A Medicina da Saúde é baseada na preservação e na promoção. É sempre superior à Medicina da Doença focada na cura e na prevenção. Somos seres humanos e não "teres humanos”. A doença começa quando se deixa o SER pelo TER; saúde e vitalidade aumentam na direção do SER. A busca pelo SER leva à ampliação da consciência, guia do homem saudável e espelho para o doente. Refletindo o exemplo a ser imitado mostra como sair da horizontalidade do adormecimento e entrar na verticalidade do despertar.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
segunda-feira, 6 de abril de 2015
A ROSA DE PARACELSO
Em sua oficina, que ocupava os
dois aposentos do porão, Paracelso pediu a seu Deus, a seu indeterminado Deus,
a qualquer Deus, que lhe enviasse um discípulo. A tarde caía. O escasso
fogo da lareira projetava sombras irregulares. Levantar-se para acender a
lamparina de ferro era demasiado trabalho. Paracelso, distraído pelo cansaço,
esqueceu sua súplica. A noite apagara os alambiques empoeirados e o
atanor [2] quando alguém bateu à porta. O homem, sonolento,
levantou-se, subiu a breve escada em caracol [3] e abriu uma
das folhas. Entrou um desconhecido. Também estava muito cansado. Paracelso lhe
indicou um banco; o outro se sentou e esperou. Durante algum
tempo não trocaram palavra.
O
mestre foi o primeiro a falar.
- Lembro-me de rostos do Ocidente e de rostos
do Oriente - disse, não sem certa pompa. Não me lembro do teu. Quem és e o que
queres de mim?
- Meu nome é o de menos - replicou o outro.
- Três dias e três noites caminhei para entrar em tua casa. Quero ser teu
discípulo. Tudo o que possuo, trago para ti.
Puxou um taleigo e emborcou-o
sobre a mesa. As moedas eram muitas e de ouro. Fez isso com a mão direita.
Paracelso lhe dera as costas para acender a lamparina.[4] Quando se
virou, percebeu que a mão esquerda segurava uma rosa. A rosa o perturbou.[5]
Recostou-se,
uniu as pontas dos dedos, e disse:
- Acreditas que sou capaz de elaborar a pedra
que transforma todos os elementos em ouro e me ofereces ouro. Não é ouro o que
me interessa, e se o ouro te interessa, nunca serás meu discípulo.
- O ouro não me interessa - respondeu o
outro. Estas moedas não são mais que uma prova de meu desejo de trabalhar.
Quero que me ensines a Arte. Quero percorrer a teu lado o caminho que conduz à
Pedra.
Paracelso
disse com vagar:
- O caminho é a Pedra. Se não compreendes
estas palavras, ainda não começaste a compreender. Cada passo que deres é
a meta.
O
outro fitou-o com receio. Disse com outra voz:
- Mas existe uma meta?
Paracelso
riu.
- Meus detratores, que não são menos
numerosos que tolos, dizem que não e me chamam de impostor. Não lhes dou
razão, mas não é impossível que seja uma ilusão. Sei que “existe” um Caminho.
Houve
um silêncio, e o outro disse:
- Estou disposto a percorrê-lo contigo, mesmo
que tenhamos de caminhar muitos anos. Deixa-me atravessar o deserto. Deixa-me
divisar mesmo de longe a terra prometida, ainda que os astros não permitam que
eu a pise. Quero uma prova antes de empreender o caminho.
- Quando? - disse Paracelso inquieto.
- Agora mesmo - disse o discípulo com brusca
determinação.
Haviam começado a conversa em
latim; agora, falavam alemão.
O
rapaz ergueu a rosa no ar.
- Corre - disse - que és capaz de queimar uma
rosa e fazê-la ressurgir da cinza, por obra da tua arte. Deixa-me ser
testemunha deste prodígio. É o que te peço, e depois te darei minha vida
inteira.
- És muito crédulo - disse o mestre. Não
tenho uso para a credulidade; exijo a fé.
O
outro insistiu.
- Precisamente por não ser crédulo quero ver
com meus olhos a aniquilação e a ressurreição da rosa.
Paracelso
pegara a rosa e brincava com ela enquanto falava.
- És crédulo - disse. Dizes que sou capaz de
destruí-la?
- Ninguém é incapaz de destruí-la - disse o
discípulo.
- Estás enganado. Imaginas, porventura, que
alguma coisa possa ser devolvida ao nada? Imaginas que o primeiro Adão no
Paraíso poderia ter destruído uma única flor ou um talo de relva?
- Não estamos no Paraíso - disse o jovem,
teimoso -; aqui, sob a lua [6], tudo é mortal.
Paracelso
se erguera.
- Em que outro lugar estamos? Acreditas que a
Divindade é capaz de criar um lugar que não seja o Paraíso? Acreditas que a
Queda é outra coisa que não ignorar que estamos no Paraíso? [7]
- É possível queimar uma rosa -
disse o discípulo, desafiador.
- Ainda há fogo na lareira - disse Paracelso.
Se atirasses esta rosa às brasas, acreditarias que foi consumida e que a cinza
é verdadeira. Digo-te que a rosa é eterna e que apenas sua aparência pode se
transformar. Bastaria uma palavra minha para que voltasses a vê-la.
- Uma palavra? - disse o discípulo,
estranhando. - O atanor está apagado e os alambiques estão cheios de pó. Que
farias para que reaparecesse?
Paracelso
olhou para ele com tristeza.
- O atanor está apagado - repetiu - e os
alambiques estão cheios de pó. Neste ponto de minha longa jornada utilizo
outros instrumentos.
- Não ouso perguntar quais são - disse o
outro, com astúcia ou humildade.
- Falo do utilizado pela divindade para criar
os céus e a terra e o invisível Paraíso em que estamos e que o pecado original
nos oculta. Falo da Palavra que ensina a ciência da Cabala.
O
discípulo disse com frieza:
- Peço-te a mercê de mostrar-me o
desaparecimento e o aparecimento de uma rosa. Para mim não faz diferença que
utilizes alambiques ou o Verbo.
Paracelso
refletiu. Depois disse:
- Se eu o fizesse, dirias que se trata de uma
aparência imposta pela magia de teus olhos. O prodígio não te daria a fé que
procuras. Deixa, pois, a rosa.
O
jovem o fitou, sempre receoso. O mestre ergueu a voz e lhe disse:
- Além disso, quem és tu para entrar na casa
de um mestre e exigir dele um prodígio? Que fizeste para merecer semelhante
dom?
- O outro replicou, trêmulo:
- Sei que nada fiz. Peço-te em nome dos
muitos anos que passarei estudando à tua sombra que me deixes ver a cinza e
depois a rosa. Não te pedirei mais nada. Acreditarei no testemunho dos meus
olhos.
Num gesto brusco, empunhou a rosa
que Paracelso deixara sobre a mesa e lançou-a às chamas. A cor sumiu e
restou somente um pouco de cinza. Durante um instante infinito esperou as
palavras e o milagre.
Paracelso
não se movera. Disse com curiosa singeleza:
- Todos os médicos e boticários da Basileia
afirmam que sou um embuste. Talvez estejam certos. Aí está a cinza que foi a
rosa e que não a será.
O
rapaz sentiu vergonha. Paracelso era um charlatão ou um mero visionário, e ele,
um intruso, transpusera sua porta e agora o obrigava a confessar que suas
famosas artes mágicas não existiam.
Ajoelhou-se
e lhe disse:
- Agi de forma imperdoável. Faltou-me a fé,
que o Senhor exigia dos fieis. Deixa que eu continue vendo a cinza. Voltarei
quando estiver mais preparado e serei teu discípulo, e no fim do caminho verei
a rosa.
Falava
com genuína paixão, mas essa paixão era a piedade que lhe inspirava aquele
velho tão venerado, tão agredido, tão insigne e afinal tão oco. Quem era ele,
Johannes Grisebach, para descobrir com mão sacrílega que por trás da máscara
não havia ninguém?
Deixar-lhe
as moedas de ouro seria uma esmola. Recolheu-as ao sair. Paracelso o acompanhou
até o pé da escada e lhe disse que sempre seria bem-vindo naquela casa. Ambos
sabiam que não tornariam a ver-se.
Paracelso
ficou só. Antes de apagar a lamparina e de sentar-se na cansada poltrona,
recolheu o tênue punhado de cinzas na mão côncava e disse uma palavra em voz baixa.
A rosa ressurgiu.
NOTAS:
[1] O subtítulo - “Conto Místico
Mostra Testes da Caminhada Espiritual” - foi acrescentado por nós. O texto é
reproduzido do volume “Nove Ensaios Dantescos & A Memória de Shakespeare”,
de Jorge Luis Borges, Companhia das Letras, SP, copyright 1995-2008 by Maria
Kodama/Editora Schwarcz, 102 pp. A tradução, excelente, é de Heloisa
Jahn. Questionamentos sobre direitos autorais devem ser dirigidos aos
editores de www.FilosofiaEsoterica.com através do
e-mail lutbr@terra.com.br.
[2] Atanor: forno usado pelos
alquimistas.
[3] A escada em caracol é um
símbolo maçônico e oculto. Indica a ligação entre céu e terra, ou mundo divino
e mundo humano.
[4] Há um simbolismo neste
trecho. Ao acender a Luz, o mestre se volta na direção oposta ao dinheiro e ao
que ele significa.
[5] A rosa e a cruz, a bênção e o
sofrimento, são dois aspectos da caminhada espiritual. Nas primeiras páginas de
“A Voz do Silêncio”, de H. P. Blavatsky, é feita esta advertência ao discípulo:
“a tua alma encontrará as flores da vida, mas sob cada flor haverá uma
serpente enroscada”. (A obra “A Voz do Silêncio” está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com .)
[6] Sob a lua - em filosofia
esotérica, o termo “sublunar” se aplica ao mundo físico e à dimensão mortal da
vida. A Lua se relaciona com o eu inferior, a alma mortal. O Sol inspira o eu
superior ou alma espiritual, e a Terra contribui com o corpo físico. Ao falar
enfaticamente sobre as condições reinantes “aqui, sob a Lua”, o candidato a
discípulo indica que permanece no mundo inferior e ainda não está apto para o
discipulado.
[7] Este curto parágrafo sugere
duas idéias centrais em filosofia esotérica, expostas na obra “A Doutrina
Secreta”, de Helena Blavatsky: 1) As divindades estão sujeitas à Lei Universal
e devem trabalhar de acordo com ela; e 2) A “queda do Paraíso” - a perda da
sabedoria primordial a que um dia a humanidade teve acesso - ocorreu no plano
mental e é provisória. A seu devido tempo, a humanidade reconquistará o estado
espiritual primordial.
SAÚDE E EDUCAÇÃO - QUANDO SE VOLTA À FACULDADE...

Quando se volta à
faculdade, como eu, surpresas brotam. Retomadas contextuais dormentes,
possibilidades de trocas trans-geracionais, redimensionamentos comportamentais
etc. O que surpreende, no entanto é a vivência qualitativa do aprender a
aprender, do aprender a ensinar e do ensinar a aprender; variações do mesmo
tema “educação”. Palavra geminiana de duas faces: educare (informação) –
colocar coisas para dentro e educere (formação) – fazer nascer coisas de
dentro.
Um pouco como o filho da
parteira: Sócrates e a maiêutica, ninguém melhor para auxiliar, com amor, o
nascer das ideias de seus felizardos contemporâneos. Essa gente que nunca
escreveu nada e ainda assim permanece é um aspecto do sopro divino aos ouvidos
que já escutam e olhos que já enxergam. Alimentação anímica, pilares quânticos
atemporais, auxílio na compreensão da humanidade que se dissolve na velocidade
do esquecimento de suas referências.
Seja a educação
“bancária” ou a outra, mais um deixar jorrar que pôr na conta, a questão não é
trivial. Evoca “Trivium” e as artes liberais de nossos antepassados. Liberal,
longe de libertino, confusão possível nos tempos atuais, diz respeito às artes
que libertam o pensar e auxiliam na emancipação do ser. Aliás, a similaridade
sonora entre emancipar e amancebar é bisonte. Auxiliemos que as asas da
liberdade, de Medeiros e Albuquerque, se abram sobre nós.
Da gramática, retórica e
dialética (Trivium), hoje só a primeira sobrevive aos currículos convencionais.
Afinal, para que ensinar a falar e argumentar cordialmente seres aproveitáveis
em atividade$ menos arriscada$? Assim, escrever e ler já são mais que
suficientes!
O Guimarães Rosa e o
Ariano Suassuna são bons professores a se considerar como solução para o
impasse. Brasileiros, politicamente corretos e devidamente credenciados, serviriam
de tecido áureo para um teste. Porque não, ler, pensar e viver Brasil na
hereditariedade de seus gênios?
Bastaria para tanto que alunos
e professores de Português, História e Geografia se encontrassem para um neologístico
papo no “Grande Sertão Veredas” ou quem sabe uma visita escolar prolongada à
“Pedra do Reino”. Tanta riqueza no subsolo do gigante faz pensar se de fato o
amarelo e o verde mais belo estão no ovo da galinha ou no jardim do vizinho.
Suspeito que não!
domingo, 8 de março de 2015
HÁ QUE SE MELHORAR ANTES DE REAJUSTAR
Por: Dra. Viviani H Yamazaki – Médica
de Família
Ricardo, boa noite:
Escrevi
o texto abaixo naquele dia de caos na cidade, que um quarto da população de
SP ficou sem energia elétrica (alguns até mais que 24 h), publiquei em minha
linha do tempo do facebook. Fiz isso porque muitos amigos reclamaram que o ar
condicionado não funcionava, que não era possível conectar o “wi fi”, portão
eletrônico, etc... Então, resolvi falar um pouco sobre a situação nos
hospitais, quando o gerador demora a ser ativado e a angústia que ocorre nesses
momentos. Enfim, recebi várias mensagens de reflexão, afinal nem todo
mundo é da área da saúde. Foi legal porque despertou um sentimento de
humanidade e impotência em pessoas que levam a vida muitas vezes voltada para
outros interesses. Achei interessante encaminhar para você, já que o blog
tem um direcionamento para consciência e reflexão...
Boa semana
com muita energia positiva em bomba de infusão contínua!
Ontem resolvi expressar minha indignação,
cada vez que chove é esse stress, a luz acaba os semáforos ficam bandeirados,
os motoristas disputam cada milímetro de espaço, de forma irracional e muitas
vezes violenta. Muita gente se preocupa por que não entrou a internet e a “Tira
Visão” a cabo permanece sem sinal, o ar condicionado que não liga, reclamam que
a Eletropaulo, empresa suspeita de não ser fiscalizada de forma adequada, é
terra de ninguém. Pagamos muitos impostos pelo que recebemos e em muitos países
desenvolvidos a rede elétrica é subterrânea, sem a ação dos ventos ou queda de
árvores. Sem dúvida, diante de todo contexto, o mais grave de tudo, é a
situação nos hospitais. Quando a luz acaba, até entrar o gerador é uma grande
correria, são instantes de agonia, o hospital inteiro corre para atender os
idosos, pacientes graves e crianças entubadas. Até o gerador funcionar, são
realmente segundos e minutos de aflição. Quando o respirador não funciona, a
oxigenação é feita manualmente pelos próprios funcionários do hospital, os
pacientes de UTI que já estão no limite da vida podem passar em alguns segundos
para a morte. Isso em um hospital privado, onde todo o treinamento funciona
como uma orquestra sinfônica bem sincronizada, as complicações são mínimas e o
exército geralmente é bem treinado. O que me entristece e realmente me
preocupa, é que fico pensando quantos são os hospitais da rede pública que não
possuem os mesmos recursos, que não seguem os mesmos treinamentos a risca, os
chamados procedimentos normativos. É muito triste e inaceitável saber neste que
exato momento, quando acaba a eletricidade na cidade de São Paulo, muitas
pessoas morrerão reféns do abandono da saúde nos hospitais públicos. Esses
atestados de óbito talvez devessem ser preenchidos não pelos médicos, mas pelos
governantes e pela empresa Eletropaulo, que não responde às criticas, reclame
aqui, não são bem fiscalizadas, fazem e dizem o que querem livres de qualquer
punição!! Proclamam em cadeia nacional, que estão preparados com medidas
preventivas para evitar a queda de luz na cidade, mas na prática não é
exatamente o que observamos nesse período de chuvas. Deixaram toda a população
no escuro e totalmente à deriva, sem o menor respeito ou comprometimento com a
vida humana!
Viviani H Yamazaki
sexta-feira, 6 de março de 2015
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