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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

SENTIDO DE VIDA - ASTROLOGIA

2021

Veja: Por que os médicos deveriam se interessar por astrologia?

            O medo é séria ameaça ao desenvolvimento espiritual e arqui-inimigo do progresso evolutivo, pois congela a atuação e limita a liberdade. A coragem é uma fundamental a ser cultivada. Mesmo no engano e no erro aprendemos; aprendemos como não fazer e como melhorar. Erros são a matéria prima para a mudança, são as experiências que no ensinam a fazer o certo.

            Nosso trabalho no mundo não deve ser negligenciado em hipótese alguma. Estamos aqui para realizar certas tarefas e aprender por meio delas. Depois de atender a esses deveres, vejamos se ainda nos sobra algum tempo para aplicar ao autodesenvolvimento. É tão importante usar acertadamente esse tempo, como cumprir os deveres terrenos para com a família e obrigações sociais.

            Já refletiu por que Cristo sugeriu que deveríamos curar os enfermos? Uma das razões é que aliviado de um sofrimento a fé aumenta e melhora as condições para sanar a alma. Quando alcançarmos a elevada estatura de Cristo e pudermos ver simultaneamente passado e futuro, compreenderemos as causas das crises e doenças e não precisaremos de ajuda para diagnosticar e medicar. Até que esse dia seja, devemos usar as muletas que temos, e uma delas é a astrologia.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

PARUSIA, DEPOIS DA PÁSCOA

Mais sobre páscoa no link: Páscoa, cordeiro ou coelho?


        A semana da Páscoa Cristã é a celebração do derramamento do sangue de Jesus Cristo na Terra e sua ressurreição. Como se sabe, o sangue é o veículo do Espírito e por meio do sangue derramado na cruz a Terra recebeu em seu interior o Espírito de Cristo que desde então sustenta o planeta até onde a vista não alcança.
Na tradição Cristã, a Parusia é o nome dado à segunda vinda de Cristo. As linhagens exotéricas devocionais (filhos da água) celebram esse mistério na comunhão do rito sagrado na missa; de maneira complementar, as linhagens esotéricas ocultistas (filhos do fogo) compreendem que esse mistério pode ser vivenciado por cada um que se desenvolveu em seus corpos sutis ao ponto da possibilidade de uma vivência pessoal com o Cristo ressurreto. Isso é possível a partir do desenvolvimento do corpo etérico ou vital, o primeiro corpo transcendente acima do corpo físico.
A respeito desse corpo, Rudolf Steiner, Max Heindel e Corine Helline escreveram obra considerável, assim como exercitá-lo com base no desenvolvimento do caráter e da excelência silenciosa do viver saudável.
Na tradição bíblica, a experiência de Paulo em Damasco é ilustrativa desse encontro suprassensível em Cristo. Paulo designa esse corpo em suas cartas na bíblia como corpo alma (soma psuchicon – I Cor. 15:44).
Sobre isso tudo, e enquanto trabalhamos diligentemente sobre nossos veículos, uma poesia de um amigo, o Pompeu Salgado, que já esteve entre nós aqui pela Terra:
Nascimento de Cristo em Cada Homem
Cristo está em cada homem,
Fraquinho, pois eles não se movem.
Para isso a espiritualidade devem percorrer,
Mesmo com perigos a correr.

Vamos nossos erros lamentar,
De arrependimento chorar,
Após isso a Deus orar.

Dessa forma Cristo renascerá
Dentro de cada um de nós.
Insistindo nisso, Ele mais crescerá.

Boa Parusia a todos!!


ATEÍSMO AUTOTEÍSMO E TEÍSMO

“Deus não joga dados” – Afirmação de A. Einstein – Físico
“Não deve ser tarefa nossa prescrever a Deus como Ele deve reger o mundo”
Resposta de N. Bohr – Físico (Do livro “A Parte e o Todo” de Heisenberg)
           
Dentre os movimentos ateístas, mais chamam atenção aqueles em que o homem é chamado ao auto-aperfeiçoamento, como ápice da cadeia evolutiva, sem a necessidade de abertura ou reverência a estados superiores ao humano, enquanto divindades. Grosso modo, caminhos reencarnacionistas em direção à “iluminação” e à cessação do ciclo de nascimento e morte. É possível concebermos, em teoria, movimentos ascensionais e movimentos descensionais, o que clareia, apesar de alguma relatividade, os estados de elevação do humano (despertar) e de descida do divino (mergulhar).
É suicídio mental espiritual ou aleijão e caolhice se afastar da tensão paradoxal da complementaridade. As tensões do tipo Confúcio – Lao Tsé, Aristóteles – Platão, Aquino – Agostinho, Averróis – Avicena, permeiam a história humana como ioiô.


Assim, se mostra curioso o movimento dos cientistas que partem do pressuposto básico da inexistência de Deus! Fundamental notar que esta negação se baseia numa certeza, uma forma de fé radical, uma fé no nada, ou de que nada existe além do que os cinco sentidos permitem. Se meu pressuposto é a negação, afirmo que sou o próprio Arquiteto. Forma discreta e elegante do culto materialista.
     Ney Matogrosso oferece solução a essa tensão característica da insustentável leveza do ser em sua música "Balada do Louco"

“Eu juro que é melhor não ser o normal. Se posso pensar que Deus sou eu.”

Mas haveria espaço para todas essas posturas sem que uma estivesse correta e a outra equivocada? Acredito que sim e que todos estejam igualmente certos em suas observações e conclusões. Existe uma ideia corrente de que a própria consciência de cada ser humano, de algum modo, determina sua realidade. O mundo e a realidade de cada pessoa respondem a estas convicções pessoais, levando-as cada vez mais a concretizá-las em sua forma de viver e escolher. Estou afirmando que a história de cada pessoa responde ao modo como ela constitui seu universo e percepções – negar possibilidades é bloquear certas vivências; permiti-las é estar aberto ao novo. Desse modo, alguém cujas convicções se baseiam na materialidade e no vazio pré e pós-existência corpórea, assim é para ele e assim será. Não apenas como modelo abstrato e argumento para discussões, mas como fato real de como sua história se desdobrará.
Realmente um olhar atento descobrirá existirem fortes evidências de que construímos o mundo com base em nossas ideias, sendo este o grande dilema do livre arbítrio da vontade. O livre arbítrio da vontade é uma ferramenta mestra. Pensar o mundo como algo formatado em que todos os seres e consciências simplesmente respondem às leis naturais é limitar o conceito livre-arbítrio. Afinal, como concluímos que as próprias leis não estejam em processo pessoal de evolução?


Sheldrake nos convida a reflexões dessa natureza de forma elegante na obra “Ciência sem Dogmas”, entre outras. Quando sua vida estiver equilibrada, procure pensar a esse respeito. Caso sua vida esteja constantemente desequilibrada, procure pensar a esse respeito também...

“Como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo fazei a eles.”
Lucas 6:31


quinta-feira, 8 de maio de 2014

TEO-TROPISMO - SAÚDE AVANÇADA

       Mineral, Vegetal, Animal, Humano;

      Magnetismo, Heliotropismo, Geotropismo, Teotropismo...

      Coincidência, Consciência ou Consequência linguística?

      Em português, todas as letras da palavra Deus estão em Saúde!

      Saúde é vida é sentido é luz. Luz visível aos olhos ou ao coração...


POR HUBERTO ROHDEN - PROFESSOR E PENSADOR BRASILEIRO 


É este o inexplicável mistério de todas as coisas creadas:

Quando as procuramos – fogem de nós...

Quando as agarramos – diluem-se em nossas mãos...

Quando lhes saboreamos a natural doçura – enchem-nos a boca de fel...

Quando delas enchemos a nossa vida – abrem dentro de nós o vácuo do deserto...

Mas, quando nos desapegamos das creaturas e vamos em demanda do Creador – elas correm em nosso encalço, prendem-se a nós e conosco querem ir para Deus.

Pois, como, sem nós, só podem atingir parcialmente o seu fim, conosco e por nós o querem alcançar plenamente.

É este o estranho teo-tropismo de todas as coisas da terra:

Desconfiam do homem que as procura e delas se enamora – e tem confiança no homem que delas se afasta por amor a Deus.

Para fugir das creaturas não é necessário submergir na solidão do deserto – basta, e é necessário, desprender delas o coração.

Crear na alma um ambiente de serena neutralidade, de perfeita libertação.

Pode o homem se escravo daquilo que não possui – e pode ser livre daquilo que possui.

Não há mal em possuir – todo o mal está em ser possuído.

É triste a condição do homem que, em vez de possuir as creaturas, é delas possuído ou possesso...

É razoável a atitude do homem que se despossui das creaturas para não ser por elas possuído.

É sublime a liberdade do homem que sabe possuir as creaturas sem ser por

elas possuído.

Herodes não possuía – era possuído.

João Batista não possuía nem era possuído.

Jesus Cristo podia possuir sem ser possuído.

O homem perfeito, o gênio da espiritualidade, depois de se desfazer das creaturas que o escravizaram, pode a elas tornar, sem perigo de cair vítima de sua tirania.

“Tendo tudo – sem possuir nada” (São Paulo).

Contempla todas as coisas da sua perspectiva superior, aureolado da luz divina, imerso na atmosfera da sua grande liberdade interior...

À luz dessa gloriosa liberdade dos filhos de Deus, falava um dos espíritos mais livres do mundo com o “irmão lobo”, com a “irmã cotovia” e entoava o “cântico do sol”, até da “irmã morte”, sintonizando a mais intensa onda poética com a mais sublime onda religiosa.

Para ele, religião era poesia – e poesia era religião.

Ao som da sua grande liberdade interior, celebrava Francisco as núpcias do Evangelho e da Natureza...

Diluía-se o heliotropismo de sua alma sedenta de Beleza no teo-tropismo de seu espírito faminto de Verdade...

E reconquistou o paraíso perdido.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

PÁSCOA – CORDEIRO OU COELHO?

Veja também: Páscoa - um pouco mais...


Experimente escutar o Agnus Dei de Barber enquanto lê o texto...

Culminância e profundeza, alegria e mistério, seiva e sangue permeiam a memória do planeta, que desde seus primórdios celebra o momento presente enquanto símbolo maior da vida. A Páscoa fundamenta tema de rara complexidade e limitado alcance ao humano, fadado à parcialidade por melhor que seja a intenção. Este passeio denota uma possibilidade, ainda que limitada, de contemplar o mistério vivo e seu correlato: o ministério da vida.

Como tudo o que a vida toca, o símbolo se transforma, e ainda que a visão não seja plena, sejamos reverentes às faces que se nos apresentam, pois que talvez se trate apenas de parte. De fato, mais que o símbolo, é o olhar que se transforma, passando a ver o que sempre esteve ali com outra veste. Na antiguidade, Vesta (Vesta – romana; Héstia – grega) portava e preservava o fogo sagrado, símbolo maior da vida.

Fora primavera e equinócio que fundamentasse a força da terra que germina; fora o sangue do cordeiro que sinalizasse à passagem do anjo da morte preservando os primogênitos antes da fuga do Egito; fora o sangue do cordeiro (áries) que tenha se manifesto a partir das águas do caos (peixes); fora o humano que compreendeu que a Vida é mais e A escolheu, que a essência luza e em sua luz possamos banquetear ágape. E que este passado seja mais que perfeito em forma, pois que é essência.

Rupert Sheldrake convida que admiremos a natureza sob a perspectiva de hábitos que evoluem e não a partir do paradigma de leis imutáveis – veja em: TED - Os Hábitos da Natureza. Curiosa e desconfortável abordagem para aqueles de nós em busca de verdades apreensíveis, inquestionáveis e inquebrantáveis, quem sabe verdades mortas; afinal só o que é morto não muda, vida é mudança e transformação.

Olhar a Páscoa atualizada por esta lente é descobrir semelhança clara entre as concepções acima; desde Ostera (Easter) que carrega o coelho e representa as forças da natureza primaveril do equinócio, passando pelos primogênitos que preservam a vida após a passagem do anjo e culminando em Cristo que nasce na terra quando o sangue do corpo de Jesus (Agnus Dei) toca o solo, em todas estas Páscoas é possível ler o que subjaz às aparências; a vida que silenciosamente as permeia. Diferentes visões, diferentes hábitos, apenas um movimento na transfiguração do símbolo que ganha roupagens diversas ao se mesclar ao tecido temporal da história da humanidade. Afinal, as coisas são o que são porque foram o que foram.

Por se tratar de festividade móvel, no calendário solar, a cada ano a celebração da Páscoa é calculada segundo algoritmos relacionados à posição dos luminares celestes, o Sol e a Lua. Na época da Páscoa, do ponto de vista calendário zodiacal, o Sol está na maioria das vezes relacionado ao signo de Áries e menos comumente ao signo de Touro, visto variar entre os dias 22 de março a 25 de abril, em ciclos que se repetem a cada 5,7 milhões de anos (vide figura abaixo).



Práticas irmãs, podemos observar que o judaísmo e o islamismo guardam nítida afinidade com a Lua, enquanto a prática cristã com o Sol. A simples observação de como o dia é descrito no Gênesis torna isso claro (Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia).

Veja sobre calendários lunares:



Ora, a Lua apesar de eventualmente diurna, reina soberana à noite; sendo assim, certas culturas assumem a noite como princípio do dia. Até onde pude notar, verifique você, a Páscoa judaica sempre ocorre na Lua cheia; de modo complementar, a Páscoa cristã nunca ocorre na lua cheia, menos ainda com a lua se enchendo (caminhando para fase cheia), mas sempre que a mesma está se esvaziando na direção de nova. Este fato, de forma alguma coincidência, é o motor da mobilidade da Páscoa conforme observada no calendário solar. Veja como é feito o cálculo da Páscoa:


A dificuldade em lidar com a dicotomia simbólica do coelho e do cordeiro em relação à Páscoa, especialmente quando se pensa em Cristo ou na passagem do anjo da morte, decorre da superficialidade do olhar dos observadores. Aparência e essência; em uma a multiplicidade da unidade, noutra a unidade da multiplicidade. Duas situações, um símbolo, o sangue do cordeiro; no primeiro caso, Cristo Jesus é a própria representação do cordeiro (Agnus Dei) a ser imolado; no segundo caso, a marcação das portas com o sangue do cordeiro impedindo que os primogênitos das famílias judaicas fossem levados pelo anjo da morte (vide pragas do Egito).

Páscoa - Coelho ou Cordeiro?
 Vale ainda lembrar que os leporídeos coprófagos (coelhos) que não botam ovos e tem alta capacidade reprodutiva (gestação breve (30 dias) e em alguns casos aptos à fecundação com menos de seis meses de idade) encontram sua relação com a Páscoa em Ostara (Sobre Ostara - Wikipedia), entidade associada em mitologias antigas ao início da primavera.

Quanto aos ovos, existem relatos de que nem sempre foram comestíveis, apenas decorados com símbolos primaveris e sagrados. Curioso que atualmente muitos acreditam comer chocolate quando na verdade saboreiam essência de cacau misturada com leite e gordura hidrogenada. O simples hábito de ler o rótulo do produto pode minimizar este “atentado” à saúde decorrente de práticas comerciais que visam lucrar em detrimento da saúde alheia. Em reportagem recente (2014) para revista de utilidade pública, especialistas alertam:

“No geral, o trio de experts concluiu que os ovos testados são "regulares". “Tenho pena das crianças de hoje, que crescem achando que esse tipo de doce é chocolate”, lamentou Janaína. Para Corazza, o cenário é “entristecedor e funciona como um desserviço à sociedade”. Critérios como a qualidade do chocolate, a espessura da casca e a textura do recheio, bem como a harmonia entre os dois fatores, deixaram a desejar. “Muitos deles nem pareciam chocolate de verdade”, criticou Danielle. "Tinham sabor de essência e gordura hidrogenada", diz ela. Fonte: Artigo Veja SP

Apesar de percalços como estes, a época da Páscoa é ideal para melhor compreender as semelhanças entre as visões judaica e cristã. Nesse sentido, a Wikipédia oferece um vislumbre bastante razoável sobre o tema:







A despeito do convencionalismo da época e dos costumes vigentes desde nossa infância, existem abordagens do tema pouco conhecidas. Rudolf Steiner é um destes pensadores que exploram com reverência suprema, em sua bela obra “O Evangelho Segundo João”, o evento Páscoa, culminância da experiência de Cristo Jesus (Pode ser escutado em inglês no link: Steiner - Evangelho São João). O autor nos apresenta a ideia de Cristo enquanto entidade cuja “gestação” ganha espaço na figura histórica de Jesus, no momento do batismo à margem do Rio Jordão. Por três anos Cristo Jesus irradia em seus passos o fundamento de sua manifestação, a semeadura do princípio do amor na Terra. Nessa linha a Páscoa representa a culminância de um processo supremo no qual Cristo “gestado” em Jesus permeia, a partir do sangue derramado no Gólgota (lugar da caveira), o corpo da Terra; neste momento a própria entidade Cristo nasce no seio do planeta. É curioso notar como este simbolismo unifica a Páscoa de modo sui generis, visto transformar uma primavera exclusiva ao hemisfério norte em outra, a Primavera de uma Terra unificada.



Max Heindel e Corinne Heline também deixaram algumas pérolas sobre a mística pascal que pedem atenção da parte do estudante interessado em se aprofundar no assunto:





 
A Ressurreição de Cristo - Rafael Sanzio - (1483-1520)

De fato, toda Páscoa é natividade e momento de reflexão. Kieslowski em seu “Decálogo” aguça a percepção, sendo profilaxia às escolhas por vir...

Aqui o primeiro de dez, os outros são fáceis de achar:




Nikos Kazantzakis, escritor, poeta e pensador Grego; autor de “Zorba o Grego” e “A última tentação de Cristo” (1951), filmado a posteriori por Martin Scorsese (1988), me acompanha nesta Páscoa em sua curiosa obra: “O Cristo Recrucificado”. Natividade é o nome que ele usa para descrever este momento em que Cristo revisita a terra. Finda a obra, uma pequena parábola contada pelo personagem Photis, chamou atenção:




– Era uma vez dois caçadores de pássaros que foram montar armadilhas numa montanha. Armaram-nas e, voltando no dia seguinte, que viram? Estavam cheias de pombos selvagens. Os pobres animais jogavam-se contra as redes num esforço desesperado para escapar, mas as malhas eram muito cerradas; por fim os pombos se encostaram uns aos outros e aguardaram, tremendo. “Estes animais danados estão pele e osso”, disse um dos caçadores. “Como é que vamos vendê-los no mercado?” “Nós os alimentamos bem por alguns dias para engordá-los”, disse o outro. Deram-lhes grão em abundância, trouxeram-lhes água. Os pombos começaram a comer e a beber com avidez. Um apenas se recusou a tocar no grão. Nos dias seguintes, foram alimentados do mesmo modo. Engordavam à vista d’olhos. Só o refratário emagrecia e tentava sem descanso passar através da rede. Vieram enfim os caçadores buscá-los para os levar ao mercado. O pombo que recusara a comida tinha emagrecido tanto que num golpe de asa voou, livre, no ar...


 Na esperança de que tenhamos clara no coração a diferença entre Buda e Budismo, Cristo e Cristianismo, Páscoa e "Pascoalismo", ficam aqui os votos de uma Boa Páscoa!


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

SOBRE COMO A PERCEPÇÃO DO TEMPO INFLUENCIA O SABER



Quando alguém pensa e desenvolve raciocínio de aprender, só aprende quando consegue encaixar no tempo. Compreender algo é fazê-lo dentro da compreensão do tempo, que em algum lugar começou, mas cujo fim não há como saber. Apesar disso, alguns dizem que acaba, e junto com o corpo. Eu não sei, fico confuso e pensando em círculos.
Parece um vício, mas o pressuposto para muitos é que houve algo antes e haverá algo depois, por isso que eu acho existem os professores. Como vieram antes podem ousar ensinar aos que vem depois. Mas me confundo, alguém não disse que as crianças e sua pureza são o nosso fim? Então porque os professores ensinam e não as crianças?




Acostumados a aprender com o tempo e o pressuposto de um início, marca contumaz de quem acredita que a realidade única é material, esquecemos como aprender! Aprender não é saber e aprender com o tempo é achar que algo pode ser sabido, conquistado, dominado e construído. Aprender no tempo permite a ilusão de que o conhecimento pode ser construído e nesse engano, achar que o antigo é ultrapassado, velho, superado e que não vale mais, ficou sem valor. Eu tenho dúvida, mas acho que vale sim. Erro da modernidade é pensar a ciência como uma construção racional material e equacionada de um universo do qual parcamente e porcamente se sabe algo; ou me equivoco?
Saber no tempo é saber sobre um ponto, um pequeno ponto que fixo quer deixar sua marca em outro tecido, esse sim da “sabença” e da sabedoria. Tecido pleno, que funciona dentro de outro pressuposto que não o temporal, mas o atemporal, ou do não tempo. Ou como diria Guimarães em Grande Sertão: Veredas:

Pois, não existe! E se não existe, como é que se pode se contratar pacto com ele? E a idéia me retoma. Dum mau imaginado, o senhor me dê o lícito: que, ou então - será que pode também ser que tudo é mais passa - do revolvido remoto, no profundo, mais crônico: que, quando um tem noção de resolver a vender a alma sua, que é porque ela já estava dada vendida, sem se saber e a pessoa sujeita está só é certificando o regular dalgum velho trato - que já se vendeu aos poucos, faz tempo? Deus não queira; Deus que roda tudo! Diga o senhor, sobre mim diga.”

Pensar no não tempo ou no atemporal ou na perspectiva do eterno, é pensar sem saber, é pensar onde habita o ser. Esse pensar resolve o dilema do ovo e da galinha e sobre quem veio antes. Pensar na perspectiva da eternidade é algo difícil para quem observa o nascer e o morrer e aprende que a cada dia, que a vida passa...
Mudar o pressuposto ou quem sabe elevar o pensamento ao ponto de conceber estas duas possibilidades simultaneamente ocorrendo, eleva o homem e o humano a um novo patamar de observação. O patamar da possibilidade de entrar em comunhão com tudo aquilo que não está manifesto na realidade da matéria. Tudo que aí habita está além do acessível ao nosso atual estado de consciência. No vídeo abaixo, Dean Radin oferece uma explicação sobre a relação do tempo com a consciência; o tempo realmente existe ou é uma ilusão?


Para os interessados, vale acessar a sequência de vídeos sobre a questão, no site: http://www.youtube.com/user/scienceandnonduality
Nesse plano pleno o eterno que tudo "observa" e "permite", o temporal, como pipoca, explode a partir do milho e floresce para encontrar-se consigo mesmo.
Não é simples admitir o temporal e o eterno como realidades coexistentes e intrincadas, pois é preciso se aventurar a deixar de pensar em como as coisas podem ser ou não ser e permitir que ser ou não ser possam estar ocorrendo simultaneamente! Mas quem sabe? Eu não sei, eu acho...
No eterno é possível encontrar tudo o que não está materializado, manifesto, enfim tudo o que não se sabe. De certa forma pensar na perspectiva da eternidade é uma forma de saber. Não é um saber sabido não, mas um saber sabendo! É um lugar que até o particípio e o gerúndio se encontram, mas não brigam. É um lugar em que o saber liberta, não mais aprisiona em conceitos unilaterais e cumulativos.
Eterno e temporal, irmãos que se encontram no caminho estreito onde o saber e a Sabença se encontram para o banquete da vida que é luz, mas é amor também.

sábado, 9 de junho de 2012

SOBRE CORPUS CHRISTI

SOBRE: http://saudeconsciencia.blogspot.com.br/2011/06/corpus-christi-do-latim-corpo-de-cristo.html


Dr. Ricardo

O texto sobre Corpus Christi, é  muito bem-vindo por seu caráter histórico e bastante elucidativo quanto ao desenvolvimento, significado e celebração, inclusive musical.
Desde a minha tenra infância  trago comigo as celebrações realizadas na  Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Santo André, bem como as procissões que se faziam ao seu redor, na oportunidade.
Com o advento das duas grandes guerras mundiais e o estourar das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, por ocasião da segunda guerra, o sentido de Deus e a presença de seu filho, foram minimizados, em razão da inoperância de chamados gritantes face aos horrores que então se abatiam sobre os humanos.
Assim, toda a  invocação em súplicas, rezas, ou murmúrios e gritos, para a intervenção nos terríveis acontecimentos, não tiveram  ressonância, nem mesmo junto aos representantes da Igreja no Vaticano, como o Papa Pio XII.
Com a reviravolta havida, não só no pensamento como nas atitudes de então, e, também pelos estudos filosóficos e leituras outras que proliferaram a partir disso, o humano foi priorizado em detrimento da sua religiosidade.
Juntou-se a isso, os estudos sobre os males e, por  que não dizer, os crimes da Inquisição e seus tribunais do Santo Ofício, no atendimento à pregação, propagação,  e inoculação dos ditames da Igreja, em desfavor, inclusive, da existência do filho de Deus, mas com prioridade privilegiada  às humanas criaturas.
Todo esse arcabouço, aliado ultimamente, às inovações feitas pela própria Igreja, como modificações nos ritos e celebrações, afastamento da presença da música  sacra, abandono da língua latina nos ofícios e outras inovações, em  atendimento à busca de novos fiéis, a data da celebração de Corpus Christi sofreu um esvaziamento de tal monta que ficou apenas restrita ao calendário com o aposto sempre ansiado de “feriado”.
Felizmente, com todos os equívocos que a religião cometeu e comete, talvez para firmar dogmas e atitudes inoportunas que a cercam e vicejam, minha memória guarda os tempos da infância e adolescência, quando, Corpus Christi era compungidamente alçado em sua celebração, por mim e meus familiares.


Grato pela auspiciosa oportunidade de lembrança tão longeva.

Abraços
Mário Inglesi
08.06.2012

sábado, 11 de junho de 2011

POST SCRIPTUM (HUBERTO ROHDEN)

Estas palavras do grande filósofo brasileiro que podem ser encontradas ao final do seu livro “Profanos e Iniciados”, convidam a um olhar sobre a dificuldade das pessoas em se transformar, em se alinhar com o movimento fluídico da vida, que é mudança, fluxo, conforme Simplicius de Cicilia formulou (Τα Πάντα ῥεῖ - ta panta rhei – tudo flui), a partir dos ensinamentos de Heráclito de Éfeso. Em consequência, Heráclito de Éfeso não é o filósofo do "tudo flui" mas do "tudo flui enquanto resultado da tensão contínua dos opostos em luta".

“Muitos dos leitores deste livro que tiveram a coragem de avançar até aqui, estarão escandalizados com as “heresias” que o autor apresentou. Para estes vou acrescentar umas palavrinhas de explicação e, quiça, de reconciliação.

Meus caros amigos “ortodoxos”. Eu não tenho intenção alguma, como, aliás, já frisei no prefácio, de lhes arrancar do coração uma “fé” sem a qual sua vida seria horrivelmente frígida e insuportável. Pelo contrário, recomendo-lhes sinceramente que conservem e cultivem sua “fé”, enquanto dela necessitarem para sua tranqüilidade e consolação interior. Esse apego ferrenho ao que apelidam sua “fé” é sinal certo de que dela necessitam ainda; que sem ela seriam infelizes, como que suspensos no vácuo, sem base sólida sob os pés. Ninguém deve abandonar uma idéia ou uma doutrina antes que o possa fazer com espontânea naturalidade e sem nenhuma dilaceração interior. Enquanto uma fruta está muito presa à haste, é sinal, geralmente, de que ainda não está madura. Só se deve abandonar uma idéia ou uma doutrina quando se pode fazê-lo sem nenhuma violência psíquica, sem nenhuma hemorragia moral, com espontânea facilidade e verdadeira alegria de espírito, porque isto é prova de que chegou o tempo da maturidade e que a alma está pronta para um novo passo, rumo ao reino de Deus.

Quando o bicho da seda chegou ao termo de sua vida de lagarta, enclausura-se num casulo de fios de seda, que tira da sua própria boca, não para ficar sempre nesse invólucro, mas para proteger o seu misterioso sono de crisálida contra possíveis inimigos externos, e, destarte, preparar tranquilamente o seguinte estágio da sua evolução. Seria insipiência não querer enclausurar-se no casulo protetor – e insipiência não menor seria não querer, a seu tempo, romper o sedoso invólucro a fim de atingir sua metamorfose final de borboleta alada.

Enquanto o leitor sentir a necessidade interna de repousar dentro do seu lindo casulo, tecido da substância da sua filosofia e teologia, não saia desse abrigo acolhedor. Não se esqueça, todavia, de que qualquer casulo de humana teologia e exegese, por mais lindo e sólido, não passa de um “meio”, e não um “fim” em si mesmo, e tem de ser usado tanto quanto servir para a consecução do fim supremo e último do homem, que é o pleno conhecimento, amor e posse do reino de Deus. Seja, pois, o leitor sincero consigo mesmo, tanto no “conservar” como no “abandonar” qualquer sistema de pensamento, de conformidade com o seu destino supremo. Não idolatre, não se enamore, não se agarre fanaticamente a nenhuma filosofia, teologia ou exegese. Deus é absoluto e definitivo, mas todos os nossos conhecimentos sobre Deus e seu reino são relativos e em constante evolução.

Não pense, pois, o caro leitor que eu lhe queira arrancar as muletas de que se serve para andar nos caminhos de Deus. Use suas muletas enquanto lhe forem necessárias nessa longa jornada – mas não se esqueça de que elas são um meio, e não um fim em si mesmas. Bem sei que é melhor andar de muletas do que ficar estendido à beira da estrada. Nada tenho contra suas muletas; tolero-as enquanto necessárias – estou interessado unicamente em ajudá-lo a adquirir saúde perfeita, em encher de vigor espiritual a sua alma. No dia e na hora em que meu ignoto amigo tiver adquirido essa saúde e esse vigor, não lhe darei ordem para jogar fora suas muletas – porque o amigo já as terá abandonado espontaneamente e correrá jubilosamente nos caminhos do reino de Deus.

No caso que o irmão em Cristo não possa ainda compreender o sentido desta linguagem simbólica, nem tenha a coragem e a humildade de aceitar o que lhe digo, não se irrite nem se revolte contra o autor deste livro – mas retire-se freqüentemente à intensa oração e abisme-se profundamente na comunhão com Deus...

E compreenderá...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

PSICONEUROBIOLOGIA DA FÉ

Este texto foi escrito em 2008 sendo o nono capítulo da obra Saúde e Espiritualidade, publicada pela Editora Inede, em novembro de 2008.

INTRODUÇÃO

Foi nos monastérios, cujo apogeu ocorreu há cerca de mil anos atrás, que os monges traduziram para o latim todo o conhecimento acumulado pelas culturas grega, judaica e árabe. Com a institucionalização do cristianismo no ano de 325, as versões alternativas para as verdades preconizadas pela igreja da época passaram a ser monitorizadas pelo Santo Ofício e posteriormente pelo processo denominado de inquisição, oficializado apenas no século XII (4). No renascimento, com a transformação dos monastérios em universidades e sua conseqüente abertura para a sociedade laica, a postura do Santo Ofício tornou-se cada vez mais incompatível com a busca da verdade que constituía o espírito científico dentro e fora da igreja.
No entanto, foi apenas no século XVIII na França, que o movimento iluminista desenvolvido por pensadores que acreditavam que explicar o mundo pela fé seria incompatível com o método científico de construção da verdade, tomou o poder da religião no controle da universidade. Neste cenário histórico, a divisão entre ciência e espiritualidade se faz notar, de forma que o academicismo passa a se desenvolver sobre bases técnicas e independentes dos valores simbólico-religiosos que até então eram preponderantes.
Atualmente, passamos por um movimento de reencontro da ciência com a espiritualidade, como resultado da percepção da importância da reintegração dos diversos setores do conhecimento entre si. Os seres humanos estão inseridos em um contexto biológico, psíquico e social de maneira geral. Estudar isoladamente um destes aspectos, sem dúvida tem sua importância, no entanto surge um momento em que a união entre estas três nuances deve ocorrer, a fim de passarmos para um novo nível de entendimento e percepção, sem o qual não é possível prosseguir. Esta dificuldade de unificação pode ser um dos ingredientes na gênese de fundamentalismos e conflitos que muitas vezes culminam na imposição ditatorial de determinados ideais ou até mesmo na necessidade de exterminar culturas que porventura tenham como proposta de vida um paradigma diferente.


FÉ E RELIGIÃO – UMA LEITURA ETIMOLOGICA

A compreensão etimológica das palavras é de grande auxílio no entendimento das causas primárias do surgimento de determinadas idéias que muito freqüentemente com o passar dos anos se perdem. Ao contrário do que se possa pensar, etimologicamente a palavra grega para designar (hypostasis) não significa necessariamente acreditar; ela tem mais o significado de compromisso pessoal ou relacionamento pessoal. Segundo Freeman, a natureza de um relacionamento fiel é o compromisso que o mantém mesmo durante as adversidades, sendo ainda o motivo que leva pessoas a permanecerem num relacionamento duradouro (11). Desta forma, a está mais relacionada à capacidade de transcendência de cada ser, pois quando nos comprometemos, transcendemos nossas limitações.
A fé comumente é encontrada em associação com propostas religiosas. Do ponto de vista etimológico o termo religião tem origem no latim a partir de religare, relegere. Interessante notar que apesar de muitos de nós estarmos acostumados a nomear religiões, a religião em si está mais ligada a uma atitude do que propriamente a cultos e instituições que muitas vezes assumem caráter exclusivista. Caráter este que no cerne do termo religião não tem espaço, uma vez que o próprio termo significa releitura e religação.
O aspecto releitura pode ser compreendido ou vivenciado a partir da releitura dos valores e das verdades que nossa sociedade nos propõe seja na forma de ensinamento ou como imposição (votação, decreto), e ainda pela releitura das nossas sensações e atitudes frente aos acontecimentos do dia a dia.
Quanto ao aspecto de religação, este pode se manifestar de duas formas que podemos decompor em um vetor horizontal e outro vertical. O vetor horizontal trata da religação não com as crenças e aos valores pessoais que trazemos no nosso interior, mas principalmente com os valores daqueles que estão ao nosso lado e que muitas vezes vêem o mundo de uma forma totalmente diferente da nossa. Trata-se da aproximação pela compreensão, pela capacidade de se colocar no lugar do outro e ainda pela capacidade de exercitar a caridade. Esta horizontalidade pode ainda ser comparada por analogia à atmosfera, que cerca o planeta e que de algum modo permeia a todos os seres vivos, nos colocando em contato por meio de sua natureza aérea. Por outro lado, o vetor vertical trata da religação ao ponto de origem, ao sobrenatural, ao divino, à primeira emanação, à natureza e com a verdade que recebemos na forma de semente e da qual somos portadores solitários e responsáveis pela germinação na presente vida.
Esta verticalidade pode ainda ser comparada por analogia aos feixes de raios cósmicos que atravessam nosso planeta continuamente, transpassando-o e continuando seu caminho pelo cosmos. Estes feixes podem ser vistos ou entendidos como outra espécie de tecido, que por sua vez pode ser compreendido como o integrador da realidade do planeta terra com a realidade maior cósmica, ainda pouco explorada e conhecida dos homens. Para os que ainda têm dificuldade em compreender a analogia, pense no ser humano constantemente bombardeado pelos raios X que apesar de não visível aos olhos humanos é capaz de atravessar e transformar o material celular após um determinado tempo de exposição.
Ampliando a percepção, é importante que se saiba que alguns tipos de raios atravessam o planeta inteiro de forma ininterrupta, sendo que alguns sequer tocam a matéria planetária (32). Existe uma íntima ligação de cada ser vivo na face da terra com o campo magnético terrestre, o que faz do homem uma “antena ambulanteenquanto se move neste campo ao qual está ligado. O desenvolvimento do campo da bio-comunicação e da bio-informação no sistema solar está melhorando a compreensão de como a vida biológica na terra pode estar interagindo e trocando informações com regiões remotas do cosmos (40). Estudos no campo da bioeletrodinâmica mostram como campos magnéticos de baixa freqüência exógenos podem suscitar reações comportamentais e físicas no homem, como alterações na permeabilidade de membranas celulares de neurônios (3). Estes achados constituem passos importantes na compreensão de como o processo de religação do homem com o cosmos pode ser um importante agente na promoção da harmonização e cura de processos patológicos.
O exercício da fé ocorre no interior de cada ser humano e ainda não pode ser quantificado, sendo neste limite entre o visível e o invisível (entre o físico e o psíquico) que médicos e terapeutas somos convidados a trabalhar.


COMPREENDENDO FENÔMENOS NO CAMPO DA FÉ – DEFINIÇÕES

            Nos tempos atuais, apesar da enorme quantidade de informações que nos chegam diariamente, é muito comum que as pessoas vivam com uma leve sensação de que algo está faltando, de incerteza e até mesmo de incompletude. De maneira geral, as religiões institucionalizadas se propõem a preencher estas lacunas de forma a dar algum sentido ou significado ideológico para a vida de cada pessoa. Apesar das inúmeras teorias que tentam explicar o processo da cosmogênese e da gênese do ser humano, e da veemência com que algumas afirmam ser a verdade única, até o presente momento a resposta para o significado existencial permanece velada. Muitas vezes, teorias são ensinadas como se fossem verdades estabelecidas e não teorias propriamente. Como a vida em sociedade é muitas vezes opressora, pertencer a determinados grupos implica também em compartilhar da ideologia do grupo.
As pesquisas sobre a podem contribuir muito para que cada pessoa possa encontrar por si mesma, possíveis significados para sua existência. É como se a pessoa fosse uma peça de um grande quebra-cabeça e como tal tivesse a oportunidade única de se posicionar dentro do mesmo montado. Enquanto esta pessoa executa o que esperam que ela faça, ela pode estar negligenciando o que ela realmente está aqui para fazer. Algo que ela pode saber, pois ela é a portadora desta semente, e ela tem a responsabilidade de fazê-la germinar ou não. A importância de se pesquisar o campo da é máxima, uma vez que pode permitir que as pessoas entrem em contato com realidades que ninguém mais além delas mesmas possa fazê-lo.
As diversas formas de manifestações físicas, dentre as quais nos incluímos, podem ser o espelho, ou o projeto de essências espirituais inomináveis, sugerindo que o significado da pode assumir diferentes nuances na dependência do ser que a experiencia.
Segundo Ouspensky, o homem que vive envolvido apenas pelo aspecto físico da existência exercita uma religião feita de ritos, sacrifícios e cerimônias que podem ser de imponente esplendor ou de caráter lúgubre, selvagem e cruel. Esta idéia transposta para a realidade do Cristianismo pode ser representada por um Cristianismo número 1, ou paganismo sob um nome cristão.  O homem ancorado à dimensão emocional estabelece a sobre valores transmitidos por tradições familiares, assumindo um caráter devocional. O Cristianismo número 2, que exemplifica esta forma de prática, é uma religião de sentimento, algumas vezes muito puro, mas desprovido de força, algumas vezes sanguinário e atroz, levando à inquisição e às guerras ditas “religiosas”, se isso for possível. O homem ancorado à dimensão intelectual vai exercitar sua a partir do iluminismo proporcionado pelo conhecimento científico, numa religião de provas e argumentos, fundada em raciocínios, interpretações e deduções lógicas. Este homem pode ver a como um sinal de fraqueza e de insegurança em relação à vida e não ter qualquer sentido como crença. O que porventura permaneça no campo do mistério é explicado como resultado de uma atitude de vida positiva ou otimista, sem que seja necessária a introdução do fator mistério ou de uma divindade. O fundamento do Cristianismo número 3, proporcionado pelas diferentes formas de protestantismo oferecem exemplos deste tipo de prática, com suas teorias, argumentos e dialética próprios (42).
A partir do momento em que o homem passa por um processo de unificação, em que as dimensões física, emocional e mental são percebidas e integradas, a passa a ser vista como um veículo de transporte a dimensões mais sutis, através do qual transformações, processos regenerativos ou mesmo milagres podem ser operados. Transferindo esta idéia para o exemplo acima, aqui ocorre o princípio do Cristianismo, que segundo Ouspensky pode ser compreendido pelos homens que passaram pela unificação das três instâncias descritas anteriormente (42). Estes exemplos podem ser extrapolados para qualquer das grandes tradições religiosas institucionalizadas, e não apenas ao Cristianismo.
No presente momento, no entanto, o importante é a busca, não estar parado e principalmente se permitir ver diferente. A incapacidade de mudar ou ver novas possibilidades corresponde de certa forma à morte física ou na melhor das hipóteses nos torna uma presa fácil para o convencionalismo do pensamento vigente, muitas vezes aceito por uma maioria por medo ou conveniência, apesar de ultrapassado e reprovado pelo teste do tempo.
Quando se traça uma linha temporal para estudar o papel da fé dentro da prática médica, nota-se que esta linha não é única, de forma que enquanto algumas tradições nunca desvincularam a fé do conhecimento científico, outras como muitas das que se encontram no mundo ocidental, optaram por uma visão mais biológica e fisiológica do ser humano, deslocando os assuntos relativos à fé e ao desconhecido para a esfera dos sacerdotes e dos psiquiatras, o que ainda nos permite o resgate de algumas verdades.
De fato, uma das primeiras formas de tratamento psiquiátrico nos Estados Unidos chamada de “tratamento moral”, desenvolvido na Inglaterra pelo devoto Quaker William Turker, propunha um regime baseado na compaixão em detrimento das práticas médicas convencionais, partindo da idéia que a insanidade ocorreria em decorrência de uma quebra na comunicação da mente com o espírito. Devido ao seu sucesso, a terapia logo se espalhou pela Europa e Estados Unidos, dirigida por religiosos em sua maioria (51).

PSICONEUROBIOLOGIA DA

Abordar o tema neurobiologia da requer uma observação de importância primordial na qual se note as diferentes realidades que os termos neurobiologia e pertencem. Fenômenos neurobiológicos ocorrem de maneira geral numa realidade física enquanto que as questões pertinentes à se dão de maneira geral a partir de uma realidade que podemos chamar de psíquica. Partindo desta realidade psíquica poderá ou não ocorrer uma manifestação física como produto resultante do exercício da . É necessário sermos cuidadosos quando se tenta alcançar a compreensão de fenômenos resultantes de tentativas de conciliação destas diferentes realidades. Os métodos científicos tradicionais buscam fenômenos reprodutíveis e quantificáveis, muitas vezes a partir da decomposição do todo em partes para sua compreensão, numa tentativa reducionista de traduzir diferentes realidades a uma linguagem comum.
A descrição recente da associação da predisposição à espiritualidade a grupos de genes, dentre os quais aquele identificado pela sigla vmat2, por um geneticista comportamental do Instituto Nacional do Câncer dos EUA e sua equipe, ilustra o delicado caminho pelo qual a ciência trilha (1). Este gene, relacionado ao transporte vesicular de monoaminas, guarda relações com as alterações no humor secundárias a variações dos níveis de serotonina no sistema nervoso central, sendo estudado em modelos de depressão.
O corpo humano manifesta e porta na forma de vida uma essência que por mais que se tenha ousado associar à razão, ao pensamento ou à consciência, ainda hoje apela ao grande espaço de mistério que separa o existir do não existir. O presente texto não tem o objetivo de desmerecer formas de viver em que o existencialismo materialista constitui a base de percepção da vida. No entendimento do autor a vida física no presente momento consiste na manifestação parcial de aspectos ontológicos, compreendidos como sendo de natureza espiritual. Discutir mecanismos referentes à tecnologia ontológica ou espiritual responsáveis pelo processo encarnatório foge ao âmbito da presente exposição, cabendo ao interessado buscar nos escritos alquímicos, filosóficos antigos e religiosos tais conceitos e discussões.
Para alguns, estudar a psiconeurobiologia da consiste em mapear o encéfalo quanto a áreas que estão ou não ativas durante uma experiência religiosa, a fim de localizar a no corpo humano e assim explicá-la. Não podemos e nem devemos negar a importância destes estudos sem sombra de dúvida. No entanto, propostas de novas formas de pensar são altamente desejáveis, principalmente quando o objeto de estudo envolve um campo ainda tão pouco compreendido. Esta pouca compreensão envolve não apenas as diferentes formas como a pode ser vivida, mas também e principalmente os efeitos da mesma, que muitos presenciam e preferem calar a arriscar conhecer seu processo de geração. Assumir a condição de não saber, permitir-se estar aberto para todas as possibilidades é a primeira condição necessária para o interessado em aprender sobre quaisquer assuntos e de maneira especial aqueles ainda envoltos em mistério e nos quais visões preconceituosas podem impedir o livre pensamento.

– UMA VISÃO ESPECTRAL

Uma importante e recente linha de estudo na direção de compreender o crescimento e o desenvolvimento dos seres humanos é proposta por Clare Graves em seu modelo da dinâmica em espiral (15). Este autor propõe a compreensão do ser humano maduro associando seu desenvolvimento a um processo evolutivo espiralar, que se caracteriza pela subordinação progressiva de sistemas mais antigos a sistemas mais recentes que aparecem na proporção que o questionamento existencial de cada pessoa vai se transformando. Neste modelo o ser humano se desenvolve na medida em que sua compreensão passa para outra realidade ou nível, que não nega suas percepções anteriores, mas as assimila na forma de ferramenta, que favorece a sua comunicação com os outros seres humanos.
Toda forma de tratamento médico é altamente dependente do grau de participação do paciente na proposta terapêutica. O médico ou terapeuta mais bem preparado não terá efetividade caso o paciente não acate ou simplesmente se negue a seguir as orientações propostas. Apesar de serem necessários o uso de determinadas substâncias ou medicações em muitos tratamentos, existem recomendações que são revestidas de importância ainda maior que o uso destas medicações. Um exemplo banal pode ser ilustrado pelo caso do paciente enfisematoso grave, que concorda em usar broncodilatadores inalatórios, mas se recusa a deixar o hábito de fumar. Neste caso as chances do tratamento falhar são enormes, apesar do paciente estar seguindo à risca a parte medicamentosa do tratamento. De maneira geral, por incrível que pareça, pessoas que passam por processos de adoecimento aceitam mais prontamente tomar um comprimido ou se submeter a um procedimento cirúrgico do que mudar algum comportamento que visivelmente está relacionado à raiz ou à fonte da doença. Apesar dos métodos físicos de tratamento terem sua importância, a negligência do paciente no cuidado diário de seus hábitos e comportamentos, pode ocasionar recidiva de sintomas, muitas vezes piores que os iniciais.
            Fundamentalmente podemos entender que qualquer tratamento médico vai estar sujeito ao grau de participação do paciente. Os extremos desta participação podem ser divididos em paciente ativo e paciente passivo, sendo que entre estes dois tipos de pacientes vai haver todo um espectro comportamental de acordo com as características pessoais de cada um. Na prática médica são comuns maiores índices de recuperação entre pacientes que participam mais ativamente do tratamento. A cura (do inglês “cure”) é um processo físico que pode ocorrer a partir de uma medicação ou algum ato médico, mas que pode significar apenas um alívio temporário para o paciente. Em outro extremo o sarar (do inglês “healing”) requer a cooperação física e espiritual com o médico, e significa a resolução final do quadro patológico com o conseqüente restabelecimento da saúde. A como ferramenta médica pode ser compreendida de forma semelhante, na medida em que mesmo passiva e expectante, a despeito de obras ou atitudes, promove auxílio no processo de cura. Por outro lado a ativa, praticada e lapidada pode levar o ser a graus de percepção e desenvolvimento interior maiores, contribuindo para um processo de resolução mais efetivo e rápido.

SISTEMA NERVOSO CENTRAL NO ESTUDO DA

O sistema límbico (SL) tem importância capital nos mecanismos neurais que governam o comportamento e as emoções. Sendo assim, este sistema constitui uma importante interface entre o corpo físico e as realidades psíquica e espiritual que cada ser vivo está inserido. Os componentes deste sistema têm suas principais relações aferentes e eferentes com dois grandes campos funcionais, o neocórtex e a periferia víscero-endócrina. Dentro do SL, os corpos amigdalóides têm papel crucial na mediação de respostas autonômicas, comportamentos emocionais e alimentares. As amígdalas dão origem a fibras que se projetam para o hipotálamo e tronco cerebral e regulam as respostas autonômicas aos estímulos emocionalmente carregados. Existe uma projeção para o núcleo paraventricular do hipotálamo de grande importância na mediação das respostas neuroendócrinas aos estímulos que causam medo ou estresse. Desta forma, fica fácil antever a importância das emoções em qualquer processo que tenha como objetivo alcançar a cura.
O sistema límbico pode ser visto como o deflagrador das experiências religiosas, sendo nesta região que ocorre a vinculação das experiências vividas ao universo emocional do indivíduo. Nas experiências religiosas intensas o SL mostra-se particularmente ativo, conferindo grande peso ao vivido, sendo este um dos motivos pelo qual estas experiências muitas vezes são tão difíceis de serem descritas. Finalmente mas não menos importante o SL funciona como um centro de mediação entre o sistema nervoso central (SNC) o sistema imunológico (SI) e o sistema endocrinológico (SE).
Estudos realizados em pessoas sob estado meditativo mostram a associação entre a atividade cerebral, monitorizada por EEG, e a ativação do sistema imunológico frente a um estímulo vacinal. Uma maior atividade cerebral em áreas específicas, associadas a afetos positivos, localizadas no hemisfério cerebral esquerdo é descrita em pessoas que meditam (9, 39). Além disso, esta maior atividade guarda relação significativa com maiores níveis de anticorpos após sensibilização por vacina.

O ENCONTRO DA PRÁTICA MÉDICA COM A PRÁTICA RELIGIOSA

MODELOS EXPERIMENTAIS DE ESTUDO DA E TEORIAS
Vários estudos tentam fazer uma ligação entre as experiências religiosas e espirituais a atividades específicas no encéfalo. Eletroencefalogramas e mais recentemente a tomografia por emissão de pósitrons (PETSCAN) e a tomografia por emissão de fóton simples (SPECT) são usados para estudar e visualizar melhor a atividade encefálica durante estados reconhecidos como espirituais. Imagens da associação de ressonância magnética funcional com o PETSCAN prometem ainda melhores capacidades quantitativas e resolutivas.
D’aquili e Newberg estão entre os primeiros a descreverem um modelo neuropsicológico para os estados místicos ou espirituais (8, 37). Eles associaram as experiências espirituais à ativação simpática e parassimpática do sistema nervoso que em conjunto com o sistema límbico facilitam ou inibem algumas áreas do encéfalo responsáveis pela experiência. Estes autores focaram suas pesquisas em estudos com meditação e oração e tentaram associar a experiência religiosa a um local específico no encéfalo. Em um destes estudos, a atividade cerebral foi mapeada por SPECT no início e durante o auge espiritual da meditação, na tentativa de registrar o que ocorre no momento da transcendência mística (38). Apesar do exame mostrar inicialmente um aumento da concentração de radioisótopo no córtex parietal superior, responsável pela localização espacial, no momento em que o auge da meditação era sinalizado, houve uma grande redução do radioisótopo nesta região. Os autores supõem que esta região se tornaria momentaneamente “cegapara os dados provenientes dos sentidos, associando isso à sensação de quem medita de não mais se sentir uma unidade isolada mas estar ligado de forma indissolúvel à totalidade da criação (39).
            De acordo com Azari a experiência religiosa deve ser interpretada como um fenômeno cognitivo, conforme mostra seu estudo com neuroimagem funcional em voluntários que recitavam diferentes tipos de texto, desde conteúdo religioso até instruções de aparelhos (2). Durante a recitação religiosa, áreas do circuito fronto-parietal compostas pelos córtices pré-frontal dorsolateral, frontal dorsomedial e parietal medial ficaram ativadas no PETSCAN nas pessoas que se denominavam religiosas, áreas com importante papel no favorecimento da avaliação reflexiva do pensamento.
Partindo do pressuposto que todas as experiências, inclusas as relacionadas a Deus e a espíritos, ocorrem secundariamente à estimulação cerebral, Persinger realizou experimentos com estimulação magnética transcraniana a fim de reproduzi-las em ambiente controlado (17, 43, 50). O autor mostra em suas análises que a sensação de umser superior” pode ser inequivocamente despertada por campos magnéticos específicos aplicados via transcraniana na região têmporo-parietal dos dois hemisférios cerebrais. Entretanto, apesar dos trabalhos que apontam os lobos temporais como a sede das experiências religiosas, há estudos que não confirmam estas evidências (14, 45, 46).
Em um estudo interessante, Herzog avaliou pessoas em estado normal comparativamente a pessoas em estado meditativo de ioga e descreveu a ocorrência de uma ativação cerebral global durante a prática meditativa (16). Este achado sugere que não há uma área cerebral específica responsável pela experiência religiosa, mas que todo o encéfalo se encontra ativo durante a experiência.
Dentre as hipóteses que propõem uma explicação para a sede da espiritualidade, encontramos explicações superempíricas, de acordo com as quais experiências religiosas e espirituais são epifenômenos que ocorrem separadamente do encéfalo ou qualquer outro substrato anatômico. Estas propostas se baseiam na existência e funcionamento de energias que não são ainda empiricamente demonstráveis para a satisfação da ciência tradicional (27, 28).
Cada estudo propõe metodologias muito específicas, sendo esta uma questão crucial que nos passa despercebida muitas vezes quando tentamos interpretá-los. As metodologias são tão específicas, as condições de laboratório são tão controladas, algumas variáveis são padronizadas a tal ponto, que este mesmo rigor acaba se voltando contra a própria proposta da ciência ou da pesquisa. Isto ocorre pois a partir dos resultados obtidos em laboratório, sobre modelos controlados, o próximo passo do cientista é por meio de processos de indução e de generalização, aplicar aqueles achados ao comportamento de sistemas abertos, na população de seres humanos que vivem fora dos laboratórios.
Um exemplo deste processo é a medicação que vai ao mercado após muitos estudos em laboratório e que depois de alguns anos precisa ser retirada pois ocorrem efeitos adversos que não foram observados nos primeiros estudos (ex: talidomida). Os estudos científicos muitas vezes trazem resultados que oferecem dificuldade para serem conciliados, de forma que devemos ser muito cuidadosos ao interpretar descobertas novas, pois muitas não resistem à prova do tempo. Uma atitude interessante pode ser a de escutar a informação, guardá-la, mas não assumi-la como verdade, mantendo apenas um registro de que alguém propôs aquela possibilidade.
Fica cada vez mais claro que para a compreensão efetiva dos mecanismos da neurobiologia da é necessária uma nova forma de pensar, em que uma realidade física pode estar ligada a uma realidade psíquica, ainda que não seja possível a visualização de seus elos de conexão. Esta idéia tem permeado o meio científico desde meados da década de 30 quando neurobiólogos, psicólogos da gestalt e ecologistas passaram a falar no pensamento sistêmico, que é a mudança da percepção de partes para a percepção do todo (6).
Estudos no campo da física quântica têm contribuído muito para uma melhor compreensão de como a interação entre as pessoas poderia estar atuando em última análise sobre um sistema biológico, determinando respostas comportamentais. Os cientistas que sustentam o pensamento sistêmico propõem que para recuperar nossa plena humanidade é necessária a experiência de conexão com toda a teia da vida. Esta reconexão, esta religação que como vimos é a própria essência da idéia da religião, constitui a essência do alicerce espiritual.
De acordo com os conceitos da imunologia clássica o sistema imune é um sistema de defesa do corpo, ao qual se associaram diversas metáforas militares para sua compreensão (ex: exército de glóbulos brancos). No entanto essa visão clássica constitui hoje um dos principais obstáculos para a compreensão das doenças auto-imunes, afinal não é possível explicar que um exército que supostamente deve defender, ataque sua própria casa, no caso seu próprio corpo, como ocorre neste grupo de doenças. O conceito da imunologia cognitiva surge a partir da descoberta de que os anticorpos circulantes se ligam a muitos se não todos os tipos de células, inclusive a si mesmos, constituindo uma rede imunológica. Desta forma a função do sistema imunológico além de responder a desafios externos é também e principalmente se relacionar consigo mesmo, determinando assim uma identidade molecular do corpo.
Estes conceitos culminam na percepção da existência de uma rede psicossomática na qual os sistemas nervoso, imunológico e endocrinológico constituem três sistemas cognitivos em constante interação, “cérebrosem diálogo contínuo (6). Do ponto de vista neurobiológico, a cognição é um fenômeno que se expande por todo o organismo, operando por uma intrincada rede neuro-química que integra atividades mentais, emocionais e biológicas, representando a porta de entrada consciente na realidade dos fenômenos em que a prática da esteja em questão.

ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS
No decorrer do século XX, centenas de estudos avaliaram a relação entre a religiosidade e a saúde física e mental, sendo que na sua grande maioria demonstraram haver uma significativa correlação positiva entre estas duas variáveis (21,25). Estes achados são especialmente evidentes em pacientes com doenças crônicas, e mostram que as crenças religiosas influenciam inclusive decisões médicas como o uso de quimioterapia ou outros tratamentos vitais, muitas vezes conflitando propostas terapêuticas médicas preconizadas e consagradas (7).
Estes estudos mostram que pacientes hospitalizados que têm alguma prática religiosa melhoram rápido comparativamente a pacientes sem o mesmo perfil, e que pacientes envolvidos em práticas religiosas têm menor probabilidade de desenvolver depressão, sendo que quando ficam deprimidos, se recuperam mais rapidamente que os pacientes menos religiosos (18, 20, 22, 23, 24) . Estudos epidemiológicos dos efeitos da prática religiosa sobre a pressão arterial mostram que o compromisso religioso guarda relação inversa com níveis de pressão arterial e que várias denominações religiosas ou grupos têm menores taxas de mortalidade e morbidade relacionadas à hipertensão (29, 30).
crescentes evidências no campo da psiconeuroimunologia que as emoções positivas e o apoio social são associadas ao melhor funcionamento dos sistemas imunológico e cardiovascular, e que o caminho inverso também parece ser verdade, ou seja, a depressão e o isolamento social pioram a saúde, retardando a recuperação dos pacientes (18, 23, 24). Em estudo realizado no Centro Médico da Universidade de Duke, com 542 pacientes com idade de 60 anos ou mais, ficou demonstrado que pessoas ligadas a práticas religiosas apresentaram menor tempo de permanência no hospital. Este estudo prospectivo mostrou que pacientes não afiliados a grupos religiosos foram hospitalizados por uma média de vinte e cinco dias, comparado aos onze dias do grupo de pessoas ligadas a alguma tradição religiosa, sugerindo que as crenças religiosas e sua prática estão relacionadas a melhor saúde física e mental além de menor necessidade de utilização de serviços de saúde (23, 24).
Do ponto de vista médico, o sistema imune constitui o efetor final do corpo físico em todo processo ligado à cura, sendo sua integridade fundamental para que a saúde seja mantida ou restabelecida. Estudos sobre o envolvimento religioso e a função imune estão em fase inicial. Neste tipo de investigação, a experiência religiosa pode ser estudada na forma de qualquer contato que a pessoa tenha com propostas entendidas como espirituais e não requer uma manutenção da atividade por um intervalo de tempo, enquanto que o envolvimento religioso envolve uma prática espiritual por um dado intervalo de tempo.
Mc Cleland, em um importante estudo, propôs a existência de uma relação entre a função imune e a prática espiritual e avaliou o aspecto mobilização aguda de imunoglobulinas (33, 34). Neste estudo 132 estudantes foram divididos em dois grupos para se avaliar o despertar motivacional sobre a secreção de imunoglobulina A (IgA) salivarMetade dos estudantes assistiu a um filme sobre a segunda guerra mundial e a outra metade a um sobre o trabalho da Madre Tereza de Calcutá nos subúrbios da Índia. Cada filme foi mostrado duas vezes e cada amostra de assistentes foi analisada separadamente. Os níveis de IgA salivar foram significativamente maiores nas 70 pessoas que assistiram ao filme da madre Tereza, sugerindo um efeito positivo da experiência religiosa sobre o sistema imunológico.
Em outro estudo, Köenig em 1977 avaliou os efeitos do envolvimento religioso sobre os níveis séricos de interleucina 6 (IL6) (19). Os níveis de IL6 não são detectáveis usualmente até uma idade avançada sendo um importante indicador de doenças em pacientes idosos (26).
Köenig estudou os níveis séricos de IL6 em pacientes envolvidos em práticas religiosas com diferentes freqüências por um período de 6 anos, fazendo neste período dosagens em 1718 pessoas. Foi visto nesta população que os níveis de IL6 foram 50% maiores entre os indivíduos não praticantes comparativamente aos praticantes. Este estudo sugere que pessoas envolvidas em comunidades religiosas dispõem de sistemas imunes mais estáveis, uma suposta explicação para a melhor saúde e sobrevida no grupo com envolvimento religioso.
Apesar de tantas evidências, muitas questões continuam sem resposta, uma vez que nem sempre o envolvimento espiritual têm efeito positivo na saúde, e quando têm, os mecanismos biológicos envolvidos ainda são pouco compreendidos. Várias pesquisas com diferentes metodologias, que vão desde a observação até testes clínicos, estão sendo desenvolvidas para atestar rigorosamente os mecanismos de ação e efeitos da associação entre a prática espiritual e a saúde.

O PODER DA ORAÇÃO
            O processo de interação do ser humano com seu meio ambiente é aparentemente indissociável da comparação constante entre as experiências vividas e a situação presente. Como a vinculação das experiências vividas requer esta constante consulta aos arquivos pessoais, que invariavelmente requer a ativação do sistema límbico, isto sugere que as estruturas que formam este sistema podem constituir uma espécie de central de comando ou antena, a partir da qual sinais recebidos do meio exterior são processados e transformados em informação ou sinalização molecular. Esta sinalização é processada no interior do organismo por intermédio da interação do sistema nervoso central com os sistemas imunológico e endocrinológico, que funcionando como três cérebros em constante interação, levará o organismo a responder de acordo com o conteúdo desta troca de informações.
            Apesar de ainda não aceitos pela medicina alopática tradicional, modelos de investigação dos efeitos sobre a saúde de forças, energias e campos sutis são cada vez mais comuns na literatura médica. De acordo com um interessante modelo proposto por Levin, os mecanismos pelos quais a oração pode atuar no processo de cura se baseiam em suas origens e vias operacionais (28). A primeira divisão define se a cura se origina de dentro ou de fora da natureza (natural versus sobrenatural) enquanto a segunda divisão determina se o efeito é local (efeito que não requer a invocação de concepções alternativas sobre a dimensão espaço-tempo, consciência ou outros conceitos encontrados na nova física) ou não local (eventos ou observações que apesar de distantes no espaço, podem estar correlacionados, ou influenciar um ao outro instantaneamente).
            Explicações misteriosas e controversas são desnecessárias para explicar a melhora na saúde de pessoas em resposta à oração, existindo inúmeros mecanismos locais e naturais cientificamente aceitos que explicam esses efeitos positivos.
Dentre as várias hipóteses que sustentam os efeitos benéficos da prática religiosa sobre a saúde se destacam os hábitos de vida saudáveis advogados pelos grupos que se prestam a este serviço, o que a priori melhora a qualidade de vida. Do ponto de vista puramente físico, a preparação pessoal para uma sessão de oração ou cura inclui comportamentos que por si podem alterar o estado da doença e melhorar a saúde através de reflexos em vários sistemas além do imunológico.
Existem efeitos psicossociais saudáveis, decorrentes da prática religiosa, que envolvem desde o pertencer a um grupo com o qual se identifica, até a percepção de pessoas auxiliando no dia a dia com os desafios da vida. A literatura médica sustenta que a ausência dessas ligações de apoio mútuo se iguala ou mesmo supera os efeitos do tabagismo como fator de risco para mortalidade (18, 27, 35, 36).
Finalmente, existe uma psicodinâmica contida na prática de rituais que muitas vezes permite que a pessoa exteriorize ou entre em contato com um universo interior que ela pode contatar, e que não teria como acontecer de outra forma que não o exercício ritualístico em questão. Este contato desperta emoções que pela ativação de vias psiconeuroimunológicas ou psicofisiológicas levam a estados de relaxamento, equilíbrio e plenitude (9, 28).
Em termos de efeitos placebo e nocebo, hoje se sabe que a forma que o paciente ou atribui significado à doença, experiências hospitalares ou à relação médico-paciente leva a mudanças imediatas no estado clínico, para melhor ou pior, de forma independente do contexto definido pela medicina alopática. O efeito placebo não deve ser visto apenas como uma anomalia misteriosa, mas como uma resposta fisiológica normal com alterações bioquímicas específicas como liberação de endorfinas no cérebro e substâncias que reduzem a dor e melhoram o humor, ainda que temporariamente (27).
Todos estes efeitos são locais no modo de ação e claramente naturais em sua origem sendo que nenhum deles evoca o sobrenatural ou o divino, nem mesmo algo particularmente sutil como energias ou campos.
Levin chama à atenção a existência de energias que podem influenciar o corpo físico e o curso de doenças, possivelmente liberadas pelo envolvimento religioso ou por práticas espirituais (31). Várias palavras visam nomear esta força ou energia (ex:prana, orgônio, chi), e o termo “superempírico” foi escolhido para enfatizar que sua existência e funcionamento ainda não foram demonstrados empiricamente para o consenso e satisfação da ciência em voga. Este termo não define se estas energias existem ou não, apenas que suas descrições em inúmeros trabalhos, são de origem e operação naturais ainda que de natureza sutil para a instrumentação atualmente em uso.
            Uma possível explicação para os efeitos da oração à distância se baseia na evocação de algum tipo de força ou energia superempírica que por sua vez viaja para a pessoa (objeto da prece) que foi dirigida, produzindo a cura. Esta hipótese é importante de ser considerada uma vez que constitui uma explicação potencial para estudos cujos protocolos incluem a análise prospectiva duplo-cego, como o famoso estudo de Byrd em pacientes cardiopatas internados em unidade de tratamento intensivo (5). Ou seja, alguma forma de fenômeno natural pode ser desencadeada através da oração que agindo de acordo com as leis da natureza ou com leis naturais ainda não descobertas, pode produzir cura sobre o paciente sem que seja necessária a referência a um evento sobrenatural ou processo de não localidade. Os fenômenos paranormais, da mesma forma que outras energias como o biomagnetismo ou a “energia do amorfalada por muitos entusiastas da nova era, podem ser considerados como superempíricos, em última instância mecanismos locais e naturais de explicação para o poder de cura da oração (28).
            Recentemente a medicina está se reconciliando com as descobertas da nova física e até que incorpore e considere conceitos mais verdadeiros sobre o universo natural, devemos ser cuidadosos ao denominá-la científica segundo Dossey (10). Vários estudos que envolvem efeitos que precedem suas causas, ou efeitos baseados sobre outras anomalias têmporo-espaciais, encontram dificuldades em explicar os achados positivos mesmo em termos de forças ou energias superempíricas. Para a corrente de pensamento vigente, os conceitos de espaço e tempo, por definição, negam a possibilidade de que a prece pode produzir a cura por outras vias como a psicossomática e a superempírica. Mecanismos como informação e consciência são facilmente explicáveis em termos de conceitos não locais do universo natural, como através da referência ao teorema de Bell e outros alicerces da nova física, sendo intrinsecamente naturais (10). Efeitos de cura não locais exemplificados pela conexão empática entre curador e paciente violam os princípios das leis físicas dos conceitos biomédicos atualmente aceitos, devido a erros conceituais dentro da biomedicina contemporânea e não à transcendência daquelas leis. Na verdade, a física real do universo é mais incomum do que muitas pessoas imaginam, mas uma vez compreendida, oferece explicações elegantes, lógicas e convincentes para resultados de estudos em áreas limítrofes do conhecimento (10, 31).
Finalmente, mas não menos importante, Levin alerta sobre a importância de se considerar na cura o modo sobrenatural de influência, uma vez que limitar as explicações possíveis àquelas descritas previamente significa excluir a possibilidade de algo que representou o alicerce de muitas das grandes religiões e tradições de sabedoria do homem através da história da humanidade. Negar a possibilidade de uma força sobrenatural é limitar a realidade à natureza, por definição (28).
O uso de terminologias como extensão da mente, informação, campos mórficos, energias sutis, consciência e termos afins implica em um materialismo filosófico, ainda que camuflado. Para crentes religiosos ortodoxos, mesmo algo não material como a consciência é algo criado que atesta o produto do trabalho manual de Deus, o criador, que é concebido como existente antes e após o fluxo que precede a consciência e todas as outras entidades e conceitos não físicos. Conforme os cabalistas, o ain, ou nada, que precede a criação do espaço tempo e as formas materiais e imateriais ou modelos dos quais ele emerge foi criado por Deus, que existiu antes mesmo que o nada (31).
De acordo com outra visão, como ensinam algumas tradições esotéricas, tudo no universo pode ser conceituado como freqüência ou vibração ou ainda alternativamente como informação ou campos. Desta forma, toda a natureza, todo o universo, local e não local consiste de coisas criadas por Deus que variam apenas em densidade ou sutileza ou em algum outro tipo de propriedade ainda não identificada, não conceituada ou até mesmo não conceituável por seres humanos. Cabe aqui lembrarmos a hipótese da formação causativa proposta por Sheldrake (48). O autor mostra em seu modelo experimental que quando animais de uma determinada espécie aprendem um novo padrão de comportamento, animais similares tenderão a aprender o mesmo mais rapidamente em todas as partes do mundo, como resultado de um processo denominado ressonância mórfica.
            Enquanto a corrente racionalista nega a possibilidade da ocorrência de milagres sobrenaturais, a corrente experimentalista acredita nestes milagres, mas apenas porque servem para comprovar sua em ou intuição de experiências que eles denominam divinas. Desta forma, deve ser levado em conta que enquanto o racionalista corre o risco de excluir o fantástico, o grande mistério da criação, o experimentalista corre o risco da superstição, de ver a mão de Deus onde ela não está (31).
            A cura sobrenatural pode ser conceituada como exibindo não localidade espacial quando ela toma a forma de uma resposta divina ao orador peticionário. Nestes casos, o pedido é feito de dentro da natureza para um Ser transcendente que existe ao menos parcialmente fora da natureza. Neste caso, a porção imanente da realidade, ou seja o universo natural, pode conter em cada ínfimo componente uma semente do transcendente, que assim o conecta da forma mais íntima possível com Deus.
            A cura sobrenatural pode ser conceituada como exibindo não localidade temporal através do exemplo da crença cristã na redenção oferecida por Jesus Cristo, cujo sofrimento, crucifixão e ressurreição prometeu aos salvos uma cura concedida há 2000 anos no Gólgota. De maneira similar, a não localidade no tempo pode ser vista na crença da nova era de que a cura e a saúde são direitos naturais, e que basta cada um reconhecer esta verdade para poder ativá-la (27, 28, 31).
            A idéia de algo verdadeiramente sobrenatural operando na cura, assim como um efeito que se origina em um Deus Criador ao menos parcialmente transcendente, recebido através de algo semelhante a uma graça, pode ser frustrante para cientistas que limitam a realidade a conceitos locais e mecanicistas da natureza. Mas pode ser igualmente frustrante para os mais visionários, que inclinados a atribuir características não locais ao universo sentem-se desconfortáveis com a concepção mística da realidade se estendendo além do universo natural para um domínio ocupado pela totalidade divina.
            Cabe à ciência buscar explicações rigorosas para os fenômenos observados. Em última instância, a existência de um Deus transcendente que concede bênçãos de cura não pode ser provada pela ciência, é uma questão de . O terapeuta no entanto não deve negligenciar que pode ser precisamente esta , esta rendição a Deus, o fator que torna as pessoas mais receptivas à cura sobrenatural.

A SOB UMA VISÃO MÉDICA ORIENTAL
           
Na medicina praticada no oriente, existem alguns conceitos e algumas formas de encarar o paciente e a doença que nos leva mais próximos a uma compreensão sobre como a atitude de pode ser a mediadora do processo de manutenção ou recuperação da saúde. É importante estarmos conscientes no entanto, que a ciência com seus métodos de análise e quantificação tradicionais, ainda não atingiu ou não dissecou as estruturas bioquímicas bem como que tipo de fenômenos ou energias estariam envolvidos em algumas destas propostas terapêuticas. Apesar deste espaço, ainda não preenchido, que existe entre estas propostas e correspondentes explicações científicas, existe ainda a possibilidade de se trabalhar com estes conceitos, desde que apliquemos a ferramenta do discernimento. Por exemplo, sabemos que o fogo vem sendo utilizado pelo homem desde épocas remotas da pré-história, sem que o homem soubesse ou conhecesse a química envolvida no processo de combustão. Deixar de utilizar o fogo para o homem naquela época poderia ter significado sua extinção.
Voltando ao caso de algumas das linhas de pensamentos orientais, fica claro portanto que o fato da ciência não ter dado sua validação expressa, não significa que elas não sejam válidas em absoluto. Claro que existe neste contexto um grande espaço que pode ser ocupado pelo charlatanismo, no entanto a negação ou a pré-conceituação, nada mais são que os opostos complementares daquele. Cabe então ao profissional médico ir além do seu preparo técnico e associativo de tratar sintomas com medicamentos ou remover cirurgicamente a manifestação física de uma doença. Este ir além pede um aprofundamento na filosofia, no conhecimento de si mesmo, na psicologia e principalmente na atitude de estar aberto a novas formas de perceber a realidade. Isto porque se formos bem críticos e honestos, perceberemos que a verdade não é algo absoluto, mas algo em constante transformação e aperfeiçoamento.
Devido à falta de substrato científico para explicar o conteúdo a seguir, apenas lançarei questões a fim de que as possibilidades possam ser consideradas por cada um dos leitores, na medida em que se permitirem ver diferente.
Nos Upanishads, texto filosófico hindu escrito entre os séculos VIII a.C e IV a.C pode ser encontrada a conceituação de que além do corpo físico (annamaya) que conhecemos, existiriam vários outros corpos sutis que o envolvem e que interagem com este corpo físico e entre si. Desta forma, o corpo físico estaria sendo envolto por um corpo chamado de vital (pranamaya), que por sua vez estaria envolto por um corpo ainda mais sutil feito de substância mental (manomaya), local do corpo onde o pensamento se move de acordo com aquela doutrina. Existiriam ainda outros dois corpos, sendo que o quarto engloba os três anteriores sendo o repositório dos conceitos daqueles e o quinto seria a base de toda existência. Com base neste sistema de cinco corpos e da conceituação de energia, partes da medicina chinesa e hindu se sustentam. Existem atualmente várias escolas tentando trazer esta conceituação teórica para o campo da ciência e os conhecimentos e as ferramentas que estão permitindo esta aproximação estão sendo encontrados na física quântica.
Ficam então alguns questionamentos com base no pressuposto da validade deste modelo:
1- Se o corpo vital de uma pessoa é alimentado por meio do processo respiratório, poderia haver algum tipo de cura pela harmonização na forma de respirar?
2- Será que além da poluição, poderia haver algo a mais no ar que esteja relacionado a uma vida mais saudável ou mais doente?
3- Será que este algo, caso seja descoberto vai ser explorado com fins comerciais ou constitui um patrimônio de todos?
4- Será que uma doença poderia ser diagnosticada no corpo vital antes mesmo que tenha manifestação no corpo físico? Seria este achado um grande avanço na medicina preventiva?
5- Será que uma doença poderia ser diagnosticada nos corpos ainda mais sutis deste sistema de 5 corpos? Seria esta a base para uma medicina preventiva de custo reduzidíssimo para o orçamento de uma nação?
6- Se as informações que recebemos no dia a dia são processadas no corpo mental, um noticiário em horário nobre revestido de notícias catastróficas ou uma revista com conteúdo de guerra, comentários sobre a vida alheia ou sobre doenças incuráveis poderiam estar levando uma pessoa a adoecer pelo simples fato de acreditar no que está sendo mostrado?
7- Será que um corpo mental equilibrado e conectado com sua essência pode refletir uma vida que não vai conhecer a doença? Seria esse um dos caminhos da cura pela atitude de ?
8- Será que as propagandas podem influenciar o corpo mental, condicionando uma pessoa a mudar seu comportamento e conseqüentemente adoecer?
9- Será que propagandas de remédio não contem em si a semente da doença na forma de sugestão?
10- Será que a como ferramenta de religação seria o elo de conexão entre este sistema de corpos desta antiga filosofia?
11- Será que a seria o elixir mágico para uma vida saudável que nunca vai conhecer a doença? Para aqueles que conheceram a doença, seria a um dos ingredientes para reaver a saúde?
            Estamos no mundo e aprendemos todos os dias, de forma que hoje sabemos um pouco mais que ontem e um pouco menos que amanhã. No entanto, não esqueçamos que uma pergunta carrega em seu seio a semente da resposta e que não necessariamente a mesma pergunta terá a mesma resposta para diferentes pessoas. Cada pessoa responde uma pergunta de acordo com o nível de consciência que atualmente ela possui. Fica a sugestão de que sejamos sempre compassivos com aqueles que porventura tenham respostas diferentes das nossas, uma vez que ainda não é possível saber quem está mais alinhado com a verdade até que o senhor tempo resolva mostrar.

PERSPECTIVAS NO ESTUDO DA

De acordo com Goswami, estamos passando por um nível crítico de confusão em que nossa nos componentes espirituais da vida (realidade vital da consciência, valores, Deus) está sendo corroída sob o ataque implacável do materialismo científico. Aceitamos o materialismo como dogma apesar de sua incapacidade para explicar as experiências mais simples de nosso cotidiano. O materialista sustenta que os processos mentais subjetivos, produtos da consciência, são apenas epifenômenos do mundo físico e podem ser reduzidos à questão do cérebro material. No entanto estudos no campo da física quântica sugerem que nossas escolhas, enquanto produtos da consciência, interferem de forma decisiva na maneira como a realidade física se manifesta (13).
Defender o familiar e rejeitar o desconhecido é típico da natureza humana segundo Dossey (10). O autor relata um artigo sobre as ações remotas da consciência que foi rejeitado com o seguinte comentário do avaliador: “Este é o tipo de coisa que eu não acreditaria mesmo que existisse”. Segundo Stephen Hawking nós não temos idéia de como o mundo é realmente, tudo o que fazemos é construir modelos que parecem comprovar nossas teorias. De fato existem até mesmo modelos de realidades espaço tempo que propõem serem possíveis interações entre o passado e presente, que constituem a base para a compreensão dos efeitos da oração retroativa (10, 41).
Quando se aplica o conceito da teoria dos sistemas ao conceito de energia, surgem implicações novas e de longo alcance não para a física moderna como para a medicina. O coração da teoria dos sistemas se baseia no conceito de interações dinâmicas, ou seja: um sistema pode interagir com outro sistema de forma bastante complexa (49). Por definição os sistemas em qualquer nível (físico, biológico, social, ecológico) estão abertos à informação, energia e matéria em vários graus e portanto podem interagir com outros sistemas em graus variados. Da mesma forma que a ressonância entre dois diapasões pode refletir uma interação dinâmica sincronizada no tempo, a interação dinâmica entre sistemas em relação mútua de realimentação recorrente, naturalmente cria memórias dinâmicas pelas suas interações (12). Estes fatos podem constituir a base para a compreensão de fatos como a retenção de memórias por moléculas de água (homeopatia) e da relação entre a oração e processos de cura, podendo favorecer a prática da medicina de forma mais integrada (52).
            Estudos realizados em transplantados cardíacos, em que a dinâmica energética da teoria dos sistemas é aplicada ao coração (cardiologia energética), sugerem que por um processo de ressonância eletromagnética, o cérebro do receptor pode processar informações do cotidiano do doador contidas em seu coração (47). Estes estudos sugerem que a consciência humana está se mostrando uma variável experimental importante a ser considerada na prática médica.
Recentemente, a partir de experimentos interessantes na área da biologia quântica com DNA e quantificações de campos eletromagnéticos na subestrutura do vácuo, foi descrito o “efeito DNA fantasma”. De acordo com estes estudos, o campo do “DNA fantasma” pode ser acoplado a campos eletromagnéticos e ser seguramente detectado e identificado com o uso de técnicas ópticas padronizadas. Atualmente este modelo é proposto como base para uma teoria física da consciência, ou mesmo uma primeira visão de como a realidade física está conectada a partir de uma grande teia por meio de campos energéticos sutis (44, 49, 52).
Segundo Ken Wilber, para um indivíduo passar a outro estágio de consciência ou seguir adiante é necessário que antes prove um determinado estágio totalmente. De forma que enquanto não houver a desidentificação com uma determinada forma de ser, dificilmente ocorrerá um pensamento que levará a uma mudança na forma de viver. A vontade e a intenção auxiliam na mudança de consciência, que pode ser facilitada pela introspecção, troca de idéias com amigos, pela terapia, pela meditação além de modos que absolutamente ninguém compreende como simplesmente pelo ato de viver (53).
Na visão de Levin, o modelo psicossomático é apenas um portão transitório para uma perspectiva mais profunda de prática médica que está começando a emergir, que ele denomina de teossomática. Segundo esta concepção, uma imunidade populacional poderia ser evocada a partir da prática da espiritualidade, na forma de um campo mórfico, com conseqüentes menores taxas de morbidade e mortalidade além de melhores prognósticos e maior longevidade (31,48).
Todos os estímulos que chegam aos nossos corpos os influenciam de alguma maneira e podem contribuir para seu equilíbrio ou desequilíbrio. A estrutura de crença e o fortalecimento da do ponto de vista neurobiológico vão se desenvolver e ser construídos em cada um de nós também com base na qualidade das informações que obtemos no meio em que vivemos. Desta forma, assistir televisão ou ser bombardeado por um letreiro nas ruas com a sugestão de se automedicar antes de procurar auxílio médico, estará fortalecendo uma crença na doença (na melhor das hipóteses) e no consumo de drogas subliminarmente. Cultivar pensamentos de saúde, equilíbrio e harmonia devem ser uma constante na vida daqueles que desejam ter um período existencial saudável e aproveitável. O próprio medo de determinados acontecimentos pode ser a raiz das experiências pertinentes que precisam ser aprendidas para uma maior harmonização do plano existencial.
Devemos portanto estar atentos, pois muitas vezes aquilo que é proposto como ferramenta ou método para evolução pessoal, pode estar escondendo ou nos impedindo de ver aquilo que já somos. Estar atento e presente a cada passo que damos na vida pode ser uma forma de evitar alguns resultados indesejáveis. Para os que já passaram do ponto, a fé pode ser a ferramenta de religação com sua verdadeira vocação enquanto ser humano.

CONCLUSÃO
            A espiritualidade ainda é uma área que deixa muitos profissionais médicos desconfortáveis, uma vez que nas escolas médicas e programas de educação continuada este tema tem uma abordagem bastante limitada. Além de muitos médicos não terem o treinamento necessário, isso exigiria gastar um tempo adicional com pacientes e entrar em discussões que envolvem áreas limítrofes do código de ética médica. De qualquer modo, é importante não negligenciarmos aquela população de pessoas doentes em que o cuidado médico por meio de uma anamnese espiritual pode ajudar na forma como paciente e família interagem com o contexto de doença. Manter uma atitude permeável a novas formas de pensar é importante para que mudanças necessárias em modelos consagrados porém desgastados possam ser instituídas de forma harmoniosa.


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