A Medicina da Saúde é baseada na preservação e na promoção. É sempre superior à Medicina da Doença focada na cura e na prevenção. Somos seres humanos e não "teres humanos”. A doença começa quando se deixa o SER pelo TER; saúde e vitalidade aumentam na direção do SER. A busca pelo SER leva à ampliação da consciência, guia do homem saudável e espelho para o doente. Refletindo o exemplo a ser imitado mostra como sair da horizontalidade do adormecimento e entrar na verticalidade do despertar.
O termo holos em grego expressa a ideia de inteireza e integridade. Para o
conhecimento médio o todo se compõe das partes que o constituem, o todo é a
soma dessas partes. Essa forma de conhecer associa parte e todo com o
quebra-cabeça, assim como com a natureza inorgânica.
O inusitado surge, no
entanto, quando se adentra o universo do orgânico onde um princípio organizador
atua não apenas sustentando a forma, como também a transformando. Esse
princípio pode ser compreendido como um epifenômeno ou como um nível superior
de organização que atua sobre o nível inferior. Em qualquer desses casos,
observáveis nos reinos vegetal, animal e humano, o que denominamos todo é
sempre maior que a soma de suas partes.
Em outras palavras,
enquanto no mundo inorgânico um mais um resulta dois, no mundo orgânico o
resultado é sempre maior que dois. Saímos da matemática do inorgânico e
adentramos a “matemágica” do orgânico. Esse conceito do todo poder ser maior
que suas partes é a melhor aproximação desse termo holos.
Os termos shalom e salam, derivados de línguas semíticas, chegam à nossa gramática
como paz. No entanto, naquelas línguas eles compreendem um sentido de
integridade que pode ser inclusive transposto para objetos inanimados. Ou seja,
posso dizer que uma vassoura está em paz! Pois está inteira e, portanto,
íntegra.
Podemos então resgatar a
compreensão de saúde enquanto estado pleno do ser. Se estou em paz e se estou
inteiro, estou íntegro e integrado. As práticas integrativas almejam e propõem
algo justamente nesse sentido.
Pessoas não integradas,
ou seja, que romperam consigo mesmas, perderam a relação com sua essência, que
em grande parte das tradições está relacionada ao coração. Daí o termo corrupto
(cor – coração / rupto – roto); quando rompo com minha porção mais essencial é
como se rompesse com o coração. Nessa corrupção, nessa rotura cardíaca está o
princípio do adoecimento. Adoecimento que não ocorre como uma patologia que se
instala instantaneamente, senão como estado de mal-estar ou de perda da paz
interior. As práticas integrativas visam restabelecer a paz interior, a
integridade perdida, antes que a doença se manifeste no corpo físico.
O suicídio físico é uma
opção desesperada e pode ser consciente ou inconsciente. No primeiro caso um
ato abrupto de desespero, no segundo decorrência de atitude ignorante que se
perpetua no tempo (hábito alimentar precário, uso de drogas lícitas e ilícitas,
sedentarismo, pouca leitura, hábito musical pobre). Estatísticas atuais apontam
que a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo. No Brasil os
dados mais recentes apontam uma média de 32 suicídios por dia.
Mas, o suicídio mais
surpreendente é o espiritual. Quando o materialista se descuida de seus
veículos (corpos) suprafísicos, demonstra coragem surpreendente. Veículos que a
tradição designa como corpo vital, corpo de desejos e mente. Sim, não é preciso
ver para saber. A pessoa sensível pressente que a vida é o “mistério” que anima
a matéria, mas que não pode ser encontrada quando se disseca a matéria em sua
intimidade. Quem deseja deveria refletir de onde vem as tendências desejosas e quem
pensa deveria fazer investigação semelhante em relação ao pensamento. Desejo e
pensamento, qualidades materiais de outra natureza que não a física.
A visão, o sentido
predileto da atualidade, nos impede ver além das aparências. Mas veja você
mesmo então. Nascer arredondado, ver o corpo esticar e crescer, a seguir ficar
enrugado, pontudo e desvitalizado é percebido na superfície, mas que tipo de
forças determinam esse efeito sobre a matéria animada?
O suicídio espiritual não
é tão falado quanto o suicídio físico. Finge-se não ver, mas quem teria olhos
para isso não é mesmo?
A pessoa que vive em
espírito torna a vida material leve, torna-se
permeável à graça. A pessoa que vive para a matéria é cega à luz do
espírito e sua vida se torna opaca, escura, densa, azeda, cheia de reclamações
e emperrada. É aquela pessoa que não entende o porquê de certas situações (padrões)
se repetirem em sua vida. A graça, assim como a graxa, serve para lubrificar. A
primeira lubrifica as engrenagens da vida, a outra as engrenagens da matéria.
Em outras palavras, uma vida sem graça é uma vida sem graxa, assim como uma
vida sem graça é também sinônimo de desgraçada.
Para que a graça permeie o
corpo humano, o mesmo precisa estar poroso em todas as suas instâncias. Assim
como a obstrução dos poros da pele leva à morte rapidamente, a obstrução dos
poros dos corpos suprafísicos (corpo vital, corpo de desejos e mente) leva à
morte lenta. Essa morte lenta se apresenta aos olhos do observador como as
pessoas que apenas existem, à semelhança das pedras. Viver é atributo do reino
humano; fundamental para isso é a consciência dimensional adequada do que seja
SER HUMANO. A vida material, horizontal, cotidiana da família, do trabalho, da
política, da filosofia niilista, da diversão é apenas palco, sombra e
efemeridade. Sem a graça, a vida material culmina em cadeia, hospital, falta e
inconformidade. Mas cadeia, hospital, falta e inconformidade, lembremos, são
escolhas pessoais. Toda escolha, entretanto, é permitida a Fausto, em Goethe, ao se perder
para se encontrar.
Se afastar da graça (ser
desgraçado) por opção ou por ignorância é suicídio espiritual. O espiritual diz
respeito a tudo o que está além dos cinco sentidos. O interesse também é um
sentido que podemos vivenciar e experimentar. Mais interesse e menos
indiferença é alternativa válida na profilaxia do suicídio espiritual.
Tudo o que existe, o que é, e também tudo o que se crê existir
define um ente. Em outras palavras, somos entes na medida em que nos
emancipamos, nos individualizamos da massa amorfa, nos tornamos saudáveis,
enfim nos pertencemos.
Se por algum motivo nos afastamos desse estado fluídico do
ente, do ser, da saúde, alteramos nosso estado de pertencimento a um novo
estado que podemos denominar como ser possuído por. Quando me
torno possuído por, deixo de ser ente e passo a pertencer a alguma
entidade. Ou seja, me torno do ente; do ente que me possui. Nesse caso estou
doente, vivencio a doença, enquanto refém desse estado.
Ao procurarmos em outros idiomas, pois idiomas têm uma vida
interior, vamos encontrar semelhantes constatações em relação à doença. No
inglês uma possível tradução da palavra vontade é "will". O
processo de adoecer implica em perder o acesso ao livre exercício da vontade
(no inglês livre arbítrio = free will). Quando minha vontade não é suficiente
para que eu aja com liberdade eu me encontro doente (ill). Tornar-se
"ill" no inglês é tornar-se refém das circunstâncias e portanto do
ente ou da doença. Um "w" a menos e quanta diferença, não é mesmo?
(When I loose my will I get ill). Um "do" a mais e quanta diferença
faz!! (do-ente).
O convite atual proporcionado pelos meios de comunicação, pela
opinião pública e pelo senso comum, é um risco potencial à saúde. Radical? Não,
claro! Apenas lembremos que vivências dessa natureza deslocam a pessoa de si em
direção aos valores oferecidos a partir de convenções externas ao ser. É comum
que alguém seja constrangido em sua forma de ser, por uma forma de ser assumida
por um grande número de pessoas ou, ainda mais maquiavélico, por alguma
personalidade marcante com quem me identifico.
Nessa medida, a pessoa constrangida pode perder-se de si. Pode
momentaneamente deixar de pertencer-se e passar a responder a outros valores,
seja uma ideia, um sonho, uma ilusão ou mesmo algo que a desvia de seu
propósito ou princípio existencial. Esse tipo de perder-se equivale a tornar-se
doente, um estado de dependência de um modo operacional externo a seu ser.
Uma sociedade doente é toda aquela onde o individual é visto com
indiferença. Viver em uma sociedade doente significa esquecer de si e seus
propósitos existenciais, mergulhar na manada, na massa, na moda e na mídia.
Vejamos bem que somos livres para escolher esse caminho, mas a questão é
fazê-lo conscientes da existência de outra opção, e não como que forçados pela
ignorância de podermos optar! Posso ser materialista ou não, posso escolher.
Dar a César o que é de César. O que escolho determina o que sou e como
atuo no mundo.
As sociedades superorganizadas, plasmadas na competição,
pragmatismo e utilitarismo, enfrentam, a despeito de seu alto nível social e
cultural alguns efeitos colaterais desafiadores. Arriscando elencar alguns
encontramos: o suicídio em grande escala, o uso
indiscriminado de drogas alucinógenas legais ou ilegais, as doenças
cerebrovasculares (derrames cerebrais e enfartes), a dissolução da família
e a mercantilização do erotismo associada ao decorrente aumento nas estatísticas de abusos sexuais os mais diversos e perversos.
Para o materialista, o humano é o topo da cadeia evolutiva, não há
nenhuma forma de vida superior à forma humana. É uma escolha, portanto uma
escola e, portanto, uma parcialidade. Saúde é inteireza, doença é parcialidade.
Toda pessoa que adoece se transforma após o processo quando sobrevive. Que
possamos continuar a sobreviver até que possamos transcender o tempo e suas
intempéries. Transcender o tempo é entrar em paz. Estar em paz é estar inteiro
e, portanto, saudável. Para ser saudável é imprescindível a clareza conceitual
entre desejo, necessidade e vontade. Se tudo isso é a mesma
coisa para mim, sou sociopata, careço do discernimento fundamental
para o ser saudável.
Vivemos a idade mídia, momento delicado para os interessados em
aprofundamento, autoconhecimento e sentido. Essa escolha atual de
desfrontalização (deixar de usar os lobos frontais do cérebro - sede da razão e
do pensamento abstrato) não deve em absoluto ser vista de forma preconceituosa
ou pejorativa, mas de forma alguma deve passar despercebida ao humano em busca
da saúde. Isso pois, sentido existencial interior e saúde caminham de mãos
dadas.
Parte considerável dos alimentos disponíveis são inflamatórios e
parte considerável dos estímulos aos quais estamos submetidos são
desorganizadores mentais, não se excluem os noticiários! As doenças
crônicas como diabetes e hipertensão aliadas aos distúrbios do humor decorrem
em grande parte da forma insana como nos alimentamos na atualidade. Um processo
irreversível decorrente da péssima qualidade das escolhas que
fizemos em passado recente.
Por outro lado, sejamos otimistas, não sejamos preconceituosos,
experimentemos estabelecer uma relação viva com conceitos emancipadores. Não se
revolte, senão apenas volte a si e reconheça o porquê do ambiente à sua volta
ser como é. Reflexões simples, mas que nos esquivamos da responsabilidade
diariamente.
Diminuir o uso de antidepressivos, moduladores de humor, sedativos
do ser, talvez seja opção a ser considerada com certa urgência. Parar de
apontar fora e reconhecer dentro aquilo que cabe apenas a mim realizar.
Tornar-se pílula de saúde individual.
É possível ser saudável dentro dessa sociedade! Mas é preciso
atenção às fórmulas, respostas prontas e receitas, pois cada vida é única.
Não nos esqueçamos que o contrário de algo é a mesma coisa ao contrário e que
para que a integralidade seja alcançada, os opostos devem ser integrados em um
todo, ou seja compreendidos. Oposição é parcialidade, integração é saúde. Uma
sociedade partida é uma sociedade condenada, onde tudo o que muda visa
apenas fazer com que tudo permaneça como está!
O caminho para a vida saudável é o caminho das perguntas, das
possibilidades e raras vezes o das respostas e do tic-tac dos relógios. O poeta
cantou que temos nosso próprio tempo. Entrar em relação com este tempo interno
que é único para cada ser é primeiro passo solitário e certeiro para a
possibilidade da vida saudável.
Não é preciso ficar doente para habitar uma sociedade doente. A
pessoa com vida interior pode frequentar a sociedade e reconhecer seus
equívocos, pois pensa, tem membrana seletiva. A pessoa desfrontalizada responde
aos desafios sociais à semelhança dos animais na floresta. E tudo isso é muito
belo de se observar. Observar é um grande passo para o humano.
Observemos!
REFLEXÕES
NADA CIENTÍFICAS SOBRE HÁBITOS ALIMENTARES
Por: André Oliveira Guimarães Leite – Advogado da saúde - Email:
aogleite@gmail.com
Sentes cansaço? Tens bom apetite? Tens sono profundo? Tens
boa memória? Tens bom humor? Tens rapidez de raciocínio e de execução? Estas
seriam as seis condições enumeradas por Georges Ohsawa indicativas de boa saúde
e felicidade. Trata-se do autor de "Macrobiótica zen - arte do rejuvenescimento
e longevidade".
Esses questionamentos nos fazem refletir a respeito do que
é a felicidade e a saúde, e o que é preciso para alcançá-las. Com certeza, a
alimentação é um dos pilares para uma vida saudável, e, por consequência,
feliz.
Existem divergências, no entanto sobre o que é uma boa
alimentação. Além da qualidade do alimento, questões referentes à quantidade, à
forma de se alimentar e outros hábitos alimentares podem ser determinantes para
alcançar, preservar e promover a almejada saúde.
Cientistas realizaram um estudo com cobaias, separando-as
em dois grupos: um dos grupos era alimentado constantemente, com intervalos
nunca superiores a 10 horas, enquanto que o outro era submetido, diariamente, a
um intervalo de 13 horas entre alguma das refeições diárias. O resultado foi
surpreendente: a longevidade do segundo grupo foi consideravelmente maior que a
do primeiro.
Isso nos faz pensar a respeito das recentes orientações
nutricionais que recomendam a ingestão de alimentos a cada três horas... Para
muitos, trata-se de lobby criado por grandes empresas do ramo alimentício...
Há relatos de pessoas para quem a alimentação não seja
algo imprescindível. Isso mesmo, pessoas que poderiam "viver de luz"
ou se alimentar de prana.
Menos radical, todavia, conhecemos ou já ouvimos falar
sobre os benefícios que podem advir da prática de algum tipo de jejum. A
cultura oriental sempre nos ensinou que não devemos nos alimentar em excesso.
"Comer até estar 80% satisfeito" é uma das máximas desta cultura
milenar.
Segundo Mahatma Gandhi, "devemos mastigar as nossas
bebidas e beber os nossos alimentos".
Todas essas informações fazem-nos refletir se não há algum
grau de toxidade intrínseca em todo e qualquer alimento. Não só porque estão
impregnados de todo tipo de substância tóxica empregada na sua produção, mas
também em razão da própria constituição do alimento e os diversos quadros
de intolerância de cada organismo humano. Se pensarmos no atual estágio da
sociedade, na qual é comum que princípios éticos sucumbam frente às
exigências do capitalismo, mais razão se teria para perder o apetite.
Quem já não abusou daquela feijoada de sábado e depois
ficou horas em estado quase vegetativo? O nosso corpo reclama sempre que nos
alimentamos um pouco além da conta. Em sentido oposto, experimente fazer um
jejum de mingau de arroz durante um dia e verá que leveza sentirá em todo o seu
ser!
Em tempos de massificação da sociedade, o grande pecado
parece ser a padronização da alimentação. A industrialização alimentar e a vida
moderna retiraram do homem o "livre arbítrio" do que levar a boca...
Perdemos a capacidade de ouvir o nosso estômago, consumindo porcarias prontas,
sem qualquer relação com o que o nosso organismo anseia.
Hoje não temos mais tempo de sentir fome, aquele
sentimento saudável (claro, desde que voluntário). Fomos acostumados a nos pré-alimentar.
"Coma menino, senão você passará fome"... A lógica parece estar
invertida.
Alimentar-se bem, por vezes, pode significar não ingerir
qualquer alimento, permitindo que o nosso corpo se recupere e aproveite o
ventre livre para se alimentar de outro tipo de energia.
É importante manter viva a pergunta: você come para viver,
ou vive para comer?
O filósofo e pedagogo Ivan Illich é um humano
sabidão. Digo “é” pois a qualidade maior do ser e dos que são, é a eternidade.
Eternidade lá e aqui, lá fácil entender, mas aqui enquanto privilégio dos que
semearam a verdade trazida no coração desde lá longe no sem tempo até o momento
do nascimento no tempo aqui no planeta azul. Sabidona é uma pessoa que consegue
pensar soluções em meio a situações e ambientes inóspitos.
Por pensar inóspitos, Ivan nos convida à possibilidade de uma sociedade
em que a educação poderia acontecer sem escolas e a saúde sem hospitais.
Loucura? De forma alguma! Em obra extensa e de clareza admirável, o autor
aponta caminhos para a construção da inusitada proposta.
Os ministérios da educação e saúde podem e devem zelar para que obras de
pensadores sabidões e capazes de pensar o novo possam ser traduzidas com mais
brevidade, especialmente em países como o Brasil em que os orçamentos destinados
ao colegiado, grupo, ministério ou “patota da saúde” são mais rechonchudos
comparativamente aos demais ministérios.
Hermes e Asclépio com três de suas filhas e alguém que implora
Hermes é a divindade grega
relacionada ao comércio e seu
símbolo é o caduceu; Asclépio se correlaciona com a prática médica, sendo citado logo após Apolo no tradicional Juramento
de Hipócrates. Na figura acima, aparece acompanhado de três de suas filhas:
Higéia (higiene, limpeza e prevenção), Panacéia (a solução para todos os males,
a síntese da saúde) e Meditrina (longevidade). Iaso (recuperação da doença),
Agléia (Esplendor, Graça e Beleza) e Aceso (o processo da cura) também são suas
filhas, apesar de não retratadas aqui.
Toda exploração e aproximação
simbólica visam auxiliar o humano na lembrança de conceitos e saberes
predispostos à corrosão temporal e, portanto dos valores com os quais se
relacionam; no presente caso vem à tona a relação entre a arte e os aspectos
mercantis relacionados. Caro amigo, observe o olhar de Asclépio para Hermes
assim como a posição de súplica do homem na representação acima e compreenderá
a que me refiro.
A imagem grita o que palavras apenas balbuciam. Lembre-se ao saborear as belas
propagandas oferecidas na atualidade; as maiores mentiras são, geralmente,
contadas por personagens bem aparentados, em muitos casos contraexemplos práticos
das mensagens propagadas. Já se disse que a mentira repetida muitas vezes se
torna verdade; repitamos verdades apenas e que a inanição cumpra sua função com
o resto.
Ivan Illich
Illich, no contundente texto Medical
Nemesis, apresenta com lucidez ofuscante os tópicos que esclarecem a tensão
saúde-doença, assim como a cri$e de confiança que a medicina moderna atrave$$a.
Veja-se a situação recente dos hospitais da cidade maravilhosa neste início de 2016.
Lembremos conforme se repete aqui ad
nauseum que: cuidar da saúde é simples e barato, correr atrás da doença é
complexo e dispendioso.
A discussão sobre iatrogênese proposta por Ivan aponta o leigo e não o
médico como portador da chave para a solução dos problemas que ele designa como
“epidemia iatrogênica”. Emancipação requer vontade e para tal o pensar não pode
estar alienado ou anestesiado; a pessoa deve fazer algo para melhorar (ser
agente) e não esperar que o terapeuta faça algo por ela (ser paciente). Nas
palavras de Ivan em 2003 no Journal of Epidemiology & Community
Health :
“A saúde designa um
processo de adaptação. Não é resultado de instinto, mas de vida autônoma e
reação à realidade experimentada. Ela designa a habilidade de adaptação a
ambientes em mudança, de crescer e de envelhecer, de se curar quando lesado, de
sofrer e da expectativa pacífica da morte. A Saúde envolve o futuro também e inclui
portanto a angústia e os recursos internos para viver com ela.
A habilidade humana
em lidar com sua fragilidade, individualidade e capacidade de se relacionar de
forma autônoma é fundamental para sua saúde. Na medida em que a pessoa se torna
dependente na lida com sua intimidade ela renuncia à sua autonomia e sua saúde
declina. O milagre verdadeiro da medicina moderna é diabólico. Ele consiste em
fazer não apenas indivíduos, mas populações inteiras sobreviverem em
desumanamente baixos níveis de saúde pessoal. Apenas os operadores de sistemas
de saúde não sabem que a saúde diminui na mesma medida em que se oferecem mais
serviços de saúde, precisamente porque suas estratégias decorrem de sua
cegueira à inalienabilidade da saúde.
O nível da saúde
pública corresponde ao grau em que os meios e as responsabilidades na lida com
a doença estejam distribuídos entre a população total. Esta habilidade em lidar
pode ser aumentada, mas nunca trocada pela intervenção médica nas vidas das
pessoas ou das características higiênicas do ambiente. Aquela sociedade que
possa reduzir a intervenção profissional ao mínimo proverá as melhores
condições para a saúde. Quanto maior o potencial para a adaptação autônoma em
si, aos outros e ao ambiente, menos procedimentos para adaptação serão
necessários ou tolerados.”
Abaixo, um pouco mais do trabalho desse humano que até pouco esteve entre
nós: