domingo, 17 de fevereiro de 2019

OLAVO BILAC - ASTROLOGIA


Via Láctea (trecho XIII)
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora! “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
( Olavo Bilac )
(Publicado em  Antologia Poética - Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 28)


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O MUNDO INTERIOR


POR: GERALDO DRUMOND
   


Viva sua vida fazendo a sua parte, cuidando daqueles que lhe são queridos, assumindo a responsabilidade integral pelos seus acertos e erros. Procure fazer sempre o melhor mesmo que não enxergue benefícios imediatos. O mundo exterior melhora quando trabalhamos nosso mundo interior. É a grande contribuição que fazemos a nós mesmos e ao universo...


ROMA E NIETZSCHE




Alguns amigos meus apreciam esse pensador contemporâneo Nietzsche. Para conversar com eles li alguns livros que esse cavalheiro simpático de bigode escreveu. Depois do livro “O Anticristo”, onde o autor descreve a célebre “Lei contra o cristianismo”, bem nas últimas páginas, com os sete artigos famosos, prossegui aprendendo no “Ecce Homo” o porquê de ele escrever livros tão bons assim como o porquê de sua sabedoria e inteligência. Muito interessante sua forma de escrever e explicar!
Lendo, entretanto, o livro “Além do Bem e do Mal”, fui surpreendido pela coincidência sincroníssima de assistir ao filme Roma. Sim, pois a tensão que se mostra na compreensão da mulher em cada uma das obras é tão intensa que chama a atenção do leitor.
Em “Roma” a mulher é retratada como pilar de sustentação, pedra fundamental, pedra angular, enquanto o homem é ser de qualidade lastimável e que deixa a desejar pois: não assume seus compromissos, é tosco, foge quando o contexto se torna complexo e finalmente se situa inevitavelmente em um dos extremos que vai de uma mansidão servil a uma agressividade cega e sem fundamento. O filme retrata as qualidades femininas e surpreende ao expor as limitações de um masculino caricato. Curiosamente caricato, mas facilmente identificável nos noticiários e nas telenovelas da atualidade.
No capítulo “Nossas Virtudes” de “Além do bem e do mal” do filósofo niilista encontra-se uma compreensão da mulher curiosíssima e de qualidade diametralmente oposta. Senão vejamos no fragmento 234 onde se lê: “... Se a mulher fosse uma criatura pensante teria descoberto, cozinhando a milênios, os mais importantes fatos fisiológicos, e teria também aprendido arte da cura! Por más cozinheiras – por total ausência de razão na cozinha é que a evolução do homem foi mais longamente retardada, mais gravemente prejudicada: isso pouco mudou em nossos dias”. Uma visão particular do autor a respeito das mulheres; um convite a pensar.
É curiosa a forma como o autor compreende e descreve a mulher na referida obra, em especial no que se refere às “Sete máximas de mulher”, onde ele se solta e esbanja em intensidade e potência:
1-      Como voa para longe o tédio, quando um homem nos faz o assédio!
2-      A idade, ai! A ciência e a cultura tornam virtuosa até mesmo a menos pura.
3-      Vestido escuro e boca fechada: faz toda mulher parecer – dotada.
4-      A quem sou grata a vida inteira? A Deus – e a minha costureira!
5-      Jovem: caverna com flores. Velha: um dragão diz horrores.
6-      Nome distinto, olhos de fera, além disso homem: ah, quem me dera!
7-      Palavra curta, sentido amplo como um rio: para a jumenta, gelo escorregadio!
Finalmente, o pensador expressa sua apreciação ao trato às mulheres no oriente e nos convida a meditar a respeito. Assim no fragmento 238 lemos: “Mas um homem que tenha profundidade tanto no espírito como nos desejos, e também a profundidade da benevolência que é capaz de rigor e dureza, não pode pensar sobre a mulher senão de modo oriental – ele tem de conceber a mulher como posse, como propriedade, a manter sob sete chaves, como algo destinado a servir e que só então se realiza; ele tem que se apoiar na imensa razão asiática, na superioridade de instinto da Ásia, tal como antigamente fizeram os gregos, esses grandes herdeiros e discípulos da Ásia...”.
Compor uma síntese onde o feminino e o masculino sejam contemplados em sua importância e inteireza não é simples. Tal síntese, no entanto, é desejável no momento presente. A leitura de obras que se contrapõem auxilia na visita aos espaços recônditos, dos preconceitos e das limitações, mas principalmente é convite ao autoexame. Assim como o autoexame da mama tem utilidade na profilaxia do câncer de mama, o autoexame da alma e a compreensão sincera de nossos limites pode ser de grande utilidade na profilaxia do “câncer” na alma.
Na sua opinião, entre as polaridades masculino e feminino, qual está cumprindo melhor seu compromisso com a história humana?



CATÁSTROFES NATURAIS



O homem é ser integrante da natureza. Existem catástrofes, mas a natureza em si é maravilha.
Para o olho que enxerga, além de ver, a natureza respira no vulcão que resfria a terra; se acomoda em seu leito esplêndido terremotando e remontando a terra; banha suas costas com o mar remoto no maremoto, esse mar maroto; e se enfurece e furacona para se aliviar; afinal de contas quem de nós não suspira às vezes.
A natureza sempre ajuda, corrige, compensa. Ultimamente as catástrofes naturais são recebidas com estranheza. As catástrofes, se de fato hão, são do humano, esse acidente da natureza, que se contrapõe à mãe e seu convite a ser natural. Escolheu o normal, esqueceu o natural!!
A catástrofe natural mais óbvia talvez seja a catástrofe humana. A natureza é uma aliada e ensina os movimentos primordiais que nós humanos devemos operar, sejam o fogo criativo vulcânico que refresca e oferece matéria prima para o corpo; a água fecundante dos mares que inundam e limpam nossos recessos mais inférteis para que retornem à fertilidade; o remexer dos terremotos e de terra que nos recorda de tempos em tempos que a vida é movimento; finalmente o sopro dos furacões que nos recorda também sermos sopro e que passaremos como eles.
Qual seria a maior catástrofe, os movimentos de acomodação da natureza ou o humano e sua paralisia? Há evidências contundentes de que o humano está paralítico e que a natureza, solene e silente, o encontra sempre distraído. Seja bem vinda mãe e irmã!



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

FINAL FELIZ E OUTROS FINAIS



No cinema, teatro e na vida as coisas podem ir bem ou não. Tem histórias que acabam bem e outras que não. Tem pessoas que são de bem e outras que não; não chegam a ser más, apenas não de bem. Não de bem com a vida.
Os amigos que gostam de filmes e peças com final feliz tendem à desconfiança, apreciam o controle e geralmente conhecem o medo. Julgam saber o que é certo ou errado com muita clareza. Chegam a ser quase preconceituosos. Não gostam do feio, evitam. De fato, o feio não faz parte da vida deles; como poderia? Vivem de aparências e de comparações. Afinal, se eu não me comparo com algo, como saber quem sou? Quem não tem dentro encontra suas referências fora. Vive no espelho, como a bruxa da branca de neve.
Alguém disse que o hábito faz o monge. Também o hábito da necessidade do final feliz ou conclusivo é determinante do perfil da pessoa. Após a descrição da anatomia neurológica dos neurônios em espelho, pessoalmente noto que isso é muito verdadeiro. Nos relacionamos empaticamente com aquilo com que nos alimentamos; nos tornamos nossos “alimentos”. O prisioneiro do final feliz precisa que alguém lhe mostre o sentido, explique o porquê das coisas. A pessoa final feliz está mais refém do mundo das informações que convencem em decorrência do sentido aparente. O economista Nassim Nicholas Taleb no clássico “A Lógica do Cisne Negro” esclarece com simplicidade o poder das notícias que explicam, que associam uma causa a um dado efeito, que induzem, enfim que tentam mostrar que tudo está sob controle porque tudo se explica e se justifica; inclusive o mercado financeiro. Claro o sentido é sempre desejável, desde que proposto, raramente quando imposto e se possível que seja composto entre as partes envolvidas.
O absurdo deve sempre ser considerado e computado enquanto possibilidade; tudo é possível, nos cabendo apenas considerar probabilidades. O pensador Guimarães Rosa tem histórias que mostram isso. Teria o jagunço Riobaldo considerado a possibilidade de Diadorim ser quem era?   
Os amigos que gostam de filmes com outros tipos de finais são diferentes. Diferentes de todos os outros. São únicos. Chegam a ser chatos de tão únicos. Se percebem tão bem a partir de dentro, pois têm vida interior, que parecem não se importar com o mundo exterior. Mas se importam sim; querem fazer diferença. Sabem que as coisas nem sempre acabam como gostariam e que o imprevisto e o inusitado são faces da felicidade nem sempre bem-vindos.
Gosto de todo tipo de final, mas também quando não termina. Quando não há final, então o caminho e a caminhada podem ser o próprio fim.

EU ACREDITO


POR: GERALDO DRUMOND
 

Acredito que estamos vivendo um momento que devemos exaltar o respeito, o amor, a verdade, a ética, e caminhar juntos, olhando nos olhos uns dos outros e escutando o coração. Não devemos mais uma vez desconstruir o outro para nos tornarmos donos da verdade!

ALIMENTAÇÃO CONSCIENTE XII – TOLSTÓI - 1895


CONTINUAÇÃO DE:



           Contos de Tolstói – Três Parábolas – Segunda Parábola (Fragmento).

Pessoas faziam negócios com farinha, manteiga, leite e todo tipo de comestíveis. E, disputando umas com as outras, no intuito de ganharem o máximo possível e ficarem ricas rapidamente, passaram a misturar cada vez mais substâncias nocivas e baratas em suas mercadorias: na farinha misturavam farelo e cal, na manteiga punham margarina, no leite, água e giz. Mas enquanto as mercadorias não chegavam aos consumidores, tudo corria bem: os atacadistas vendiam aos varejistas e os varejistas vendiam aos mascates.
Havia muitos armazéns e lojas e o comércio parecia correr de vento em popa. E os negociantes estavam satisfeitos. Mas para os consumidores da cidade, aqueles que não produziam o próprio alimento e por isso tinham de comprá-lo, era muito desagradável e nocivo.
A farinha era ruim, a manteiga e o leite eram ruins, mas como nos mercados da cidade não havia outras mercadorias senão as adulteradas, os consumidores da cidade continuavam a comprar aquelas mercadorias e atribuíam a si mesmos, e à maneira errada de preparar a comida o paladar ruim que sentiam nos alimentos e os danos à saúde que causavam. E os comerciantes misturavam aos produtos quantidades cada vez maiores de substâncias baratas e estranhas aos alimentos.
Isso durou muito tempo; os habitantes da cidade não paravam de sofrer e ninguém se decidia a manifestar seu descontentamento.
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