados aos cristais aperiódicos, eles são mais simples e sem graça. A diferença em estrutura é do mesmo tipo que aquela entre um papel de parede ordinário no qual o mesmo padrão se repete indefinidamente em periodicidade regular e um bordado artístico, digamos uma tapeçaria de Rafael, sem repetições óbvias, mas um desenho elaborado, coerente, significativo traçado pelo grande mestre. Ao chamar o cristal periódico como um dos mais complexos objetos de sua pesquisa, eu tinha em mente o físico propriamente. A química orgânica, na verdade, ao investigar moléculas mais e mais complexas, se aproximou muito mais daquele “cristal aperiódico”, que em minha opinião, é o material carregador da vida.” (E. Schrödinger – What is life? The Physical Aspect of the Living Cell – 1944. p.3-4)




Cerca de nove anos após as palavras de Schrödinger, Watson e Crick em 1953 descreviam a molécula de DNA, sendo em 1962 agraciados com o Nobel de Medicina. Mais recentemente, em 1995, uma nova obra: “O que é a vida? 50 anos depois” – traduzida pela editora UNESP – revisita a proposta de Schrödinger e nos presenteia com várias novas pérolas e especulações sobre o futuro da biologia; merece ler e reler!

Recentemente, alguma atenção foi dada aos cristais aperiódicos conforme citação na segunda parte da presente reflexão, em relação aos quasicristais. Mas enquanto a ciência não monta o “quebra-cabeça”, sempre vale apreciar visões menos convencionais, que fora do paradigma vigente possam oferecer alternativas ao pensamento cristalizado, mineralizado e quiçá morto.


A fim de explicitar graficamente as relações possíveis no mundo fenomênico, os físicos utilizam o diagrama de Minkowiski (Diagrama Minkowski - wikipedia). Pelo diagrama é possível observar três tipos de intervalos na descrição da realidade: tipo tempo, tipo espaço e tipo luz. Grosso modo, habitamos uma realidade do tipo tempo, caracterizada pela observação sucessiva de eventos que interpretamos a partir da noção de que uma causa gera um efeito consequente. Simplificando, no intervalo tipo luz, o tempo pararia e a causalidade cessaria como se fosse um mundo de simultaneidade atemporal. No intervalo tipo espaço, é concebida conceitualmente a ideia de um espaço de realidades fenomênicas ocorrendo a velocidades superiores à da luz, o que ocasionaria um desacoplamento da relação de causa e efeito conforme estamos habituados, podendo o efeito se manifestar antes da causa, por exemplo. Esta concepção aparentemente insana é bem ilustrada por Steiner abaixo. Autores como Alan Lightman em “Sonhos de Einstein” e Italo Calvino em “Cidades Invisíveis” encaram estas ideias com galhardia e estimulam a criar espaço interior para conceber a realidade sob perspectivas inusitadas até o momento presente.

Rudolf Steiner proferiu uma palestra em 17 de maio de 1905 sobre possibilidade insólita e ainda pouco considerada em nossos dias, senão repudiada. Trata-se de um olhar à quarta dimensão como outro plano de existência, chamado pelo autor de mundo astral. O pré-requisito básico para a compreensão das ocorrências neste espaço seria a interpretação simétrica de eventos! Nas palavras de Steiner, os eventos posteriores ocorreriam primeiro e os anteriores ocorreriam a posteriori, ocorrendo aqui como que uma inversão na relação de causalidade (causa-efeito). Se no plano físico o nascimento ocorre primeiro e nascimento significa que algo novo nasceu de algo antigo, no plano astral o antigo emergiria do novo, de modo que a paternidade e a maternidade estariam de fato no interior do filho ou da filha.

Usando a mitologia grega como instrumento, Steiner simboliza três mundos a partir das divindades gregas Urano, Cronos e Zeus. Urano representando o mundo do pensamento (devachan), Cronos o mundo astral e Zeus o mundo físico. É dito que Cronos devorava suas crianças. No mundo astral, a criação não nasce, mas é devorada. Nas palavras de Steiner:

“A questão se torna ainda mais complexa quando consideramos a moralidade no plano astral. A moralidade, também aparece de forma reversa, ou como sua própria imagem espelho (simétrica). Você pode imaginar o quanto as explicações dos eventos lá diferem de nossas explicações habituais no mundo físico. Imagine, por exemplo, que vejamos um animal selvagem se aproximando de nós no mundo astral e que ele nos devora. Assim é como parece para alguém habituado a interpretar eventos externos, mas não podemos interpretar este evento como o faríamos no mundo físico. Na realidade, o animal selvagem é uma qualidade interna, um aspecto de nosso próprio corpo astral que nos devora. O ataque devorador é uma qualidade residente em nossos próprios desejos. Se tivermos um pensamento de vingança, por exemplo, o pensamento pode assumir uma forma exterior e nos atormentar como o Anjo da Morte. Na realidade, tudo no mundo astral irradia de nós. Devemos interpretar tudo que se aproxima de nós no mundo astral como irradiado a partir de nosso interior. Este conteúdo retorna a nós por todos os lados como vindo da periferia, do espaço infinito. Na verdade, entretanto, estamos nos confrontando apenas com o que nosso próprio corpo astral emitiu.” (R. Steiner – The Fourth Dimension – Sacred Geometry, Alchemy and Mathematics – p.20)




É preciso parcimônia neste momento em que tudo parece vitimado por explicações quânticas, apesar de até agora a teoria estar dando conta do recado, ao menos dentro do domínio físico material. Aferir realidades suprassensíveis com técnicas e materiais de uma realidade inferior parece contrassenso a ser repensado. Ao que tudo indica pode ser necessária uma transformação na própria forma como concebemos a realidade antes de prosseguir.



Explicar o inexplicável ou inefável com substratos do mundo da matéria pede atenção! A razão e a lógica são ferramentas indiscutivelmente poderosas dentro de suas arenas, mas podem não sê-lo em outras questões. Um modelo alternativo de elaboração, nem melhor nem pior, apenas diferente, é o pensar analógico que encontra nos mitos sua expressão plena. Os mitos funcionam como um milagre ou espelho que por concessão simétrica nos permite algum vislumbre do incognoscível, desde que haja mínima reverência no coração do buscador pelo fundamento de sua busca (Michael Ende trata disso no capítulo 6 e 7 da obra "História sem Fim").

Não bastasse isso tudo, um afastamento temporal ainda mais ousado, permite o vislumbre de um fenômeno simétrico significativo, ainda pouco compreendido, descrito por Paulo na primeira carta aos Coríntios.
Conversão de Saulo - Note-se a horizontalização do humano e a verticalização do animal - Damasco (Cidade do Jasmin)


“A nossa ciência é parcial, a nossa profecia imperfeita. Quando chegar o que é perfeito o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, julgava como criança, quando me tornei homem, acabei com as coisas de criança. Porque agora vemos por um espelho, obscuramente; mas então veremos face a face. Agora conheço em parte; mas então conhecerei plenamente, assim como também fui plenamente conhecido.”


A provocativa simetria poética do texto acima se faz ainda mais significativa quando vista à luz da concepção Paulina de corpo psíquico (Soma Psuchicon - Psiqué – Alma), corpo alma – que animaria o corpo físico (anima = alma) e permitiria o despertar consciente nos planos suprafísicos; enfim, a ideia de um corpo representando a própria manifestação conceitual e funcional de simetria.

Loucura ou caminho para um pensar mais vivo?


terça-feira, 5 de novembro de 2013

SIMETRIA III - A NATUREZA E SEUS TRUQUES

Continuação de:
http://saudeconsciencia.blogspot.com/2011/08/desenvolvimento-humano-e-simetria.html
http://saudeconsciencia.blogspot.com.br/2011/09/simetria-um-pouco-mais.html
http://saudeconsciencia.blogspot.com.br/2012/02/simetria-em-cristais-parte-ii.html


Um labirinto é uma casa edificada para confundir os homens; sua arquitetura, pródiga em simetrias, está subordinada a esse fim. (J.L.Borges – O Aleph)


Há muito tempo os físicos sabem que a simetria é um quesito que revela a ordem naquilo que aparenta ser caos. Um exemplo clássico é a invariância das leis físicas em todo o universo (simetria por deslocamento). Entre os exemplos mais interessantes encontramos o da simetria entre partícula e antipartícula, de acordo com a qual cada partícula subatômica tem seu correspondente com polaridade oposta. Para Wolfgang Pauli cuja visão de simetria se estendeu além do campo da ciência, chegando a uma concepção holística englobando o psiquismo e a matéria, na qual cada um reflete o outro, as simetrias são vistas como uma característica da natureza. As próprias contribuições de Pauli para a física moderna muitas vezes foram decorrentes de extrapolações e analogias a situações vivenciadas em sonhos e compartilhadas com seu amigo Jung; sugerindo mais uma vez a percepção simétrica entre o estado de sono e vigília.
De todas as simetrias, aquelas que acontecem na arte são minhas preferidas. O dia “doce” de junho, simétrico mês de gêmeos, é o dia do amor e não duvido seja o dia do simétrico abaixo...


Um dia de amor simétrico - https://youtu.be/vn0zj2Ozmvc

O químico alemão Friedrich August Kekulé von Stradonitz, também chegou à descrição simétrica do anel hexagonal de Benzeno em sonho:
“Eu estava sentado à mesa a escrever o meu compêndio, mas o trabalho não rendia; os meus pensamentos estavam noutro sítio. Virei a cadeira para a lareira e comecei a dormitar. Outra vez começaram os átomos às cambalhotas em frente dos meus olhos. Desta vez os grupos mais pequenos mantinham-se modestamente à distância. A minha visão mental, aguçada por repetidas visões desta espécie, podia distinguir agora estruturas maiores com variadas conformações; longas filas, por vezes alinhadas e muito juntas; todas torcendo-se e voltando-se em movimentos serpenteantes. Mas olha! O que é aquilo? Uma das serpentes tinha filado a própria cauda e a forma que fazia rodopiava diante dos meus olhos. Como se se tivesse produzido um relâmpago, acordei; ...passei o resto da noite a verificar as consequências da hipótese. Aprendamos a sonhar, senhores, pois então talvez nos apercebamos da verdade." - Augusto Kekulé, 1865.
Além de Kekulé, pensadores, cientistas e matemáticos como René Descartes, Thomas Édison e Mendeleiev também vivenciaram visões reveladoras na simetria sono-vigília. Descartes, em viagem à Alemanha, teve uma visão em sonho de um novo sistema matemático e científico. Thomas Édison teve vários insights durante o sono. O pai da tabela periódica, Dmitri Mendeleiev, afirmou ter tido um sonho no qual era mostrado o modelo da tabela periódica atual.
Ora, se a física abunda em histórias e teorias simétricas e supersimétricas, a literatura não fica para trás. Machado de Assis cuidou em explicar com maestria no conto “O espelho”, abaixo, o porquê de cada criatura humana trazer duas almas em si: a que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro. Não deixe de ler, em um momento tranquilo...

Esse tal de Osho disse que o mundo é apenas um reflexo, uma grande simetria; se você tem resistência, então o mundo inteiro tem resistência. Andar sem deixar pegadas é silenciar os espelhos. Em um de seus escritos ele contou uma estória que aconteceu uma vez...
“Um rei construiu um palácio, um palácio feito de milhões de espelhos – todas as paredes estavam cobertas de espelhos. Um cão entrou no palácio e viu milhões de cães ao redor. Assim, sendo um cão inteligente, ele começou a latir para se proteger dos outros milhões de cães em volta dele. Sua vida estava em perigo. Ele deve ter ficado tenso, e cãomeçou a latir. E quando ele começou a latir, os milhões de cães começaram a latir também.
De manhã o cão foi encontrado morto”.

Caramba! Já pensou um dia desses não acordar? A última simetria, a dos gêmeos da pintura: Hipnos (sono) e Tanatos (morte)...

Sono e seu irmão gêmeo Morte - Tela de 1874 por John William Waterhouse

segunda-feira, 6 de maio de 2013

BURACOS E FUROS II – NEUROPLASTICIDADE E SABEDORIA V

Continuando...


Do mesmo modo que a voz e seu som preenchem o vazio do silêncio exterior, por meio do ar que vibra as cordas vocais, existe outra, que vem de dentro, mas que vibra as “cordas da alma”. Esse som da alma, que para cada um é diferente, é medicação de primeira escolha, pílula de saúde, no sentido do despertar para o significado existencial pleno. Escutá-lo pede algum grau de silêncio e saciedade quanto à necessidade de preencher buracos, sejam eles das bolsas, sapatos, carteiras, carros, assim como todos os outros símbolos fálicos e uterinos da autoprojeção social do mundo contemporâneo.

O espaço dos sentidos deve ser protegido com amor da influência do neuromarketing, assim como hoje se guarda o dinheiro protegido nos bancos. O que se apresenta aos olhos, ouvidos, olfação, tato etc., importante saber, quando repetidos ad nauseum, se tornam verdades interiores, se acostuma a elas. De tanto os órgãos dos sentidos serem estimulados a crer que precisam ser preenchidos por algo, a pessoa pode passar a acreditar que isto seja verdade, afinal de contas, se há um buraco ele precisa ser preenchido! A estrutura empática do humano, relacionada ao sistema dos neurônios em espelho (veja aqui: http://saudeconsciencia.blogspot.com.br/2011/10/neuroplasticidade-e-sabedoria-parte-iii.html), o coloca em situação de fragilidade frente aos estímulos midiáticos ao preenchimento de buracos e “vazios” (consumo).




(Envelhecendo em 1 minuto)



            Mas e o buraco existencial daquele ser que já se fartou de todas as formas de preenchimento disponíveis nas lojas de conveniência, “lojas de conivência” e centros de compras? Como preenchê-lo? De fora para dentro ou de dentro para fora? Ou será um espaço que deve ser mantido vazio? Por que geralmente se cuida mais em preencher o vazio material que o existencial? Buracos assim, como os abismos, muito comumente se associam a situações de queda e de oportunidades, como no conto autobiográfico:

Autobiografia em cinco capítulos

 1. Ando pela rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Eu caio...

Estou perdido... Sem esperança.

Não é culpa minha.

Leva uma eternidade para encontrar a saída.



2. Ando pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Mas finjo não vê-lo.

Caio nele de novo.

Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.

Mas não é culpa minha.

Ainda assim leva um tempão para sair.



3. Ando pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Vejo que ele ali está.

Ainda assim caio... É um hábito.

Meus olhos se abrem.

Sei onde estou.

É minha culpa.

Saio imediatamente.



4. Ando pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Dou a volta.



5. Ando por outra rua.

(Texto extraído de "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer" -“ Sogyal Rinpoche -“)



            Se como vimos surpreende a proximidade etimológica de buraco e todo (Hole x Whole), causa assombro, no inglês mais uma vez, a intimidade entre as anteriores e santidade (Hole x Whole x Holy); coincidências? Talvez, mas a proximidade de santidade, sanidade e saúde enquanto estados de coerência interior não pode passar despercebida.

Viver com a sensação da necessidade constante de ter que preencher um buraco, seja por fome ou por carência, é condição comum àqueles que se encontram em estado de sub-saúde ou mesmo de pré-doença, situações diversas que antecedem o estado de doença. É precisa muita atenção para desviar deste buraco! De fato, quando se vive em um buraco, como aquele do sapo que morava no fundo do poço, é custoso acreditar nas coisas que os sapos que vêm de longe contam...




Os dois sapos.



Os “vazios” de algumas personalidades como Francisco de Assis, Sidarta Gautama, Mohandas Gandhi, bem nascidos que se fartaram de seus ambientes cheios, foram preenchidos com algo que hoje nos serve de nutrientes ou de certa forma inspiração para o viver. Ser inspiração, um dos efeitos do esvaziar-se para ser parte ao invés de ter parte de algo, é marca de quem cavou fundo em si e tornou-se recipiente para a graça, que para ser plena requer que o cálice de cada ser esteja esvaziado para que sua sacralidade seja alcançada na aliança do humano com o sobre-humano. Este estado de graça ou sacralidade acontece quando a pureza do Ser, que é eterno, é depurada do prazer do ter, que é temporal.






Possível aproximação do simbolismo do chamado “Santo Graal”; abrir-se para que a graça do sobre-humano irradie para o interior do humano, transformando-o e transformando-Se. Nesse sentido, vale lembrar a advertência de Cristo no episódio do buraco da agulha, sugerindo que em diferentes reinos ser rico se aproxima mais de um estado de esvaziamento que de preenchimento.

Finalmente, mas não menos importante, há que se lembrar: buraco e vazio são coisas muito diversas! Ao que tudo indica o vazio inexiste na natureza, já os buracos são ubíquos e vão desde os negros até os dos queijos suíços. De fato é custoso à razão conceber o conceito de vazio. Como vimos, o próprio conceito contemporâneo de vácuo traz em seu cerne a ideia de uma população infindável de partículas em estados energéticos muito baixos e próximos a um equilíbrio, que se mostra nos modelos e aos aparelhos medidores como algo que se aproxima da ideia de nada; mas, nada mesmo, como ideia de ausência de qualquer coisa ou como um vazio absoluto, só pode ser concebido pela mente e pelo pensar humanos que, aliás, são capazes de qualquer coisa. De resto, a natureza abunda em exemplos do continuum ou plenum que caracteriza o cosmos.

            Mas, dentre todos os buracos, clama cuidado supremo aquele que leva à prisão da liberdade. Michael Ende com maestria explora esse buraco no seguinte conto que conduz ao buraco que mergulha na região do círculo do caos:




Se depois desse singelo voo ainda houver espaço livre em seu Ser, permita uma sugestão respeitosa de preenchimento: