POR MÁRIO INGLESI
Sobre os textos:
Dr. Ricardo
A figura do médico desde sempre se apresentou como
mítica, toda poderosa, dona do poder de minorar e tirar as dores, que perpassam
de maneiras várias e, atingem os seres humanos deste planeta Terra.
Essa imagem só cresceu com o correr dos tempos,
principalmente com o advento dos transplantes, da clonagem e, muito
particularmente, em razão das cirurgias plásticas não apenas de correção, mas
em favor da estética, primordialmente. A partir daí, ela alcançou o estrelato
midiático.
Afora isso, tal figura também sofreu revezes, chegando
até recentemente a cair como escolha profissional, talvez em função, do advento
de novas áreas profissionais menos trabalhosas e menos ainda, desgastantes
física e psicologicamente.
A relação entre médico e paciente sempre se traduz num
emaranhado de queixas, aflições e agonias, de confiança total e, até
desconfianças, ainda que tênues, que se configuram como enigmas a serem
decifrados em prol de um diagnóstico falível de erros e acertos. Por sua vez, o
diagnóstico vem a requerer o aviamento de receitas, cuja maior dificuldade é
saber, realmente se o paciente terá consciência necessária para administrá-la
como lhe manda a prescrição, o bom senso, e lhe pede a própria cura almejada.
Tal enigma que perpassa a relação, induz
preliminarmente ao médico o diagnóstico infalível: “Médico, cura-te a ti
mesmo”.
Isto nos faz reportar ao poema de Manuel Bandeira:
Pneumotórax
Febre, Hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi
Tosse, tosse tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três… trinta e três… trinta e três...
- Respire.
...........................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango
argentino.
O curioso, neste poema, publicado, juntamente com
outros, sob o titulo de Libertinagem, em 1930, é que, apesar do disparatado diagnóstico
médico nele contido, o poeta Manuel Bandeira, tuberculoso desde 1904, viveu até
1968, vindo a falecer somente aos 82 anos.
Dentro desse arcabouço, se o paciente deve prevenir-se
contra o médico a recíproca também é verdadeira, afinal, tudo começa com uma
simples e, muitas vezes, esdrúxula narrativa do paciente, a respeito de
sintomas genéricos, mal concatenados e nem sempre bem localizados.
Em socorro ao diagnosticado, felizmente advieram os
exames laboratoriais, trazendo provas concludentes não só da doença como de sua
precisa localização e estado.
É óbvio, como diz o poeta Mário Quintana: “Cuide-se,
pois a sua saúde e sua vida dependem de suas escolhas!!!”
Hoje, o que há, em escala cada vez mais crescente, são
os excessos de intervenção diagnóstica e terapêutica e medicalização
desnecessária. É, contra isso, que se predispõe a prevenção focalizada, ora
chamada de quaternária.
Esses excessos distorcivos têm sua abrangência tão
funda que vem atingindo médicos, pacientes e recursos financeiros com uma
intensidade inimaginável. Os pacientes encontram-se em pânico e, para
previamente saberem se terão as tais doenças terminais, ou serão passíveis de
tê-las, para preveni-las ou evitá–las se submetem a baterias de exames
desnecessários, a procedimentos cirúrgicos que, na maioria das vezes, lhes
acarretam problemas ainda maiores e quase sempre dolorosos, quando não
desproporcionais. A tais excessos alia-se a intervenção dos médicos por pressão
e medo, que pacientes lhes impingem no contato de sua vida profissional.
O que mais chama a atenção a esses excessos, é o fato
primário da efemeridade da vida, como, aliás, observou Millôr Fernandes, em uma
de suas boas tiradas: “Em carros, barcos, trens, ou aviões, somos todos
passageiros”
Desse modo, porque tanto alarde, tanta preocupação com
precauções esdrúxulas, supérfluas e inadequadas? O melhor mesmo é voltar suas
armas para o que realmente proporciona ou causa doenças sem fim, piores ou
iguais das quais pretende safar-se, como a poluição, o fumo, a bebida, a má alimentação,
o estresse advindo do trabalho, do trânsito e da própria vida mal vivida em
torno do alcance de status, fama, veleidades mil, que nada acrescentam ao seu
mundo do ser.
No entanto, contra tais vilões da saúde muito pouco se
faz. Parece haver uma anestesia geral, envolvendo e interferindo na visão das
pessoas no que diz respeito à realidade, sem lentes ou filtros, mas com a força
de um pensar profundo e eficaz, sem as amarras de preconceitos e ilusões
fictícias.
Esse pensar deve abranger os profissionais da saúde,
para que sejam evitados procedimentos de rastreamento inócuos ou
desnecessários, bem como exames complementares em excesso a fim de que seus
pacientes não lidem com expectativas vãs de estar cuidando da saúde e evitando
quaisquer males subjacentes.
Torna-se imperativo, ainda, a consciência fundamental
de cada ser humano em si mesmo, sem generalizações abstratas. O apego dos
pacientes a medos, culpas ou hábitos arraigados não devem ser subestimados em
se tratando da saúde.
Felizmente, a “prevenção quaternária” chega em boa
hora para aprimorar a medicina em voga e ajudá-la com critérios e propostas
para o manejo dos excessos e obviamente para salvaguarda do paciente e sua
saúde.
E torcer para que não se faça uma “Revolta Contra os
Médicos” por oposição à “prevenção quaternária”. Haja vista que se “a
unanimidade é burra” “a parcialidade é desonesta”, como se viu na “Revolta da
Vacina” insuflada no início do século 20, por interesses escusos e boataria
descabida.
Com tudo isso, só nos resta com as mãos espalmadas,
agradecer aos céus por termos uma ciência médica ainda em plena evolução, com o
objetivo primário de por a salvo a nossa saúde, através da conquista de um
melhor intercâmbio interativo entre médico e paciente, em sua totalidade humanitária.
Abraço desmesurado
Mário Inglesi 31.10.2011.









