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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

DEUS E DIABOS III



A política é prática diabólica. Poder, medo, dinheiro, fama e controle são seus combustíveis. O Diabo aprecia tudo que é partido. Adora espelhos, poderes partidos, partidos políticos, partidas de futebol e até mesmo o raio que o parta. Se for inteiro e não pela metade, então tem que ter Deus também. Mas ainda não chegamos lá, estamos longe. Tão longe e tão perto...
A Bíblia em Jó (antigo testamento), Goethe em Fausto e Saramago no Evangelho segundo Jesus Cristo, criam situações curiosas onde Deus e o Diabo trabalham alinhados, no mesmo partido, conversam e planejam! Nada parecido com a prática geopolítica atual, onde as partes se odeiam. A literatura bíblica é explícita quanto às coisas de César e as coisas de Deus.
Em minha infância se dizia: “Mente vazia oficina do Diabo”. Curiosa associação essa do Diabo com a mente e de Deus com o coração. É como se Deus não pudesse ser sabido ou pensado, senão apenas recordado (cordis = coração). Parafraseando Agostinho de Hipona sobre o tempo: se me perguntam o que é Deus, eu não sei, se não me perguntam eu sei. Quando penso Deus me dissocio e, portanto, me torno diabólico. O cérebro utiliza o fósforo na forma de ATP (adenosina trifosfato) em seu metabolismo. Fósforo em grego é lúcifer em latim, ambos significam o portador da luz.
Posso ser livre de tudo o que tenho, mas posso ser escravo até do que não tenho. A liberdade é um conceito estranho. Liberdade para acreditar ou não. Na medida em que acredito coopero com o “sistema de leis” (teotropismo), e na medida em que não acredito compito com o “sistema de leis” (geotropismo). Competir ou cooperar, prerrogativas do estado em que me encontro. Escolhas que não se excluem, senão se mesclam até que a unidade seja melhor compreendida por cada um de nós.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

ATEÍSMO AUTOTEÍSMO E TEÍSMO

“Deus não joga dados” – Afirmação de A. Einstein – Físico
“Não deve ser tarefa nossa prescrever a Deus como Ele deve reger o mundo”
Resposta de N. Bohr – Físico (Do livro “A Parte e o Todo” de Heisenberg)
           
Dentre os movimentos ateístas, mais chamam atenção aqueles em que o homem é chamado ao auto-aperfeiçoamento, como ápice da cadeia evolutiva, sem a necessidade de abertura ou reverência a estados superiores ao humano, enquanto divindades. Grosso modo, caminhos reencarnacionistas em direção à “iluminação” e à cessação do ciclo de nascimento e morte. É possível concebermos, em teoria, movimentos ascensionais e movimentos descensionais, o que clareia, apesar de alguma relatividade, os estados de elevação do humano (despertar) e de descida do divino (mergulhar).
É suicídio mental espiritual ou aleijão e caolhice se afastar da tensão paradoxal da complementaridade. As tensões do tipo Confúcio – Lao Tsé, Aristóteles – Platão, Aquino – Agostinho, Averróis – Avicena, permeiam a história humana como ioiô.


Assim, se mostra curioso o movimento dos cientistas que partem do pressuposto básico da inexistência de Deus! Fundamental notar que esta negação se baseia numa certeza, uma forma de fé radical, uma fé no nada, ou de que nada existe além do que os cinco sentidos permitem. Se meu pressuposto é a negação, afirmo que sou o próprio Arquiteto. Forma discreta e elegante do culto materialista.
     Ney Matogrosso oferece solução a essa tensão característica da insustentável leveza do ser em sua música "Balada do Louco"

“Eu juro que é melhor não ser o normal. Se posso pensar que Deus sou eu.”

Mas haveria espaço para todas essas posturas sem que uma estivesse correta e a outra equivocada? Acredito que sim e que todos estejam igualmente certos em suas observações e conclusões. Existe uma ideia corrente de que a própria consciência de cada ser humano, de algum modo, determina sua realidade. O mundo e a realidade de cada pessoa respondem a estas convicções pessoais, levando-as cada vez mais a concretizá-las em sua forma de viver e escolher. Estou afirmando que a história de cada pessoa responde ao modo como ela constitui seu universo e percepções – negar possibilidades é bloquear certas vivências; permiti-las é estar aberto ao novo. Desse modo, alguém cujas convicções se baseiam na materialidade e no vazio pré e pós-existência corpórea, assim é para ele e assim será. Não apenas como modelo abstrato e argumento para discussões, mas como fato real de como sua história se desdobrará.
Realmente um olhar atento descobrirá existirem fortes evidências de que construímos o mundo com base em nossas ideias, sendo este o grande dilema do livre arbítrio da vontade. O livre arbítrio da vontade é uma ferramenta mestra. Pensar o mundo como algo formatado em que todos os seres e consciências simplesmente respondem às leis naturais é limitar o conceito livre-arbítrio. Afinal, como concluímos que as próprias leis não estejam em processo pessoal de evolução?


Sheldrake nos convida a reflexões dessa natureza de forma elegante na obra “Ciência sem Dogmas”, entre outras. Quando sua vida estiver equilibrada, procure pensar a esse respeito. Caso sua vida esteja constantemente desequilibrada, procure pensar a esse respeito também...

“Como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo fazei a eles.”
Lucas 6:31


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

CONSTRUINDO PONTES


Por Michael Ende: Representante da Sabedoria Humana

A ponte que já estamos construindo há muitos séculos, jamais ficará pronta.



Qual mão estendida que ninguém agarra, ela se ergue sobre os recifes escarpados da nossa fronteira, sob os quais está o abismo negro e sem fundo. Seu arco abaulado para cima desaparece em algum lugar lá fora, na névoa espessa que se alça constantemente das profundezas.

Não se pode completar uma construção como essa, caso não se construa também a partir do lado oposto. E até agora nós nunca pudemos descobrir qualquer sinal de que alguém estivesse trabalhando do outro lado, num projeto como esse. E provável que as pessoas de lá ainda não tenham notado nossos esforços. Muitos entre nós chegam a duvidar de que exista um lado oposto. Essas pessoas fundaram no decorrer dos últimos dois séculos uma Igreja originária da antiga doutrina ortodoxa, cujos membros são designados com o nome de Unilaterais. Originalmente tratava-se de uma alcunha que os ortodoxos lhes deram. Mais tarde, porém, eles mesmos assumiram esse nome e, desde então, ostentam-no com um certo orgulho. No entanto, sua convicção não os impede de maneira alguma de participar com todas as forças na construção da ponte, como prescreve nossa ética. Por isso mesmo, eles não são mais perseguidos como acontecia em tempos antigos, senão que são vistos como tendo os mesmos direitos, ou quase todos. As pessoas os reconhecem por uma pequena incisão vertical no lóbulo esquerdo, através da qual eles confessam sua unilateralidade. Em compensação, os outros que formam a maioria ortodoxa, denominam-se os Meios. Eles não duvidam da existência de um outro lado, mas sabem que ele é inalcançável.

Embora a ponte não se alongue sobre a metade do nosso lado, existe um intenso tráfego nela. Pode-se ver ali a qualquer hora do dia ou da noite veículos, cavaleiros, pedestres, liteiras e carregadores, dirigindo-se a ambas as direções. Hoje em dia não poderíamos existir sem relações comerciais com o outro lado, pois todos os medicamentos e uma grande parte dos nossos víveres vêm de lá. Em compensação, nós lhes fornecemos jarros de barro de todos os tipos, tijolos, instrumentos de metal e barro que extraímos de nossas minas.

Para os estranhos, muitas vezes, é difícil compreender como nós aceitamos e vivemos com esse fato que lhes parece uma contradição evidente. Nossa religião nos proíbe – e nisso não existe nenhuma diferença entre os Unilaterais e os Meios – de duvidar que só existe o lado da ponte que nós mesmos construímos. Os fanáticos e hereges que apareceram vez por outra em nossa história foram levados sem muitos rodeios até o lugar onde termina nossa ponte e obrigados a caminhar para frente. Naturalmente eles despencaram no vazio.



Aqueles que não nasceram e cresceram em nosso país acham difícil compreender que o pressuposto para o comércio entre nós e o outro lado baseie-se justamente no fato de que temos a mais profunda convicção de que eles não existem. Se nós abalássemos seriamente esse fundamento da nossa doutrina, então – disso estamos seguros e todos nossos livros santos o comprovam –, imediatamente, desmoronaria a parte da ponte por nós construída e estaríamos perdidos. Portanto, os viajantes podem tratar de frear a língua e não tentar pesquisar a fundo o segredo da nossa fé. Senão estarão correndo o risco de sofrer o mesmo destino que todos os hereges do nosso próprio povo. Neste caso, sofreriam no próprio corpo e saberiam que nossa ponte nunca foi concluída e que entre nós e o outro lado ainda existe o abismo.

No caso de um casamento – os quais a propósito ocorrem não com pouca freqüência – entre uma filha ou um filho do nosso país com uma filha ou um filho do outro lado, é comunicado alegremente por um ou pelo outro como não tendo existido. A diferença em nossas confissões reside simplesmente no fato de que a fórmula dos Unilaterais diz: “eu não vim de parte alguma, pois o lugar de minha origem não existe. Por isso não sou ninguém e assim aceito por esposo (por esposa)”, enquanto a dos Meios diz: “de lá, de onde eu vim, é impossível que eu pudesse vir, por isso não estou aqui e assim eu aceito como esposo (como esposa)”. Com esta cerimônia, as pessoas recebem os plenos direitos civis em nosso país, e passam a valer desde então como pessoas de verdade, com todos os direitos e obrigações de um cônjuge.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

SOBRE CORPUS CHRISTI


Dr. Ricardo,

Caro e sempiterno amigo.



Cristo e sua história, em toda sua riqueza de detalhes, vêm sendo continuamente objeto de estudos, considerações e apresentações sob os mais diversos ângulos de análise, sejam eles religiosos, ou não, filosóficos, históricos, psicanalíticos e sociais e, sob apresentações em suportes os mais díspares, que nos vem sendo oferecidos desde tempos imemoráveis até os nossos dias.

Aquilatar os porquês de tamanho interesse foge à parca dimensão de nossa vida, assaz pequena e tão repleta de percalços e embates diários, mormente em razão de nossa complexidade como seres humanos viventes num pedaço tão ínfimo do Universo.

Isso não nos impede, porém, de determo-nos em aspectos que num vicejar ainda que efêmero nos leve a conjecturarmos sobre a vida e as atitudes dessa figura gigantesca que se apresenta sob o nome de Jesus Cristo.

Primeiro logo na infância nos condoemos ao saber de sua triste passagem pela terra e ao abismo doloroso a que foi levado e tragado por todas as forças imperiosas oficiais, ou não, que regiam os destinos dos humanos à época.

Depois, quando atingimos a fase adulta, embora admiremos a figura de Cristo, questionamentos nos fazem pôr em dúvida a demanda de azares que acometeram sua vida e as causas que realmente o levaram a tantos infortúnios e, ao final, à morte pela crucificação.

Em princípio, o porquê o Pai o abandonou, como, aliás, ele mesmo se queixa, já nos estertores da sua malfadada vida, em meio a ganas de violência inusitada e sem limites.

Afinal, o que havia ele feito para merecer tanta violência e um imerecido castigo, de desproporcionalidade sem par e inimaginável.

Logo ele, que até então, levava uma vida simples, voltada a ajudar o próximo sem ver a quem, sem troca de favores, nem mesmo financeiro, haja vista o compartilhar da mesa, do pão e do vinho, em sua “Última Ceia”.

Tanto assim parece que, se a patuleia aceitou, colaborou e apoiou tamanho sacrifício, o dia do acontecer da morte de Cristo, a natureza - sempre sábia - se fez presente em seu desagrado, tornando a data um horroroso dia de trovões, como descreveu Gregório de Matos em soneto:



“Na confusão do mais horrendo dia,

Painel da noite em tempestade brava,

O fogo com o ar se embaraçava,

Da terra e água o ser se confundia



Bramava o mar, o vento embravecia.

Em noite o dia enfim se equivocava,

E com estrondo horrível, que assombrava,

A terra se abalava e estremecia.



Lá desde o alto aos côncavos rochedos,

Cá desde o centro aos altos obeliscos

Houve um temor nas nuvens, e penedos.



Pois dava o céu ameaçando riscos

Com assombros, com pasmos, e com medos,

Relâmpagos, trovões raios, coriscos”.



Alega o Pai, com o aceite e concordância de muitos e muitos outros que lhe seguem a doutrina cristã, que Ele assim o fez para salvar a “humanidade” e remir-lhes, com o seu exemplo, todos os pecados humanos, que, em sua doutrina catalogou: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja, preguiça.

Ora, tais pecados, ainda hoje, não subsistem a quaisquer exames, ainda que fortuito ou aprofundado, pois os humanos pecam, por serem humanos, nada mais que humanos, não se lhes oferecendo tamanha violência marcada pela crucificação de Cristo, seu filho, em parâmetros de exemplos, em prol da salvação da humanidade, mesmo que nesses pecados sejam incluídos a os dez mandamentos de sua “Lei” divina, consubstanciados no que se chamou “Decálogo”, como, aliás, o renomado cineasta polonês Kieslovski (1941-1996), delineou em sua célebre série sob mesmo nome.

Essa justificação, portanto, não manifesta ser plausível, a qualquer tempo, ainda, porque Deus é o Todo Poderoso e Onipotente, não precisando de tal subterfúgio inclemente e inidôneo para alcançar os seus fins.

Como se não bastasse, ungiu do sangue e do corpo de Cristo, para aduzir a oferenda da salvação, na doutrina eclesiástica, em perpetuação ao sacrifício de sua morte na cruz, nos termos da “Última Ceia” e convertendo a renovação sacramental do sacrifício da cruz no santo ofício da “Missa”.

Toda essa exposição de conteúdo religioso consubstanciou-se ao longo dos tempos em amostragens de fé e religiosidade, que compreendem cultos e procissões, adornadas por tapetes feitos pelos fiéis, com materiais de uso comum para enfeitar o chão por onde passariam, e a remissão dos pecados por meio da “Hóstia Consagrada”, cuja doação é feita aos fiéis no “Calix Sagrado” durante as missas, e, uma e outro guardados em Oratório, no altar-mor das igrejas.



Calix Bento



Ó Deus salve o oratório

Ó Deus salve o oratório

Onde Deus fez a morada

Oiá, meu Deus, onde Deus fez a morada, oiá.

Onde mora o calix bento

Onde mora o cálix bento

E a hóstia consagrada

Oiá, meu Deus, e a hóstia consagrada, oiá.



De Jessé nasceu a vara

De Jessé nasceu a vara

E da vara nasceu a flor

Oiá, meu Deus, da vara, nasceu a flor, oiá

E da flor nasceu Maria

E da flor nasceu Maria

De Maria o Salvador

Oiá, meu Deus, de Maria o Salvador, oiá



(Calix Bento - adaptação livre de Tavinho Moura e voz de Milton Nascimento)



Toda essa manifestação, hoje, congrega em data especial, o dia de Corpus Christi, celebrada, com feriado, procissões, preces e o acender de velas em homenagens ao sangue e ao corpo de Cristo, sacrificado.

Para nossa ventura louvemos Jesus Cristo, sim, mas não esqueçamos que a vida, para sua plenitude e saúde, necessita de compartilhamento e consciência, até mesmo nos atos distantes do pensamento racional, para encontrarmos sua lógica nos esconsos secretos da existência.



Mário Inglesi



segunda-feira, 1 de abril de 2013

BURACOS E FUROS I – NEUROPLASTICIDADE E SABEDORIA IV


Continuação de: Neuroplasticidade e Sabedoria



       Os buracos, desde as cavernas, são fundamentos dos primórdios do comportamento humano. Fascinação para alguns é o espaço “vazio”, ou buraco mesmo, que constituem as bolsas, carteiras e sapatos tão apreciados e consumidos! Mas porque tantas bolsas, sapatos e carteiras? A questão não diz respeito aos objetos em si, mas ao buraco que eles portam...

            Cada vez mais distantes de uma concepção prática para o vazio, o conceito antigo de vácuo se transformou hoje na ideia de um espaço ricamente povoado de partículas e subpartículas em estados baixíssimos de energia. O éter, delírio místico no preconceito de outros tempos, retorna com status científico e todo requinte e reconhecimento pela mesma academia que o renegou, mas que hoje o renomeia: vácuo quântico. Bonito nome para o imponderável que um dia foi vazio.

            Mas, se o mundo físico se resolve assim, resta ainda tensão sustentada no reino metafísico, onde o formalismo da razão não acessa, mas onde o empirismo pessoal permite algum vislumbre. Em outras palavras, o velho dilema entre os que acreditam e os que não acreditam, ou ainda, entre os que veem o final como um buraco e os que enxergam o buraco como passagem. "Quanticamente" falando, os dois parecem certos, para um é assim e para outro assado; outrossim, o livre arbítrio estaria em xeque pelo determinismo do destino! Igual para todos? Acho que não, a menos que aprendamos a ver o igual que reside nas diferenças... Diferenças naturais, que não poderiam deixar de existir, entre aqueles para quem o real se resume à vivência da natureza material, aqueles outros para quem um universo de sentimentos e desejos permeiam a natureza material, os que admitem um universo de pensamentos envolvendo e permeando os primeiros e assim por diante. O radicalismo e sua polaridade já se provaram incapazes de conduzir a soluções saudáveis. Fica assim então: desmanche (buraco cego) versus continuação (buraco passagem), duas soluções que não se excluem; se fortalecem enquanto exercício de respeito mútuo.






            Curiosíssimo, na língua inglesa, a palavra buraco se aproximar tanto do todo (Hole x Whole), como se a própria noção de totalidade, e quem sabe mesmo de vida, pudesse estar contida em um buraco. Mas, pensando bem, o que é o corpo senão algo que se assemelha ao que o copo é para a água ou mesmo o que o mar é para os peixes? Recipientes de uma realidade que permitem à outra sua manifestação.

As pessoas parecem gostar de colocar coisas nos buracos e muitos se reconhecem vivos quando conseguem encher um buraco com algo; ora, por coisas na bolsa, os pezinhos no sapatinho e o dinheirinho na carteira... O próprio útero, espaço potencial que o humano preenche antes de Ser aqui na Terra, obriga a reconhecer que realmente, crescemos dentro de um “buraco”. Estaria aí parte da fascinação do humano com os buracos? Longe de terminar, o que é um carro senão algo com um espaço (buraco) para se entrar? O que é um copo, senão um recipiente que ganha sentido em seu vazio, que quando preenchido, pode saciar a sede ou sedar os sentidos, na dependência do líquido utilizado?

Não bastasse isso, certos buracos permitem ativar sentidos e adentrar o universo alheio, seja na fala que sai da boca e penetra ouvidos ou no alimento que conecta distantes e peculiares buracos... O homem, antigo morador no buraco das cavernas, hoje encontra abrigo na medida em que é compreendido ou quando entra em algum buraco (fisicamente ou por projeção psíquica) que o faça sentir vivo.

Mas, essa mesma necessidade de buraco, que muitos correm atrás, termina para alguns, por incrível que pareça, na situação de “vazio” existencial! Afinal, quem se nutre enchendo buracos, seus ou dos outros, de certa forma se reconhece pelo continente material que gera o vazio e não pela ideia do vazio em si mesma. Reconhecemos o estado de buraco pelo potencial inerente que temos em preenchê-lo e apenas excepcionalmente buscamos o estado de esvaziamento, de modo a criar espaço interno de receptividade para algo.

De maneira geral, o modus operandi do cidadão mediano de hoje está muito mais para se encher do que para esvaziar-se. Entretanto, é justamente quando se esvazia, inicialmente dos excessos de recursos físicos, posteriormente dos excessos que marcam a expressão da personalidade e seus vícios e finalmente de todas as expectativas, é que algo acontece e o novo pode surgir. Só no vazio da receptividade, que qualifica o estado de inspiração, pode alguém escutar-se de dentro para fora ou a partir do silêncio interior. Este “vazio” não é algo que carece de preenchimento, mas de simplesmente existir assim, para que nele o novo e o diferente possam passar, serem recebidos e vivenciados, condição sine qua non para a experiência de um nível mais elevado de consciência, desta vez não compreendendo, mas sendo compreendido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

SAÚDE E DOENÇA – DOIS LADOS DA MESMA MOEDA – PARTE II

...CONTINUANDO O ARTIGO: http://saudeconsciencia.blogspot.com.br/2012/04/saude-e-doenca-dois-lados-da-mesma.html

M.C. Escher

"A saúde é a alegria do corpo, e a alegria é a saúde da alma."

      Como eu dizia na primeira parte desta reflexão, abaixo segue a releitura escolhida, pelos participantes do encontro, como a melhor adaptação, à qual chamamos: “a arte da saúde”. Note a equivalência das frases em ambos os textos e atenção para que os mesmos não sejam lidos em termos de melhor ou pior, apenas diferentes. Observe como se sente ao final de cada texto... Nesse sentir está um pouco de você e dos pressupostos sobre os quais seus valores estão estabelecidos.
A ARTE DA SAÚDE
Se quiser saúde – “Fale de seus sentimentos”.
Emoções e sentimentos escondidos, reprimidos são convites à reflexão de que algo novo deve ser trazido à vida. O estômago recebe o alimento e a coluna ergue o homem em direção ao céu.
Com o tempo a compreensão dos sentimentos aumenta a tolerância para com o outro, assim como a qualidade do sono. Então vamos compartilhar o que somos de melhor até agora e nos perdoar naquilo que fomos de pior.
O diálogo, a fala, a palavra, é um poderoso remédio e excelente terapia; falar é mostrar o que se leva no coração.
Se quiser saúde – “Tome decisão”.
A pessoa decidida aprende sobre o poder que reside no acreditar, na paz e na leveza. Decidir liberta e diminui preocupações e ansiedades. A história humana é feita de decisões. Para decidir é preciso saber renunciar, ceder vantagem e valores, e eventualmente ganhar outros.
As pessoas decididas são mais saudáveis dos nervos, estômago e pele.
Se quiser saúde – "Busque soluções".
Pessoas positivas enxergam soluções e diminuem os problemas. Preferem a alegria, lugares calmos e o otimismo. Melhor acender um fósforo a lamentar a escuridão, onde também há beleza em seu tempo.
Pequena é a abelha, mas produz o que de mais doce existe.
Se quiser saúde – "Cultive a essência mais que as aparências".
Se abrir à realidade sem fingimento ou pose, sem vergonha das limitações pessoais faz ficar mais leve. É como falar de saúde ou doença, parecidos, mas opostos.
Nada melhor para a saúde que viver sem fingimentos e valorizando a essência sobre a aparência. Pessoas com muito verniz geralmente tem pouca raiz. A Farmácia, o hospital e a dor são oportunidades extremas para os que se distraíram e não leram as placas no caminho.
Se quiser saúde – "Aceite-se".
A auto-estima é vitamina ou vita anima (vida para a alma), faz com que sejamos plenos. O núcleo da vida saudável é a auto-estima, que vitamina, diferente do orgulho, que contamina. Aceitar-se torna a pessoa gentil, cordial, cooperativa, criativa e construtiva.
Aceitar-se, aceitar ser aceito, aceitar as críticas, é sabedoria, bom senso e terapia.
Se quiser saúde – "Confie".
Quem confia, se comunica, se abre, se relaciona, cria liames profundos, sabe fazer amizades verdadeiras.
O relacionamento acontece na confiança. A desconfiança é falta de fé em si, nos outros e em Deus. Desconfiar é não ter fé (descon – fidere – fides – fé).
Se quiser saúde – "Viva sempre alegre".
O bom humor, a risada, o lazer e a alegria acompanham a saúde e a vida longa. A pessoa alegre tem o dom de alegrar o ambiente em que vive.
"O bom humor nos salva das mãos do doutor". Alegria é saúde e terapia.


Nas palavras sábias do filósofo brasileiro Huberto Rohden, em seu livro “Profanos e Iniciados”, uma lembrança: “Castigare (castigar) vem de duas palavras latinas, castum (casto, puro) e agere (fazer, agir), de maneira que castigare (castum agere) quer dizer purificar, e a palavra castigar só deveria ser usada neste sentido disciplinar, o que, infelizmente, nem sempre acontece. Toda e qualquer punição que não tenha este caráter de verdadeira castigação ou purificação é imoral e incompatível com a ordem cósmica.
O relacionamento saudável se baseia na confiança, que trata de abertura e entrega. Sua vida se baseia em confiança e no não saber ou na segurança do conhecido?

A dúvida é privilégio do sábio, a certeza a marca dos ignorantes.

Experimente você também, proponha aos seus familiares e veja que curioso o resultado após cada um ter transmutado o texto. Esta prática, chamada prática de saúde, ainda pouco divulgada em nosso meio, pode ser benéfica aos seus adeptos.
Falta amor... A medicina técnica da doença está ambiciosa, enquanto a medicina da saúde busca uma forma amorosa de balancear a ambição. A educação que informa (prepara para o vestibular - horizontal) está doente e a educação da formação (que prepara para a vida plena - vertical) é forma amorosa de harmonizar o ser. Que o amor possa cada vez mais permear as práticas profissionais antes que se exacerbe o já conhecido “canibalismo” humano, baseado no medo, que caracteriza alguns regimes, economias e pensares...
      Enquanto pensarmos a saúde apenas enfocando a doença (cura e prevenção), negligenciando a preservação e a promoção, palavras mais condizentes com a saúde, seremos reféns do medo e tomaremos decisões baseadas no medo. Decidir com base no medo é quase o mesmo que ser coagido, ser passivo, ser paciente, enfim ser doente!
      Conforme Heinz Buddemeier convida em seu livro: “Mídia e Violência.”, lancemos um olhar sobre o aspecto do efeito da violência cênica e da falsa impressão criada de que nada daquilo nos diz respeito. Assistir cenas violentas gera aumento do medo ao final da exibição, efeito claramente comprovado junto a espectadores de TV. Está provado que os que assistem muito à televisão tendem a estender os parâmetros do mundo midiático à sua realidade cotidiana, consequentemente sentindo-se mais ameaçados do que os outros. Isso aumenta a necessidade de proteção e segurança, além de aumentar a prontidão para agir violentamente e a pensar que as outras pessoas vão agir com mais violência do que em verdade ocorre.
Vamos prestar um pouco mais de atenção ao que estamos fazendo com nosso tempo?
Vamos prestar um pouco mais de atenção a como estamos usando nossas palavras?
A sua vida é um exemplo de como se faz ou como não se deve fazer?