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quarta-feira, 8 de julho de 2015

SOBRE O LIVRO: "CUIDANDO DE QUEM CUIDA"


Por: Mário Inglesi




Dr. Ricardo

O livro “cuidando de quem cuida” vem ao encontro da saúde e bem estar dos cuidadores e de todos aqueles que pretendem seguir uma vida salutar sem tropeços de doenças graves ou não, que os impeçam de vivenciar toda a fruição de uma vida próspera e longeva, ainda que se dando ao trabalho profissional de cuidar de outros, em hospitais e casas de saúde, ou mesmo em casas de pacientes, a pedido de familiares.

Com isso, seus autores nos premiam com diversos conselhos, dicas e elementos, acompanhados, inclusive de poemas para nos fazer entender que a vida, com todos os seus percalços, tem sua beleza, jungida de satisfação e felicidade.

Mas, para melhor conhecermos e entendermos condignamente a relação entre cuidador e seu paciente, com suas variantes de dor e sofrimento, foi de todo proveitoso para fundas e fecundas reflexões, enxertar logo no início do volume em apreço, casos, sejam eles ficcionais ou não, de compartilhamento ilustrativo, entre o cuidador e pacientes em fase terminal,

Tais casos, descritos de maneira objetiva e totalmente realista, nos amedrontam, logo de início, por nos fazer estar no lugar de um e de outro, sofrendo de dores intensas que a ambos atingem direta ou indiretamente.

Esse nosso sentimento aos poucos vai sendo substituído por um inconformismo, cuja completude se reveste de muita raiva e ira.

Afinal, como pode um paciente terminal com dores intensas e profundas, de provocar suores frios, engulhos, faces maceradas e olhos esbugalhados, e entranhas em ebulição, ter que esperar nessa situação, nove horas, como descreve a própria autora, também cuidadora, para receber a sedação que se fazia necessária?

E mais, se esse estado terminal nefasto se repetir, porque continuar ou prosperar essa situação, de sofrimento tão intensa, lastimável, e de configurar tamanha insensatez, já que até Deus, como já o fizera com seu filho, virou-lhe o rosto e o abandonara, definitivamente.

E mais, porque não por em prática ou impedir que meios imediatos e até indolores sejam aplicados em defesa da eliminação do paciente e suas dores.

Isso se assemelha a masoquismo, à dormência de sentidos e sentimentos para com tais pacientes terminais.

E o que é mais aberrante, no caso, pessoas sãs, por razões de imprudência, de atos muitas vezes impensados, ou fortuitos, são sacrificadas com fuzilamento, degola, ou simplesmente por balas perdidas, como vem acontecendo com jovens, crianças e idosos, não para aplacar sofrimentos, mas apenas para mostrar e dar exemplo, da força e poderio de mandatários inescrupulosos e insensíveis.

Cumpre também pensar na situação do cuidador e todos os reflexos que as dores de seus pacientes projetam física e psicologicamente no cumprimento do trabalho e na sua vida pessoal, causando-lhe mal-estar, insônias, apatia, desolação, perda de apetite, choros convulsivos e tantos e tantos outros males e problemas.

Afora, os sentimentos de seus parentes próximos ou não, que porventura vierem a ver ou saber das terrificantes dores e aflições de seu filho, marido, pai, amigo ou outro circunstante parentesco.

De todo modo, como já diziam os antigos e, hoje, se repete com frequência, “a vida é uma causa perdida”, pois por mais que se lute, a morte é certa, queiramos ou não. Esse pensar sobre a antecipação do final não causará maiores infortúnios a quem quer que seja, ao contrário, haverá, em contrapartida, boas e amadas lembranças de quem se foi, inclusive de sua última imagem, onde a serenidade se faz presente em seu rosto, em sua testa não mais franzida, e, em seu vago sorriso de: “gracias a la vida que me há dado tanto” (Violeta Parra).

Talvez, possam pensar e dizer sobre o pecado ou a ilegalidade que isso representaria. Esquecem esses que todo esse exemplo de egolatria será destruído, felizmente dia ou menos dia, pelos carunchos e traças como material vetusto e imprestável varrido pelo vento e amontoado pelo tempo, no lixão da História.

Por enquanto só nos resta aproveitar a oportunidade, para sopesar tudo isso e convir:

               

“O diabo sempre quer algo de nós.

Vive a rondar

Com suas tentações,

Exigências, promessas”



“Mas confesso, acho o mundo perverso

E sempre prometo o que não posso cumprir”



(Beatriz Di Giorgi. Fragmentos de poemas In “Labirinto”)



E, mais, como diz certeiramente e com grande objetividade o poeta Aleksandr Blok (1880-1921):



Noite. Fanal. Rua. Farmácia.



Morres e tudo recomeça

E se repete a mesma peça:

Noite – rugas de gelo no canal

Farmácia, Rua. Fanal.



Dança da Morte (fragmento, trad. Augusto de Campos), in Antologia da Poesia Russa Moderna”



Assim, por toda a benquerença de frutos de humanidade que o livro inspira e revela, é de todo necessário recomendá-lo à leitura, com votos de vida longa e frutos auspiciosos ao projeto “Cuidando de Quem Cuida”, mesmo que possivelmente todo esse esforço humanitário e amoroso talvez não atinja, em atendimento, os pobres e os desvalidos, com ou sem dores lancinantes, atingidos por doenças degenerativas e/ ou em estados terminais.



Mario Inglesi

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