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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

SLOGANS E FRASES - "CINZAS" DE QUARTA FEIRA

POR: MÁRIO INGLESI

Dr. Ricardo
“Acabou o nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou”

Marcha de Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius de Moraes.

Lamentos de Carnaval – Marcelo Quintanilha & Vania Abreu – G.Gil

Findou-se mais um Carnaval. E, com ele, toda a alegria, prazer e liberdade, que, sempre oferece, a quem está disposto a divertir-se e dar asas à sexualidade, à imaginação, esquecendo o cotidiano insonso e as agruras do dia a dia sensaborão e piegas.
Com um pé num passado não muito distante, quando vigoravam ferreamente, normas religiosas, hoje, já abrandadas ou até deixadas de lado, em favor da permanência ou incremento de fiéis, o Carnaval ainda é considerado a festa do Demo, e portanto, de longeva distância, como “entrudo”, provavelmente no século XVI, em Portugal.
Mas, o que mais chama atenção dentro dessa mistura de ideias e ideais, não é o gostar ou não de Carnaval, é, isto sim, o forte e incisivo horror que permeia, quando se alude ao Tríduo momesco, com a frase gratuita, já que sem qualquer embasamento crítico explicativo, é a atordoante frase “Eu Odeio Carnaval”, Traduz-se mais como um ranço de vingança, ódio ou até mesmo – quem sabe – inveja, de não poder estar ali no meio da multidão, curtindo todo o afã de uma alegria pouco duradoura, mas sempre eternizada a cada ano.
O que causa espécie e espanto nesse ódio é que, ele não se faz presente e não se declara em situações em que, realmente, a fúria deveria estar sob um clamor, realmente dilacerante, como nos casos das guerras, com seus milhares e milhares de mortos, feridos e incapacitados para a vida, ou ainda, nas ocorrências de fome endêmica, abandono de crianças e matanças de pessoas por motivos fúteis como nas tais balas perdidas. Ou, ainda em razão de um consumismo desenfreado, levado a efeito por uma acintosa propaganda maciça, por todos os meios de divulgação, ou, às alterações havidas na linguagem escrita, fazendo-lhe perder a sua real origem e significado. Ora, se a própria religião instituiu a “Quarta Feira de Cinzas”, para oferecer seu perdão a todos os foliões que a procuram, como diagnosticar, o porquê de tanta fúria enrustida, a não ser como um preconceito infundado e insonso, infelizmente, também demonstrado contra outras categorias de pessoas e situações?

Em se tratando do Carnaval é preciso ter em mente que:

“Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor.”

Chico Buarque de Holanda

Essa inapropriação de termos e atitudes vem em detrimento do célebre slogan apregoado aos quatro cantos como a salvação da pátria, “Conhecer-te a ti mesmo”. Ora, como fazê-lo? Apenas com uma autoanálise, ainda que diuturna, e, de todo modo, infrutífera, é “chover no molhado”. Conhecer-se é participar, estar no mundo, correr riscos, conhecer o outro, intermediar conhecimento, aculturar-se, ver a arte, não como refúgio, ou mero entretenimento, mas como substância e substrato da vida. Ainda mais, fazer escolhas, estudar e, principalmente, não fazer pré-julgamentos sobre a vida e as pessoas ou situações, afinal, tudo está envolto em complexidades, e, o homem - ele- , repita-se à exaustão – é uma “metamorfose ambulante”, ainda que o queiram asfixiado, moldado e enquadrado em normas de parâmetros fixos e eternos.
E não é só, para nos iludirmos e nos conformarmos com todos os males que nos rodeiam, inventaram outro slogan – ainda mais esdrúxulo – o “pensar positivo”.
Tal slogan enfaticamente distribuído como “um santo remédio” não é mais que uma propaganda enganosa, pois embute nele a falsa felicidade eterna, consubstanciada no lema laissez faire, laissez passer, le monde va de lui mème. Assim, não se preocupe, não dê bola a problemas individuais ou sociais, nem se deixe levar por críticas, ou por indagações pertinentes, leve a vida, fuja da realidade, crie um universo simbólico próprio ou virtual, dentro do qual o mundo e a vida formem um todo, de algum modo assimilável, sem embates, sem problemas, mas, de todo modo, sob a famosa rubrica: “O Pior Cego É Aquele Que Não Quer Ver”.
Com isso, o ser humano se faz diminuir: perde sua grandeza, sua criatividade, seu alento maior em busca de sua perfeição e da melhoria dos homens e sua sociedade, e, tal qual Macunaíma, de Mário de Andrade, se vê “transformado em nada que sirva aos homens, e, assim, aconchegado apenas num vasto campo do céu sem dar calor e vida a ninguém”. Quem sabe, até, todo encolhido, balbuciando num solilóquio infindo, marcado somente pela tristeza e comiseração: Ai de Mim! Ai de Mim!

Mário Inglesi

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