quarta-feira, 11 de maio de 2016

SOBRE A MORTE E O MORRER

Por: Rubem Alves



Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “não chore, que eu vou te abraçar...” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: “E fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas pobres humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida seja só isto...”.
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”.
Mas tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados em meu corpo, contra a minha vontade, já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.
Outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama – de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir o seu dever; debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida“ é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano?
O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo o paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000 desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe das UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietá” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.



segunda-feira, 9 de maio de 2016

O MÉTODO CIENTÍFICO DE GOETHE III

Por: Clara Oliva Antoniazzi - clara.antoniazzi@gmail.com / http://sejamosseres.blogspot.com.br
Continuação de:


Nigel Hoffmann descreve a metodologia de Goethe por meio de quatro estágios e quatro modos de conhecimento, conectando-os com os elementos míticos: Terra, Água, Ar e Fogo. Hoffmann explica que na imaginação mítica humana a fusão dos quatro Elementos formaria a Unidade da Vida, a anima mundi, e que o mesmo é verdadeiro para a mente humana. Ele continua sua explicação dizendo que ‘a sabedoria antiga entende que a anima mundi se diferencia nas formas de todas as coisas mesmo enquanto permanece una e mesma’ através do poder criativo arquetípico dos Elementos (Hoffmann, 2007: 22). Em outras palavras, na sabedoria antiga os Elementos eram considerados o poder divino, o qual formaria a Totalidade da Vida, que por sua vez se diferenciaria em formas particulares de vida através dos Elementos. Goethe percebeu essa multiplicidade na unidade estudando o crescimento das plantas, quando descobriu que todos os órgãos de uma planta são na verdade diferenciações de um mesmo órgão. Pode-se achar mais detalhes sobre esse tema no livro “The Metamorphosis of Plants” (A Metamorfose das Plantas). Os estágios da metodologia de Goethe introduzidos por Nigel Hoffmann são baseados no processo de pesquisa goethiana de Rudolf Steiner. Steiner associava os Elementos com modos de conhecimento: Terra seria o pensamento físico; Água a imaginação; Ar a inspiração; e Fogo a intuição.
O primeiro estágio descrito por Hoffmann é o conhecimento terrestre, o pensamento físico, onde o objeto estudado será abordado de maneira puramente logica teórica. Nesse estágio o objeto é separado em partes que podem ser contadas, medidas e pesadas; o fenômeno é abordado de maneira reducionista, mecanicista usando lógica de causa e efeito, procurando detalhes, aprofundando-se cada vez mais nas partes. Essa abordagem busca leis, teorias, explicações. O perigo é ficar preso neste estágio, acreditando que é o suficiente para entender o fenômeno por completo. Isso é exatamente o que acontece na ciência convencional, a qual acredita que subjetividade, considerando seus aspectos qualitativos, não pode ser usada para provar nada na ciência. A ciência está viciada no modo mecanicista de conhecimento, vendo-o como o único meio de provar hipóteses. O problema é que esse estágio não pode pensar o crescimento; ele não pode ver o processo dinâmico de vida, o vir a ser do fenômeno. É aqui que o próximo estágio entra em ação.
O conhecimento aquoso ou imaginação é o que pode entender crescimento, evolução, transformação. Esse modo de conhecimento flui como água em direção ao fenômeno permitindo que ele venha a ser na imaginação do observador; ele molda o fenômeno e dissolve-o em um movimento vai-e-vem. “No pensamento Água aprendemos a ‘habitar’ imaginativamente a forma de seres vivos com um pensamento que participa ao invés de permanecer como um observador externo” (Hoffmann, 2007: 39). Nesse estágio o observador começa a se relacionar com o fenômeno, a entendê-lo em um nível pessoal. Goethe chamava esse estágio de ‘imaginação sensorial exata’. Essa etapa une todas as partes que foram identificadas no primeiro momento conduzindo para em entendimento do processo dos fenômenos, permitindo-nos aprofundar neles, pensar a dinâmica, o movimento deles. O conhecimento aquoso traz à tona a possibilidade de ‘pensar com nossos sentimentos’, não sentimentos emocionais, mas sentimentos como um meio cognitivo. Esse modo imaginativo de cognição tem seus limites assim como o conhecimento terrestre. Ele entende o organismo estudado como puro movimento formativo. Mas organismos são mais do que apenas plasticidades, do que movimento formativo; ‘dentro de cada movimento formativo na natureza existe um gesto definido’. O pensamento precisa expandir o nível do movimento formativo para ‘uma esfera mais ideal ou supersensível’ (Hoffmann, 2007: 43).
O terceiro estágio, conhecimento aéreo ou inspiração, é onde se pode encontrar significado através de uma forma material permitindo que os outros dois estágios, terrestre e aquoso, se tornem transparentes de forma que seus caráteres essenciais se desdobrem para o entendimento de alguém. Deve-se estar em um estado mental receptivo, nem passivo e nem ativo, mas pronto e aberto para que o significado se apresente. Nas palavras de Henri Bortoft: ‘quando a vontade se torna receptiva, então a consciência torna-se participativa. [...] Consciência participativa significa participação consciente nos fenômenos’ (Bortoft, 1996: 242). Portanto, o estágio de inspiração é onde permitimos que nosso entendimento artístico capte o significado dos fenômenos, deslocando do movimento formativo para o gestual dinâmico, que significa movimento que expressa uma ideia ou significado. Por artístico quero dizer a habilidade de usar criatividade como um meio de conhecimento ou como um meio de expressar a compreensão. Nesse estágio estamos além da ciência convencional, o empirismo científico e a lógica; aqui juntamos arte e ciência, fundindo essas duas maravilhosas esferas de conhecimento a fim de ter uma apreensão mais detalhada dos fenômenos. Mas o conhecimento aéreo ainda é limitado para a experiência do fenômeno como algo além de nós; está tão perto de se tornar uma experiência de ser uno com o fenômeno, entendendo-o verdadeiramente através do que Goethe chamou de fenômeno arquetípico. Nesse ponto adentramos o conhecimento ígneo, do fogo.
O último estágio, conhecimento ígneo ou intuição, é quando o conhecimento do observador torna-se expressão criativa, a qual irá conduzir para a compreensão da essência dos fenômenos, para o impulso criativo existente nos fenômenos. ‘Quando percebemos o organismo com “o olho do espírito” (pensamento Fogo), estamos experienciando na verdade [a] atividade de formação como auto-brilhante, verdade espiritual autogerada, um impulso criativo surgindo de nada mais que ele mesmo’ (Hoffman, 2007: 58). Nesse estágio estamos ‘pensando com nossa vontade’ acordando ‘uma capacidade da alma humana comensurada com o impulso criativo da ideia viva na natureza’ (Hoffman, 2007: 60). Aqui nos tornamos ativamente criativos, nos tornamos um com o fenômeno por captar seu core de vida, seu impulso de formação, seu vir a ser, sua atividade criativa, e expressando-o através de uma autêntica ‘linguagem criativa’. Nesse ponto é possível encontrar o fenômeno arquetípico.
Recapitulando: a jornada através dos quatro modos de conhecimento da metodologia goethiana explicados por Hoffman começou no conhecimento terrestre ou pensamento físico, onde se trabalha com observação clara e mente racional exata, o que torna essa abordagem científica e não mística. Essa lógica puramente mecânica, empirismo exato, flui para o conhecimento aquoso ou imaginação, um pensamento escultural que nos permite ver o crescimento, movimento formativo. Aqui adentramos em um modo de conhecimento mais artístico onde escutamos nossos sentimentos. Então permitimos que o movimento, o crescimento nos mostre seu gestual; começamos a ver a expressão do fenômeno através do conhecimento aéreo ou inspiração, ainda conscientes dos nossos sentimentos. De repente, nos percebemos expressando o impulso criativo da forma, o fenômeno arquetípico, como se fossemos o fenômeno e o fenômeno fosse nós, nos encontramos em uma experiência de totalidade, nos tornamos um com o fenômeno através do conhecimento ígneo ou intuição.
Um modo que encontrei para aprofundar meu conhecimento sobre a ciência de Goethe foi participar de uma investigação cooperativa baseada em sua metodologia – que será explicada em mais detalhes no próximo capítulo – sem mencionar minha visita e trabalho voluntário em Pishwanton Woods na Escócia, um projeto da expert em ciência goethiana Margaret Colqhoun. Nos próximos dois capítulos é possível encontrar um vislumbre dessas duas experiências enriquecedoras. Eu digo um vislumbre porque palavras não podem definir o quão poderoso e satisfatório foi estar imersa nesses oceanos de conhecimento, além de vivenciar lugares e paisagens surpreendentes.

REFERÊNCIAS
Bortoft, H. (1996) The Wholeness of Nature: Goethe’s Way of Science. Edinburgh: Floris Books.
Goethe, J. W. (1996) Goethe on Science: An Anthology of Goethe’s Scientific Writings. Selected and introduced by Naydler, J. Edinburgh: Floris Books.
Goethe, J. W. (2009) The Metamorphosis of Plants. Introduction by Miller, G. L. London: The MIT Press.
Hoffmann, N. (2007) Goethe’s Science of Living Forms: The artistic Stages. Hillsdale: Adonis Press.
Miller, D. (1995) Introduction – page xi to xxi - Goethe The Collected Works: Scientific Studies. New Jersey: Princeton University Press.
Miller, G. L. (2009) Introduction – page xv to xxx – The Metamorphosis of Plants by Goethe, J. W. London: The MIT Press.
Naydler, J. (1996) Chapter 1: The Human Being is the most Exact Instrument – page 27 to 35. Goethe on Science: An Anthology of Goethe’s Scientific Writings. Edinburgh: Floris Books.

Seamon, D. (1998) Goethe, Nature and phenomenology – page 1 to 14. Goethe’s Way of Science: A Phenomenology of Nature. Edited by Seamon, D. and Zajonc, A. Albany: State University of New York Press.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

SAÚDE EM NOVE MOVIMENTOS


O James Redfield escreveu, em profecia celestina, sobre nove movimentos associados ao processo de emancipação ou individuação. Em Cloud Atlas (no Brasil “A Viagem” – decorrência da sina brasileira de deformar e aleijar títulos de filmes traduzidos do original) e na trilogia Matrix dos irmãos Wachowski, os diretores apontam um roteiro similar.


O convite começa quando se começa a levar a sério as coincidências e se perguntar sobre a possibilidade de algo atuando subjacente ao que nossos sentidos nos permitem acessar.
Depois, a consciência até então adormecida passa a ser vista como algo real. A preocupação excessiva com a realidade material impede esse olhar, mas aos poucos se desconfia haver certa superioridade do ser sobre o ter. É quando o ser se descobre humano.

Com o início de uma nova vida emerge a consciência da profunda desnutrição gramatical e linguística, recursos fundamentais para acessar e descrever a profundidade do universo que se descortina. O desespero e a experiência do vazio colocam a pessoa em contato com a natureza de um lado e com o espírito científico de outro. O que não se pode explicar ganha o nome de energia e o mundo passa a ser visto como um vasto sistema de energia.
Eu uso a energia e ela me sustenta, mas de onde ela vem? Como pude permanecer até hoje desconectado? Eu preciso disso que designo energia e sem ela me sinto fraco, inseguro e carente. Vou roubá-la dos outros! Em cada encontro com o outro buscarei recursos para me autoafirmar a partir da energia do outro. Minha vida será uma competição e meu objetivo é me nutrir da energia que flui entre as pessoas. Em minha família, na profissão, na relação com amigos e em todo encontro com o próximo, aumentarei minha energia pessoal a partir da energia alheia. Quero estar sempre certo, sempre com a razão e portar sempre a última palavra. Evolução é a sobrevivência do mais forte!


       Eu me dou conta que não preciso vampirizar a energia alheia, pois o universo proporciona tudo o que necessito, basta que eu esteja aberto a isso. Eu me abro, e me sinto preenchido por outra qualidade de energia. Não sei como, mas passam a ocorrer coincidências que me fazem progredir. Assim, me estabeleço em outro nível de energia e me percebo existindo em uma vibração mais elevada.
      Sinto-me forte ao ponto de poder olhar, elaborar, aprender e varrer os velhos dramas que repetidamente venho vivenciando. Descubro a verdade a meu respeito.

Autobiografia em cinco capítulos
 1. Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5. Ando por outra rua.
(Extraído de "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer" -“ Sogyal Rinpoche -“)

      Envolvo-me conscientemente e me torno alerta para toda coincidência que me cerca e para tudo que o universo me oferece em termos de experiências e respostas. Estabeleço relação entre o que acontece no cotidiano com meus sonhos e comparo a história dos sonhos com a história de minha vida. Descubro a intuição e seu fluxo mágico. A felicidade não é um estado estático de alegria que a qualquer momento pode acabar, mas um potencial entre o estado que me encontro e a realidade da plenitude. Essa distância potencial permeia de sentido a vida e se torna o motivo pelo qual eu caminho todos os dias, sem a expectativa de chegar, senão pela alegria do caminhar.

      Todo encontro traz uma mensagem. Absolutamente nada acontece por acaso, mas a forma como respondo a cada encontro determina se sou capaz de receber a mensagem. Se conversar com alguém que cruza o meu caminho e não identificar uma mensagem sobre minhas questões atuais, isso não significa que ela não houvesse. Significa apenas que não a captei, por algum motivo.
      Meu senso de propósito se satisfaz com o sentimento de minha própria evolução. Exalto-me no desenvolver da intuição e ao apreciar o destino a se desenrolar. O mundo se humaniza, diminui seu ritmo e fico atento ao próximo encontro significativo a surgir. Sei que o mesmo pode ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar. Minha percepção e vibração revelam um céu diante de mim, ainda que não o veja. Acesso o amor e lembro que a energia é a própria veste de Deus. É o amor que mantém minha vibração adequada; o amor me mantém saudável. Meu corpo vibra em determinada frequência, que aumentada ou diminuída excessivamente pode levá-lo ao sofrimento - eis a relação entre estresse e doença. A saúde se sustenta na medida em que eu me relaciono com o céu estando aqui na Terra. Assim, diferente da sobrevivência do mais forte, evolução é cooperação e os seres mais bem sucedidos evolutivamente são aqueles que de algum modo cooperam.

domingo, 10 de abril de 2016

ASTROLOGIA - FERNANDO PESSOA II

Raphael Baldaya - O horóscopo não relata o que há antes do nascimento.



A DOUTRINA DOS TRÂNSITOS

O horóscopo não relata o que há antes do nascimento, nem o que há depois da morte, embora se possa admitir que aspectos (direções) em retrocesso, e em sucessão da morte, possam indicar certos fenômenos externos relativos à vida, por assim dizer, pré-natal e pós-mortal do indivíduo. Isto, porém, é duvidoso.

A vida é essencialmente ação, e o que o horóscopo indica é a ação que há na vida do nativo. Três coisas não há que buscar no horóscopo: (1) as qualidades fundamentais do indivíduo, quanto ao seu grau íntimo; (2) o ponto de partida social da sua vida; (3) o que resulta dele, e da vida que teve, depois da morte. Tudo, menos isto, o horóscopo inclui e define.

Não pasmemos de que seja apagado e frustre o horóscopo de tal grande artista que foi célebre só depois de morto: o horóscopo indicará qualidades artísticas (em grau que não podemos medir) e indicará obscuridade. Tudo será indicado em abstrato; só uma vidência nossa o poderá concretizar. (Tal é o sentido do primeiro apótema de Ptolomeu).

Exemplificando melhor: um horóscopo de poeta dramático poderá ser determinado como tal poderá, adentro desse horóscopo, ser indicada uma certa fama e um certo proveito. À parte isso, o horóscopo pode ser o de Shakespeare ou o de um poeta dramático de inferior nota, que, na época em que viveu, tenha tido uma vida, quanto à fama e proveito, idêntica ou semelhante à de Shakespeare. O horóscopo revela, pouco mais ou menos, o que o mundo vê. Nunca devemos esquecer este pormenor importantíssimo. Sem ele nada faremos da astrologia.


A Procura da Verdade Oculta - Textos filosóficos e esotéricos. Fernando Pessoa. (Prefácio, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1989 (2ª ed.). 158. Traduzido do inglês. Fragmento do «Tratado de Astrologia».


segunda-feira, 4 de abril de 2016

MEDO DA MORTE – UMA EPIDEMIA MODERNA


Bach - Paixão segundo Mateus

A balada de Narayama - Shohei Imamura

Ao visitarmos Jézéquel (http://www.alainjezequel.com/) se percebe que a medicina transformou e perturbou profundamente a saudável e tranquila relação de outros tempos entre o homem e a morte. Diluída nos contos e rituais religiosos, a morte permeava o cotidiano, o que se pode encontrar entre aqueles de nós ainda saudáveis. Com a atenuação da hegemonia religiosa sobre a questão, o efeito tranquilizador sobre a compreensão da morte e do morrer cedeu espaço ao medo e à necessidade de segurança, pressupostos mórbidos para um rentável mercado em franca expansão, dos seguros e da “segurança”.
Defender a vida não é sinônimo de lutar contra a morte

Nas palavras de Jézéquel:
“A posição da ciência médica relativamente à saúde é profundamente ambígua: se o objetivo da medicina é defender a vida, a tentação de passar da luta contra as patologias para a luta contra o fenômeno perturbador – morte – é grande: de fato, dar este passo – pretender decidir entre a vida e a morte – faz do médico um demiurgo e um “apóstolo” da imortalidade. Uma das consequências desta ambição é levar as pessoas que acreditam e praticam este “culto” a uma extrema exigência, a um pedido cada vez maior de infalibilidade, natural, da parte de uma entidade divina. É um pouco isto o que se verifica, hoje em dia com o número crescente de pacientes que, por investirem uma fé ilimitada na tecnologia e nos conhecimentos científicos, sentem-se no direito de pedirem contas cada vez mais altas ao poder médico. Mas, na verdade, rapidamente se descobre que se a encenação do poder é tecnicamente perfeita e se o mágico tem um ar extremamente competente (hospitais, indústria farmacêutica, corpo médico executando rituais bem ensaiados) tudo isto não passa, em boa parte, de uma ilusão que tem, aliás, consequências graves, à vista de todos nós: as esperanças são realmente enormes – “este médico é realmente o melhor e esta clínica fantástica”, mas as decepções não ficam atrás. Não se trata de um problema de competência médica, mas sim de crença coletiva.”


As pressões sentidas pela medicina referentes às noções de lucro, rentabilidade e consumismo, eventualmente comprometem a lei hipocrática de exercício médico: “primum non nocere”. Nos hospitais a figura do médico perde em importância para gravatas e contingências da beleza decaída, os CEOs e seus gestores. Não deve surpreender, ao leitor atento, a semelhança destes com o estado de cio observável no reino animal, bem como o estado da gestante a incubar quimera a conhecer. Quimera, pois que geneticamente modificada nos laboratórios de treinamento ao que Jogos Vorazes servem de exemplo menor.
Ao escolher a lógica da sociedade midiática, regida pelo efêmero, “fantástico” e espetacular, a medicina e seus órgãos regulamentadores só podem correr atrás do prejuízo ao tentar a posteriori regulamentar aquilo que os meios de comunicação já ofereceram aos reflexos condicionados do consumidor. Informações e imagens de doenças amedrontam e inquietam ouvintes, telespectadores e leitores, incapazes de defesa por absoluta alienação ou conhecimento mínimo de causa. Estímulos dessa natureza, em que o medo é o veículo, geram vítimas indefesas e presas fáceis de qualquer alternativa oferecida subsequentemente, especialmente se rápida e prática.
Lembremos apenas que o rápido e prático, grosso modo, age sobre efeitos; agir sobre causas requer paciência e eventuais esforços sustentados temporalmente. Assim, é imprescindível agora universalizado o acesso à escolarização, que se universalize a educação. Sim, pois acesso a algo é distinto e distante do algo em si; existem várias antessalas até a câmara dos reis. Ao que parece, educação mesmo só quando sua caçula escolarização ou formatação, pré-requisito mórbido, tiver dominado o pedaço...
Quanto à medicina, ouso, enquanto vassalo deste sistema, que o papel do médico é emancipar o paciente, ensiná-lo como ser saudável, torná-lo consciente de modo que suas escolhas sejam escola para quem venha a encontrar. Isso tudo no intuito de gerar uma forma de “epidemia” social, uma “vacinação em massa”, mas de saúde, a favor da saúde; lembrando que não necessariamente ir contra a doença significa ir a favor da saúde. Ir a favor de algo é fortalecer este algo em si, é somar e multiplicar; ir contra algo é enfraquecer este algo e talvez algo em si também (pergunte a um oncologista sobre os efeitos da quimioterapia ou ao infectologista sobre os efeitos dos antibióticos sobre as células do corpo e flora bacteriana intestinal), é subtrair e dividir. O médico ou a mídia, quem vai começar a emancipar primeiro? Saúde é Consciência!
O bombardeio de imagens em ação anestesia a imaginação. Imagens em ação e imaginação, coisas tão distintas com sons tão parecidos... Uma vem de fora e distrai, trai o coração e faz crer verdade o que talvez não seja não! A outra é amiga, silenciosa; é corda do alaúde da alma, faz lembrar e acalma além de tônico para a saúde!
Quando a vida se torna um “ganhar tempo” ou pelo menos um “não perder”, os rituais e a relação com a morte perdem sua essência, conforme belamente contado por Michael Ende (Sobre isso veja: Momo e o Senhor do Tempo). Se o risco de adoecer se torna medo da morte, a “prevenção” se reveste de algo maquiavelicamente perverso, conforme Jézéquel em “Memórias de Território”:
“Em nome da “prevenção” realiza-se um verdadeiro terror organizado: rastreio vaginal, mamografias, análises de sangue e testes (Papanicolau), biópsia, endoscopia; todos estes momentos são vividos na maior das ansiedades, como verdadeiras espadas de Dâmocles, cujo veredito pode decidir num instante o futuro da pessoa. Como estes exames devem ser periodicamente efetuados, a pessoa nunca fica descansada e vive em estado de estresse permanente. O medo da morte, que se resolvia culturalmente, tornou-se um verdadeiro maná para a sociedade de consumo. A morte humanizada e ritualizada foi substituída pela morte patológica e hospitalar, no meio de corredores brancos e inóspitos, máquinas frias e tratamentos aberrantes – resultado da pressão de uma medicina onde se misturam interesses políticos, econômicos e ideológicos”.

De fato a temática é corriqueira nas reflexões sobre saúde, conforme:


Muitas doenças decorrem de hábitos de vida (alimentares, comportamentais, psíquicos, emocionais ou mesmo espirituais) que urgem serem transformados. Assim como a vida é transformação contínua a saúde requer movimento interior de transformação e cultivo de bons hábitos. Os hábitos moldam o caráter assim como este o destino. Se há saúde, fortaleçamo-la antes de atacar a doença; reabilitar é fortalecer as habilidades preservadas antes de agir sobre as que carecem. Primum non nocere. Se há morte é porque houve nascimento e se há nascimento e morte é porque há vida; vida é uma rara palavra sem oposto que comporta a oposição essencial do nascer e do morrer. Estamos manifestos na estranheza de um mundo que nos permite definir as descontinuidades nascimento e morte, mas que nos confunde ao tentarmos definir a tessitura do que seja a vida. Se nascimento é alegria e começo de ciclo porque não exercitar a alegria de um final de ciclo, à semelhança do término de uma graduação? Quem sabe a perspectiva da finitude possa nos impulsionar a um viver mais significativo (Ser) e um pouco menos apegado (ter)?