A Medicina da Saúde é baseada na preservação e na promoção. É sempre superior à Medicina da Doença focada na cura e na prevenção. Somos seres humanos e não "teres humanos”. A doença começa quando se deixa o SER pelo TER; saúde e vitalidade aumentam na direção do SER. A busca pelo SER leva à ampliação da consciência, guia do homem saudável e espelho para o doente. Refletindo o exemplo a ser imitado mostra como sair da horizontalidade do adormecimento e entrar na verticalidade do despertar.
Jesus disse: Se a carne foi criada por
causa do espírito, isto é uma maravilha, mas se o espírito foi criado por causa
do corpo, isto é a maravilha das maravilhas. No entanto, maravilha-me como essa
grande riqueza veio a estar nessa pobreza. (Apócrifo – Tomé: 29)
No artigo "A
mente mente", encontramos um curioso caso de simetria, de um lado o
convite à fonte e de outro um caminho ao umbigo, contingências da tensão na
caminhada entre aquele que é buscador e aquele que busca a dor. A mente é o
ponto de inflexão desta simetria. Mente que para o ocultista é filtro das
qualidades superiores em manifestação e que o manifesta, enquanto que para o cientista é espelho que reflete o
mundo dos sentidos e o explica.
O
paradoxo, um disfarce da simetria, é uma situação
além do alcance da razão. Grosso modo, a ciência moderna foge dos paradoxos
como “o diabo da cruz”; aliás, eventualmente utiliza-os, de forma marota, como
substrato para aumentar a consistência de suas premissas e metodologias. Veja
aqui uma lista de paradoxos:
A negação apriorística de
possibilidades, modus operandi de alguns cientistas, é o caminho escolhido
pelos cruzados da ciência moderna, a despeito da máxima: “Ausência de evidência
não significa evidência de ausência”. Todo cientista pode e deve sempre
refletir sobre seus pressupostos.
Assim, um paradoxo, bem como a
simetria, não trata necessariamente de um par de opostos, mas de um par
semelhante, que longe de oposição, aponta o novo à luz de perspectiva
inusitada; a partir de um de seus inúmeros pontos de vista. O oposto de “algo”
é mais próximo de um “não algo” que sua reflexão (pensamento espelhado).
Das simetrias que me fascinam, a
questão do material e do espiritual está entre as que mais despertam
“anticorpos” no cientista materialista, dada a impossibilidade atual de
aproximação qualitativa e quantitativa da mesma. Vista pelo materialista como
relação do tipo “existe – não existe”, torna a priori infundada qualquer
tentativa de estudo. Entretanto, pode haver benefícios práticos ao bem viver em
tentativas salutares e não apriorísticas de abordagem do desconhecido, do
improvável, do impossível, do espiritual.
Claro que a ciência deve zelar pela construção racional da compreensão do
mundo físico em suas manifestações; refiro-me aqui apenas à necessidade de
algum ramo (Ex. Fenomenologia de Goethe), que se dedique ao campo de fronteira
entre a compreensão do físico (possível de ser desmembrado) e o suprafísico,
que antes de ser permeado, quiçá desmembrado, precisa ser concebido pela
ciência. Conceber algo guarda longa distância de conceituar algo. Ser concebido
implica possibilidade (potência), situação muito aquém de ser compreendido.
Na proposta de Heidegger, o compreender algo foi levado à sua máxima expressão.
Segundo ele (Os conceitos fundamentais da
Metafísica - Mundo, Finitude e Solidão), nunca conceberemos conceitos se
não formos tomados pelo que eles compreendem. Este "ser tomado por", seu
despertar e seu cultivo vigem como esforço fundamental do filosofar. Assim,
compreender é sempre ao mesmo tempo um ser tomado por isso que se compreende. Isso
pode ser aproximado analogicamente a um processo respiratório de outra qualidade
natural, em que o “ar” é compreendido em mim na inspiração e como contraparte
eu sou compreendido no “ar” quando expiro.
E se não entendeu, continue respirando, calmamente e será compreendido...
Narciso e Eco - Observe-se a verticalidade x horizontalidade além da cor das vestes
Existe como que uma
simetria linguística, conceitual, envolvendo as ciências duras e moles. Dura e
mole são, neste caso, sinônimos para o entendimento respectivo das ciências
natural e social (Ciência - wikipedia).
Grosso modo, a sustentação conceitual para que uma ciência seja considerada
dura é a existência de um paradigma (modelo) sobre o qual ela possa ser
constituída (Paradigma - wikipedia).
Os proponentes mais exaltados deste pensar argumentam que as "ciências
moles" não usam o método científico, e que ousam admitir evidências “anedotais”
ou não matemáticas, carecendo de rigor em seus métodos!
Oponentes moderados
argumentam que as "ciências sociais" se articulam sobre sistemáticos
estudos estatísticos em ambientes estritamente controlados e que essas
condições nem sempre são respeitadas sequer pelas ciências naturais. Cite-se a
Astronomia, ciência observacional que se desenvolve peculiarmente, haja vista
as grandezas e distâncias envolvidas.
Galáxia Sombrero
De fato, para uma teoria
classificar-se como científica, deve obedecer aos rigores do método científico
sem que transcenda o paradigma vigente
sob o qual foi concebida. Mas, e se a teoria não couber no paradigma, for maior
que ele? Isso implica que para um conhecimento em humanidades adquirir grau de
científico, deveria se articular sobre um paradigma. Neste caso, isso
implicaria em estabelecer um modelo ou compreensão básica em relação à questão
magna: “O que é a Vida?”. Mas como alcançar questionamentos desta envergadura neste momento em que o humano chafurda em preconceitos? Pré conceitos falsos assumidos a priori decorrentes de seu próprio desinteresse a respeito do que seja a vida. Para muitos, até hoje, a Terra orbita um Sol central estático, ignorando o fato do mesmo ser um viajor sideral a cerca de 72000 Km/h ou 20 Km/s!
Supondo que tal paradigma
pudesse ser estabelecido, uma ciência, gramaticalmente constituída e
funcionalmente equipada, com sua matemática própria e com suas leis daria os
ares de sua graça. Curioso notar, entretanto que o próprio método científico e
seu atual paradigma dificulta a possibilidade de um novo olhar, visto ser hoje
pedra angular de toda estrutura social. Na mesma medida em que é palavra última
a respeito do que se trata a vida e sobre qual é a direção do “progresso” e
sobre o que é desenvolvimento, silenciosa e sub-repticiamente determina como as
pessoas devem viver.
“Uma mentira
repetida mil vezes torna-se verdade” (J.G.)
Lembre-se que o humano,
sendo sugestionável e respondendo instintivamente a muitas situações,
presentemente tem pouca consciência do processo maior que subjaz à própria
existência. De fato, viver menos de um século deveras dificulta esta
compreensão, especialmente em momentos de liquefação nas relações e aceleração
do ritmo de vida decorrente do estado sutil de adoecimento social.
Fundamentalmente isso deságua em outra questão magna da qual o humano se afasta
mais a cada dia: “Qual é o sentido da vida?”. Ocuparam-se desta questão com
propriedade solene, dois pensadores de ascendência judaica, Viktor Frankl e
Erich Fromm.
Em vista da
insolubilidade epistemológica desta questão, Schrödinger, físico fundamental na
elaboração da teoria quântica (cuja equação de onda leva seu nome), interessado
em religiões tradicionais e filosofia da física, deu um pequeno passo em seu
modesto e profundo ensaio: “O que é a vida” (What is life – 1944). Sem entrar
nos pormenores, a parte curiosa diz respeito à sua colocação em relação às
simetrias e à biologia. Nesta obra, leitura imprescindível, o autor esmiúça um
olhar simétrico e comparativo aos cristais periódicos e aperiódicos. O
cromossomo (DNA) pode ser visto como um cristal aperiódico carregador da vida,
segundo ele. Em suas palavras:
“Para dar à
sentença vida e cor, permita-me antecipar o que será explicado em muito mais
detalhes à frente; seja que a parte mais essencial de uma célula viva, o
cromossomo, possa ser chamada apropriadamente um cristal aperiódico. Em física
temos lidado, até então, apenas com cristais periódicos. Para a mente de um
físico humilde, estes são objetos muito interessantes e complicados, constituindo
uma das mais fascinantes e complexas estruturas materiais pela qual a natureza
inanimada arquiteta sua perspicácia. Ainda assim, comparados aos cristais aperiódicos, eles são
mais simples e sem graça. A diferença em estrutura é do mesmo tipo que aquela
entre um papel de parede ordinário no qual o mesmo padrão se repete
indefinidamente em periodicidade regular e um bordado artístico, digamos uma
tapeçaria de Rafael, sem repetições óbvias, mas um desenho elaborado, coerente,
significativo traçado pelo grande mestre. Ao chamar o cristal periódico como um
dos mais complexos objetos de sua pesquisa, eu tinha em mente o físico
propriamente. A química orgânica, na verdade, ao investigar moléculas mais e
mais complexas, se aproximou muito mais daquele “cristal aperiódico”, que em
minha opinião, é o material carregador da vida.” (E. Schrödinger –
What is life? The Physical Aspect of the Living Cell – 1944. p.3-4)
Cerca de nove anos após as
palavras de Schrödinger, Watson e Crick em 1953 descreviam a molécula de DNA, sendo
em 1962 agraciados com o Nobel de Medicina. Mais recentemente, em 1995, uma
nova obra: “O que é a vida? 50 anos depois” – traduzida pela editora UNESP –
revisita a proposta de Schrödinger e nos presenteia com várias novas pérolas e
especulações sobre o futuro da biologia; merece ler e reler!
Recentemente, alguma
atenção foi dada aos cristais aperiódicos conforme citação na segunda parte da
presente reflexão, em relação aos quasicristais. Mas enquanto a ciência não
monta o “quebra-cabeça”, sempre vale apreciar visões menos convencionais, que fora
do paradigma vigente possam oferecer alternativas ao pensamento cristalizado,
mineralizado e quiçá morto.
A fim de explicitar
graficamente as relações possíveis no mundo fenomênico, os físicos utilizam o
diagrama de Minkowiski (Diagrama Minkowski - wikipedia).
Pelo diagrama é possível observar três tipos de intervalos na
descrição da realidade: tipo tempo, tipo espaço e tipo luz. Grosso modo,
habitamos uma realidade do tipo tempo, caracterizada pela observação sucessiva
de eventos que interpretamos a partir da noção de que uma causa gera um efeito
consequente. Simplificando, no intervalo tipo luz, o tempo pararia e a
causalidade cessaria como se fosse um mundo de simultaneidade atemporal. No
intervalo tipo espaço, é concebida conceitualmente a ideia de um espaço de realidades
fenomênicas ocorrendo a velocidades superiores à da luz, o que ocasionaria um
desacoplamento da relação de causa e efeito conforme estamos habituados,
podendo o efeito se manifestar antes da causa, por exemplo. Esta concepção aparentemente
insana é bem ilustrada por Steiner abaixo. Autores como Alan Lightman em “Sonhos
de Einstein” e Italo Calvino em “Cidades Invisíveis” encaram estas ideias com
galhardia e estimulam a criar espaço interior para conceber a realidade sob
perspectivas inusitadas até o momento presente.
Rudolf Steiner proferiu
uma palestra em 17 de maio de 1905 sobre possibilidade insólita e ainda pouco
considerada em nossos dias, senão repudiada. Trata-se de um olhar à quarta
dimensão como outro plano de existência, chamado pelo autor de mundo astral. O
pré-requisito básico para a compreensão das ocorrências neste espaço seria a
interpretação simétrica de eventos! Nas palavras de Steiner, os eventos
posteriores ocorreriam primeiro e os anteriores ocorreriam a posteriori, ocorrendo
aqui como que uma inversão na relação de causalidade (causa-efeito). Se no
plano físico o nascimento ocorre primeiro e nascimento significa que algo novo
nasceu de algo antigo, no plano astral o antigo emergiria do novo, de modo que
a paternidade e a maternidade estariam de fato no interior do filho ou da
filha.
Usando a mitologia grega
como instrumento, Steiner simboliza três mundos a partir das divindades gregas Urano,
Cronos e Zeus. Urano representando o mundo do pensamento (devachan), Cronos o
mundo astral e Zeus o mundo físico. É dito que Cronos devorava suas crianças.
No mundo astral, a criação não nasce, mas é devorada. Nas palavras de Steiner:
“A questão se torna ainda
mais complexa quando consideramos a moralidade no plano astral. A moralidade,
também aparece de forma reversa, ou como sua própria imagem espelho
(simétrica). Você pode imaginar o quanto as explicações dos eventos lá diferem
de nossas explicações habituais no mundo físico. Imagine, por exemplo, que
vejamos um animal selvagem se aproximando de nós no mundo astral e que ele nos
devora. Assim é como parece para alguém habituado a interpretar eventos externos,
mas não podemos interpretar este evento como o faríamos no mundo físico. Na
realidade, o animal selvagem é uma qualidade interna, um aspecto de nosso
próprio corpo astral que nos devora. O ataque devorador é uma qualidade
residente em nossos próprios desejos. Se tivermos um pensamento de vingança,
por exemplo, o pensamento pode assumir uma forma exterior e nos atormentar como
o Anjo da Morte. Na realidade, tudo no mundo astral irradia de nós. Devemos
interpretar tudo que se aproxima de nós no mundo astral como irradiado a partir
de nosso interior. Este conteúdo retorna a nós por todos os lados como vindo da
periferia, do espaço infinito. Na verdade, entretanto, estamos nos confrontando
apenas com o que nosso próprio corpo astral emitiu.” (R. Steiner –
The Fourth Dimension – Sacred Geometry, Alchemy and Mathematics – p.20)
É preciso parcimônia
neste momento em que tudo parece vitimado por explicações quânticas, apesar de até
agora a teoria estar dando conta do recado, ao menos dentro do domínio físico
material. Aferir realidades suprassensíveis com técnicas e materiais de uma
realidade inferior parece contrassenso a ser repensado. Ao que tudo indica pode
ser necessária uma transformação na própria forma como concebemos a realidade antes
de prosseguir.
Explicar o inexplicável
ou inefável com substratos do mundo da matéria pede atenção! A razão e a lógica
são ferramentas indiscutivelmente poderosas dentro de suas arenas, mas podem
não sê-lo em outras questões. Um modelo alternativo de elaboração, nem melhor
nem pior, apenas diferente, é o pensar analógico que encontra nos mitos sua
expressão plena. Os mitos funcionam como um milagre ou espelho que por
concessão simétrica nos permite algum vislumbre do incognoscível, desde que
haja mínima reverência no coração do buscador pelo fundamento de sua busca
(Michael Ende trata disso no capítulo 6 e 7 da obra "História sem Fim").
Não bastasse isso tudo,
um afastamento temporal ainda mais ousado, permite o vislumbre de um fenômeno
simétrico significativo, ainda pouco compreendido, descrito por Paulo na
primeira carta aos Coríntios.
Conversão de Saulo - Note-se a horizontalização do humano e a verticalização do animal - Damasco (Cidade do Jasmin)
“A nossa ciência é
parcial, a nossa profecia imperfeita. Quando chegar o que é perfeito o
imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava
como criança, julgava como criança, quando me tornei homem, acabei com as
coisas de criança. Porque agora vemos
por um espelho, obscuramente; mas então veremos face a face. Agora conheço
em parte; mas então conhecerei plenamente, assim como também fui plenamente
conhecido.”
A provocativa simetria poética
do texto acima se faz ainda mais significativa quando vista à luz da concepção
Paulina de corpo psíquico (Soma Psuchicon - Psiqué – Alma), corpo alma – que animaria
o corpo físico (anima = alma) e permitiria o despertar consciente nos planos
suprafísicos; enfim, a ideia de um corpo representando a própria manifestação conceitual
e funcional de simetria.
Um labirinto é uma
casa edificada para confundir os homens; sua arquitetura, pródiga em simetrias,
está subordinada a esse fim. (J.L.Borges – O Aleph)
Há muito tempo os
físicos sabem que a simetria é um quesito que revela a ordem naquilo que
aparenta ser caos. Um exemplo clássico é a invariância das leis físicas em todo
o universo (simetria por deslocamento). Entre os exemplos mais interessantes
encontramos o da simetria entre partícula e antipartícula, de acordo com a qual
cada partícula subatômica tem seu correspondente com polaridade oposta. Para Wolfgang
Pauli cuja visão de simetria se estendeu além do campo da ciência, chegando a
uma concepção holística englobando o psiquismo e a matéria, na qual cada um
reflete o outro, as simetrias são vistas como uma característica da natureza. As
próprias contribuições de Pauli para a física moderna muitas vezes foram
decorrentes de extrapolações e analogias a situações vivenciadas em sonhos e
compartilhadas com seu amigo Jung; sugerindo mais uma vez a percepção simétrica
entre o estado de sono e vigília.
De todas as
simetrias, aquelas que acontecem na arte são minhas preferidas. O dia “doce” de
junho, simétrico mês de gêmeos, é o dia do amor e não duvido seja o dia do simétrico
abaixo...
O químico alemão Friedrich
August Kekulé von Stradonitz, também chegou à descrição simétrica do anel hexagonal
de Benzeno em sonho:
“Eu
estava sentado à mesa a escrever o meu compêndio, mas o trabalho não rendia; os
meus pensamentos estavam noutro sítio. Virei a cadeira para a lareira e comecei
a dormitar. Outra vez começaram os átomos às cambalhotas em frente dos meus
olhos. Desta vez os grupos mais pequenos mantinham-se modestamente à distância.
A minha visão mental, aguçada por repetidas visões desta espécie, podia
distinguir agora estruturas maiores com variadas conformações; longas filas,
por vezes alinhadas e muito juntas; todas torcendo-se e voltando-se em
movimentos serpenteantes. Mas olha! O que é aquilo? Uma das serpentes tinha
filado a própria cauda e a forma que fazia rodopiava diante dos meus olhos.
Como se se tivesse produzido um relâmpago, acordei; ...passei o resto da noite
a verificar as consequências da hipótese. Aprendamos a sonhar, senhores, pois
então talvez nos apercebamos da verdade."
- Augusto Kekulé, 1865.
Além de Kekulé, pensadores,
cientistas e matemáticos como René Descartes, Thomas Édison e Mendeleiev também
vivenciaram visões reveladoras na simetria sono-vigília. Descartes, em viagem à
Alemanha, teve uma visão em sonho de um novo sistema matemático e científico. Thomas
Édison teve vários insights durante o sono. O pai da tabela periódica, Dmitri
Mendeleiev, afirmou ter tido um sonho no qual era mostrado o modelo da tabela
periódica atual.
Ora, se a física
abunda em histórias e teorias simétricas e supersimétricas, a literatura não
fica para trás. Machado de Assis cuidou em explicar com maestria no conto “O
espelho”, abaixo, o porquê de cada criatura humana trazer duas almas em si: a que olha de
dentro para fora e outra que olha de fora para dentro. Não deixe de ler, em um momento tranquilo...
Esse tal de Osho
disse que o mundo é apenas um reflexo, uma grande simetria; se você tem
resistência, então o mundo inteiro tem resistência. Andar sem deixar pegadas é
silenciar os espelhos. Em um de seus escritos ele contou uma estória que aconteceu
uma vez...
“Um
rei construiu um palácio, um palácio feito de milhões de espelhos – todas as
paredes estavam cobertas de espelhos. Um cão entrou no palácio e viu milhões de
cães ao redor. Assim, sendo um cão inteligente, ele começou a latir para se
proteger dos outros milhões de cães em volta dele. Sua vida estava em perigo.
Ele deve ter ficado tenso, e cãomeçou a latir. E quando ele começou a latir, os
milhões de cães começaram a latir também.
De
manhã o cão foi encontrado morto”.
Caramba! Já pensou
um dia desses não acordar? A última simetria, a dos gêmeos da pintura: Hipnos
(sono) e Tanatos (morte)...
Sono e seu irmão gêmeo Morte - Tela de 1874 por John William Waterhouse
Do mesmo modo que a voz e
seu som preenchem o vazio do silêncio exterior, por meio do ar que vibra as
cordas vocais, existe outra, que vem de dentro, mas que vibra as “cordas da
alma”. Esse som da alma, que para cada um é diferente, é medicação de primeira
escolha, pílula de saúde, no sentido do despertar para o significado
existencial pleno. Escutá-lo pede algum grau de silêncio e saciedade quanto à
necessidade de preencher buracos, sejam eles das bolsas, sapatos, carteiras,
carros, assim como todos os outros símbolos fálicos e uterinos da autoprojeção
social do mundo contemporâneo.
O espaço dos sentidos
deve ser protegido com amor da influência do neuromarketing, assim como hoje se
guarda o dinheiro protegido nos bancos. O que se apresenta aos olhos, ouvidos,
olfação, tato etc., importante saber, quando repetidos ad nauseum, se tornam verdades interiores, se acostuma a elas. De tanto
os órgãos dos sentidos serem estimulados a crer que precisam ser preenchidos
por algo, a pessoa pode passar a acreditar que isto seja verdade, afinal de
contas, se há um buraco ele precisa ser preenchido! A estrutura empática do
humano, relacionada ao sistema dos neurônios em espelho (veja aqui: http://saudeconsciencia.blogspot.com.br/2011/10/neuroplasticidade-e-sabedoria-parte-iii.html), o coloca em situação de
fragilidade frente aos estímulos midiáticos ao preenchimento de buracos e
“vazios” (consumo).
Mas
e o buraco existencial daquele ser que já se fartou de todas as formas de
preenchimento disponíveis nas lojas de conveniência, “lojas de conivência” e
centros de compras? Como preenchê-lo? De fora para dentro ou de dentro para
fora? Ou será um espaço que deve ser mantido vazio? Por que geralmente se cuida
mais em preencher o vazio material que o existencial? Buracos assim, como os
abismos, muito comumente se associam a situações de queda e de oportunidades, como
no conto autobiográfico:
Autobiografia em cinco capítulos
1. Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a
saída.
2. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no
mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.
3. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.
4. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.
5. Ando por outra rua.
(Texto extraído de "O Livro
Tibetano do Viver e do Morrer" -“ Sogyal Rinpoche -“)
Se
como vimos surpreende a proximidade etimológica de buraco e todo
(Hole x Whole), causa assombro, no inglês mais uma vez, a intimidade entre as anteriores
e santidade (Hole x Whole x Holy); coincidências? Talvez, mas a proximidade de santidade,
sanidade e saúde enquanto estados de coerência interior não pode passar
despercebida.
Viver com a sensação da
necessidade constante de ter que preencher um buraco, seja por fome ou por
carência, é condição comum àqueles que se encontram em estado de sub-saúde ou
mesmo de pré-doença, situações diversas que antecedem o estado de doença. É
precisa muita atenção para desviar deste buraco! De fato, quando se vive em um buraco,
como aquele do sapo que morava no fundo do poço, é custoso acreditar nas coisas
que os sapos que vêm de longe contam...
Os “vazios” de algumas
personalidades como Francisco de Assis, Sidarta Gautama, Mohandas Gandhi, bem
nascidos que se fartaram de seus ambientes cheios, foram preenchidos com algo
que hoje nos serve de nutrientes ou de certa forma inspiração para o viver. Ser
inspiração, um dos efeitos do esvaziar-se para ser parte ao invés de ter
parte de algo, é marca de quem cavou fundo em si e tornou-se recipiente
para a graça, que para ser plena requer que o cálice de cada ser esteja
esvaziado para que sua sacralidade seja alcançada na aliança do humano com o
sobre-humano. Este estado de graça ou sacralidade acontece quando a pureza do Ser, que é eterno, é depurada do prazer do ter, que é temporal.
Possível aproximação do
simbolismo do chamado “Santo Graal”; abrir-se para que a graça do sobre-humano
irradie para o interior do humano, transformando-o e transformando-Se. Nesse
sentido, vale lembrar a advertência de Cristo no episódio do buraco da agulha,
sugerindo que em diferentes reinos ser rico se aproxima mais de um estado de esvaziamento
que de preenchimento.
Finalmente, mas não menos
importante, há que se lembrar: buraco e vazio são coisas muito diversas! Ao que
tudo indica o vazio inexiste na natureza, já os buracos são ubíquos e vão desde
os negros até os dos queijos suíços. De fato é custoso à razão conceber o
conceito de vazio. Como vimos, o próprio conceito contemporâneo de vácuo traz
em seu cerne a ideia de uma população infindável de partículas em estados
energéticos muito baixos e próximos a um equilíbrio, que se mostra nos modelos
e aos aparelhos medidores como algo que se aproxima da ideia de nada; mas, nada
mesmo, como ideia de ausência de qualquer coisa ou como um vazio absoluto, só
pode ser concebido pela mente e pelo pensar humanos que, aliás, são capazes de
qualquer coisa. De resto, a natureza abunda em exemplos do continuum ou plenum
que caracteriza o cosmos.
Mas,
dentre todos os buracos, clama cuidado supremo aquele que leva à prisão da
liberdade. Michael Ende com maestria explora esse buraco no seguinte conto que conduz
ao buraco que mergulha na região do círculo do caos: