segunda-feira, 6 de abril de 2015

A ROSA DE PARACELSO



Em sua oficina, que ocupava os dois aposentos do porão, Paracelso pediu a seu Deus, a seu indeterminado Deus, a qualquer Deus, que lhe enviasse um discípulo. A tarde caía. O escasso fogo da lareira projetava sombras irregulares. Levantar-se para acender a lamparina de ferro era demasiado trabalho. Paracelso, distraído pelo cansaço, esqueceu sua súplica. A noite apagara os alambiques empoeirados e o atanor [2] quando alguém bateu à porta. O homem, sonolento, levantou-se, subiu a breve escada em caracol [3] e abriu uma das folhas. Entrou um desconhecido. Também estava muito cansado. Paracelso lhe indicou um banco; o outro se sentou e esperou. Durante algum tempo não trocaram palavra.
            O mestre foi o primeiro a falar.
 - Lembro-me de rostos do Ocidente e de rostos do Oriente - disse, não sem certa pompa. Não me lembro do teu. Quem és e o que queres de mim?
 - Meu nome é o de menos - replicou o outro.  - Três dias e três noites caminhei para entrar em tua casa. Quero ser teu discípulo. Tudo o que possuo, trago para ti.
Puxou um taleigo e emborcou-o sobre a mesa. As moedas eram muitas e de ouro. Fez isso com a mão direita. Paracelso lhe dera as costas para acender a lamparina.[4] Quando se virou, percebeu que a mão esquerda segurava uma rosa. A rosa o perturbou.[5]
            Recostou-se, uniu as pontas dos dedos, e disse:
 - Acreditas que sou capaz de elaborar a pedra que transforma todos os elementos em ouro e me ofereces ouro. Não é ouro o que me interessa, e se o ouro te interessa, nunca serás meu discípulo.
 - O ouro não me interessa - respondeu o outro. Estas moedas não são mais que uma prova de meu desejo de trabalhar. Quero que me ensines a Arte. Quero percorrer a teu lado o caminho que conduz à Pedra.
            Paracelso disse com vagar:
 - O caminho é a Pedra. Se não compreendes estas palavras, ainda não começaste a compreender. Cada passo que deres é a meta.
            O outro fitou-o com receio. Disse com outra voz:
 - Mas existe uma meta?
            Paracelso riu.
 - Meus detratores, que não são menos numerosos que tolos, dizem que não e me chamam de impostor. Não lhes dou razão, mas não é impossível que seja uma ilusão. Sei que “existe” um Caminho.
            Houve um silêncio, e o outro disse:
 - Estou disposto a percorrê-lo contigo, mesmo que tenhamos de caminhar muitos anos. Deixa-me atravessar o deserto. Deixa-me divisar mesmo de longe a terra prometida, ainda que os astros não permitam que eu a pise. Quero uma prova antes de empreender o caminho.
 - Quando? - disse Paracelso inquieto.
 - Agora mesmo - disse o discípulo com brusca determinação.

Haviam começado a conversa em latim; agora, falavam alemão.
            O rapaz ergueu a rosa no ar.
 - Corre - disse - que és capaz de queimar uma rosa e fazê-la ressurgir da cinza, por obra da tua arte. Deixa-me ser testemunha deste prodígio. É o que te peço, e depois te darei minha vida inteira.
 - És muito crédulo - disse o mestre. Não tenho uso para a credulidade; exijo a fé.
            O outro insistiu.
 - Precisamente por não ser crédulo quero ver com meus olhos a aniquilação e a ressurreição da rosa.
            Paracelso pegara a rosa e brincava com ela enquanto falava.
 - És crédulo - disse. Dizes que sou capaz de destruí-la?
 - Ninguém é incapaz de destruí-la - disse o discípulo.
 - Estás enganado. Imaginas, porventura, que alguma coisa possa ser devolvida ao nada? Imaginas que o primeiro Adão no Paraíso poderia ter destruído uma única flor ou um talo de relva?
 - Não estamos no Paraíso - disse o jovem, teimoso -; aqui, sob a lua [6], tudo é mortal.
            Paracelso se erguera.
 - Em que outro lugar estamos? Acreditas que a Divindade é capaz de criar um lugar que não seja o Paraíso? Acreditas que a Queda é outra coisa que não ignorar que estamos no Paraíso? [7]
 - É possível queimar uma rosa - disse o discípulo, desafiador.
 - Ainda há fogo na lareira - disse Paracelso. Se atirasses esta rosa às brasas, acreditarias que foi consumida e que a cinza é verdadeira. Digo-te que a rosa é eterna e que apenas sua aparência pode se transformar. Bastaria uma palavra minha para que voltasses a vê-la.
 - Uma palavra? - disse o discípulo, estranhando. - O atanor está apagado e os alambiques estão cheios de pó. Que farias para que reaparecesse?
            Paracelso olhou para ele com tristeza.
 - O atanor está apagado - repetiu - e os alambiques estão cheios de pó. Neste ponto de minha longa jornada utilizo outros instrumentos.
 - Não ouso perguntar quais são - disse o outro, com astúcia ou humildade.
 - Falo do utilizado pela divindade para criar os céus e a terra e o invisível Paraíso em que estamos e que o pecado original nos oculta. Falo da Palavra que ensina a ciência da Cabala.
            O discípulo disse com frieza:
 - Peço-te a mercê de mostrar-me o desaparecimento e o aparecimento de uma rosa. Para mim não faz diferença que utilizes alambiques ou o Verbo.
            Paracelso refletiu. Depois disse:
 - Se eu o fizesse, dirias que se trata de uma aparência imposta pela magia de teus olhos. O prodígio não te daria a fé que procuras. Deixa, pois, a rosa.
            O jovem o fitou, sempre receoso. O mestre ergueu a voz e lhe disse:
 - Além disso, quem és tu para entrar na casa de um mestre e exigir dele um prodígio? Que fizeste para merecer semelhante dom?
 - O outro replicou, trêmulo:
 - Sei que nada fiz. Peço-te em nome dos muitos anos que passarei estudando à tua sombra que me deixes ver a cinza e depois a rosa. Não te pedirei mais nada. Acreditarei no testemunho dos meus olhos.
Num gesto brusco, empunhou a rosa que Paracelso deixara sobre a mesa e lançou-a às chamas.  A cor sumiu e restou somente um pouco de cinza. Durante um instante infinito esperou as palavras e o milagre.
            Paracelso não se movera. Disse com curiosa singeleza:
 - Todos os médicos e boticários da Basileia afirmam que sou um embuste. Talvez estejam certos. Aí está a cinza que foi a rosa e que não a será.
            O rapaz sentiu vergonha. Paracelso era um charlatão ou um mero visionário, e ele, um intruso, transpusera sua porta e agora o obrigava a confessar que suas famosas artes mágicas não existiam.
            Ajoelhou-se e lhe disse:
 - Agi de forma imperdoável. Faltou-me a fé, que o Senhor exigia dos fieis. Deixa que eu continue vendo a cinza. Voltarei quando estiver mais preparado e serei teu discípulo, e no fim do caminho verei a rosa.
            Falava com genuína paixão, mas essa paixão era a piedade que lhe inspirava aquele velho tão venerado, tão agredido, tão insigne e afinal tão oco. Quem era ele, Johannes Grisebach, para descobrir com mão sacrílega que por trás da máscara não havia ninguém?
            Deixar-lhe as moedas de ouro seria uma esmola. Recolheu-as ao sair. Paracelso o acompanhou até o pé da escada e lhe disse que sempre seria bem-vindo naquela casa. Ambos sabiam que não tornariam a ver-se.
            Paracelso ficou só. Antes de apagar a lamparina e de sentar-se na cansada poltrona, recolheu o tênue punhado de cinzas na mão côncava e disse uma palavra em voz baixa. A rosa ressurgiu.

NOTAS:
[1] O subtítulo - “Conto Místico Mostra Testes da Caminhada Espiritual” - foi acrescentado por nós. O texto é reproduzido do volume “Nove Ensaios Dantescos & A Memória de Shakespeare”, de Jorge Luis Borges, Companhia das Letras, SP, copyright 1995-2008 by Maria Kodama/Editora Schwarcz, 102 pp. A tradução, excelente, é de Heloisa Jahn. Questionamentos sobre direitos autorais devem ser dirigidos aos editores de www.FilosofiaEsoterica.com  através do e-mail lutbr@terra.com.br.
 [2] Atanor: forno usado pelos alquimistas.
 [3] A escada em caracol é um símbolo maçônico e oculto. Indica a ligação entre céu e terra, ou mundo divino e mundo humano.  
 [4] Há um simbolismo neste trecho. Ao acender a Luz, o mestre se volta na direção oposta ao dinheiro e ao que ele significa.
 [5] A rosa e a cruz, a bênção e o sofrimento, são dois aspectos da caminhada espiritual. Nas primeiras páginas de “A Voz do Silêncio”, de H. P. Blavatsky, é feita esta advertência ao discípulo: “a tua alma encontrará as flores da vida, mas sob cada flor haverá uma serpente enroscada”. (A obra “A Voz do Silêncio” está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com .)
 [6] Sob a lua - em filosofia esotérica, o termo “sublunar” se aplica ao mundo físico e à dimensão mortal da vida. A Lua se relaciona com o eu inferior, a alma mortal. O Sol inspira o eu superior ou alma espiritual, e a Terra contribui com o corpo físico. Ao falar enfaticamente sobre as condições reinantes “aqui, sob a Lua”, o candidato a discípulo indica que permanece no mundo inferior e ainda não está apto para o discipulado. 
 [7] Este curto parágrafo sugere duas idéias centrais em filosofia esotérica, expostas na obra “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky: 1) As divindades estão sujeitas à Lei Universal e devem trabalhar de acordo com ela; e 2) A “queda do Paraíso” - a perda da sabedoria primordial a que um dia a humanidade teve acesso - ocorreu no plano mental e é provisória. A seu devido tempo, a humanidade reconquistará o estado espiritual primordial.  

        

SUGESTÃO DE EVENTO - 11/04/15


SAÚDE E EDUCAÇÃO - QUANDO SE VOLTA À FACULDADE...



Quando se volta à faculdade, como eu, surpresas brotam. Retomadas contextuais dormentes, possibilidades de trocas trans-geracionais, redimensionamentos comportamentais etc. O que surpreende, no entanto é a vivência qualitativa do aprender a aprender, do aprender a ensinar e do ensinar a aprender; variações do mesmo tema “educação”. Palavra geminiana de duas faces: educare (informação) – colocar coisas para dentro e educere (formação) – fazer nascer coisas de dentro.
Um pouco como o filho da parteira: Sócrates e a maiêutica, ninguém melhor para auxiliar, com amor, o nascer das ideias de seus felizardos contemporâneos. Essa gente que nunca escreveu nada e ainda assim permanece é um aspecto do sopro divino aos ouvidos que já escutam e olhos que já enxergam. Alimentação anímica, pilares quânticos atemporais, auxílio na compreensão da humanidade que se dissolve na velocidade do esquecimento de suas referências.
Seja a educação “bancária” ou a outra, mais um deixar jorrar que pôr na conta, a questão não é trivial. Evoca “Trivium” e as artes liberais de nossos antepassados. Liberal, longe de libertino, confusão possível nos tempos atuais, diz respeito às artes que libertam o pensar e auxiliam na emancipação do ser. Aliás, a similaridade sonora entre emancipar e amancebar é bisonte. Auxiliemos que as asas da liberdade, de Medeiros e Albuquerque, se abram sobre nós.
Da gramática, retórica e dialética (Trivium), hoje só a primeira sobrevive aos currículos convencionais. Afinal, para que ensinar a falar e argumentar cordialmente seres aproveitáveis em atividade$ menos arriscada$? Assim, escrever e ler já são mais que suficientes!
O Guimarães Rosa e o Ariano Suassuna são bons professores a se considerar como solução para o impasse. Brasileiros, politicamente corretos e devidamente credenciados, serviriam de tecido áureo para um teste. Porque não, ler, pensar e viver Brasil na hereditariedade de seus gênios?

Bastaria para tanto que alunos e professores de Português, História e Geografia se encontrassem para um neologístico papo no “Grande Sertão Veredas” ou quem sabe uma visita escolar prolongada à “Pedra do Reino”. Tanta riqueza no subsolo do gigante faz pensar se de fato o amarelo e o verde mais belo estão no ovo da galinha ou no jardim do vizinho. Suspeito que não!

domingo, 8 de março de 2015

HÁ QUE SE MELHORAR ANTES DE REAJUSTAR

Por: Dra. Viviani H Yamazaki – Médica de Família

Ricardo, boa noite:
            Escrevi o texto abaixo naquele dia de caos  na cidade, que um quarto da população de SP ficou sem energia elétrica (alguns até mais que 24 h), publiquei em minha linha do tempo do facebook. Fiz isso porque muitos amigos reclamaram que o ar condicionado não funcionava, que não era possível conectar o “wi fi”, portão eletrônico, etc... Então, resolvi falar um pouco sobre a situação nos hospitais, quando o gerador demora a ser ativado e a angústia que ocorre nesses momentos. Enfim, recebi várias mensagens de reflexão, afinal nem todo mundo é da área da saúde. Foi legal porque despertou um sentimento de humanidade e impotência em pessoas que levam a vida muitas vezes voltada para outros interesses. Achei interessante encaminhar para você, já que o  blog tem um direcionamento para consciência e reflexão...
Boa semana com muita energia positiva em bomba de infusão contínua!


Ontem resolvi expressar minha indignação, cada vez que chove é esse stress, a luz acaba os semáforos ficam bandeirados, os motoristas disputam cada milímetro de espaço, de forma irracional e muitas vezes violenta. Muita gente se preocupa por que não entrou a internet e a “Tira Visão” a cabo permanece sem sinal, o ar condicionado que não liga, reclamam que a Eletropaulo, empresa suspeita de não ser fiscalizada de forma adequada, é terra de ninguém. Pagamos muitos impostos pelo que recebemos e em muitos países desenvolvidos a rede elétrica é subterrânea, sem a ação dos ventos ou queda de árvores. Sem dúvida, diante de todo contexto, o mais grave de tudo, é a situação nos hospitais. Quando a luz acaba, até entrar o gerador é uma grande correria, são instantes de agonia, o hospital inteiro corre para atender os idosos, pacientes graves e crianças entubadas. Até o gerador funcionar, são realmente segundos e minutos de aflição. Quando o respirador não funciona, a oxigenação é feita manualmente pelos próprios funcionários do hospital, os pacientes de UTI que já estão no limite da vida podem passar em alguns segundos para a morte. Isso em um hospital privado, onde todo o treinamento funciona como uma orquestra sinfônica bem sincronizada, as complicações são mínimas e o exército geralmente é bem treinado. O que me entristece e realmente me preocupa, é que fico pensando quantos são os hospitais da rede pública que não possuem os mesmos recursos, que não seguem os mesmos treinamentos a risca, os chamados procedimentos normativos. É muito triste e inaceitável saber neste que exato momento, quando acaba a eletricidade na cidade de São Paulo, muitas pessoas morrerão reféns do abandono da saúde nos hospitais públicos. Esses atestados de óbito talvez devessem ser preenchidos não pelos médicos, mas pelos governantes e pela empresa Eletropaulo, que não responde às criticas, reclame aqui, não são bem fiscalizadas, fazem e dizem o que querem livres de qualquer punição!! Proclamam em cadeia nacional, que estão preparados com medidas preventivas para evitar a queda de luz na cidade, mas na prática não é exatamente o que observamos nesse período de chuvas. Deixaram toda a população no escuro e totalmente à deriva, sem o menor respeito ou comprometimento com a vida humana!

      Viviani H Yamazaki

CONVITE - LANÇAMENTO LIVRO "CUIDANDO DE QUEM CUIDA"