A Medicina da Saúde é baseada na preservação e na promoção. É sempre superior à Medicina da Doença focada na cura e na prevenção. Somos seres humanos e não "teres humanos”. A doença começa quando se deixa o SER pelo TER; saúde e vitalidade aumentam na direção do SER. A busca pelo SER leva à ampliação da consciência, guia do homem saudável e espelho para o doente. Refletindo o exemplo a ser imitado mostra como sair da horizontalidade do adormecimento e entrar na verticalidade do despertar.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
A LEI DE CAUSA E EFEITO – “A DOR NA ALMA”
Por: NIKOLA TESLA – Da obra: “AUTOBIOGRAFIA”
“Cristo é um único ser, mas é de toda gente, então por que algumas
pessoas se creem melhores do que as outras?” – Nikola Tesla
A imensa maioria dos
seres humanos nunca está consciente do que se passa ao redor e dentro de si
mesmo. As ocorrências mais comuns e rotineiras parecem-lhes misteriosas e
inexplicáveis. A observação deficiente é apenas uma forma de ignorância,
responsável por muitas ideias mórbidas e insensatas que acabam prevalecendo.
Aquilo de que mais
necessitamos hoje é um contato mais próximo e um maior entendimento entre os
indivíduos e as comunidades no mundo inteiro, e a eliminação da devoção fanática
a ideais exaltados de egoísmo e orgulho nacionais, sempre prontos para
mergulhar o mundo na barbárie e nos conflitos primitivos. A paz só pode vir
como consequência natural da educação universal e da miscigenação, e ainda
estamos longe dessa feliz realização, porque poucos, de fato, hão de admitir a
realidade de que todos os homens da terra são iguais.
Os dogmas religiosos não
são mais aceitos em seu significado ortodoxo, mas cada indivíduo se agarra à fé
em algum tipo de poder supremo. Todos precisam de um ideal para governar a
conduta e garantir a satisfação, mas pouco importa se é um ideal de fé, arte,
ciência ou qualquer outra coisa, desde que cumpra a função de uma força
desmaterializante. É essencial para a existência pacífica da humanidade que
prevaleça uma única concepção comum.
Provei de modo totalmente
satisfatório para mim mesmo o automatismo da vida, não só por meio de
observações contínuas de ações individuais, mas, de maneira ainda mais
conclusiva, por meio de certas generalizações. Isso me conduziu a uma
descoberta que considero da maior importância para a sociedade humana, e da
qual tratarei agora. Tive a primeira suspeita dessa espantosa verdade quando
ainda era muito jovem, mas por muitos anos interpretei o que notava como meras
coincidências.
Por exemplo, toda vez que
eu mesmo ou uma pessoa a quem estava apegado ou uma causa a que me dedicava
eram atingidos pelos outros de determinada maneira, que pode ser popularmente
caracterizada como a mais injusta imaginável, eu sofria uma singular e
indefinível dor que, na falta de termo melhor, qualifiquei de “cósmica”, e
pouco tempo depois, invariavelmente, aqueles que a infligiam acabavam se dando
mal. Depois de muitos casos como esse, confiei aquilo a vários amigos, que
tiveram a oportunidade de se convencer da teoria que aos poucos fui formulando
e que pode ser resumida nas seguintes palavras: nossos corpos são constituídos de
forma semelhante e estão expostos às mesmas forças externas. Isto resulta na semelhança
de resposta e na concordância das atividades gerais em que se baseiam todas as
nossas normas e leis, sociais ou não.
Somos semelhantes a autômatos
completamente controlados pelas forças do ambiente, sendo arremessados de um
lado para o outro como rolhas de cortiça na superfície da água, mas os
resultados dos impulsos externos são mal interpretados como livre arbítrio. Os
movimentos e outras ações que executamos estão sempre ligados à preservação da
vida, e embora aparentem completa independência entre si, estamos como que ligados
por laços invisíveis. Enquanto o organismo está perfeitamente em ordem,
responde com precisão aos agentes que o estimulam, mas a partir do momento em
que há algum desacerto em algum indivíduo, esse poder de autopreservação é
prejudicado.
Todos compreendem, é
claro, que se nos tornarmos surdos, se nossos olhos se debilitarem, se ferirmos
os membros, diminui a probabilidade de uma vida prolongada. Mas isso também
vale, e talvez ainda mais, para certos defeitos do cérebro que retiram do “autômato”,
em maior ou menor medida, essa qualidade vital e o precipitam na destruição. Um
ser muito sensível e observador, com seu mecanismo altamente desenvolvido
intacto e agindo com precisão segundo as condições mutáveis do ambiente, é
dotado de um sentido transcendente, que lhe permite escapar de perigos sutis
demais para serem diretamente percebidos. Quando se entra em contato com outros
seres cujos órgãos de controle sejam radicalmente defeituosos, esse sentido se
faz valer e ele sente a dor “cósmica”. A verdade disso foi corroborada centenas
de vezes, e convido outros estudiosos da natureza a dedicar sua atenção a este
assunto, na crença de que, por meio de um esforço sistemático combinado, possam
ser alcançados resultados de incalculável valor para o mundo.
(Nikola Tesla foi o
precursor da telefonia sem fio, transmissão por corrente alternada e da
transmissão de energia sem cabos conectores – vide Torre Wardenclyffe)
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
QUE MEDOOOOOOOOO!!!
Dr. Ricardo
Há uma
onda gigantesca que continua encobrindo avassaladoramente nossas grandes
cidades, intimidando, apavorando, atemorizando e paralisando seus cidadãos sob
a alcunha, de “medo”.
Ela
surgiu como que de repente e foi engrossando à medida que os interesses
econômicos e comerciais dela puderam tirar proveito até formarem um
conglomerado que, a cada dia se renova e se estende, com a oferta de produtos
os mais variados, agora de uso obrigatório na defesa de bens e patrimônio
físico e material.
Seu
nome comum e familiar cingia-se, inicialmente, a poucas e corriqueiras situações
fortuitas e inusitadas – diga-se - de pouca frequência, pois ocupava principalmente,
o meio rural, onde, insetos, animais de grande porte ou não, assim como os
fenômenos naturais, como raios e trovões, deixavam seus moradores solertes. Aliados
a isso, abundavam historietas fantásticas de seres como saci, mula sem cabeça e
mil outros seres imaginários que, hoje, boa parte preenche nossas tradições sob
a rubrica de folclore.
Isto
advinha de situações cercadas de mistérios, e abarcava então objetiva e
subjetivamente a maioria das pessoas, afinal não se tinha meios de segurança, a
não ser o enfrentamento e morte dos possíveis algozes.
Felizmente,
hoje, são bastante restritas tais áreas, dado o avançar do progresso, ungido
pelo poder socioeconômico, elevando assim, a patamares citadinos muitas e
muitas dessas regiões.
Com
isso, o “medo” mudou, tornou-se, ainda mais agudo e ferrenho, fazendo dos
sujeitos seres quase impotentes diante da infinitude dos medos imaginários ou
não, dominantes e predominantes em cada ser humano.
Daí
começou o trancar de portas e janelas com grades e mais grades. Mas isto não
bastou, foi preciso promover os guardiões do patrimônio pessoal e físico, os
denominados “policiais, seguranças etc.”. Hoje, nem eles servem tanto aos
desígnios propostos, pois também caíram em desgraça: do descrédito e da desimportância.
Nesse
contesto, apelou-se então para aparelhos como interfones, câmeras, sirenes, olhos
mágicos nas portas.
Toda
essa parafernália não afastou o medo, que os acometia. Então, surgiu o mais
poderoso promotor da tranquilidade: o seguro de bens e pessoas, para
salvaguarda financeira dos perdidos
Essa
nova modalidade prosperou e prospera a cada dia, oferecendo pacotes e mais
pacotes de segurança e indenização.
Paralelamente,
recorreu-se, e, ainda recorre-se, a psicólogos, ou a baldes de tranquilizantes,
ou então à escolha múltipla de livros de autoajuda ou, ainda, nos esparramamos
em ritos e preces nas igrejas das multifacetadas religiões de plantão.
Mas,
tudo isso, foi suplantado pelo maior engenho então descoberto e usado, em
escala nunca vista e imaginada: “a arma” de fogo, de calibres vários a escolher.
Sua grande vantagem é não exigir força do usuário, ser indolor, para quem a usa
e, alcançar os objetivos, em caráter de urgência, urgentíssima: Acabar com os
medos.
A
indústria armamentista pessoal alcançou desde então, pícaros de venda e seus
usuários espalharam-se por todas as camadas da população, uma vez que,
usufruíram dela, tanto os “bons” quanto os “maus”, - os denominados assassinos
– sejam diretos ou de aluguel.
Em caso
de dificuldade em comprar ou arranjar armas e seus projéteis, busca-se o seu
tráfico, cujo trabalho é fácil e não exige nada além do dinheiro.
Nesse
patamar alcançamos, então, a propalada e tão desejada igualdade: a matança
alcança um nível geral, indistintamente também, igualitária, seja em que
circunstância for, de importância e de requintes ou não.
Com
ela, entretanto, perdemos a liberdade. O medo tomou conta de todos.
Trancafiamo-nos, e isolamo-nos em verdadeiros “Bunkers”. O outro só vemos do
alto de nossos edifícios, a comunicação, caiu por terra, agora só pelos meios
eletrônicos, Nada de tête-à-tête. Sair só de carro particular, assim mesmo, com
blindagem, sempre que possível.
A
paranoia do “medo”, sufoca e paralisa, atingindo-nos com doenças as mais diversas,
em sua maioria duradouras, pesarosas e mortais, além de forçar discriminações,
e preconceitos, atiçar ódios e revoltas, ver o “outro” apenas como inimigo, a
ser combatido e eliminado, nos torna carcereiros covardes, estátuas de olhos
que não veem, de ouvidos moucos e bocas sem vozes, mudas como o material que as
fez.
Todavia,
as indústrias afins ou paralelas, ligadas às doenças e à morte, em razão do
“medo” crescem dia a dia e seus índices, hoje, atingem percentuais altíssimos –
talvez maiores que os das guerras espalhadas pelo nosso universo -, sendo
necessário então, criar, - oh céus! - de maneira “populista” todo um arcabouço
de incentivos e, obviamente, programas de incremento ao “mais médicos”, mais
hospitais, mais funerárias, mais terrenos destinados à moradia eterna’, mais
isso, mais aquilo, etc. e etc.
Afinal,
tal como nos declara o poeta português Alexandre O’Neil (1924-1986):
“O medo
vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o
luxo blindado
de
alguns automóveis
Vai ter
olhos onde ninguém os veja
Mãozinhas
cautelosas
enredos
quase inocentes
ouvidos
não só nas paredes
mas
também no chão
no teto
no
murmúrio dos esgotos
e
talvez até (cautela!)
ouvidos
nos teus ouvidos”
........................................................
(“O Poema
Pouco Original do Medo)
Mas,
para todos os fins, tal como no poema de Drummond, precisamos alijar a pedra ou
o “medo”, ou qualquer outro empecilho que nos impeça de viver, para podermos
então, declarar como o poeta, nesse
mesmo poema:
“Nunca
me esquecerei desse acontecimento
Na vida
de minhas retinas tão fatigadas
Nunca
me esquecerei que no meio do caminho
Tinha
uma pedra”
Se não
soubermos lidar com os medos que nos afligem – a exemplo das crianças com a sua
leitura dos contos de fadas infantis ou trabalhá-los de modo a afugentá-los de
vez do nosso cotidiano, com visões e práticas adequadas, isentas de moralismos
e ajuizamentos apriorísticos inidôneos – aí sim, os medos nos envolverão
objetivamente, em vista de fatos políticos, sociais e econômicos que realmente nos
colocarão numa teia kafkiana amedrontadora, de emaranhado sem precedentes e de
difícil ou impossível saída ou retrocesso.
Portando,
ao abraçar o desfraldar do “Saúde é Consciência”, conviria lembrar-se - sempre que possível - da
abrangência e profundidade que o lema pode ter para o alcance e plenitude de
uma vida única, quiçá curta, mas vivida de modo íntegro e participativo, sempre
na busca precípua da feliz convivência com todos os nossos pares, neste pequeno
e único espaço que habitamos.
Se isso
não se fizer- Oh Senhor! – Valei-nos:
“Fez-se
do amigo próximo, distante
Fez-se
da vida uma aventura errante
De
repente, não mais que de repente”(1)
Poesias
Completas, Vinicius de Moraes. (1), Ed. Aguilar
E mais,
sentir medo, - acreditem - é destruir as possibilidades de aceitar e usufruir das
coisas novas que a própria modernidade vem mudando radicalmente em nossas vidas
com a chegada benfazeja da informática, e de aparelhos novos que ajudam e
programam a vida diária, modificando, inclusive, o nosso tempo de ócio, prazer
e lazer.
Mário Inglesi
terça-feira, 9 de setembro de 2014
QUANDO SE FALA DO SOLITÁRIO - RILKE
De Rainer Maria Rilke - em "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge"
Quando se fala do
solitário, sempre se pressupõe demais. Acredita-se que as pessoas saibam do que
se trata. Não, não sabem. Nunca viram um solitário, apenas o odiaram sem
conhecê-lo. Elas foram os vizinhos que o irritaram e as vozes no quarto ao lado
que o tentaram. Açularam os objetos contra ele para que fizessem barulho e
falassem mais alto que ele. As crianças se aliaram contra ele quando era
delicado e criança e, à medida que crescia, crescia contra os adultos.
Farejaram-no em seu esconderijo como se ele fosse um animal que pode ser
caçado, e durante sua juventude não houve período em que a caça fosse proibida.
E quando não se deixava esgotar e fugia, elas gritavam contra aquilo que
provinha dele e diziam que era feio e suspeito. E se não dava ouvidos, elas se
tornavam mais claras e comiam sua comida, esgotavam seu ar, cuspiam na sua
pobreza para que se tornasse repulsiva para ele. Elas o difamavam como a um ser
contagioso e atiravam pedras atrás dele para que se afastasse mais depressa. E
o velho instinto delas tinha razão: pois ele era realmente seu inimigo.
Quando,
porém, ele não levantava os olhos, elas refletiam. Suspeitavam que faziam a sua
vontade ao fazer tudo aquilo; que o fortaleciam em sua solidão e o ajudavam a
separar-se delas para sempre. E então mudavam de atitude e empregavam o último
recurso, o mais extremo, a outra resistência: a fama. E com um barulho desses,
quase qualquer pessoa levanta os olhos e se distrai.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
SEXUALIDADE E SAÚDE III – ESCOLHAS E ESCOLAS
Continuação de:
Causa-me espécie observar o tratamento dos meios de informação quanto ao
desenvolvimento da sexualidade. Questão aberta e complexa é sobrevoada na
literatura desde a escolástica celibatária a seu extremo na libertinagem de
marquês de Sade. Curiosa associação esta da função criadora ao prazer; enfim,
fazer o que?
Recentemente na Folha de SP, Rosely Sayão, partilhou experiência pessoal insólita
em matéria intitulada: “A convivência com a internet”, onde situação de sexo
oral ocorrida em escola particular foi disponibilizada na rede. Vale ler e
refletir sobre nossas escolhas e por
que não sobre nossas escolas e
currículos? Aliás, currículos ou burrículos?
Nessa primeira semana de setembro os relógios paulistanos de propaganda disseminados nas vias públicas estão propagando o assunto da sexualidade a todo vapor: em primeiro lugar, aquela moça jovem, seminua com cara de medo, que comentei em - Sexualidade e Saúde II - retornou em trajes de pantera cor de rosa; em segundo e vindo de baixo, quando o letreiro roda, sobe uma garrafa de bebida à base de cevada (aliás, do modo como é feito, a moça parece quase estar sentada sobre a mesma); completando a trindade fatídica o letreiro rotativo informa, em propaganda de preservativo, que o dia que antecede a independência do Brasil é o dia do sexo, sugerindo o trocadilho do 6/9 (6 de setembro) com o número 69 - não entendi bem, mas parece haver algo subliminar senão sublime aí.
Neste último caso, a sugestão do letreiro, em português erudito é: "VamoSe Misturar". Tudo isso é muito interessante mas não tão curioso quanto a campanha para a oficialização do dia do sexo um dia antes do dia 7 de setembro! Mas, no fundo, se for para o bem de todos e a felicidade geral da nação, dizer o que ao povo? Fico ou não fico eis a questão!
Por isso tudo, não surpreende o relato de Sayão, afinal crianças gravadas exercitando o ritual do sexo oral estão apenas reforçando o modelo que está sendo oferecido a elas. Acredite, crianças aprendem imitando os mais velhos - até nos maços de rolinhos de tabaco já se escreve algo parecido. No outro país, onde o Reino é Unido, relógios publicitários e propagandas com crianças são punidas com rigor, acredita-se podem servir de estímulo a pessoas com instintos pedófilos entre outros, veja como em:
Nessa primeira semana de setembro os relógios paulistanos de propaganda disseminados nas vias públicas estão propagando o assunto da sexualidade a todo vapor: em primeiro lugar, aquela moça jovem, seminua com cara de medo, que comentei em - Sexualidade e Saúde II - retornou em trajes de pantera cor de rosa; em segundo e vindo de baixo, quando o letreiro roda, sobe uma garrafa de bebida à base de cevada (aliás, do modo como é feito, a moça parece quase estar sentada sobre a mesma); completando a trindade fatídica o letreiro rotativo informa, em propaganda de preservativo, que o dia que antecede a independência do Brasil é o dia do sexo, sugerindo o trocadilho do 6/9 (6 de setembro) com o número 69 - não entendi bem, mas parece haver algo subliminar senão sublime aí.
Neste último caso, a sugestão do letreiro, em português erudito é: "VamoSe Misturar". Tudo isso é muito interessante mas não tão curioso quanto a campanha para a oficialização do dia do sexo um dia antes do dia 7 de setembro! Mas, no fundo, se for para o bem de todos e a felicidade geral da nação, dizer o que ao povo? Fico ou não fico eis a questão!
Por isso tudo, não surpreende o relato de Sayão, afinal crianças gravadas exercitando o ritual do sexo oral estão apenas reforçando o modelo que está sendo oferecido a elas. Acredite, crianças aprendem imitando os mais velhos - até nos maços de rolinhos de tabaco já se escreve algo parecido. No outro país, onde o Reino é Unido, relógios publicitários e propagandas com crianças são punidas com rigor, acredita-se podem servir de estímulo a pessoas com instintos pedófilos entre outros, veja como em:
No célebre tratado sobre “A Pedra do Reino”, que entendo leitura
escolar obrigatória, no “quilômetro” 199, o sábio corifeu brasileiro, Ariano
Suassuna, nos presenteia entre inúmeras outras, com esta pérola, reflexão
breve, nem por isso superficial!
Em A Renegada, a única coisa
que me interessa é que se mostra, ali, o homossexualismo e certas formas de
amor pervertido entre Emília Campos e seu marido, o velho e impotente
Desembargador Palma! Isso me interessa, por dois motivos. Primeiro, mostra as
chagas causadas pelo ócio dos ricos e pelo mofo das alcovas burguesas! Depois,
porque os desviados sexuais são, no fundo, revoltados contra a sociedade! Eu,
como bom revolucionário e adversário da Ordem, tenho horror é à figura do “bom
cidadão”, do homem de boa consciência, do “homem normal”! A perversão sexual é
uma forma de revolta! É verdade que um tanto inconsequente, como também é
inconsequente a revolta do Cangaceiro! Mas, de qualquer maneira, tanto o
Cangaceiro como o homossexual são, no fundo, dois agentes da Revolução!
– Agentes da Revolução, no fundo?
– protestei. – O homossexual pode ser, o Cangaceiro não!
– Lá vêm as saídas de Almanaque! Quaderna, não estamos em Véspera de Reis
não! Estou discutindo uma tese séria, que vai ficar registrada em nossas atas!
– Essa é boa! – defendi-me. – Diz que o homossexual é um revoltado no
fundo, e quer se zangar porque eu acho graça! Você está falando sério Clemente?
– Claro que estou! Quando o homossexual se recusa a aceitar os padrões
morais da classe privilegiada, está, a seu modo, protestando, como o
guerrilheiro, contra a ordem estabelecida!
– Tá, Clemente, com esta eu não contava! – disse eu, espantado. – Nunca
pensei que dar o rabo fosse uma forma de guerrilha! Mas se você fosse fazer um
romance, era assim que você faria? Era seguindo Os Cangaceiros, de Carlos Dias Fernandes, e mostrando a revolta
desses guerrilheiros, juntamente com uma porção de homossexuais revoltados no
fundo?
O Filósofo encarou-me gravemente:
– Olhe, Quaderna, eu não perderia meu tempo escrevendo romances, de jeito
nenhum! Sou um Filósofo, um Sociólogo, e tenho meu tempo ocupado em obra muito
mais séria! Mas como você é um impenitente charadista e leitor de Almanaques,
um ávido devorador de enredos grosseiros, vou lhe dizer como faria um romance,
caso esse gênero literário e frívolo me interessasse!
terça-feira, 2 de setembro de 2014
ARIANO SUASSUNA – ASTROLOGIA II
Fragmento do Romance d’A Pedra do Reino
- Dizia-me, depois, o
Comendador, ainda assombrado com a violência, a quase demência do ato insano e
brutal que Arésio cometeu. Devo, porém, ao senhor, umas palavras de explicação
que esclarecem, embora não justifiquem, tudo o que ele fez. O filho mais velho
de meu padrinho era naquele ano, Sr. Corregedor, um homem de 35 anos, mais alto
do que baixo. Mas era tão “ossudo, membrudo e fortalezado”, que sua estatura
alta ficava equilibrada pela robustez, dando a impressão de que ele era de
estatura muito pouco acima da mediana. Qualquer pessoa que punha os olhos em
cima dele, via logo que era um homem dotado de extraordinária força física, uma
força que se tornava ainda maior e mais perigosa pela ferocidade de seu
temperamento intratável, sujeito a impulsos estranhos e indomáveis, a
desequilíbrios perigosos e desconhecidos em sua natureza total. Era moreno e
carrancudo, de cabelos bastos, negros e encaracolados. Tinha a barba negra e
cerrada. Não fina, como a de Gustavo, mas dura, grossa, crespa, sempre raspada,
com exceção do bigode, preto e quase retangular, aparado do mesmo tamanho da
boca e cobrindo todo o lábio superior. Suas sobrancelhas também eram bastas e
cerradas, negríssimas, e o sobrecenho, contraído e fechado, contribuía para
aumentar ainda mais a impressão de ferocidade do rosto inteiro. Vestia naquele
instante uma roupa de casimira cinzenta, e, sob os punhos limpíssimos da camisa
branca, viam-se seus pulsos grossos, peludos e nodosos, terminando pela mão
quadrada e grande, de dorso também coberto de pelos, larga e grossa. Dom Eusébio
Monturo, que tinha o hábito de fazer comparações disparatadas e que não
suportava Arésio, costumava dizer que ele parecia um cruzamento, “de Jumenta com
carro preto”, ou então “de um Carneiro preto, lanzudo e criminoso com uma Diaba
fêmea que tivesse trepado com o Carneiro sob forma de Cabra”. Apesar dos
exageros e da língua solta de Dom Eusébio Monturo, um Mestre em Astrologia como
eu, saberia logo que, ao dizer isso, ele estava mais perto da verdade do que os
outros talvez pensassem. De fato, Arésio, nascido a 22 de Março de 1900, tinha
recebido, ao nascer, os influxos malfazejos do Planeta Marte, e pertencia,
exatamente, ao signo do Carneiro, o que talvez explicasse a expressão de
“cruzamento de Carneiro com Diaba fêmea” que Dom Eusébio usava em relação a
ele. Como Vossa Excelência deve saber, Marte, Planeta ubicado no quinto Céu, é
astro ardente, seco, do fogo, noturno e de caráter masculino. Os nascidos sob
seu influxo têm estatura média ou alta, cabelos negros ou vermelhos, às vezes
lisos, às vezes encaracolados, “mas sempre curtos, duros e com aparência de
escova”, segundo nos ensina o Lunário
Perpétuo. O corpo dos “marcianos” acusa brutalidade: a cabeça é forte, o
tronco é quadrado e peludo, os olhos são penetrantes e de expressão fixa, a voz
é forte e metálica. São sempre corajosos, mas rudes e agressivos, com tendência
à irascibilidade, ao ódio e à crueldade. Impõem seu comando e são impelidos, pelo
sangue de seu Planeta, a satisfazer as exigências de seus sentidos violentos e
implacáveis, isto de modo brutal e em tudo – no jogo, nos prazeres do amor, nas
bebidas e, eventualmente, nas orgias a que se entregam. A comida preferida
deles é a carne sangrenta e meio crua, principalmente a carne de caça, assim
como todos os demais pratos preparados com condimentos fortes. Nos casos
benéficos, saem do contingente “marciano” da Humanidade os grandes Guerreiros,
os Soldados e, aqui no Sertão, os grandes Cangaceiros. Nos casos em que o
influxo de Marte pega uma alma pequena e uma compleição mesquinha surgida de
outras circunstâncias, nascem os ferreiros e os açougueiros, que vão
satisfazer, no exercício destas profissões, o gosto marciano pelo sangue, pelos
metais e pelos instrumentos cortantes. Por outro lado, Sr. Corregedor, no caso
de Arésio, o influxo de Marte se agrava, porque o signo em que ele é mais
poderoso é exatamente o do Carneiro, cujo elemento é o Fogo, cuja pedra é o
Rubi – pedra vermelha e cálida –, cujos metais são o Ferro, o Imã, o Azougue e
o Aço, e cuja cor é o Vermelho-sangue. Assim, quem combina o Signo do Carneiro
com alguma conjunção maligna de planetas hostis, tem disposições incontroláveis
para a violência, o egoísmo, os perigos, a sensualidade e a lascívia, para as
rixas violentas e para as orgias, podendo praticar os maiores excessos, e
chegar até os crimes de sangue. É que o Signo do Carneiro impressiona o fel, o
sangue, os rins e as partes genitais, sendo sua influência sobretudo violenta
dentro da primeira Década e “crítica” quando se dá “em trono e exaltação de
Marte”, o que sucede, exatamente, a 22 de Março, dia do nascimento do astroso e
fatídico de meu primo Dom Arésio Garcia-Barreto, o Príncipe Cáprico desta minha
fatídica e astrosa epopeia! Foi somente, pois, por não serem Mestres em
Astrologia, que as pessoas da sala ficaram espantadas com a brutalidade do
gesto, para eles inesperado e absurdo, de Arésio.
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