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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

SUICÍDIO ESPIRITUAL


O suicídio físico é uma opção desesperada e pode ser consciente ou inconsciente. No primeiro caso um ato abrupto de desespero, no segundo decorrência de atitude ignorante que se perpetua no tempo (hábito alimentar precário, uso de drogas lícitas e ilícitas, sedentarismo, pouca leitura, hábito musical pobre). Estatísticas atuais apontam que a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo. No Brasil os dados mais recentes apontam uma média de 32 suicídios por dia.
Mas, o suicídio mais surpreendente é o espiritual. Quando o materialista se descuida de seus veículos (corpos) suprafísicos, demonstra coragem surpreendente. Veículos que a tradição designa como corpo vital, corpo de desejos e mente. Sim, não é preciso ver para saber. A pessoa sensível pressente que a vida é o “mistério” que anima a matéria, mas que não pode ser encontrada quando se disseca a matéria em sua intimidade. Quem deseja deveria refletir de onde vem as tendências desejosas e quem pensa deveria fazer investigação semelhante em relação ao pensamento. Desejo e pensamento, qualidades materiais de outra natureza que não a física.
A visão, o sentido predileto da atualidade, nos impede ver além das aparências. Mas veja você mesmo então. Nascer arredondado, ver o corpo esticar e crescer, a seguir ficar enrugado, pontudo e desvitalizado é percebido na superfície, mas que tipo de forças determinam esse efeito sobre a matéria animada?
O suicídio espiritual não é tão falado quanto o suicídio físico. Finge-se não ver, mas quem teria olhos para isso não é mesmo?
A pessoa que vive em espírito torna a vida material leve, torna-se permeável à graça. A pessoa que vive para a matéria é cega à luz do espírito e sua vida se torna opaca, escura, densa, azeda, cheia de reclamações e emperrada. É aquela pessoa que não entende o porquê de certas situações (padrões) se repetirem em sua vida. A graça, assim como a graxa, serve para lubrificar. A primeira lubrifica as engrenagens da vida, a outra as engrenagens da matéria. Em outras palavras, uma vida sem graça é uma vida sem graxa, assim como uma vida sem graça é também sinônimo de desgraçada.
Para que a graça permeie o corpo humano, o mesmo precisa estar poroso em todas as suas instâncias. Assim como a obstrução dos poros da pele leva à morte rapidamente, a obstrução dos poros dos corpos suprafísicos (corpo vital, corpo de desejos e mente) leva à morte lenta. Essa morte lenta se apresenta aos olhos do observador como as pessoas que apenas existem, à semelhança das pedras. Viver é atributo do reino humano; fundamental para isso é a consciência dimensional adequada do que seja SER HUMANO. A vida material, horizontal, cotidiana da família, do trabalho, da política, da filosofia niilista, da diversão é apenas palco, sombra e efemeridade. Sem a graça, a vida material culmina em cadeia, hospital, falta e inconformidade. Mas cadeia, hospital, falta e inconformidade, lembremos, são escolhas pessoais. Toda escolha, entretanto, é permitida a Fausto, em Goethe, ao se perder para se encontrar.


Se afastar da graça (ser desgraçado) por opção ou por ignorância é suicídio espiritual. O espiritual diz respeito a tudo o que está além dos cinco sentidos. O interesse também é um sentido que podemos vivenciar e experimentar. Mais interesse e menos indiferença é alternativa válida na profilaxia do suicídio espiritual.



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

SOBRE A ASTROLOGIA E SUA COMPREENSÃO


“Falo e respondo enquanto não sou.
Quando souber, não mais.
Porque então não será mais preciso.
Néscio ainda acredito em explicações.
Quando não souber então serei; e quando for, não será mais preciso saber,
Apenas caminhar.”


            A astrologia representa uma “conversa” entre duas naturezas (humana e divina) e o mapa astrológico, um tabuleiro, onde pode ser observado o plano para o nascimento da natureza divina no humano. A distribuição zodiacal com seus doze signos mostra como as forças divinas (suprafísicas) se manifestam no plano terreno (físico); a distribuição das doze casas sobre as quais os signos se distribuem mostra a forma como aquele ser se constitui, assim como ele dispõe de suas potencialidades naturais.
O mapa astrológico é uma representação arquetípica da manifestação física e auxilia na compreensão de como o sistema de veículos (físico, etérico, desejos e mente) estão alinhados entre si, além de sugerir simbolicamente o estado da relação personalidade, alma e espírito em cada indivíduo (vide roda da fortuna).
Desta observação deve nascer o interesse em comparar e meditar seu mapa natal (natureza humana) com o mapa zero Áries, uma nuance do divino na linguagem astrológica, entre outras. Na interação ou no atrito entre estas representações surge uma janela de possibilidade para o nascimento do indivíduo na plenitude de seu potencial.
Existem livros que explicam ao estudante os símbolos e os valores básicos que estruturam o pensar astrológico cotidiano e convencional. Estes livros são muito importantes para um primeiro contato e seus potenciais.
No entanto, a própria astrologia parece ser estrutura viva que evolui conjuntamente ao humano, seu co-criador. Ela é ferramenta bastante interessante para aprofundar-se em questões pessoais existenciais. O seu aprendizado pode ocorrer em grupos, aulas e cursos, mas a interpretação do tema de cada pessoa é território sagrado a ser palmilhado individualmente e apenas na medida da capacidade que a pessoa tenha aprendido a ver por si só. A sugestão de evitar o olhar alheio decorre de não sabermos a condição evolutiva de quem encontramos no caminho, sendo que cada um interpreta segundo suas próprias concepções. Do mesmo modo que a baleia não cabe na gaiola de um pássaro, alguns seres não caberão nas interpretações de seres de “menor porte”. De fato, não é possível saber o tamanho da consciência bem como do alcance espiritual dos outros seres com quem interagimos.
Por isso se torna importante o estudo concomitante das mitologias, das filosofias, da história do mundo; tentativas de contornar abordagens técnicas e materialistas sobre o fenômeno vida – manifestação ímpar de cada ser, com sua peculiar missão existencial.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

PARUSIA, DEPOIS DA PÁSCOA

Mais sobre páscoa no link: Páscoa, cordeiro ou coelho?


        A semana da Páscoa Cristã é a celebração do derramamento do sangue de Jesus Cristo na Terra e sua ressurreição. Como se sabe, o sangue é o veículo do Espírito e por meio do sangue derramado na cruz a Terra recebeu em seu interior o Espírito de Cristo que desde então sustenta o planeta até onde a vista não alcança.
Na tradição Cristã, a Parusia é o nome dado à segunda vinda de Cristo. As linhagens exotéricas devocionais (filhos da água) celebram esse mistério na comunhão do rito sagrado na missa; de maneira complementar, as linhagens esotéricas ocultistas (filhos do fogo) compreendem que esse mistério pode ser vivenciado por cada um que se desenvolveu em seus corpos sutis ao ponto da possibilidade de uma vivência pessoal com o Cristo ressurreto. Isso é possível a partir do desenvolvimento do corpo etérico ou vital, o primeiro corpo transcendente acima do corpo físico.
A respeito desse corpo, Rudolf Steiner, Max Heindel e Corine Helline escreveram obra considerável, assim como exercitá-lo com base no desenvolvimento do caráter e da excelência silenciosa do viver saudável.
Na tradição bíblica, a experiência de Paulo em Damasco é ilustrativa desse encontro suprassensível em Cristo. Paulo designa esse corpo em suas cartas na bíblia como corpo alma (soma psuchicon – I Cor. 15:44).
Sobre isso tudo, e enquanto trabalhamos diligentemente sobre nossos veículos, uma poesia de um amigo, o Pompeu Salgado, que já esteve entre nós aqui pela Terra:
Nascimento de Cristo em Cada Homem
Cristo está em cada homem,
Fraquinho, pois eles não se movem.
Para isso a espiritualidade devem percorrer,
Mesmo com perigos a correr.

Vamos nossos erros lamentar,
De arrependimento chorar,
Após isso a Deus orar.

Dessa forma Cristo renascerá
Dentro de cada um de nós.
Insistindo nisso, Ele mais crescerá.

Boa Parusia a todos!!


quarta-feira, 1 de março de 2017

SOBRE ANJOS - ESTÓRIAS E OUTRAS COISAS

Continuação de: O ANJO EM MIM


       O materialista em sua coragem escolheu um mundo e um modo de viver divorciados de tudo o que não pode ser apreendido pelos cinco sentidos físicos. Como consequência, entendeu ser o humano, do ponto de vista vida ou biológico, o mais elevado entre os seres. Escolheu ainda que seu reino, o reino humano, unido aos reinos animal, vegetal e mineral, compreende tudo o que possa ser objeto de estudo ou ainda as únicas instâncias que merecem a alcunha de realidade.
      Para os demais, permeáveis ao incognoscível, em que momento da evolução humana nos desconectamos dos anjos? Em que momento voltaremos a nos conectar?




      Algumas histórias de anjos carecem ser lidas como: “O anjo está perto” de Chopra, o conto “Do que os homens precisam” de Tolstói (Contos Populares – década de 1880) e o inigualável Guimarães Rosa (Primeiras Estórias) no conto “Um moço muito branco”. Cada um, a seu modo, compartilha seus olhares concernentes a esse reino suprafísico imediato ao humano. Cada um abre uma janela de possibilidades de relação com essa classe de seres pouco compreendidos e pouco visitados, ao menos daqui pra lá...
      Chopra aproxima a ideia de anjo à da luz. Na medida em que o personagem se permite entrar em relação com ela (Luz), a mesma se metamorfoseia em um ser antropomórfico disponível ao diálogo.
– Eu sei que nós chamamos vocês de anjos, mas o que você é para si próprio? Há algum nome que você use?
– Na verdade, não. Quando vejo a mim sou apenas uma janela. Se quiser pode olhar através de mim. Sou transparente. É assim que sou para Deus e, portanto para mim.
      O curioso em Chopra é a ideia da presença do anjo causar um aumento da consciência das pessoas que estão em proximidade a ele; consciência que na maior parte das vezes se dissipa com o afastamento do anjo, dado que o humano não teria desenvolvido em si a força de sustentação para aquela consciência. Isso se assemelha à experiência humana de entendermos algo quando alguém que sabe àquele respeito nos explica, mas que se esvai de nossa compreensão quando da ausência daquela pessoa sabidona.
      Em Tolstói, Mikhail cumpre contrariado uma missão e perde as asas pela inconformidade com o que lhe foi solicitado. Aprende com o humano sobre algo que no reino que habitava não era possível aprender. Traz em si três perguntas a serem respondidas: “O que existe nos homens? O que não é dado aos homens? Do que vivem os homens?”. Sua luz aumenta conforme aprende, é silencioso e hábil além de capaz de enxergar além das aparências. Reconquista as asas ao encontrar as respostas e compreender que o mal que acreditou ter feito visava um bem maior, impossível de compreender então.
      Finalmente, Guimarães pinta com palavras a estória de um moço muito branco, que aparece, não se lembra, visto para ele só haver o presente, e em todos que se aproxima desperta aquilo que mais carecem. Desaparece como apareceu em meio a fenômenos extremos da natureza sob chuva, raios e trovões...
      Estórias anedóticas para uns, realidade para outros, estão contadas aí para quem quiser ler. Se fosse você eu leria, para não dizer depois que não sabia...
No caso do assunto interessar, vale ler também: de Matthew Fox e Rupert Sheldrake “A física dos anjos”, uma visão científica e filosófica dos seres celestiais; de Rudolf Steiner “O anjo em nosso corpo astral” e “A Ciência Oculta”; de Max Heindel “Conceito Rosacruz do Cosmos”; de Diether Lauenstein “As Leis Biográficas à Luz da Biblia”; de Mônica Bonfiglio “A magia dos anjos cabalísticos” e de Wim Wenders o filme “Asas do desejo”. Finalmente, para uma compreensão mais lúcida é imprescindível a leitura das lâminas 14 (A Temperança) e 15 (O Diabo) na obra magistral “Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô” escrita por autor anônimo pela editora Paulus.




Ao ignorarmos a presença dos anjos fecham-se as portas conscientes aos demais reinos, ou seja: arcanjos, principados, potestades, virtudes, dominações, tronos, querubins, serafins, terafins e xeofins; síntese que integra a “antena” cósmica do humano.
Se você nasceu sem asas não faça nada para impedi-las de crescer.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

ELISABETH VREEDE - ASTROLOGIA

Por: Elisabeth Vreede



      Num horóscopo abstratamente calculado, nem sempre se pode ver se e em que medida, um, dois ou três planetas supra-solares devem ser considerados especialmente ativos. Aqui tem papel relevante a individualidade (vontade) que, de acordo com sua evolução tem que ter uma relação bem diferente para com seu próprio horóscopo. Não basta para tanto um cálculo, mas apenas intuição real.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

RUDOLF STEINER - ASTROLOGIA

Por: Rudolf Steiner
Steiner trabalhando sua escultura em madeira chamada: "O Representante da Humanidade".

Se extraíssemos o cérebro de um homem e o examinássemos de forma clarividente, de forma a distinguir cada circunvolução e seus prolongamentos, veríamos que cada pessoa tem o cérebro diferente da outra. Não há dois cérebros que se assemelham. Suponhamos que se pudesse fotografar a estrutura do cérebro, de modo a obter uma espécie de hemisfério onde todos os detalhes fossem visíveis: essa imagem seria diferente para cada indivíduo. E se fotografássemos o cérebro de um homem no momento exato em que ele nasce, e fotografássemos em seguida a parte do céu que se estende justamente por cima do lugar de seu nascimento, essa imagem corresponderia exatamente a esse cérebro humano. Certas partes do cérebro estão dispostas como estrelas na constelação. O homem tem em si uma imagem do firmamento que difere conforme o lugar e o momento de seu nascimento. Isso é um indício de que o homem nasce do cosmo inteiro.

Usando uma comparação, poderíamos dizer: imaginemos cada homem sob a forma de uma esfera em que se refletem todos os objetos em derredor. Esta esfera reflete todas as imagens em torno dela. Suponhamos que com um lápis de decalque desenhássemos os contornos que se refletem nesse espelho. Poderíamos, em seguida, retirar o espelho e transportar por toda parte o decalque dos reflexos. Isto seja um símbolo para o fato que o homem, na hora de seu nascimento traz em si um reflexo do cosmo, levando consigo o efeito deste reflexo por toda a sua vida.

Com estas forças espirituais do cosmo o homem está em ligação, cada indivíduo de um modo pessoal. Se um homem nasce na Europa, depende de condições climáticas e outras, diferentes da Austrália. Do mesmo modo na vida entre a morte e nova encarnação, um indivíduo está em relações mais estreitas com as forças de Marte, outro com as de Júpiter e outros ainda com as de todo o sistema planetário. E são estas mesmas forças que trazem o homem de retorno à Terra. Assim ele vive antes do nascimento unido a todo o espaço estelar.

Essas relações particulares do indivíduo com o Cosmo determinam também as forças que atraem um indivíduo para este ou aquele país ou região. O impulso, o instinto de se reencarnar neste ou naquele lugar, nesta ou naquela família, neste ou naquele povo, numa ou noutra época, depende da maneira pela qual o homem está ligado ao Cosmo antes do nascimento.

terça-feira, 1 de julho de 2014

SALUTOGÊNESE



Por: Dra. Ana Cristina Guimarães


O conceito de Salutogênese foi proposto na segunda metade do século XX pelo médico e sociólogo norte americano Aaron Antonovsky.
Do latim, Salus- sanidade e do grego Gênesis- origem, portanto ele significa a origem da sanidade ou da saúde. A noção se contrapõe a “Patogênese”, que consiste no conceito da Medicina atual, fundamentada na busca e na origem das doenças. Os dois conceitos são complementares, pois obviamente precisamos saber a causa e o tratamento das doenças.
Porém, na Salutogênese a pergunta primária é outra. Como desenvolver e manter a saúde de uma população ou de um indivíduo?
Surge o conceito de “resiliência”, ou seja, resistência. Por que alguns indivíduos submetidos a um stress constante, físico e psíquico, sobrevivem sem adoecer, enquanto outros não têm tantas condições de resistência?
Trazendo para o nosso dia a dia, a preocupação primária de uma empresa ou de um governo deveria ser sobre quais os programas que poderiam ser implementados para que os funcionários ou a população não adoecessem. Quando adoecemos, já estamos correndo atrás do prejuízo: horas perdidas de trabalho, o custo enorme dos remédios ou de internações hospitalares. O velho ditado “prevenir é melhor do que remediar” demonstra-se verdadeiro tanto em nível pessoal, como em nível de política empresarial e pública.

Um brasileiro manter-se saudável atualmente é um verdadeiro “milagre divino”.
Porém, quando pensamos em “prevenir” uma doença, logo pensamos em exames de laboratório para “check-up”, ou uma consulta médica para “ver se está tudo bem...”.  Muitas vezes, vemos pacientes sedentários, fumantes e estressados saírem do consultório, felizes por seus exames não apresentarem nenhuma alteração. Em um caso como este, o fato dos exames estarem normais não significa nada e seria até um fator precipitante de doença, pois não serviu para que este paciente tomasse consciência de seu estilo de vida. Entretanto, na verdade não estaremos prevenindo nada com estes atos, apenas participando do conceito “patogênico”, com foco na doença e não na saúde.
Encarando desta maneira, a questão da saúde torna-se primariamente uma questão pedagógica. Ensinar a ser saudável é a primeira preocupação da Medicina da Saúde.
Segundo Antonovsky, os recursos promotores de saúde podem ser divididos em dois grupos.
O primeiro grupo seria atributivo, isto é, não dependente de nós:
-hereditariedade favorável, bom nível nutricional desde a infância, atendimento as necessidades afetivas básicas da infância, bom nível sócio econômico familiar, integração familiar, boa qualidade de vida em relação ao meio ambiente.
Quem teve a felicidade de receber uma boa educação, em um ambiente familiar amoroso e morando em um meio ambiente ecológico agradável já é um grande de candidato a adoecer menos. Como isto nos foi dado (ou não), não podemos agir sobre estes fatores, mas podemos pensar em nossos filhos ou na próxima geração, promovendo uma alimentação saudável, procurando criar um espaço familiar de harmonia e pensando coletivamente em como melhorar o meio ambiente. Percebemos também com este conceito, que políticas públicas que visem melhorar a qualidade de vida de uma grande cidade, aumentando áreas verdes, combatendo a poluição, seriam de extrema importância para a saúde.
O segundo grupo de fatores salutogenéticos seria aquisitivo, isto é, obtidos por nosso esforço voluntário:
 - coerente projeto de vida, boa situação sócio-cultural individual, boa interação afetiva, auto-cultivo em termos estéticos, filosóficos e espirituais, engajamento ideológico nobre.
Quando pensamos em “manter a saúde” logo nos vem à mente exercícios físicos (horas de academia) ou dietas restritivas. Obviamente uma dieta controlada, e certo grau de atividade física são importantes, porém no conceito salutogênico, as questões mais enfatizadas são as sociais, espirituais e culturais.
Diversos estudos mostram a importância de questões anímicas tais como cultivar alguma espécie de religiosidade, a sensação de que existe uma intencionalidade ou “sentido” para a vida, e o menor adoecimento ou maior resistência de pacientes acometidos por doenças graves, como, por exemplo, o câncer. Segue um exemplo de estudo, no link:

No conceito salutogênico, arte e cultura também são promotoras de saúde. Trabalhos tem demonstrado a importância da música e de atividades artísticas relacionadas à manutenção da saúde, pois atuam melhorando o anímico-espiritual.

 Como estamos levando a nossa vida diária e quanto tempo dedicamos a alguma atividade que não seja o trabalho?!
Para a manutenção da saúde devemos incorporar algum tempo para as atividades nutridoras de nossa alma, tais como leitura, música, arte; procurar estabelecer um ambiente de harmonia, tanto em casa como no trabalho; cultivar uma religião (oficial ou não) ou estudar filosofia. Amplia-se assim o antigo conceito de que saúde está apenas relacionada à prática esportiva, alimentação regrada e visitas regulares ao médico.

Para saber mais: Moraes, Wesley Aragão: Salutogênese e Auto-Cultivo, uma abordagem interdisciplinar. Instituto Gaia. 2006.

terça-feira, 8 de abril de 2014

SIMETRIA IV - UMA POSSIBILIDADE INSÓLITA

Continuação de:

Simetrias I
Simetrias um pouco mais
Simetrias II
Simetrias III




Narciso e Eco - Observe-se a verticalidade x horizontalidade além da cor das vestes


Existe como que uma simetria linguística, conceitual, envolvendo as ciências duras e moles. Dura e mole são, neste caso, sinônimos para o entendimento respectivo das ciências natural e social (Ciência - wikipedia). Grosso modo, a sustentação conceitual para que uma ciência seja considerada dura é a existência de um paradigma (modelo) sobre o qual ela possa ser constituída (Paradigma - wikipedia). Os proponentes mais exaltados deste pensar argumentam que as "ciências moles" não usam o método científico, e que ousam admitir evidências “anedotais” ou não matemáticas, carecendo de rigor em seus métodos!

Oponentes moderados argumentam que as "ciências sociais" se articulam sobre sistemáticos estudos estatísticos em ambientes estritamente controlados e que essas condições nem sempre são respeitadas sequer pelas ciências naturais. Cite-se a Astronomia, ciência observacional que se desenvolve peculiarmente, haja vista as grandezas e distâncias envolvidas.

Galáxia Sombrero

De fato, para uma teoria classificar-se como científica, deve obedecer aos rigores do método científico sem que transcenda o paradigma vigente sob o qual foi concebida. Mas, e se a teoria não couber no paradigma, for maior que ele? Isso implica que para um conhecimento em humanidades adquirir grau de científico, deveria se articular sobre um paradigma. Neste caso, isso implicaria em estabelecer um modelo ou compreensão básica em relação à questão magna: “O que é a Vida?”. Mas como alcançar questionamentos desta envergadura neste momento em que o humano chafurda em preconceitos? Pré conceitos falsos assumidos a priori decorrentes de seu próprio desinteresse a respeito do que seja a vida. Para muitos, até hoje, a Terra orbita um Sol central estático, ignorando o fato do mesmo ser um viajor sideral a cerca de 72000 Km/h ou 20 Km/s!


Supondo que tal paradigma pudesse ser estabelecido, uma ciência, gramaticalmente constituída e funcionalmente equipada, com sua matemática própria e com suas leis daria os ares de sua graça. Curioso notar, entretanto que o próprio método científico e seu atual paradigma dificulta a possibilidade de um novo olhar, visto ser hoje pedra angular de toda estrutura social. Na mesma medida em que é palavra última a respeito do que se trata a vida e sobre qual é a direção do “progresso” e sobre o que é desenvolvimento, silenciosa e sub-repticiamente determina como as pessoas devem viver.



“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (J.G.)



Lembre-se que o humano, sendo sugestionável e respondendo instintivamente a muitas situações, presentemente tem pouca consciência do processo maior que subjaz à própria existência. De fato, viver menos de um século deveras dificulta esta compreensão, especialmente em momentos de liquefação nas relações e aceleração do ritmo de vida decorrente do estado sutil de adoecimento social. Fundamentalmente isso deságua em outra questão magna da qual o humano se afasta mais a cada dia: “Qual é o sentido da vida?”. Ocuparam-se desta questão com propriedade solene, dois pensadores de ascendência judaica, Viktor Frankl e Erich Fromm.

Em vista da insolubilidade epistemológica desta questão, Schrödinger, físico fundamental na elaboração da teoria quântica (cuja equação de onda leva seu nome), interessado em religiões tradicionais e filosofia da física, deu um pequeno passo em seu modesto e profundo ensaio: “O que é a vida” (What is life – 1944). Sem entrar nos pormenores, a parte curiosa diz respeito à sua colocação em relação às simetrias e à biologia. Nesta obra, leitura imprescindível, o autor esmiúça um olhar simétrico e comparativo aos cristais periódicos e aperiódicos. O cromossomo (DNA) pode ser visto como um cristal aperiódico carregador da vida, segundo ele. Em suas palavras:


“Para dar à sentença vida e cor, permita-me antecipar o que será explicado em muito mais detalhes à frente; seja que a parte mais essencial de uma célula viva, o cromossomo, possa ser chamada apropriadamente um cristal aperiódico. Em física temos lidado, até então, apenas com cristais periódicos. Para a mente de um físico humilde, estes são objetos muito interessantes e complicados, constituindo uma das mais fascinantes e complexas estruturas materiais pela qual a natureza inanimada arquiteta sua perspicácia. Ainda assim, comparados aos cristais aperiódicos, eles são mais simples e sem graça. A diferença em estrutura é do mesmo tipo que aquela entre um papel de parede ordinário no qual o mesmo padrão se repete indefinidamente em periodicidade regular e um bordado artístico, digamos uma tapeçaria de Rafael, sem repetições óbvias, mas um desenho elaborado, coerente, significativo traçado pelo grande mestre. Ao chamar o cristal periódico como um dos mais complexos objetos de sua pesquisa, eu tinha em mente o físico propriamente. A química orgânica, na verdade, ao investigar moléculas mais e mais complexas, se aproximou muito mais daquele “cristal aperiódico”, que em minha opinião, é o material carregador da vida.” (E. Schrödinger – What is life? The Physical Aspect of the Living Cell – 1944. p.3-4)




Cerca de nove anos após as palavras de Schrödinger, Watson e Crick em 1953 descreviam a molécula de DNA, sendo em 1962 agraciados com o Nobel de Medicina. Mais recentemente, em 1995, uma nova obra: “O que é a vida? 50 anos depois” – traduzida pela editora UNESP – revisita a proposta de Schrödinger e nos presenteia com várias novas pérolas e especulações sobre o futuro da biologia; merece ler e reler!

Recentemente, alguma atenção foi dada aos cristais aperiódicos conforme citação na segunda parte da presente reflexão, em relação aos quasicristais. Mas enquanto a ciência não monta o “quebra-cabeça”, sempre vale apreciar visões menos convencionais, que fora do paradigma vigente possam oferecer alternativas ao pensamento cristalizado, mineralizado e quiçá morto.


A fim de explicitar graficamente as relações possíveis no mundo fenomênico, os físicos utilizam o diagrama de Minkowiski (Diagrama Minkowski - wikipedia). Pelo diagrama é possível observar três tipos de intervalos na descrição da realidade: tipo tempo, tipo espaço e tipo luz. Grosso modo, habitamos uma realidade do tipo tempo, caracterizada pela observação sucessiva de eventos que interpretamos a partir da noção de que uma causa gera um efeito consequente. Simplificando, no intervalo tipo luz, o tempo pararia e a causalidade cessaria como se fosse um mundo de simultaneidade atemporal. No intervalo tipo espaço, é concebida conceitualmente a ideia de um espaço de realidades fenomênicas ocorrendo a velocidades superiores à da luz, o que ocasionaria um desacoplamento da relação de causa e efeito conforme estamos habituados, podendo o efeito se manifestar antes da causa, por exemplo. Esta concepção aparentemente insana é bem ilustrada por Steiner abaixo. Autores como Alan Lightman em “Sonhos de Einstein” e Italo Calvino em “Cidades Invisíveis” encaram estas ideias com galhardia e estimulam a criar espaço interior para conceber a realidade sob perspectivas inusitadas até o momento presente.

Rudolf Steiner proferiu uma palestra em 17 de maio de 1905 sobre possibilidade insólita e ainda pouco considerada em nossos dias, senão repudiada. Trata-se de um olhar à quarta dimensão como outro plano de existência, chamado pelo autor de mundo astral. O pré-requisito básico para a compreensão das ocorrências neste espaço seria a interpretação simétrica de eventos! Nas palavras de Steiner, os eventos posteriores ocorreriam primeiro e os anteriores ocorreriam a posteriori, ocorrendo aqui como que uma inversão na relação de causalidade (causa-efeito). Se no plano físico o nascimento ocorre primeiro e nascimento significa que algo novo nasceu de algo antigo, no plano astral o antigo emergiria do novo, de modo que a paternidade e a maternidade estariam de fato no interior do filho ou da filha.

Usando a mitologia grega como instrumento, Steiner simboliza três mundos a partir das divindades gregas Urano, Cronos e Zeus. Urano representando o mundo do pensamento (devachan), Cronos o mundo astral e Zeus o mundo físico. É dito que Cronos devorava suas crianças. No mundo astral, a criação não nasce, mas é devorada. Nas palavras de Steiner:

“A questão se torna ainda mais complexa quando consideramos a moralidade no plano astral. A moralidade, também aparece de forma reversa, ou como sua própria imagem espelho (simétrica). Você pode imaginar o quanto as explicações dos eventos lá diferem de nossas explicações habituais no mundo físico. Imagine, por exemplo, que vejamos um animal selvagem se aproximando de nós no mundo astral e que ele nos devora. Assim é como parece para alguém habituado a interpretar eventos externos, mas não podemos interpretar este evento como o faríamos no mundo físico. Na realidade, o animal selvagem é uma qualidade interna, um aspecto de nosso próprio corpo astral que nos devora. O ataque devorador é uma qualidade residente em nossos próprios desejos. Se tivermos um pensamento de vingança, por exemplo, o pensamento pode assumir uma forma exterior e nos atormentar como o Anjo da Morte. Na realidade, tudo no mundo astral irradia de nós. Devemos interpretar tudo que se aproxima de nós no mundo astral como irradiado a partir de nosso interior. Este conteúdo retorna a nós por todos os lados como vindo da periferia, do espaço infinito. Na verdade, entretanto, estamos nos confrontando apenas com o que nosso próprio corpo astral emitiu.” (R. Steiner – The Fourth Dimension – Sacred Geometry, Alchemy and Mathematics – p.20)




É preciso parcimônia neste momento em que tudo parece vitimado por explicações quânticas, apesar de até agora a teoria estar dando conta do recado, ao menos dentro do domínio físico material. Aferir realidades suprassensíveis com técnicas e materiais de uma realidade inferior parece contrassenso a ser repensado. Ao que tudo indica pode ser necessária uma transformação na própria forma como concebemos a realidade antes de prosseguir.



Explicar o inexplicável ou inefável com substratos do mundo da matéria pede atenção! A razão e a lógica são ferramentas indiscutivelmente poderosas dentro de suas arenas, mas podem não sê-lo em outras questões. Um modelo alternativo de elaboração, nem melhor nem pior, apenas diferente, é o pensar analógico que encontra nos mitos sua expressão plena. Os mitos funcionam como um milagre ou espelho que por concessão simétrica nos permite algum vislumbre do incognoscível, desde que haja mínima reverência no coração do buscador pelo fundamento de sua busca (Michael Ende trata disso no capítulo 6 e 7 da obra "História sem Fim").

Não bastasse isso tudo, um afastamento temporal ainda mais ousado, permite o vislumbre de um fenômeno simétrico significativo, ainda pouco compreendido, descrito por Paulo na primeira carta aos Coríntios.
Conversão de Saulo - Note-se a horizontalização do humano e a verticalização do animal - Damasco (Cidade do Jasmin)


“A nossa ciência é parcial, a nossa profecia imperfeita. Quando chegar o que é perfeito o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, julgava como criança, quando me tornei homem, acabei com as coisas de criança. Porque agora vemos por um espelho, obscuramente; mas então veremos face a face. Agora conheço em parte; mas então conhecerei plenamente, assim como também fui plenamente conhecido.”


A provocativa simetria poética do texto acima se faz ainda mais significativa quando vista à luz da concepção Paulina de corpo psíquico (Soma Psuchicon - Psiqué – Alma), corpo alma – que animaria o corpo físico (anima = alma) e permitiria o despertar consciente nos planos suprafísicos; enfim, a ideia de um corpo representando a própria manifestação conceitual e funcional de simetria.

Loucura ou caminho para um pensar mais vivo?