Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

FINAL FELIZ E OUTROS FINAIS



No cinema, teatro e na vida as coisas podem ir bem ou não. Tem histórias que acabam bem e outras que não. Tem pessoas que são de bem e outras que não; não chegam a ser más, apenas não de bem. Não de bem com a vida.
Os amigos que gostam de filmes e peças com final feliz tendem à desconfiança, apreciam o controle e geralmente conhecem o medo. Julgam saber o que é certo ou errado com muita clareza. Chegam a ser quase preconceituosos. Não gostam do feio, evitam. De fato, o feio não faz parte da vida deles; como poderia? Vivem de aparências e de comparações. Afinal, se eu não me comparo com algo, como saber quem sou? Quem não tem dentro encontra suas referências fora. Vive no espelho, como a bruxa da branca de neve.
Alguém disse que o hábito faz o monge. Também o hábito da necessidade do final feliz ou conclusivo é determinante do perfil da pessoa. Após a descrição da anatomia neurológica dos neurônios em espelho, pessoalmente noto que isso é muito verdadeiro. Nos relacionamos empaticamente com aquilo com que nos alimentamos; nos tornamos nossos “alimentos”. O prisioneiro do final feliz precisa que alguém lhe mostre o sentido, explique o porquê das coisas. A pessoa final feliz está mais refém do mundo das informações que convencem em decorrência do sentido aparente. O economista Nassim Nicholas Taleb no clássico “A Lógica do Cisne Negro” esclarece com simplicidade o poder das notícias que explicam, que associam uma causa a um dado efeito, que induzem, enfim que tentam mostrar que tudo está sob controle porque tudo se explica e se justifica; inclusive o mercado financeiro. Claro o sentido é sempre desejável, desde que proposto, raramente quando imposto e se possível que seja composto entre as partes envolvidas.
O absurdo deve sempre ser considerado e computado enquanto possibilidade; tudo é possível, nos cabendo apenas considerar probabilidades. O pensador Guimarães Rosa tem histórias que mostram isso. Teria o jagunço Riobaldo considerado a possibilidade de Diadorim ser quem era?   
Os amigos que gostam de filmes com outros tipos de finais são diferentes. Diferentes de todos os outros. São únicos. Chegam a ser chatos de tão únicos. Se percebem tão bem a partir de dentro, pois têm vida interior, que parecem não se importar com o mundo exterior. Mas se importam sim; querem fazer diferença. Sabem que as coisas nem sempre acabam como gostariam e que o imprevisto e o inusitado são faces da felicidade nem sempre bem-vindos.
Gosto de todo tipo de final, mas também quando não termina. Quando não há final, então o caminho e a caminhada podem ser o próprio fim.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

SILÊNCIO E RUÍDO


O SILÊNCIO - ARNALDO ANTUNES
O vazio é condição que predispõe ao preenchimento acontecer. O vazio do copo, o vazio da janela, o vazio da porta, o vazio do vaso, o vazio do útero, o vazio onde o eixo da roda se encaixa, o vazio do sapato. O vazio é um espaço perigoso, pode-se cair nele, e viver é de fato muito perigoso.
Em minha infância se dizia: “Mente vazia oficina do Diabo”; um vazio onde até o Diabo poderia cair!? Curiosa associação essa do Diabo com a mente e de Deus com o coração. É como se Deus não pudesse ser sabido ou pensado, senão apenas recordado (cordis = coração). Parafraseando Agostinho de Hipona sobre o tempo: se me perguntam o que é Deus, eu não sei, se não me perguntam eu sei.
É pelo vazio das câmaras cardíacas que o sangue flui. Por outro lado, o cérebro utiliza muito fósforo na forma de ATP em seu metabolismo. Para quem não sabe, fósforo é uma palavra derivada do grego que no latim se torna lúcifer, ambas significando o portador da luz. Mesmo você que já sabe que cérebro e mente são coisas relacionadas, mas muito diferentes, vale pensar a respeito.
Posso ser livre de tudo o que tenho, mas posso ser escravo até do que não tenho. A liberdade é um conceito estranho. Por exemplo, sou livre para acreditar ou não em Deus. Na medida em que acredito, a liberdade de arbítrio se manifesta enquanto coopero com o “sistema de leis” divinas. Na medida em que não acredito a liberdade de arbítrio se manifesta enquanto compito com o “sistema de leis” da natureza. Simples assim, geotropismo x teotropismo. Em relação ao livre arbítrio, competir ou cooperar, escolher o mais sensato depende do estado em que me encontro, quanto eu acredito estar no controle da vida e no que escolho acreditar. Escolhas que não se excluem, senão se mesclam até que a unidade seja melhor compreendida por cada um de nós.
Meus espaços vazios são cavernas fechadas ou canais de passagem? Cavernas que portam luz ou canais que permitem que a luz circule? Em mim predomina o mental ou o cardíaco; o carnal ou o espiritual?
O silêncio é espaço onde tudo pode acontecer. É potencialidade. É campo de metamorfose. É onde o tu pode encontrar com o eu. Sem o silêncio, pouco é possível. Quem está cheio, precisa de um pouco de silêncio; espaço na alma para que alguém possa ser. Não é possível ser sem espaço, e o silêncio é espaço pleno. No silêncio eu me escuto; no silêncio sou escutado. O silêncio é solene e é só nele que o dentro e o fora podem estabelecer diálogo. O artista disse que o silêncio foi a primeira coisa que surgiu. Para recordarmos esse momento primordial, sejamos silentes.
A despeito disso, existe hoje guerra declarada ao silêncio. Máquinas de som e imagem insistem na inseminação ruidosa de nossos orifícios, em nossos ofícios. Nossos ossos pulsam com a gravidade da situação, com a gravidade dos baixos profundos, com a gravidade das gravatas e ainda com a gravidade da gravidez. Inseminados com o mesmo e variações do mesmo tema, papagaiamos o barulho pré-fabricado em nossas casas.
Ao impedir que a vontade alcance o silêncio, as irrelevâncias das informações cotidianas nos tornam dependentes de mais uma dose. Esse vício moderno que preenche os vazios, os tempos, os sentidos, me tira de mim. Me afasta a vontade e me entrega aos desejos. Vontades de ser escorregam em desejos de ter. Mas, sem o silêncio, sem esse espaço, o que ser senão o que se diz, o que me dizem, o que foi dito naquele programa?
Esse barulho que penetra a mente a partir dos tímpanos, que nos rouba a lembrança essencial, precisa ser encarado de frente. Desejo a você que ele ocorra antes e não depois que o tempo se recolha.

domingo, 9 de setembro de 2018

EU E TU III – A PIZZA DA CONSOLAÇÃO



            Noite fria, comendo pizza com amigos. Éramos três, papo bom, papo cabeça. Noite viva, noite feliz!
            Finda a pizza notei haviam sobrado dois pedaços! Com esse frio, talvez alguém na rua possa se beneficiar. Vou pedir para embrulhar. Que bom, não aprecio desperdício, vou otimizar.
            Já na rua, frio, bem frio, quase ninguém à vista. Será possível? Ninguém?
            Os amigos se afastaram, foram na frente conversando. Eu disse já vou, vão indo! Fiquei só, procurando.... Ninguém!! Espera! Tem alguém lá embaixo; rua da Consolação, frente ao cemitério, do outro lado da rua, do outro lado da vida; cachorro ao lado; revirando o lixo; pés descalços; roupa rasgada. Deve estar com fome. Eu, eu, eu, eu, esse cara que acha poder fazer diferença, que acha poder ajudar alguém, que acha que pode alguma coisa! Quanta pretensão.
            A vida é assim, surpreende onde se menos espera. E foi assim, me surpreendeu...
            – Moço, trouxe esse pedaço de pizza para você.
            Parou, soltou o lixo, me olhou, ainda de joelhos, e disse sereno:
– Não vai faltar para você?
Suficiente para gerar em mim a sensação de um raio atravessando as solas dos meus pés e arrepiar meus cabelos como se algo me puxasse forte em direção ao alto. O que acontecera?
No descuido de achar poder ser útil, ajudar, amaciar o próprio ego no calor da boa ação a quem não teria absolutamente como retribuir, fui desmascarado frente a Deus me transpassando no olhar e nas palavras de quem até então se manifestava aos olhos como um desgraçado.
Às vezes, sempre, só alguém profundamente desgraçado e amoroso para nos mostrar com tanta clareza o estado desgraçado que nos encontramos. Compreendemos a desgraça na medida em que a mesma nos assola. Entendo mal a desgraça, na medida em que a atitude do outro me consola. Ser assolado ou consolado, o que você preferiria nesse instante meu amigo?
Eu, naquele instante, Rua da Consolação, fui assolado pelo estado miserável em que me encontrava. Consolado na luz divina que se irradiara na experiência de comunhão com Deus de pés descalços no chão, ajoelhado e me perguntando: não vai faltar a você?
Claro que vai! Já faltou! Faltou o chão, faltou tato, faltou fôlego, mas antes de tudo faltou o mais importante; respeito. Respeito ao espaço alheio, respeito ao outro ser, respeito ao Tu que me referencia enquanto Eu. Enfim, me senti como talvez o político brasileiro, um ser repugnante; como talvez ainda a barata da metamorfose de Kafka. Sobre políticos, esclareço a propósito, com todo respeito, me refiro apenas aos eleitos; os candidatos pretendentes considero muito pudicos, ressalva seja feita! Pena nunca se elegerem. Coincidências mórbidas...
Amigo, acredite, não é fácil encontrar com a abundância na casa da penúria. O contrário é mais comum. O que acha?
Mas, não dava mais tempo, passado e futuro haviam colapsado e me algemado àquele momento de eternidade. Então aquilo era o presente?! Que presente!
O que acontecera, pensava enquanto voltava aos amigos de pizza. Milagre, mil lágrimas, era só o que me cabia. Sim, mais que isso talvez. Mas lágrimas de que? Alegria, vergonha? Não importa, senão que lavavam meu ser, tornando-o um pouco mais reverente ao outro, meu próximo. Meu próximo que julgo precisar de mim, mas sem o qual não sou ninguém, não tenho sentido.
As situações de êxtase são boas por isso, devolvem o sentido, organizam o sentir e orientam o perdido. E olha que meu sobrenome é Leme hein!?!
Lamentável Leme, você esqueceu! Esqueceu de pedir licença e perguntar se poderia oferecer algo a seu irmão, a seu igual, a seu maior! Sim, e o preço foi alto, altíssimo, levou um choque e recebeu em si instantaneamente todo o ser daquele que pensou pudesse ajudar. Foi ajudado! Ajudado a ser menos cego, pela luz invisível daquele que de nada carece pois está em paz. Que a paz esteja com você meu amigo desconhecido. Essa paz que é inteireza e que você me recordou com maestria.
Paz não é de fato ausência de guerra, senão inteireza em meio à guerra da vida que pode sim afetar nosso Ter, mas que não pode nada quanto ao Ser daquele que alcançou a compreensão do mistério sagrado do encontro do Eu com o Tu.
De fato, antes daquele, eu tinha passado por encontros mais adaptados a meu nível. Por exemplo aquele do cara ajoelhado no metrô com as mãos cheias de moedas e quando eu pus mais uma ele lançou tudo ao chão espalhando todas; e também aquele que para mim foi a cereja do bolo: o amigo que pedia no farol e que ao abaixar o vidro e lhe oferecer uma bala, me sugeriu que a colocasse entre as pernas na região terminal do intestino. Talvez não fossem essas as palavras, não me lembro bem, mas era algo assim.
Por essas e outras muitas que ainda se saberão é que aprendi a pedir licença e perguntar se posso ser útil de algum modo antes de achar que tenho a chave e a solução para o que o outro precisa.
E você amigo? Sabe do que seu próximo espera ou precisa de você?

domingo, 10 de dezembro de 2017

O PODER DOS MANTRAS – VIVER É COMUNICAR

Comunicar é parte essencial do viver. Essa ligação com o outro - por meio de uma vibração sonora, escrita ou mental - gera um intercâmbio que transcende as palavras e nos sensibiliza para um “mantra”, seja ele uma ideia, uma crença, um comportamento ou um sonho.
Cada um interioriza e irradia as informações que reverberam em seu íntimo e, dependendo do conteúdo, atrai alegria ou tristeza, saúde ou doença, união ou separação. Na visão de Michel Maffesoli (2003) a comunicação entre as pessoas é o cimento social, o que promove o religare (religação). Conhecido pela popularização do conceito de tribo urbana, o sociólogo francês afirma que só existimos de fato e nos compreendemos na relação com o outro, destacando a falta de sentido do individualismo.
O poder da palavra é evidenciado por Braden (2007) no livro “O Efeito Isaías”, segundo o qual cada ser humano cria seu código de conduta a partir das informações que recebe, fazendo escolhas a favor ou contra a vida. Assim, as enfermidades, por exemplo, podem derivar de escolhas e ações individuais e não apenas de causas exteriores. Percebe-se a partir dessas observações que o uso consciente das palavras é uma forma de resgatar a relação perdida consigo mesmo, com as outras pessoas e com o Universo. É a “linguagem que move montanhas”, segundo Braden.
Em seu cotidiano, observe que ao chegar de mau humor a um local, as outras pessoas não lhe parecerão bem também. Percepção que muda completamente a partir de atitude mais disponível e sorriso no rosto. E é isso mesmo: o corpo serve para compartilhar experiências individuais de raiva, ciúme e ódio, mas também de amor, compaixão e perdão.
Ainda segundo Braden (2007), há cerca de 500 anos antes de Cristo, na cultura essênia, já se dizia que tudo o que se pensa, fala ou faz constrói uma prece permanente, semelhante a um estado de constante oração.
De fato, cada um, nessa prece ativa dos “mantras” dominantes, projeta sua realidade e define a qualidade de seus relacionamentos e saúde, além da presença, ou não, de abundância na vida. Novamente, Jesus Cristo, segundo Mateus nos recorda isso ao dizer: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem”.
De acordo com a filosofia hermética, a realidade se compõe de vários "tecidos" que se interpenetram, qualificando um plano físico (território de estudo das ciências básicas convencionais) e vários planos suprafísicos (território de estudo das ciências ocultas tradicionais). Resumidamente, a região química do mundo físico é envolto e permeado pela região etérica, que por sua vez é envolvido e transpassado pela "matéria" da região do mundo do desejo, que é cercada e imersa na "matéria" da região do mundo do pensamento.
Nesse arcabouço, as afirmações manifestas, mental ou verbalmente, intencional ou inconscientemente, ganham força, especialmente quando aliadas a sentimentos ou emoções intensas, atraindo e sintonizando outras vibrações similares presentes na região etérica do mundo físico e nas regiões inferiores do mundo do desejo (Heindel, 1909).
Nas regiões inferiores desses mundos, se encontram vibrações destrutivas de medo, pobreza, doença, fracasso e miséria, assim como nas regiões superiores são encontradas vibrações construtivas de prosperidade, saúde, sucesso e felicidade (Hill, 2009).
Ao seguirmos essa linha de raciocínio fica claro que um pensamento “potencializado” pela emoção é semelhante a uma semente que, plantada em terra produtiva, brota e se multiplica em milhares da “mesma” espécie.  Um “poder” de criação incalculável ao considerarmos que a mente humana gera, em média, 60 mil pensamentos por dia (Byrne, 2015), sendo 60% a 70% deles negativos (Lucas, 2013).
O poder da palavra associada a emoções genuínas é genialmente ilustrado por Tolstói (2001) no conto “Os Três Eremitas”. Ele conta a história de um sacerdote que, em visita a uma ilha distante, decide ensinar como rezar a três eremitas que lá habitavam. Com suas crenças, ele se indigna com a forma simples dos eremitas pedirem a proteção divina: “Vós sois três. Nós somos três. Tenha piedade de nós”.
Em sua função pedagógica ele dedica um dia inteiro a ensinar o “Pai Nosso”. À noite, já se afastando em seu navio, o sacerdote é surpreendido por uma luz distante no horizonte. Ele percebe então os três eremitas correndo sobre as águas do mar rumo ao barco, em reverência e pesar, a lhe perguntar sobre uma parte esquecida do Pai Nosso. Diante de insólita situação, o sacerdote se rende à simplicidade da prece proferida por eles, com a pureza d’alma que os caracteriza (Tolstói, 2001).
De forma lúdica, o poder dos conteúdos veiculados foi explorado em filmes como “A Origem” (Inception), ficção científica onde ideias são inseridas na mente das pessoas por meio dos sonhos que se confundem com a realidade, e “Poder Além da Vida” (Peaceful Warrior), baseado em fatos reais onde um ginasta se recupera de grave lesão ao reverter sua forma de pensar por meio de “mantras” recebidos de um conselheiro (ou mestre interior).
Os dois filmes explicitam os efeitos danosos de temáticas negativas, nos âmbitos psicológico e emocional, assim como a possibilidade de alcançar o equilíbrio, saúde e sucesso a partir do uso consciente das palavras. Conteúdo semelhante é mostrado de forma jocosa na comédia “As Mil Palavras”, onde a vida do personagem central é condicionada ao número de palavras emitidas e à coerência de seu discurso com suas ações.

Assim, salta aos olhos o fato da qualidade de vida do ser humano guardar relação íntima com o pensar e o sentir. Amigo leitor como estão seus pensamentos e sentimentos, rendidos ao medo consequente ao viver de modo reprodutivo, ou imersos na coragem do viver produtivo?

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O PODER DOS MANTRAS - UM UNIVERSO MÂNTRICO


Dizem que, no início dos tempos, um mantra ecoou do hálito divino: o OM. Esse som primordial teve em si o poder de dar forma ao caos, permitindo a criação do mundo em suas diferentes dimensões e seres. Presente no Universo ainda hoje, ele simboliza o Ser Supremo e entoá-lo conduz a um estado de introversão e harmonia; libera energias letárgicas e pode levar ao contato com a Consciência Transcendental, DEUS.
A capacidade do Som de nos conectar com a essência divina é objeto de vários estudos esotéricos. É descrita, por exemplo, uma relação entre a nota tripla AUM e as diferentes dimensões do nosso corpo, e da nota espiritual OM com nossas aspirações mais elevadas. Segundo Anglada (Na obra: Magia Planetária Organizada), o OM é a expressão vibratória da Alma em seu próprio plano, enquanto AUM é a vibração da alma em encarnação (a personalidade) – sendo “A” expressão da mente, “U” do corpo de desejos (ou corpo astral) e “M” do corpo físico.
Em busca dessa conexão e do estado de lucidez decorrente, o OM e outros milhares de mantras sagrados são repetidos diariamente em várias linhagens religiosas nas diferentes partes do mundo. De forma similar, são empregados os vocábulos AMÉM e AMIN, que significam “Assim seja!”, como um pedido de intervenção divina na criação de algo benéfico. Também orações como a Ave-Maria e o Pai-Nosso são proferidas em busca desta confirmação e estado d’alma.
Mas, à semelhança do som repetitivo do Universo, tudo à nossa volta tem caráter mântrico, repetitivo, a começar pela batida do coração. Do nascimento à morte, imitamos o Universo e organizamos o caos interior, construindo realidades a partir de “mantras”. São decretos transmitidos pela família e pela sociedade de forma consciente ou inconsciente, e que indicam ou mesmo formatam silenciosamente a forma “adequada” de sentir, proceder e viver.

Estas frases dominantes ou palavras de ordem expressam ideias ou valores, mobilizam forças psíquicas e criam crenças e padrões de conduta. A cada segundo, constroem a identidade e o campo mental / energético / espiritual das pessoas, de comunidades e de nações. Seu poder de condicionamento independe da forma de transmissão, seja oral, escrita ou telepática, assim como do teor, positivo ou negativo. Esses verdadeiros “mantras” concretizam uma verdade universal trazida à luz por Cristo e expressa no evangelho de Mateus como: “Pedi, e vos será concedido” (Mateus 7:7).

terça-feira, 21 de março de 2017

SOBRE EDUCAÇÃO INFANTIL


Precisamos nos esmerar na educação infantil, assim em muito pouco tempo serão necessários menos hospitais, presídios, partidos e manicômios; quem sabe ainda no médio e longo prazo possamos abrir mão da classe política em favor de uma nova qualidade de seres, quiçá humanos!
As minorias, cuja expressão máxima hoje é representada pelos políticos, têm se apresentado como vítimas. Vítimas inimputáveis que disputam e computam o que podem a seu favor. É preciso rever o sentido da palavra preconceito e aplicá-la com propriedade onde ela sirva como prevenção do aleijão, seja ele moral, social, animal, carnaval, decimal ou débil mental.
Quatro breves histórias, em forma de animações, lembram parte importante da educação infantil primária para a saúde quanto aos quesitos:
Paciência e disciplina: https://youtu.be/Klx8UBMRrMA
Zelar, não matar o ideal na criança: https://vimeo.com/194276412

E você, acredita em educação infantil ou domesticação infantil?
As fragilidades psicológicas decorrentes da baixa qualidade da educação infantil podem ser contornadas com o auxílio da Arte. Alain de Botton e John Armstrong nos dão pistas sobre como isso poderia ser feito:


A arte é um corretivo da memória fraca, pois torna os frutos da experiência memoráveis e renováveis; a arte é um provedor de esperança, pois mantém à vista coisas alegres e agradáveis; a arte é uma fonte de dignidade para o sofrimento, pois nos lembra o lugar legítimo do sofrimento numa boa vida; a arte é um agente de equilíbrio, pois codifica com invulgar clareza a essência das nossas boas qualidades; a arte é um guia para o autoconhecimento, pois ajuda a identificar o que é central para nós, mas difícil de expressar em palavras; a arte é um guia para a ampliação da experiência, pois nos oferece alguns dos exemplos mais eloquentes das vozes de outras culturas; a arte é um instrumento de recuperação da sensibilidade, pois remove nossa casca e nos salva do habitual descaso pelo que há ao redor.

Quando vir alguém fazendo arte, não se altere, observe suas emoções, silencie para então alegrar-se!

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CRIATIVIDADE VI

POR: MÁRIO INGLESI
Continuação de:


Dr. Ricardo
Criar nos eleva ao reino dos Deuses e seu infinito, nos dando a tão desejada imortalidade.
Portanto, envidemos todas as nossas forças, no esforço comum de abrir nossa loja de curiosidades, no afã de marcar a magnificência de nossas vidas, eternizando com muitos e muitos traços de humanidade nossa passagem por esse planeta Terra, através da arte, cuja beleza cultiva e faz brilhar nossas mentes, no enfrentamento da realidade parca e mesquinha em que vivemos.
Eia, pois, a postos e avante: - se quiserem, lógico! - alçar essa benfazeja bandeira cujo lema que se cumpre concretizar ilimitadamente, é o da criação, em todas as suas vertentes e direções, para tornar – quem sabe, o mundo melhor e cada vez mais habitável, cercado de beleza infinda, mesmo quando trata de feiuras diversas, mas de espantosa grandiosidade para todos nós humanos, uma vez que se trata de nós para nós, em toda a sua plenitude, e sob os mais diversos ângulos, artísticos, antigos, contemporâneos, e ainda a advirem com o passar e espraiar do tempo, sobre nós e as gerações futuras.
Para tanto, é preciso lembrar que nós, indivíduos, somos irrepetíveis, a menos que num futuro – quem sabe -, sejamos clonados, o que, no momento à mesa, não se toca nesse assunto, tal o desconforto proibitivo.
Assim, nada melhor e mais indicado para firmarmos a nossa presença e, quiçá, a nossa eternidade terrena, do que deixar uma marca insólita e definitiva de nossa presença neste planeta, através de uma criação que nos faça merecedor, tal como, exemplar, a marca da Dra. Nise da Silveira, que rompeu os métodos com os quais os esquizofrênicos eram expostos e tratados, através, - imaginem! do emprego adjutório de alguns cavaletes e tubos de tinta e pincéis.
Afinal, talvez como ela, sua vontade e perspicácia, tivesse tido, em última instância sob alerta contumaz a primeira estrofe do poema “A morte a cavalo”, De Drummond:
 “A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando”

Ela, como tantos e tantos outros, não se abalou com tal provocação, seus intentos eram inabaláveis e profundos, não se deixou se imiscuir por medos, frustrações e, com isso, enclausurar-se em si mesma. Pelo contrário, procurou, sem dúvida, aplacar o galopar desenfreado da praga da morte, para num ato de amor, confiança e desprendimento, impregnar-se de trabalho árduo, fruto de perseverança e muito estudo, para alçar seus voos de proficiência, sem dar azo a qualquer pretensão de obter valorização, ganhar dinheiro ou alçar-se ao panteão da glória com o atendimento das regras mercadológicas.
O que pretendeu – sirva-se de exemplo – foi apenas dar vazão aos seus sonhos, empreender voos, até então, inatingíveis, e com tudo isso, aliada à perseverança e objetivos certeiros, procriar abertura de novas frentes para o alçar humano, de seus males, os mais profundos, como todo bom e digno criador, sempre deve fazê-lo através da criação, da beleza de novas formas e de novos alentos em favor de um renascer humano sempre mais digno e consciente.
Esse impulso criador, no homem, prende-se talvez à vontade de poder eternizar-se, aqui na terra, driblando a morte, através da superação dos seus valores negativos, fincando neste planeta, a marca registrada de sua humanidade, reinventando a si e a sua existência, em toda a sua plenitude.
Caso isso não se fizer, recorra a Pedro Nava, (05,06.1903- 13.05- 1984) e peça, em sua condição de “Defunto”:
“Meus amigos, tenham pena - senão do morto – ao menos dos dois sapatos do morto. Olhem bem para eles. E para os vossos também!”

“Dá pena, mas dá raiva também!” Criar e tecer toda uma elegia amorosa, erótica mitológica como a “Elegia: indo para o leito” de John Donne, (1572-1631), na versão do poeta Augusto de Campos:

“Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo”: hora da cama”

E poder clamar, como no poema amantíssimo “Serei Árvore”, do poeta húngaro Sándor Petofi (1823-1849):

“Se, querida, tu és o paraíso,
Em estrela hei de me transformar,
Se querida, tu és o inferno,
Para nos unirmos, eu me danarei.”

Ah, caros e ilustres criaturas/criadores, realmente criar – ah criar! - é alçar-nos as alturas, usar de toda a liberdade de pensar e de se expressar, é, sonhar, elevar-se aos céus, enfim, é , tudo isso, de per si ou não, sem tirar os pés da Terra e nela eternizar-se, com suas obras, cujo deslumbre e usufruto, por nós outros - pobres mortais, - nos faz viver, sobreviver de maneira sobremodo condigna e prazerosa, inclusive no enfrentamento dos azares desse mundo insano.
Essa situação decorre da invocação de adjetivos que derivam do maravilhoso ainda que haja muitas vezes, um certo estranhamento, em razão do inusitado das obras, cuja contemplação atinge graus de maravilhoso encantamento, sob o olhar de penetrante argúcia e reflexão, na construção do verdadeiro e único “Éden Terrestre, onde a inteligência se alia a fatores dos mais diversos na construção da ciência e da arte, ou na sua conjunção de ambas, no ato criador e sua realização, em prol do ser humano e seu status Terreno.
No que se refere especificamente ao Brasil, o ato criador, desmistifica e, possivelmente, exorciza a visão de exotismo, de pré-conceitos que envolvem o nosso fazer, perfilando, isto sim, um desafio que nos acompanha como povo das Américas, num caldeirão alquímico de influências, mas com a conotação sempre presente da identidade e individualidade do autor da sua língua e do seu lugar de origem. Isto, porque tal ato está subjugado nas entranhas do século, em suas mazelas e na sua face horrendamente doentia da sua realidade, ainda que sinais de entretenimento, beleza e de pertencer ao mundo – vasto mundo - possam aflorar para melhor definir todo arcabouço labiríntico do ato criativo e sua apresentação ou representação.
No intuito de se lhes oferecer exemplificação, basta vagar no ato criador de Machado de Assis (21.6.1839-29.9.1908)- sobre o “amor” que transcende a própria morte:

“Querida! Aos pés do leito derradeiro,
em que descansas dessa longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração do companheiro
Machado de Assis, em seu poema “Carolina,”

Bem, assim, a criação crepuscular, de profunda reflexão, alicerçada por Guimarães Rosa (27.06.1908-19.11.1967) sobre a vida e seu correr:

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem…”

E, para findar esse vagar, de divagações sobre o mesmo tema, as palavras doces e ternas do poeta Vinícius de Moraes (1913-1989) in “Do Amor à Pátria”:
“São doces os caminhos que levam de volta à pátria. Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a outra mais íntima, pacífica e habitual – em cuja terra se comeu em criança, onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde cresceu em sofrimentos e esperanças planando canções, amores e filhos ao sabor das estações”.

Não sem antes, tomar a liberdade de acrescentar, ainda, um fragmento do poema “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”, de Carlos Drummond de Andrade, para ainda ilustrar o ato criador e seu poder de reflexão e beleza:
“Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e fúria
dos ditadores,
ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham
numa estrada de pó e esperança”

De tudo que foi aqui exposto, ficaram de fora, toda uma criação, cuja beleza e atrevimento, exposição de sentimentos e adequação a um viver mais equânime de felicidade e bom senso, pois, o ser humano em sua diversidade de criação, desde os tempos mais remotos, não se fez de rogado em promover, desde, que em ereção seus pés se fincaram no planeta terra, e suas mãos começaram a moldar objetos, a partir do cinzel como uma árvore em florescência, toda a sua gama de sua infinita criatividade floresceu, se expandiu e sofisticou-se, em escolas que, pelo mundo da arte houveram por bem diagnosticar, em profusão com nomes os mais diversificados tendo por finalidade, diagnosticar períodos, caraterísticas, formas, e conteúdos, sempre com o fito maior de enfatizar suas raízes e métodos e, engrandecer com loas, críticas, e ensaios, os autores e suas obras., fazendo-os explicar e entender a si e aos outros em seus sentidos mais amplos e profundos de humanidade, extensiva e reflexiva, não como uma imagem enganosa do espelho, e, muito menos como um “Prometeu” moderno acorrentado, mas como imagem, verdadeira, talvez até cruel do que somos ou nos apresentamos, na obscuridade de nosso íntimo, - consciente e inconsciente -, quando nos travestimos, por exemplo, de “Medéia”, ao nos depararmos com problemas mais profundos e árduos do nosso universo pessoal ou social.
Enfim, para se criar não é preciso hora marcada, nem dia certo, mas, isto sim, vontade, e trabalho, muito trabalho, aliado obviamente à perseverança e insistência no que realmente quer produzir, sem objetivos outros que não sejam produzir, elevando-se com isso à categoria pura e simples de autor, sem priorizar antecipadamente, reconhecimento, notoriedade, ganhos de fortunas e comercialização imediata, pois tal atitude lhe retirará, de imediato a aura de criador-artista, restando à obra apenas o olhar fortuito de amigos e conhecidos, porém isento de qualquer ato reflexivo, de estranhamento, de encantamento, ou de beleza, ainda que imediatista, retirando, portanto, da obra, seu valor intrínseco de arte e do autor o cognome de “artista”.
No tecer dessa imensa rede que envolve a criação e seu criador, o homem alçou-se a alturas inimagináveis de sonhos realizados e ainda, a realizar em futuros próximos ou distantes, dando assim asas a sua imaginação com inteligência, conhecimento e compreensão de si e do social, em prol de uma vida saudável, mais aprazível, com vias mais fáceis de poder transitar em seu dia a dia, no trato diário de seus afazeres e trabalhos, procrastinando os azares que seus males íntimos venham à tona em detrimento de si e dos outros.
Em tudo aqui exposto, está implícito, sem nenhum favor ou pena, gente que vive “nos atalhos esquisitos e estreitos e escamosos do roçado do Bom Deus”: gente das “quebradas do mundaréu” como dizia o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999), pois – quer queiramos ou não - eles se apresentam como o carro chefe , ou seja, o motor da história.

Mário Inglesi

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O HOMEM ESTÁ NA CIDADE COMO UMA COISA...

Pelo neoconcretista Ferreira Gullar

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra coisa:
o homem, por exemplo, não está na cidade
como uma árvore está

em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
O homem não está na cidade
como uma árvore está num livro
quando um vento ali a folheia

a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que uma pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que uma pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo

a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa

cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma

a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas


quarta-feira, 11 de maio de 2016

SOBRE A MORTE E O MORRER

Por: Rubem Alves



Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “não chore, que eu vou te abraçar...” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: “E fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas pobres humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida seja só isto...”.
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”.
Mas tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados em meu corpo, contra a minha vontade, já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.
Outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama – de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir o seu dever; debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida“ é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano?
O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo o paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000 desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe das UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietá” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.



segunda-feira, 9 de maio de 2016

O MÉTODO CIENTÍFICO DE GOETHE III

Por: Clara Oliva Antoniazzi - clara.antoniazzi@gmail.com / http://sejamosseres.blogspot.com.br
Continuação de:


Nigel Hoffmann descreve a metodologia de Goethe por meio de quatro estágios e quatro modos de conhecimento, conectando-os com os elementos míticos: Terra, Água, Ar e Fogo. Hoffmann explica que na imaginação mítica humana a fusão dos quatro Elementos formaria a Unidade da Vida, a anima mundi, e que o mesmo é verdadeiro para a mente humana. Ele continua sua explicação dizendo que ‘a sabedoria antiga entende que a anima mundi se diferencia nas formas de todas as coisas mesmo enquanto permanece una e mesma’ através do poder criativo arquetípico dos Elementos (Hoffmann, 2007: 22). Em outras palavras, na sabedoria antiga os Elementos eram considerados o poder divino, o qual formaria a Totalidade da Vida, que por sua vez se diferenciaria em formas particulares de vida através dos Elementos. Goethe percebeu essa multiplicidade na unidade estudando o crescimento das plantas, quando descobriu que todos os órgãos de uma planta são na verdade diferenciações de um mesmo órgão. Pode-se achar mais detalhes sobre esse tema no livro “The Metamorphosis of Plants” (A Metamorfose das Plantas). Os estágios da metodologia de Goethe introduzidos por Nigel Hoffmann são baseados no processo de pesquisa goethiana de Rudolf Steiner. Steiner associava os Elementos com modos de conhecimento: Terra seria o pensamento físico; Água a imaginação; Ar a inspiração; e Fogo a intuição.
O primeiro estágio descrito por Hoffmann é o conhecimento terrestre, o pensamento físico, onde o objeto estudado será abordado de maneira puramente logica teórica. Nesse estágio o objeto é separado em partes que podem ser contadas, medidas e pesadas; o fenômeno é abordado de maneira reducionista, mecanicista usando lógica de causa e efeito, procurando detalhes, aprofundando-se cada vez mais nas partes. Essa abordagem busca leis, teorias, explicações. O perigo é ficar preso neste estágio, acreditando que é o suficiente para entender o fenômeno por completo. Isso é exatamente o que acontece na ciência convencional, a qual acredita que subjetividade, considerando seus aspectos qualitativos, não pode ser usada para provar nada na ciência. A ciência está viciada no modo mecanicista de conhecimento, vendo-o como o único meio de provar hipóteses. O problema é que esse estágio não pode pensar o crescimento; ele não pode ver o processo dinâmico de vida, o vir a ser do fenômeno. É aqui que o próximo estágio entra em ação.
O conhecimento aquoso ou imaginação é o que pode entender crescimento, evolução, transformação. Esse modo de conhecimento flui como água em direção ao fenômeno permitindo que ele venha a ser na imaginação do observador; ele molda o fenômeno e dissolve-o em um movimento vai-e-vem. “No pensamento Água aprendemos a ‘habitar’ imaginativamente a forma de seres vivos com um pensamento que participa ao invés de permanecer como um observador externo” (Hoffmann, 2007: 39). Nesse estágio o observador começa a se relacionar com o fenômeno, a entendê-lo em um nível pessoal. Goethe chamava esse estágio de ‘imaginação sensorial exata’. Essa etapa une todas as partes que foram identificadas no primeiro momento conduzindo para em entendimento do processo dos fenômenos, permitindo-nos aprofundar neles, pensar a dinâmica, o movimento deles. O conhecimento aquoso traz à tona a possibilidade de ‘pensar com nossos sentimentos’, não sentimentos emocionais, mas sentimentos como um meio cognitivo. Esse modo imaginativo de cognição tem seus limites assim como o conhecimento terrestre. Ele entende o organismo estudado como puro movimento formativo. Mas organismos são mais do que apenas plasticidades, do que movimento formativo; ‘dentro de cada movimento formativo na natureza existe um gesto definido’. O pensamento precisa expandir o nível do movimento formativo para ‘uma esfera mais ideal ou supersensível’ (Hoffmann, 2007: 43).
O terceiro estágio, conhecimento aéreo ou inspiração, é onde se pode encontrar significado através de uma forma material permitindo que os outros dois estágios, terrestre e aquoso, se tornem transparentes de forma que seus caráteres essenciais se desdobrem para o entendimento de alguém. Deve-se estar em um estado mental receptivo, nem passivo e nem ativo, mas pronto e aberto para que o significado se apresente. Nas palavras de Henri Bortoft: ‘quando a vontade se torna receptiva, então a consciência torna-se participativa. [...] Consciência participativa significa participação consciente nos fenômenos’ (Bortoft, 1996: 242). Portanto, o estágio de inspiração é onde permitimos que nosso entendimento artístico capte o significado dos fenômenos, deslocando do movimento formativo para o gestual dinâmico, que significa movimento que expressa uma ideia ou significado. Por artístico quero dizer a habilidade de usar criatividade como um meio de conhecimento ou como um meio de expressar a compreensão. Nesse estágio estamos além da ciência convencional, o empirismo científico e a lógica; aqui juntamos arte e ciência, fundindo essas duas maravilhosas esferas de conhecimento a fim de ter uma apreensão mais detalhada dos fenômenos. Mas o conhecimento aéreo ainda é limitado para a experiência do fenômeno como algo além de nós; está tão perto de se tornar uma experiência de ser uno com o fenômeno, entendendo-o verdadeiramente através do que Goethe chamou de fenômeno arquetípico. Nesse ponto adentramos o conhecimento ígneo, do fogo.
O último estágio, conhecimento ígneo ou intuição, é quando o conhecimento do observador torna-se expressão criativa, a qual irá conduzir para a compreensão da essência dos fenômenos, para o impulso criativo existente nos fenômenos. ‘Quando percebemos o organismo com “o olho do espírito” (pensamento Fogo), estamos experienciando na verdade [a] atividade de formação como auto-brilhante, verdade espiritual autogerada, um impulso criativo surgindo de nada mais que ele mesmo’ (Hoffman, 2007: 58). Nesse estágio estamos ‘pensando com nossa vontade’ acordando ‘uma capacidade da alma humana comensurada com o impulso criativo da ideia viva na natureza’ (Hoffman, 2007: 60). Aqui nos tornamos ativamente criativos, nos tornamos um com o fenômeno por captar seu core de vida, seu impulso de formação, seu vir a ser, sua atividade criativa, e expressando-o através de uma autêntica ‘linguagem criativa’. Nesse ponto é possível encontrar o fenômeno arquetípico.
Recapitulando: a jornada através dos quatro modos de conhecimento da metodologia goethiana explicados por Hoffman começou no conhecimento terrestre ou pensamento físico, onde se trabalha com observação clara e mente racional exata, o que torna essa abordagem científica e não mística. Essa lógica puramente mecânica, empirismo exato, flui para o conhecimento aquoso ou imaginação, um pensamento escultural que nos permite ver o crescimento, movimento formativo. Aqui adentramos em um modo de conhecimento mais artístico onde escutamos nossos sentimentos. Então permitimos que o movimento, o crescimento nos mostre seu gestual; começamos a ver a expressão do fenômeno através do conhecimento aéreo ou inspiração, ainda conscientes dos nossos sentimentos. De repente, nos percebemos expressando o impulso criativo da forma, o fenômeno arquetípico, como se fossemos o fenômeno e o fenômeno fosse nós, nos encontramos em uma experiência de totalidade, nos tornamos um com o fenômeno através do conhecimento ígneo ou intuição.
Um modo que encontrei para aprofundar meu conhecimento sobre a ciência de Goethe foi participar de uma investigação cooperativa baseada em sua metodologia – que será explicada em mais detalhes no próximo capítulo – sem mencionar minha visita e trabalho voluntário em Pishwanton Woods na Escócia, um projeto da expert em ciência goethiana Margaret Colqhoun. Nos próximos dois capítulos é possível encontrar um vislumbre dessas duas experiências enriquecedoras. Eu digo um vislumbre porque palavras não podem definir o quão poderoso e satisfatório foi estar imersa nesses oceanos de conhecimento, além de vivenciar lugares e paisagens surpreendentes.

REFERÊNCIAS
Bortoft, H. (1996) The Wholeness of Nature: Goethe’s Way of Science. Edinburgh: Floris Books.
Goethe, J. W. (1996) Goethe on Science: An Anthology of Goethe’s Scientific Writings. Selected and introduced by Naydler, J. Edinburgh: Floris Books.
Goethe, J. W. (2009) The Metamorphosis of Plants. Introduction by Miller, G. L. London: The MIT Press.
Hoffmann, N. (2007) Goethe’s Science of Living Forms: The artistic Stages. Hillsdale: Adonis Press.
Miller, D. (1995) Introduction – page xi to xxi - Goethe The Collected Works: Scientific Studies. New Jersey: Princeton University Press.
Miller, G. L. (2009) Introduction – page xv to xxx – The Metamorphosis of Plants by Goethe, J. W. London: The MIT Press.
Naydler, J. (1996) Chapter 1: The Human Being is the most Exact Instrument – page 27 to 35. Goethe on Science: An Anthology of Goethe’s Scientific Writings. Edinburgh: Floris Books.

Seamon, D. (1998) Goethe, Nature and phenomenology – page 1 to 14. Goethe’s Way of Science: A Phenomenology of Nature. Edited by Seamon, D. and Zajonc, A. Albany: State University of New York Press.