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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A SOLICITAÇÃO DE EMPREGO






       Prezados senhores!

Sou um jovem pobre dedicado ao comércio, mas desempregado, meu nome é Wenzel e estou à procura de um posto apropriado, razão pela qual permito-me aqui, com gentileza e deferência, perguntar-lhes se haveria em suas arejadas, iluminadas e amistosas instalações alguma vaga desse tipo. Sei que sua valorosa empresa é grande, orgulhosa, antiga e rica, motivo pelo qual sinto-me autorizado a entregar-me à agradável suposição de que os senhores terão uma vaguinha assim, leve, simpática e bonita, na qual eu possa me enfiar como numa espécie de esconderijo quentinho. É necessário que os senhores saibam que me presto extraordinariamente bem à ocupação de um cantinho modesto como esse, porque toda a minha natureza é delicada, e minha essência é a de uma criança quietinha, bem-educada e sonhadora, que fica feliz quando pensam que ela não exige muito e quando lhe permitem tomar posse de um pedacinho minúsculo de existência, no qual ela possa, à sua maneira, mostrar-se útil e sentir-se bem ao fazê-lo. Um lugarzinho à sombra, quieto, doce e sossegado, sempre foi o gracioso conteúdo de todos os meus sonhos, e se as ilusões que nutro em relação a sua empresa atrevem-se agora a se transformar na esperança de que meu jovem e velho sonho possa vir a se tornar vívida e encantadora realidade, isso significa que os senhores terão em mim o mais zeloso e fiel dos servidores, para o qual o cumprimento exato e pontual de todas as suas insignificantes obrigações será questão de princípio. Tarefas grandes e difíceis não posso cumprir, e obrigações de natureza mais vasta são demasiado complexas para minha cabeça. Não sou particularmente sagaz e, o mais importante, não me agrada fatigar em demasia minha capacidade de compreensão; sou antes um sonhador que um pensador, antes um zero à esquerda que um auxílio, antes burro que perspicaz. Por certo, em sua instituição altamente ramificada, que imagino pródiga em funções e subfunções, há de haver um tipo de trabalho que possa ser realizado como num sonho. Sou, para dizê-lo francamente, um chinês, isto é, uma pessoa para a qual tudo que é pequeno e modesto parece belo e adorável, e terrível e pavoroso tudo quanto é grande e assaz desafiador. A única necessidade que conheço é a de me sentir bem, a fim de que eu possa, a cada dia, agradecer a Deus por minha existência tão querida e abençoada. A paixão por ir longe neste mundo me é desconhecida. Nem mesmo a África, com seus desertos, me é mais estranha. Agora, pois, os senhores sabem que tipo de pessoa eu sou. Como veem, escrevo com graça e fluência, e os senhores não precisam imaginar-me totalmente desprovido de inteligência. Tenho uma mente lúcida, mas ela se recusa a apreender coisas demais, algo a que tem aversão. Sou honesto e tenho consciência de que essa característica significa muito, muito pouco no mundo em que vivemos. Dito isso, prezados senhores, aguardo para ver o que lhes aprazerá responder-me, e o faço afogando-me na mais alta estima e em suma devoção,

Wenzel.

1914 


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