O SILÊNCIO -
ARNALDO ANTUNES
O vazio é condição que predispõe ao
preenchimento acontecer. O vazio do copo, o vazio da janela, o vazio da porta,
o vazio do vaso, o vazio do útero, o vazio onde o eixo da roda se encaixa, o
vazio do sapato. O vazio é um espaço perigoso, pode-se cair nele, e viver é de
fato muito perigoso.
Em minha infância se dizia: “Mente
vazia oficina do Diabo”; um vazio onde até o Diabo poderia cair!? Curiosa
associação essa do Diabo com a mente e de Deus com o coração. É como se Deus
não pudesse ser sabido ou pensado, senão apenas recordado (cordis = coração). Parafraseando
Agostinho de Hipona sobre o tempo: se me perguntam o que é Deus, eu não sei, se
não me perguntam eu sei.
É pelo vazio das câmaras
cardíacas que o sangue flui. Por outro lado, o cérebro utiliza muito fósforo na
forma de ATP em seu metabolismo. Para quem não sabe, fósforo é uma palavra derivada
do grego que no latim se torna lúcifer, ambas significando o portador da luz.
Mesmo você que já sabe que cérebro e mente são coisas relacionadas, mas muito
diferentes, vale pensar a respeito.
Posso ser livre de tudo o que
tenho, mas posso ser escravo até do que não tenho. A liberdade é um conceito
estranho. Por exemplo, sou livre para acreditar ou não em Deus. Na medida em
que acredito, a liberdade de arbítrio se manifesta enquanto coopero com o
“sistema de leis” divinas. Na medida em que não acredito a liberdade de
arbítrio se manifesta enquanto compito com o “sistema de leis” da natureza.
Simples assim, geotropismo x teotropismo. Em relação ao livre arbítrio, competir
ou cooperar, escolher o mais sensato depende do estado em que me encontro,
quanto eu acredito estar no controle da vida e no que escolho acreditar. Escolhas
que não se excluem, senão se mesclam até que a unidade seja melhor compreendida
por cada um de nós.
Meus espaços vazios são cavernas
fechadas ou canais de passagem? Cavernas que portam luz ou canais que permitem
que a luz circule? Em mim predomina o mental ou o cardíaco; o carnal ou o
espiritual?
O silêncio é espaço onde tudo
pode acontecer. É potencialidade. É campo de metamorfose. É onde o tu pode
encontrar com o eu. Sem o silêncio, pouco é possível. Quem está cheio, precisa
de um pouco de silêncio; espaço na alma para que alguém possa ser. Não é
possível ser sem espaço, e o silêncio é espaço pleno. No silêncio eu me escuto;
no silêncio sou escutado. O silêncio é solene e é só nele que o dentro e o fora
podem estabelecer diálogo. O artista disse que o silêncio foi a primeira coisa
que surgiu. Para recordarmos esse momento primordial, sejamos silentes.
A despeito disso, existe hoje guerra
declarada ao silêncio. Máquinas de som e imagem insistem na inseminação ruidosa
de nossos orifícios, em nossos ofícios. Nossos ossos pulsam com a gravidade da
situação, com a gravidade dos baixos profundos, com a gravidade das gravatas e
ainda com a gravidade da gravidez. Inseminados com o mesmo e variações do mesmo
tema, papagaiamos o barulho pré-fabricado em nossas casas.
Ao impedir que a vontade alcance
o silêncio, as irrelevâncias das informações cotidianas nos tornam dependentes
de mais uma dose. Esse vício moderno que preenche os vazios, os tempos, os
sentidos, me tira de mim. Me afasta a vontade e me entrega aos desejos.
Vontades de ser escorregam em desejos de ter. Mas, sem o silêncio, sem esse espaço,
o que ser senão o que se diz, o que me dizem, o que foi dito naquele programa?
Esse barulho que penetra a mente a
partir dos tímpanos, que nos rouba a lembrança essencial, precisa ser encarado
de frente. Desejo a você que ele ocorra antes e não depois que o tempo se
recolha.



