Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

ESPERANÇA



Era um dia como amanhã

Não tinha som, luz, nada

Era um dia cheio de espaço

Cheio de esperança

Tudo era esperado

Não havia desespero

Quando ele chegou já era tarde

Não havia tempo que compreendesse

Menos ainda para compreender

Mesmo assim Ele veio

E ficou.


SUICÍDIO ESPIRITUAL


O suicídio físico é uma opção desesperada e pode ser consciente ou inconsciente. No primeiro caso um ato abrupto de desespero, no segundo decorrência de atitude ignorante que se perpetua no tempo (hábito alimentar precário, uso de drogas lícitas e ilícitas, sedentarismo, pouca leitura, hábito musical pobre). Estatísticas atuais apontam que a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo. No Brasil os dados mais recentes apontam uma média de 32 suicídios por dia.
Mas, o suicídio mais surpreendente é o espiritual. Quando o materialista se descuida de seus veículos (corpos) suprafísicos, demonstra coragem surpreendente. Veículos que a tradição designa como corpo vital, corpo de desejos e mente. Sim, não é preciso ver para saber. A pessoa sensível pressente que a vida é o “mistério” que anima a matéria, mas que não pode ser encontrada quando se disseca a matéria em sua intimidade. Quem deseja deveria refletir de onde vem as tendências desejosas e quem pensa deveria fazer investigação semelhante em relação ao pensamento. Desejo e pensamento, qualidades materiais de outra natureza que não a física.
A visão, o sentido predileto da atualidade, nos impede ver além das aparências. Mas veja você mesmo então. Nascer arredondado, ver o corpo esticar e crescer, a seguir ficar enrugado, pontudo e desvitalizado é percebido na superfície, mas que tipo de forças determinam esse efeito sobre a matéria animada?
O suicídio espiritual não é tão falado quanto o suicídio físico. Finge-se não ver, mas quem teria olhos para isso não é mesmo?
A pessoa que vive em espírito torna a vida material leve, torna-se permeável à graça. A pessoa que vive para a matéria é cega à luz do espírito e sua vida se torna opaca, escura, densa, azeda, cheia de reclamações e emperrada. É aquela pessoa que não entende o porquê de certas situações (padrões) se repetirem em sua vida. A graça, assim como a graxa, serve para lubrificar. A primeira lubrifica as engrenagens da vida, a outra as engrenagens da matéria. Em outras palavras, uma vida sem graça é uma vida sem graxa, assim como uma vida sem graça é também sinônimo de desgraçada.
Para que a graça permeie o corpo humano, o mesmo precisa estar poroso em todas as suas instâncias. Assim como a obstrução dos poros da pele leva à morte rapidamente, a obstrução dos poros dos corpos suprafísicos (corpo vital, corpo de desejos e mente) leva à morte lenta. Essa morte lenta se apresenta aos olhos do observador como as pessoas que apenas existem, à semelhança das pedras. Viver é atributo do reino humano; fundamental para isso é a consciência dimensional adequada do que seja SER HUMANO. A vida material, horizontal, cotidiana da família, do trabalho, da política, da filosofia niilista, da diversão é apenas palco, sombra e efemeridade. Sem a graça, a vida material culmina em cadeia, hospital, falta e inconformidade. Mas cadeia, hospital, falta e inconformidade, lembremos, são escolhas pessoais. Toda escolha, entretanto, é permitida a Fausto, em Goethe, ao se perder para se encontrar.


Se afastar da graça (ser desgraçado) por opção ou por ignorância é suicídio espiritual. O espiritual diz respeito a tudo o que está além dos cinco sentidos. O interesse também é um sentido que podemos vivenciar e experimentar. Mais interesse e menos indiferença é alternativa válida na profilaxia do suicídio espiritual.



domingo, 9 de setembro de 2018

ASTROLOGIA - ELMAN BACHER



A astrologia é para o estudante Rosacruz uma fase da religião, basicamente uma ciência espiritual. Mais que qualquer outro estudo, ela revela o homem a si mesmo.
Nenhuma outra ciência é tão sublime, tão profunda e tão abarcadora. Ela oferece uma representação pictórica dinâmica da relação entre Deus (o Macrocosmo) e o homem (o Microcosmo), mostrando-os como algo fundamentalmente uno.
A ciência oculta, ao investigar as forças sutis que agem sobre o ser humano, o Espírito, e seus veículos, descreve seus efeitos com a mesma precisão que a ciência acadêmica o faz com relação as reações que ocorrem no mar, no solo, nas plantas e animais, decorrentes dos raios do sol e da lua.
Com este conhecimento podemos determinar o padrão astrológico de cada indivíduo e conhecer as fortalezas e as debilidades relativas das várias forças atuantes em cada vida. De acordo com o que tenhamos alcançado deste conhecimento, é possível começar a construção sistemática e científica do caráter – e caráter é destino!
Existem períodos e estações cosmicamente vantajosos para o desenvolvimento de certas qualidades, correção de maus hábitos e eliminação de inclinações destrutivas.
A ciência divina da astrologia revela causas ocultas que trabalham em nossas vidas. Assessora o adulto com respeito à vocação, os pais na orientação dos filhos, o mestre na orientação dos discípulos, o médico no diagnóstico das enfermidades; prestando-lhes, desta maneira ajuda em qualquer situação.
Nenhuma outra matéria ao alcance do conhecimento humano até o presente momento contém as possibilidades estendidas aos estudantes de astrologia na ajuda aos demais, no digno caminho de deuses-em-formação, a um entendimento maior da lei universal e à percepção de que estamos eternamente seguros nos braços carinhosos do infinito e ilimitado Ser.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

SOBRE A ASTROLOGIA E SUA COMPREENSÃO


“Falo e respondo enquanto não sou.
Quando souber, não mais.
Porque então não será mais preciso.
Néscio ainda acredito em explicações.
Quando não souber então serei; e quando for, não será mais preciso saber,
Apenas caminhar.”


            A astrologia representa uma “conversa” entre duas naturezas (humana e divina) e o mapa astrológico, um tabuleiro, onde pode ser observado o plano para o nascimento da natureza divina no humano. A distribuição zodiacal com seus doze signos mostra como as forças divinas (suprafísicas) se manifestam no plano terreno (físico); a distribuição das doze casas sobre as quais os signos se distribuem mostra a forma como aquele ser se constitui, assim como ele dispõe de suas potencialidades naturais.
O mapa astrológico é uma representação arquetípica da manifestação física e auxilia na compreensão de como o sistema de veículos (físico, etérico, desejos e mente) estão alinhados entre si, além de sugerir simbolicamente o estado da relação personalidade, alma e espírito em cada indivíduo (vide roda da fortuna).
Desta observação deve nascer o interesse em comparar e meditar seu mapa natal (natureza humana) com o mapa zero Áries, uma nuance do divino na linguagem astrológica, entre outras. Na interação ou no atrito entre estas representações surge uma janela de possibilidade para o nascimento do indivíduo na plenitude de seu potencial.
Existem livros que explicam ao estudante os símbolos e os valores básicos que estruturam o pensar astrológico cotidiano e convencional. Estes livros são muito importantes para um primeiro contato e seus potenciais.
No entanto, a própria astrologia parece ser estrutura viva que evolui conjuntamente ao humano, seu co-criador. Ela é ferramenta bastante interessante para aprofundar-se em questões pessoais existenciais. O seu aprendizado pode ocorrer em grupos, aulas e cursos, mas a interpretação do tema de cada pessoa é território sagrado a ser palmilhado individualmente e apenas na medida da capacidade que a pessoa tenha aprendido a ver por si só. A sugestão de evitar o olhar alheio decorre de não sabermos a condição evolutiva de quem encontramos no caminho, sendo que cada um interpreta segundo suas próprias concepções. Do mesmo modo que a baleia não cabe na gaiola de um pássaro, alguns seres não caberão nas interpretações de seres de “menor porte”. De fato, não é possível saber o tamanho da consciência bem como do alcance espiritual dos outros seres com quem interagimos.
Por isso se torna importante o estudo concomitante das mitologias, das filosofias, da história do mundo; tentativas de contornar abordagens técnicas e materialistas sobre o fenômeno vida – manifestação ímpar de cada ser, com sua peculiar missão existencial.


domingo, 10 de dezembro de 2017

ASTROLOGIA E SAÚDE - EXISTE RELAÇÃO?




Um dia houve a separação fundamental entre as ciências físicas e espirituais. A despeito disso, grupos preservaram segredos esotéricos da medicina e da astrologia, sustentando o conhecimento interpretado sob a luz da mística, sendo os segredos espirituais restaurados, ocultos do vulgo e dados àqueles que anelavam pelas causas do espírito.
Hoje observamos educadores que ignoram os valores espirituais; vemos a ciência material tornar-se uma instituição orgulhosa, que ignora a alma, fascinada pela matéria não deixando lugar para a mística. Como resultado, temos uma desilusão geral e um abatimento decorrentes da insignificância das coisas materiais: fuga, desespero e tristeza. O atual interesse renovado pela Astrologia como recurso de cura resgata o pensamento de Paracelso, expoente do pensamento vivo que dizia:
Assim como existem estrelas nos céus (macrocosmo), também há estrelas dentro do ser humano. Portanto, nada existe no universo que não tenha seu equivalente no microcosmo (o corpo humano)” e “O espírito do ser humano deriva das constelações (estrelas fixas - sóis); sua alma, dos planetas; e seu corpo, dos elementos”.
O Macrocosmo é a difusão infinita do cosmos em suas ilhas, galáxias, nebulosas, estrelas, planetas, corpos celestes onde inumeráveis formas de vida estão sempre evoluindo. O Microcosmo são as células de nosso corpo, incontáveis como as estrelas do céu. A chave mestra que permite acesso à correlação entre macro e microcosmos e que favorece a compreensão dos mistérios é:
“Como é em cima, assim é embaixo”.
A Astrologia pode ser vivenciada como uma “tela” que permite o vislumbre da inter-relação das forças entre o Macrocosmo e o Microcosmo, entre o externo a nós e o nosso interior, além de ser um instrumento da realização da Lei de Consequência ou Lei de Causa e Efeito. Assim, dentro de perspectiva que admite a possibilidade do renascer, alguns pensamentos descrevem observações pertinentes ao pensar astrológico:
· “Viver para comer ao invés de comer para viver”, pode implicar futuramente na colheita de complicações no aparelho digestivo.
· A excessiva irritação, intolerância, impaciência, impetuosidade, podem implicar futuramente na colheita de desordens circulatórias e seus efeitos colaterais em todo o sistema: apoplexias, derrames, varizes, pressão sanguínea irregular, etc.
· A impulsividade e o rancor podem implicar futuramente na colheita de úlceras, artrites, disfunções glandulares, insuficiência cardíaca, pressão baixa, problemas linfáticos.
· A atividade excessiva em função do mal, caracterizada por comportamentos maleficamente agressivos, violentos e vingativos pode implicar futuramente na colheita de baixa energia dinâmica assim como de ausência de resistência a doenças; membros defeituosos, acidentes com perda de membros; articulações sujeitas a artrites; dores musculares, reumatismo e enxaquecas.
· O abuso da função sexual e sua utilização apenas para a gratificação dos sentidos pode implicar futuramente na colheita de falta de vitalidade, vontade fraca ou até debilidade mental.
· A recusa em gerar ou aceitar o filho gerado, criá-lo e educá-lo pode implicar futuramente na colheita de disfunções nos órgãos geradores, predisposição ao câncer de próstata ou laringe, útero, seios e estômago.
Felizmente, SÓ COLHEMOS AQUILO QUE SEMEAMOS.
A grande maioria das doenças origina-se no comportamento negativo face às circunstâncias que, quase sempre, envolvem nosso semelhante. Trata-se do antigo e misterioso conselho dado por Cristo no Sermão da Montanha: “se qualquer membro do teu corpo te escandalizar (o mau uso) arranca-o e joga-o fora...” Justo o que fazemos literalmente antes de renascer!
Enquanto os exames médicos mostram as condições de nosso corpo no momento da coleta, o horóscopo mostra as enfermidades latentes e ativas em toda nossa vida terrestre. Deste modo temos tempo suficiente para: prevenir-nos, minimizar os efeitos e até não desenvolver essa enfermidade, pois: “as estrelas impelem, mas não obrigam”!
Através da astrodiagnose e terapia é possível conhecer os melhores métodos para efetuar a cura, assim como o melhor tratamento para cada paciente, além de ser possível observar o caráter do enfermo (forte, débil, negativo, emocional). A partir desse estudo, é possível saber o dia em que as crises tendem a se manifestar e quando as influências adversas diminuirão.
Estamos sujeitos a enfermidades físicas, psíquicas, sociais, mentais e espirituais. De acordo com a ciência oculta, construímos nosso Corpo Denso e o controlamos. Havendo doença nele somos levados a concluir que não fizemos nosso trabalho de forma ideal. Isso é expresso nas duas classes de enfermidades apontadas em um horóscopo:
·        Latentes
o São indicadas pelas aflições planetárias no horóscopo quando nascemos.
o Podem permanecer latentes durante toda a nossa vida terrestre.
o Dependem do nosso modo de vida: se não respondemos às tendências indicadas pelas aflições planetárias, elas não se manifestarão.
o Podemos atuar com nossa vontade até o ponto de anular as indicações de nosso horóscopo.
·         Ativas
o São indicadas pelas aflições planetárias no horóscopo quando nascemos, mas nós respondemos a essas aflições, através: de pensamentos, sentimentos, palavras ou atos negativos, inferiores e destrutivos.
o As posições planetárias progredidas indicam os momentos de atuação.
o Consertando o nosso modo de vida: aliviaremos, suspenderemos ou seremos curados da enfermidade.
Para aplicarmos ao estudo dessa ciência e arte de obter conhecimento científico das enfermidades, suas causas, segundo indicações dos planetas, e dos meios de curar é necessário:
·   Dedicar-nos ao conhecimento da fisiologia e anatomia de nosso Corpo Denso.
·   Usar esse conhecimento altruisticamente na ajuda aos sofredores.
·   Esquecer o próprio horóscopo e dedicar o conhecimento a ajudar os outros.
·   Fazer os exercícios de Retrospecção e de Concentração diariamente.
·   Praticar mais a devoção no dia a dia.
·   “Pregar o Evangelho e curar os enfermos”.

O PODER DOS MANTRAS – VIVER É COMUNICAR

Comunicar é parte essencial do viver. Essa ligação com o outro - por meio de uma vibração sonora, escrita ou mental - gera um intercâmbio que transcende as palavras e nos sensibiliza para um “mantra”, seja ele uma ideia, uma crença, um comportamento ou um sonho.
Cada um interioriza e irradia as informações que reverberam em seu íntimo e, dependendo do conteúdo, atrai alegria ou tristeza, saúde ou doença, união ou separação. Na visão de Michel Maffesoli (2003) a comunicação entre as pessoas é o cimento social, o que promove o religare (religação). Conhecido pela popularização do conceito de tribo urbana, o sociólogo francês afirma que só existimos de fato e nos compreendemos na relação com o outro, destacando a falta de sentido do individualismo.
O poder da palavra é evidenciado por Braden (2007) no livro “O Efeito Isaías”, segundo o qual cada ser humano cria seu código de conduta a partir das informações que recebe, fazendo escolhas a favor ou contra a vida. Assim, as enfermidades, por exemplo, podem derivar de escolhas e ações individuais e não apenas de causas exteriores. Percebe-se a partir dessas observações que o uso consciente das palavras é uma forma de resgatar a relação perdida consigo mesmo, com as outras pessoas e com o Universo. É a “linguagem que move montanhas”, segundo Braden.
Em seu cotidiano, observe que ao chegar de mau humor a um local, as outras pessoas não lhe parecerão bem também. Percepção que muda completamente a partir de atitude mais disponível e sorriso no rosto. E é isso mesmo: o corpo serve para compartilhar experiências individuais de raiva, ciúme e ódio, mas também de amor, compaixão e perdão.
Ainda segundo Braden (2007), há cerca de 500 anos antes de Cristo, na cultura essênia, já se dizia que tudo o que se pensa, fala ou faz constrói uma prece permanente, semelhante a um estado de constante oração.
De fato, cada um, nessa prece ativa dos “mantras” dominantes, projeta sua realidade e define a qualidade de seus relacionamentos e saúde, além da presença, ou não, de abundância na vida. Novamente, Jesus Cristo, segundo Mateus nos recorda isso ao dizer: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem”.
De acordo com a filosofia hermética, a realidade se compõe de vários "tecidos" que se interpenetram, qualificando um plano físico (território de estudo das ciências básicas convencionais) e vários planos suprafísicos (território de estudo das ciências ocultas tradicionais). Resumidamente, a região química do mundo físico é envolto e permeado pela região etérica, que por sua vez é envolvido e transpassado pela "matéria" da região do mundo do desejo, que é cercada e imersa na "matéria" da região do mundo do pensamento.
Nesse arcabouço, as afirmações manifestas, mental ou verbalmente, intencional ou inconscientemente, ganham força, especialmente quando aliadas a sentimentos ou emoções intensas, atraindo e sintonizando outras vibrações similares presentes na região etérica do mundo físico e nas regiões inferiores do mundo do desejo (Heindel, 1909).
Nas regiões inferiores desses mundos, se encontram vibrações destrutivas de medo, pobreza, doença, fracasso e miséria, assim como nas regiões superiores são encontradas vibrações construtivas de prosperidade, saúde, sucesso e felicidade (Hill, 2009).
Ao seguirmos essa linha de raciocínio fica claro que um pensamento “potencializado” pela emoção é semelhante a uma semente que, plantada em terra produtiva, brota e se multiplica em milhares da “mesma” espécie.  Um “poder” de criação incalculável ao considerarmos que a mente humana gera, em média, 60 mil pensamentos por dia (Byrne, 2015), sendo 60% a 70% deles negativos (Lucas, 2013).
O poder da palavra associada a emoções genuínas é genialmente ilustrado por Tolstói (2001) no conto “Os Três Eremitas”. Ele conta a história de um sacerdote que, em visita a uma ilha distante, decide ensinar como rezar a três eremitas que lá habitavam. Com suas crenças, ele se indigna com a forma simples dos eremitas pedirem a proteção divina: “Vós sois três. Nós somos três. Tenha piedade de nós”.
Em sua função pedagógica ele dedica um dia inteiro a ensinar o “Pai Nosso”. À noite, já se afastando em seu navio, o sacerdote é surpreendido por uma luz distante no horizonte. Ele percebe então os três eremitas correndo sobre as águas do mar rumo ao barco, em reverência e pesar, a lhe perguntar sobre uma parte esquecida do Pai Nosso. Diante de insólita situação, o sacerdote se rende à simplicidade da prece proferida por eles, com a pureza d’alma que os caracteriza (Tolstói, 2001).
De forma lúdica, o poder dos conteúdos veiculados foi explorado em filmes como “A Origem” (Inception), ficção científica onde ideias são inseridas na mente das pessoas por meio dos sonhos que se confundem com a realidade, e “Poder Além da Vida” (Peaceful Warrior), baseado em fatos reais onde um ginasta se recupera de grave lesão ao reverter sua forma de pensar por meio de “mantras” recebidos de um conselheiro (ou mestre interior).
Os dois filmes explicitam os efeitos danosos de temáticas negativas, nos âmbitos psicológico e emocional, assim como a possibilidade de alcançar o equilíbrio, saúde e sucesso a partir do uso consciente das palavras. Conteúdo semelhante é mostrado de forma jocosa na comédia “As Mil Palavras”, onde a vida do personagem central é condicionada ao número de palavras emitidas e à coerência de seu discurso com suas ações.

Assim, salta aos olhos o fato da qualidade de vida do ser humano guardar relação íntima com o pensar e o sentir. Amigo leitor como estão seus pensamentos e sentimentos, rendidos ao medo consequente ao viver de modo reprodutivo, ou imersos na coragem do viver produtivo?

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O PODER DOS MANTRAS - UM UNIVERSO MÂNTRICO


Dizem que, no início dos tempos, um mantra ecoou do hálito divino: o OM. Esse som primordial teve em si o poder de dar forma ao caos, permitindo a criação do mundo em suas diferentes dimensões e seres. Presente no Universo ainda hoje, ele simboliza o Ser Supremo e entoá-lo conduz a um estado de introversão e harmonia; libera energias letárgicas e pode levar ao contato com a Consciência Transcendental, DEUS.
A capacidade do Som de nos conectar com a essência divina é objeto de vários estudos esotéricos. É descrita, por exemplo, uma relação entre a nota tripla AUM e as diferentes dimensões do nosso corpo, e da nota espiritual OM com nossas aspirações mais elevadas. Segundo Anglada (Na obra: Magia Planetária Organizada), o OM é a expressão vibratória da Alma em seu próprio plano, enquanto AUM é a vibração da alma em encarnação (a personalidade) – sendo “A” expressão da mente, “U” do corpo de desejos (ou corpo astral) e “M” do corpo físico.
Em busca dessa conexão e do estado de lucidez decorrente, o OM e outros milhares de mantras sagrados são repetidos diariamente em várias linhagens religiosas nas diferentes partes do mundo. De forma similar, são empregados os vocábulos AMÉM e AMIN, que significam “Assim seja!”, como um pedido de intervenção divina na criação de algo benéfico. Também orações como a Ave-Maria e o Pai-Nosso são proferidas em busca desta confirmação e estado d’alma.
Mas, à semelhança do som repetitivo do Universo, tudo à nossa volta tem caráter mântrico, repetitivo, a começar pela batida do coração. Do nascimento à morte, imitamos o Universo e organizamos o caos interior, construindo realidades a partir de “mantras”. São decretos transmitidos pela família e pela sociedade de forma consciente ou inconsciente, e que indicam ou mesmo formatam silenciosamente a forma “adequada” de sentir, proceder e viver.

Estas frases dominantes ou palavras de ordem expressam ideias ou valores, mobilizam forças psíquicas e criam crenças e padrões de conduta. A cada segundo, constroem a identidade e o campo mental / energético / espiritual das pessoas, de comunidades e de nações. Seu poder de condicionamento independe da forma de transmissão, seja oral, escrita ou telepática, assim como do teor, positivo ou negativo. Esses verdadeiros “mantras” concretizam uma verdade universal trazida à luz por Cristo e expressa no evangelho de Mateus como: “Pedi, e vos será concedido” (Mateus 7:7).

quarta-feira, 11 de maio de 2016

SOBRE A MORTE E O MORRER

Por: Rubem Alves



Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “não chore, que eu vou te abraçar...” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: “E fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas pobres humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida seja só isto...”.
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”.
Mas tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados em meu corpo, contra a minha vontade, já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.
Outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama – de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir o seu dever; debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida“ é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano?
O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo o paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000 desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe das UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietá” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.



segunda-feira, 16 de junho de 2014

CORPUS CHRISTI - A "PEDRA ANGULAR"

Veja também: CORPUS CHRISTI - DO LATIM CORPO DE CRISTO
 
Texto escrito há 74 anos atrás por: René Guénon(*) (1)
O simbolismo da "pedra angular" na tradição cristã é baseado neste texto: "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a principal pedra de ângulo" ou, mais precisamente, "a cabeça de ângulo" (caput anguli)(2). O estranho é que esse simbolismo é quase sempre mal compreendido, como resultado de uma confusão comumente feita entre a "pedra angular" e a "pedra fundamental", à qual se refere este outro texto ainda mais conhecido: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela"(3). Tal confusão é estranha, dizemos, porque do ponto de vista especificamente cristão equivale a confundir São Pedro com o próprio CRISTO, visto ser este designado de forma expressa como "pedra angular", tal como mostra esta passagem de São Paulo, que, além do mais, distingue-a claramente das "fundações" do edifício: "Sois um edifício construído sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, com o próprio Jesus CRISTO como pedra principal do ângulo (summo angulari lapide); nele, bem ajustado, o edifício inteiro se ergue em templo sagrado, no Senhor; e vós, também, nele sois co-edificados para serdes uma habitação de Deus, no Espírito(4). Se o equívoco em questão fosse apenas moderno, sem dúvida não haveria motivo para surpresa, mas parece já encontrar-se em tempos nos quais não é mais possível atribuí-lo pura e simplesmente à ignorância do simbolismo. Somos portanto levados a perguntar se, na realidade, não se trataria antes, na origem, de uma “substituição” intencional, que explica o papel de São Pedro como "substituto" de CRISTO (no latim vicarius, correspondendo nesse sentido ao árabe Khalîfah). Se assim for, esse modo de “velar” o simbolismo da "pedra angular" parece indicar que esta era algo que encerrava um particular mistério, e veremos a seguir que tal suposição está longe de ser injustificada(5). Seja como for, existe nesta identificação das duas pedras, mesmo do ponto de vista da lógica simples, o que é claramente uma impossibilidade, desde que se examinem com um pouco de atenção os textos citados acima: a "pedra fundamental" é colocada em primeiro lugar, exatamente no início da construção de um edifício (e é por isso que ela é também denominada "primeira pedra")(6). Consequentemente, como poderia ela ser transferida durante o desenrolar da própria construção? Para que assim seja, é preciso ao contrário que a “pedra angular” tenha uma tal forma que não possa ainda encontrar seu lugar. E de fato, como veremos, ela só pode encontrá-lo no momento da conclusão do edifício como um todo, tornando-se, assim, em realidade a "cabeça de ângulo".

Em um artigo já mencionado(7), Ananda Coomaraswamy observou que a intenção do texto de São Paulo é evidentemente representar CRISTO como o único princípio do qual depende todo o edifício da Igreja, acrescentando que "o princípio de uma coisa não é nem uma de suas partes em relação às demais, nem a totalidade de suas partes, mas sim aquilo a que todas as partes são reduzidas numa unidade sem composição". A "pedra fundamental" (foundation-stone) pode também em certo sentido, denominar-se a "pedra de ângulo" (corner-stone) tal como se faz habitualmente, porque ela é colocada em um ângulo ou em um canto (corner) do edifício(8), mas ela não é única nesse caso, pois o edifício tem necessariamente quatro ângulos. Mesmo que se queira falar da “primeira pedra” em particular, ela não difere em nada das pedras de base dos outros ângulos, com exceção de sua localização (9), e não se distingue nem por sua função nem por sua forma, nada mais sendo, em suma, que um dentre os quatro suportes iguais entre si. Seria possível dizer que qualquer uma dessas quatro corner-stones “reflete” de alguma forma o princípio dominante do edifício, mas não se poderia de forma alguma considerá-la como o próprio princípio(10). Além disso, se a questão estivesse aí na verdade, não se poderia logicamente falar "da pedra angular", visto que, de fato, seriam quatro. Esta, portanto deve ser em essência alguma coisa diferente da corner-stone, entendida no sentido corrente de "pedra fundamental", tendo apenas em comum o caráter de pertencerem ao mesmo simbolismo "construtivo".

            Acabamos de nos referir à forma da "pedra angular", o que é de fato um ponto particularmente importante, pois esta pedra tem uma forma especial e única, que a diferencia de todas as outras, e também porque não só não encontra seu lugar no transcurso da construção, como que ainda os próprios construtores não podem sequer entender qual seja sua finalidade. Se eles a compreendessem, é evidente que não a rejeitariam e se contentariam em guardá-la até o fim. Porém, perguntam-se: “o que farão com a pedra”? – e não podendo encontrar uma resposta satisfatória para esta questão decidem, acreditando-a inutilizável, “lançá-la entre os entulhos” (to heave it over among the rubbish)(11). O destino da pedra só pode ser compreendido por outra categoria de construtores, que não intervém ainda nesse estágio: são os que transpuseram “o esquadro e o compasso”, e por essa distinção é preciso naturalmente entender a diferença das formas geométricas que esses dois instrumentos servem para traçar, isto é, o quadrado e o círculo, que simbolizam de um modo geral, como se sabe, a Terra e o Céu. Aqui, a forma quadrada correspondente à parte inferior do edifício, e a forma circular a sua parte superior, que, nesse caso, deve ser constituída por um domo ou uma abóbada(12). De fato, a "pedra angular" é na realidade uma “chave de abóbada” (Keystone). A. Coomaraswamy diz que, para exprimir o verdadeiro significado da expressão "tornou-se a cabeça do ângulo” (is become the head of the corner) poder-se-ia traduzi-la por is become the keystone of the arch, o que é perfeitamente exato. E assim essa pedra, tanto por sua forma, quanto por sua posição, é, com efeito, a única no edifício todo, tal como deve ser para poder simbolizar o princípio do qual tudo depende. Poderá parecer surpreendente que a representação do princípio seja apenas colocada em último lugar na construção; esta, porém em seu conjunto, poderíamos dizer, está ordenada em relação a ela (o que São Paulo expressa ao dizer que "nela o edifício inteiro se ergue em templo sagrado, no Senhor"), e que é nela finalmente que encontra a sua unidade. Existe aí, também, uma aplicação da analogia, como explicado por nós em outras ocasiões, entre "primeiro" e o "último" ou o "princípio" e o "fim": a construção representa a manifestação em que o princípio só aparece como o arremate último. É precisamente em virtude dessa mesma analogia que a "primeira pedra" ou "pedra fundamental", pode ser considerada como um "reflexo" da "última pedra", que é a verdadeira "pedra angular".

O equívoco implícito em uma expressão como corner-stone repousa em definitivo sobre os diversos sentidos possíveis da palavra "ângulo". Coomaraswamy observa que, nas diferentes línguas, as palavras que significam "ângulo" estão com frequência relacionadas a outras que significam "cabeça" e "extremidade": no grego kephalê, “cabeça”, e na arquitetura “capitel” (capitulum, diminutivo de caput) só pode aplicar-se a um topo; porém akros (sânscrito agra) pode indicar uma extremidade em qualquer direção, ou seja, no caso de um edifício, tanto o topo como um dos quatro “cantos” (sendo esta última palavra, coin no francês, etimologicamente aparentada do grego gônia, “ângulo”) ainda que muitas vezes se aplique de preferência ao topo. Porém, o mais importante do ponto de vista dos textos sobre a "pedra angular" na tradição judaico-cristã, é a consideração da palavra hebraica que significa "ângulo" – a palavra pinnah – encontrada em expressões como eben pinnah, “pedra de ângulo”, e rosh pinnah, “cabeça de ângulo”. Mas é particularmente notável que, figurativamente, a mesma palavra pinnah é usada para significar “chefe”. Uma expressão que designa os “chefes do povo” (pinnoth ha-am) é traduzida literalmente na Vulgata por angulos populorum(13). O "chefe" é etimologicamente o "cabeça" (caput) e pinnah liga-se por sua raiz a pnê, que significa "face". É evidente a estreita relação entre as ideias de "cabeça" e de "face" e, além disso, o termo "face" pertence a um simbolismo em geral muito difundido e que mereceria ser examinado à parte(14).

Outra ideia conexa é a de “ponta” (que se encontra no sânscrito agra, no grego akros, no latim acer e acies). Já falamos do simbolismo das pontas a propósito das armas e cornos(15), e vimos que se refere à ideia de extremidade e, mais particularmente com respeito à extremidade superior, ou seja, o ponto mais elevado ou o topo. Todos esses paralelos apenas confirmam o que dissemos a respeito da situação da “pedra angular” no topo do edifício: mesmo existindo outras “pedras angulares” no sentido mais geral dessa expressão(16), só aquela é na realidade “a pedra angular” por excelência.

Podemos encontrar outras indicações interessantes nas significações da palavra árabe rukn, "ângulo" ou "canto". Essa palavra, por designar as extremidades de uma coisa, ou seja, suas partes mais recuadas e, portanto, mais ocultas (recondita e abscondita, poderíamos dizer em latim), toma, às vezes, o sentido de "segredo" ou de "mistério". Sob esse aspecto, o plural arkân está próximo ao latim arcanum, que tem o mesmo sentido, e com o qual apresenta uma semelhança surpreendente. Quanto ao mais, na linguagem dos hermetistas pelo menos, emprego do termo “arcano” foi certamente influenciado de uma forma direta pela palavra árabe em questão(17). Por outro lado, rukn tem ainda o sentido de “base” ou “fundação”, o que nos reconduz à corner-stone entendida como "pedra fundamental". Na terminologia alquímica, el-arkân, quando essa designação é empregada sem outra indicação, refere-se aos quatro elementos, isto é, às “bases” substanciais do nosso mundo, que são comparáveis, assim, às pedras de base dos quatro ângulos de um edifício, visto ser sobre elas que de algum modo, é construído todo o mundo corporal (representado pela forma quadrada(18)). E por aí retornamos diretamente ao próprio simbolismo que nos ocupa no momento. De fato, não existem apenas esses quatro arkân ou elementos "básicos", mas também um quinto rukn, um quinto elemento ou a "quintessência" (isto é, o éter, el-athîr), que não se encontra no mesmo "plano" dos outros, pois não é simplesmente uma base como eles, mas sim o próprio princípio deste mundo(19). Ele será, portanto, representado pelo quinto "ângulo" do edifício, localizado em seu topo. É a esse "quinto", na realidade o "primeiro", que convém propriamente a designação de ângulo supremo, de ângulo por excelência ou "ângulo dos ângulos" (rukn el-arkân), pois é nele que a multiplicidade dos outros ângulos fica reduzida à unidade(20). Podemos ainda notar que a figura geométrica obtida pela junção desses cinco ângulos é a pirâmide com base quadrangular: as arestas laterais da pirâmide emanam do seu topo como raios, do mesmo modo que os quatro elementos comuns, representados pelas extremidades inferiores dessas arestas, procedem do quinto e são produzidos por ele. É também de acordo com essas mesmas arestas, que intencionalmente comparamos aos raios por essa razão (e também em virtude do caráter "solar" do ponto do qual provêm, conforme examinamos ao tratar do “olho” por domo), que a "pedra angular" do topo se "reflete" em cada uma das "pedras fundamentais" dos quatro ângulos da base.

Enfim, no que acaba de ser dito encontra-se a indicação muito clara de uma correlação entre o simbolismo alquímico e o simbolismo arquitetônico, que se explica, aliás, pelo seu caráter "cosmológico" comum. Trata-se de um ponto importante, sobre o qual voltaremos a propósito de outros paralelos da mesma ordem.

A "pedra angular", tomada em seu sentido verdadeiro de pedra "do topo", é designada ao mesmo tempo, em inglês, por keystone, capstone (encontrando-se às vezes escrito capestone), e por copestone (ou coping-stone). A primeira destas três palavras é facilmente compreensível, pois é o equivalente exato do termo “chave de abóbada” (ou de arco, pois a palavra pode na realidade aplicar-se tanto à pedra que forma o topo de um arco, como o de uma abóbada). Mas as duas outras palavras pedem maiores explicações. Em capstone, a palavra cap é evidentemente o caput latino, “cabeça”, o que nos leva à designação desta pedra como a "cabeça de ângulo"; é exatamente a pedra que “acaba” ou “coroa” um edifício; é ainda um capitel, ou seja, o “coroamento” de uma coluna(21). Falávamos do "acabamento", e ambas as palavras, cap e "cabeça", são de fato etimologicamente idênticas(22). A capstone é, portanto o chef, o "cabeça" do edifício ou da “obra”, e devido à sua forma especial, que para ser talhada requer conhecimentos ou capacidades particulares, é também, ao mesmo tempo uma chef-d’oeuvre (ou seja, uma “obra-prima”, uma “obra capital”) nos termos das corporações de ofícios(23). É através dela que o edifício fica completamente terminado, ou, em outros termos, é finalmente levado à sua "perfeição"(24).

Quanto ao termo copestone, a palavra cope expressa a ideia de “cobrir”, mas também, e diríamos mesmo sobretudo, porque essa pedra se coloca de modo a cobrir a abertura do topo, ou seja, o "olho" do domo ou da abóbada, do qual falamos acima(25). É em suma, sob esse aspecto, o equivalente de uma roof-plate, tal como observa Coomaraswamy, o qual acrescenta ainda que essa pedra pode ser considerada como a terminação superior ou o capitel do "pilar axial" (skambha sânscrito, stauros no grego)(26). Esse pilar, como já explicamos, pode não estar representado materialmente na estrutura do edifício, mas nem por isso deixa de ser sua parte essencial, em torno da qual se ordena todo o conjunto. O caráter de topo do "pilar axial" presente de uma forma apenas "ideal", é indicado de um modo particularmente surpreendente no caso em que a “chave de abóbada” desce em forma de “pendente”, passando para o interior do edifício, sem ser suportado de modo visível por nada em sua parte inferior(27). Toda a construção tem seu princípio nesse pilar e todas as suas diferentes partes vêm finalmente unificar-se em sua “cumeeira”, que é o topo desse mesmo pilar e a “chave de abóbada” ou a “cabeça de ângulo”(28).

            A interpretação real da "pedra angular" como "pedra do topo" parece ter sido muito bem conhecida de modo geral na Idade Média, tal como mostra em particular uma ilustração do Speculm Humanae Salvationis, abaixo reproduzido(29). Essa obra foi muito difundida, pois existem dela ainda várias centenas de manuscritos.




Vemos nessa ilustração dois pedreiros com uma espátula numa das mãos e, com a outra, sustentam a pedra que se preparam para colocar no topo de um edifício (aparentemente a torre de uma igreja, onde a pedra deve completar o topo), o que não deixa qualquer dúvida quanto à sua significação. Deve notar-se, no que se refere a esta figura, que a pedra em questão, enquanto “chave de abóbada”, ou qualquer outra função semelhante, de acordo com a estrutura do edifício que irá "coroar", só pode, em virtude de sua própria forma, ser colocada pelo alto (sem o que, aliás, é evidente que poderia cair no interior do edifício). Por isso, ela representa de algum modo a "pedra descida do céu", expressão perfeitamente aplicável a CRISTO(30), e que lembra também a pedra do Graal (o lapsit exilis de Wolfram von Eschenbach, que pode ser interpretado como lapis ex coelis)(31). Existe ainda outro ponto importante a observar: o Sr. Erwin Panofsky apontou que a mesma figura mostra a pedra com a aparência de um objeto em forma de diamante (o que a aproxima de novo da pedra do Graal, igualmente descrita como tendo sido talhada facetada). Essa questão merece um exame mais detalhado, porque, embora essa representação esteja longe de constituir o caso mais geral, diz respeito a outros aspectos do simbolismo complexo da "pedra angular", além daqueles que estudamos até aqui, e que também são interessantes para destacar os seus laços com todo o conjunto do simbolismo tradicional.

            Antes de chegar a este ponto, no entanto, resta-nos uma questão acessória por elucidar. Falávamos que a "pedra do topo" pode não ser uma "chave de abóbada" em todos os casos e, na verdade, ela só o é em uma construção cuja parte superior tem a forma de domo. Em qualquer outro caso, como no de uma construção encimada por um teto pontiagudo ou em forma de tenda, nem por isso deixa de existir uma "última pedra" que, colocada no topo, desempenha desse ponto de vista o mesmo papel da "chave de abóbada" e, portanto, também corresponde a esta simbolicamente, sem contudo ser possível designá-la por esse nome. É preciso também falar no caso especial do pyramídion, já aludido em outra ocasião. Deve ficar claro que, no simbolismo dos construtores medievais, que se baseia na tradição judaico-cristã e está ligada à construção do Templo de Salomão(32), é certo que se trata, no que diz respeito à "pedra angular", de uma “chave de abóbada”. E se a forma exata do Templo de Salomão deu margem a discussões do ponto de vista histórico, concorda-se em todo caso que sua forma não era piramidal. Trata-se de fatos que precisamos necessariamente levar em conta na interpretação dos textos bíblicos que se referem à "pedra angular"(33).

O pyramídion, ou seja, a pedra que forma a ponta superior da pirâmide, não é de forma alguma uma "chave de abóbada", mas nem por isso deixa de ser o “coroamento” do edifício, e podemos observar que ele reproduz reduzidamente a forma da pirâmide inteira, como se toda a estrutura estivesse assim sintetizada nessa pedra única; a expressão "cabeça de ângulo", literalmente, lhe convém de forma exata, assim como o sentido figurado da palavra hebraica "ângulo", que designa o "chefe", especialmente porque a pirâmide, a partir da multiplicidade da base alcança gradualmente a unidade no topo, sendo com frequência considerada como símbolo de uma hierarquia. Por outro lado, segundo o que explicamos antes, a respeito do topo e dos quatro ângulos da base, em conexão com o significado da palavra árabe rukn, poderíamos dizer que a forma da pirâmide está de algum modo implicitamente contida em toda estrutura arquitetônica. O simbolismo "solar" dessa forma, que indicamos então, encontra-se expresso em particular no pyramídion, como mostrado de modo claro as diversas descrições arqueológicas citadas por Coomaraswamy: o ponto central ou topo corresponde ao próprio Sol, e as quatro faces (cada uma das quais compreendidas entre dois "raios" extremos que delimitam o domínio por ela representado) têm os mesmos aspectos secundários do próprio Sol, em relação aos quatro pontos cardeais, para os quais essas faces estão respectivamente voltadas. Apesar de tudo, não é menos verdadeiro que o pyramídion seja apenas um caso particular da "pedra angular" e só a representa em uma forma tradicional especial, ou seja, a dos antigos egípcios. Para corresponder ao simbolismo judaico-cristão dessa pedra, que pertence a outra forma tradicional, seguramente muito diferente, falta-lhe um caráter essencial, que é o de ser uma "chave de abóbada".

Dito isto, podemos voltar para a configuração da "pedra angular" sob a forma de um diamante. Coomaraswamy, no artigo a que nos referimos, parte de uma observação feita a respeito da palavra alemã Eckstein, que tem ao mesmo tempo o sentido de 'pedra angular' e de 'diamante'(34). Ele lembra, a propósito, os significados simbólicos do vajra, que já consideramos em diversas oportunidades: de um modo geral, a pedra ou metal, considerado como o que há de mais duro e brilhante, foi tomado nas diferentes tradições como "um símbolo de indestrutibilidade, invulnerabilidade, estabilidade, luz e imortalidade". E, em particular, essas qualidades são frequentemente atribuídas ao diamante. A ideia de "indestrutibilidade" ou de "indivisibilidade" (ambas estão intimamente ligadas e são expressas no sânscrito pela mesma palavra akshara) convém evidentemente à pedra que representa o princípio único do edifício (pois a verdadeira unidade é essencialmente invisível). A ideia de "estabilidade" que, na ordem arquitetônica, se aplica com propriedade a um pilar, cabe igualmente a essa mesma pedra que constitui o capitel do "pilar axial", que por sua vez, simboliza o "Eixo do Mundo". Este último, que Platão em especial descreve como um "eixo do diamante" é também, por outro lado, um "pilar de luz" (como um símbolo de Agni e como "raio solar"). E, com mais forte razão, esta última qualidade se aplica ("eminentemente", poderíamos dizer) ao seu "coroamento", representando a própria fonte de onde emana enquanto raio luminoso(35). No simbolismo hindu e budista, tudo o que tem uma significação "central" ou "axial" é geralmente comparado ao diamante (por exemplo, em expressões como vajrâsana, 'trono de diamante'). É fácil dar-se conta de que todas essas associações são parte de uma tradição que se pode dizer verdadeiramente universal.

E isso ainda não é tudo: o diamante é considerado a "pedra preciosa" por excelência. E enquanto "pedra preciosa", é também um símbolo de CRISTO, que se encontra desse modo identificado a outro símbolo seu, a "pedra angular", ou então, se o preferimos, esses dois símbolos ficam assim reunidos em um só. Pode-se dizer então que a “pedra angular”, enquanto representa um "acabamento" ou uma "realização"(36), é, na linguagem da tradição hindu, um chintâmani, equivalente à expressão alquímica ocidental "Pedra Filosofal"(37). É muito significativo, sob esse ponto de vista, que os hermetistas cristãos falem de CRISTO como sendo a verdadeira "Pedra Filosofal", com a mesma frequência que se referem a Ele como "Pedra Angular"(38). Desta forma, somos reconduzidos ao que dizíamos antes a propósito do duplo sentido em que pode compreender-se a expressão árabe rukn el-arkân, sobre a correspondência existente entre os simbolismos arquitetônico e alquímico.

Para terminar com uma nota de alcance geral este estudo já longo, mas sem dúvida incompleto, pois trata-se de assunto quase inesgotável, podemos acrescentar que a própria correspondência entre os simbolismos da arquitetura e da alquimia nada mais é, no fundo, que um caso particular da que existe também, ainda que de um modo talvez nem sempre tão manifesto, entre todas as ciências e artes tradicionais, que são simplesmente, na realidade, expressões e aplicações diversas das mesmas verdades e ordem primordial e universal.

NOTAS
(*) René Guénon, Símbolos fundamentales de la ciencia sagrada, Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1988. Capítulo XLIII.
(1) [Publicado en É. T., abril-mayo de 1940..]
(2) Salmo CVIII, 22; San Mateo, XXI, 42; San Marcos, XII, 10; San Lucas, XX, 17.
(3) San Mateo, XVI, 18.
(4) Efesios, II, 20-22.
(5) La "sustitución" pudo haber sido favorecida también, por la similitud fónica existente entre el nombre el nombre hebreo [arameo] Kêfáh, 'piedra', y la palbra griega kephalê, 'cabeza'; pero no hay entre ambos vocablos otra relación, y el fundamento de un edificio no puede identificarse, evidentemente, con su "cabeza", es decir, con su sumidad, lo que equivaldría a invertir el edificio íntegro; por otra parte, cabría preguntarse también si esa "inversión" no tiene alguna correspondencia simbólica con la crucificción de San Pedro, cabeza abajo.
(6) Esta piedra debe situarse en el ángulo nordeste del edificio; notaremos a este propósito que cabe distinguir, en el simbolismo de San Pedro, varios aspectos o funciones a las cuales corresponden "situaciones" diferentes, pues, por otra parte, en cuanto ianitor ['portero'], su lugar está en occidente, donde se encuentra la entrada de toda iglesia normalmente orientada; además, San Pedro y San Pablo están también representados como las dos "columnas" de la Iglesia, y entonces se los figura habitualmente al uno con las llaves y al otro con la espada, en la actitud de dos dvârapâla [vaksha o 'genios' que guardan el umbral de ciertas puertas sagradas, en el hinduismo].
(7) "Eckstein", en la revista Speculum, número de enero de 1939 [reseña de R. Guénon en É.T., mayo de 1939].
(8) En este estudio nos veremos obligados a referirnos a menudo a los términos "técnicos" ingleses, porque, pertenecientes primitivamente al lenguaje de la antigua masonería operativa, han sido conservados en su mayoría en los rituales de la Royal Arch Masonry y de los grados accesorios vinculados con ella, rituales de los que no existe equivalente en nuestra lengua; y se verá que algunos de esos términos son de traducción muy difícil.
(9) Según el ritual operativo, esta "primera piedra" es, según lo hemos dicho, la del ángulo nordeste; las piedras de los demás ángulos se colocan posterior y sucesivamente según el sentido del curso aparente del sol, es decir, en el sudeste, sudoeste, noroeste.
(10) Esta "reflexión" está evidentemente relacionada de modo directo con la situación mencionada antes.
(11) La expresión "to heave over" es bastante singular, y al parecer inusitada en ese sentido en inglés moderno; parecería poder significar 'levantar' o 'elevar', pero, según el resto de la frase citada, es claro que en realidad se aplica aquí al acto de "arrojar" la piedra rechazada.
(12) Esta distinción es, en otros términos, la de la Square Masonry y la Arch Masonry, que, por sus respectivas relaciones con la "tierra" y el "cielo", o con las partes del edificio que las representan, están aquí en correspondencia con los "pequeños misterios" y los "grandes misterios" respectivamente. [Véase cap. XXXIX, notas 4 y 5 (N. del T.)]
(13) I Samuel, XIV, 38; la versión griega de los Setenta emplea igualmente aquí la palabra gônía.
(14) Cf. A. M. Hocart, Les Castes, pp. 151-54, acerca de la expresión "faces de la tierra" empleada en las islas Fiji para designar a los jefes. La palabra griega Kárai servía, en los primeros siglos del cristianismo, para designar las cinco "faces" o "caras" o "cabezas" de la Iglesia, es decir, los cinco patriarcados principales, cuyas iniciales reunidas formaban precisamente esa palabra: Costantinopla, Alejandría, Roma, Antioquía, Jerusalén [=Ierousalêm].
(15) Cabe advertir que la palabra inglesa corner es evidentemente un derivado de cone [francés, 'cuerno'].
(16) En este sentido, las cuatro piedras angulares no existen solamente en la base, sino también en un nivel cualquiera de la construcción; y esas piedras son todas de la misma forma común, rectilínea y rectangular (es decir, talladas on the square, pues la palabra square tiene la doble significación de 'escuadra' y 'cuadrado'), contrariamente a lo que ocurre en el caso único de la keystone.
(17) Podría resultar de interés investigar si puede existir un parentesco etimológico real entre la palabra árabe y la latina, incluso en el uso antiguo de esta última (por ejemplo, en la disciplina arcani de los cristianos de los primeros tiempos ), o si se trata solo de una "convergencia" producida solo ulteriormente, entre los hermetistas medievales.
(18) Esta asimilación de los elementos a los cuatro ángulos de un cuadrado está también en relación, naturalmente, con la correspondencia que existe entre esos elementos y los puntos cardinales.
(19) Estaría en el mismo plano (en su punto central) si este plano se tomara como representación de un estado de existencia íntegro; pero no siempre es el caso aquí, pues el edificio total es una imagen del mundo. Observemos, a este respecto, que la proyección horizontal de la pirámide a que nos referíamos más arriba está constituida por el cuadrado de la base con sus diagonales, y las aristas laterales se proyectan según las diagonales y el vértice en el punto de encuentro de estos elementos, o sea en el centro mismo del cuarado.
(20) En el sentido de "misterio", que hemos indicado, rukn el-arkàn equivale a sirr el-asrâr ['misterio de los misterios', 'misterio supremo'], representado, según lo hemos explicado en otra oportunidad, por el extremo superior de la letra álif; como el álif mismo figura el "Eje del Mundo", esto, según se verá en seguida, corresponde con toda exactitud a la posición de la keystone.
(21) El término de "coronamiento" ha de relacionarse aquí con la designación de la "coronilla" craneana, en razón de la asimilación simbólica, que hemos señalado anteriormente, entre el "ojo" de la cúpula y el Brahmarandhra [séptimo y último chakra, o sea "órgano o centro sutil", cuyo "despertar" corresponde a la culminación del Kundalinî-Yogal]; sabido es, por lo demás, que la corona, como ls cuernos, expresa esencialmente la idea de elevación. Cabe notar también a este respecto que el juramento del grado de Royal Arch contiene una alusión a la "coronilla" (the crown of the skull), la cual sugiere una relación entre la apertura de ésta (como en los ritos de trepanación póstuma) y el acto de quitar (removing) la keystone; por lo demás, de modo general, las llamadas "penalidades" formuladas en los juramentos de los diferentes grados masónicos, así como los signos que a ellas corresponden, se refieren en realidad a los diversos centros sutiles del ser humano.
(22) En la significación de la palabra "acabar", o en la expresión equivalente 'llevar a cabo', la idea de "cabeza" [caput] está asociada a la de "fin", lo que responde perfectamente a la situación de la "piedra angular", conocida a la vez como "piedra cimera" y como "última piedra" del edificio. Mencionaros aún otro término derivado de caput: en francés se llama chevet ('cabecera')- y en español "cabecera" o "testero"- de una iglesia a la extremidad oriental donde se encuentra el ábside, cuya forma semicircular corresponde, en el plano horizontal, a la cúpula en elevación vertical, según lo hemos explicdo en otra ocasión.
(23) La palabra "obra" se emplea a la vez en arquitectura y en alquimia, y se verá que no sin razón relacionamos ambas cosas: en arquitectura, la conclusión de la obra es la "piedra angular", y en alquina, la "piedra filosofal".
(24) Es de notar que, en ciertos ritos masónicos, los grados que corresponden más o menos exactamente a la parte superior de la construcción de que aquí se trata (decimos más o menos exactamente, pues a veces hay en todo ello cierta confusión) se designan precisamente con el nombre de "grados de perfección". Por otra parte, el vocablo "exaltación, que designa el acceso al grado de Royal Arch, puede entenderse como una alusión a la posición elevada de la keystone.
(25) Para la colocación de esta piedra, se encuentra la expresión "to bring forth the copestone", cuyo sentido es también bastante oscuro a primera vista: to bring forth significa literalente 'producir' (en el sentido etimológico del latín producere) o 'sacar a luz'; puesto que la piedra ha sido ya retirada anteriormente, durante la construcción, no puede tratarse, el día de la conclusión de la obra, de su "producción" en el sentido de una "confección"; pero, como ha sido arrojada "entre los escombros", se trata de volver a sacarla a la luz, para colocarla en lugar visible, en la sumidad del edificio, de modo que se convierta en "cabeza del ángulo"; así, to bring forth se opone aquí a to heave over.
(26) Staurós significa también 'cruz', y sabido es que, en el simbolismo cristiano, la cruz se asimila al "Eje del Mundo"; Coomaraswamy vincula ese término con el sánscrito sthàvara, 'firme' o 'estable', lo que en efecto, conviene a un pilar y, además, concuerda exactamente con el significado de "estabilidad" dado a la reunión de los nombres de las dos columnas del Templo de Salomón.
(27) Es la sumidad del "pilar axial", que corresponde, según lo hemos dicho, a la punta superior del álif en el simbolismo literal árabe; recordemos también, con motivo de los términos keystone y "clave de bóveda", que el símbolo mismo de la "clave" o "llave" tiene igualmente significado "axial".
(28) Coomaraswamy recuerda la identidad simbólica entre el techo (en particular abovedado) con el parasol; agregaremos también, a este respecto, que el símbolo chino del "Gran Extremo" (T'ai-ki) designa literalmente una "arista superior" o una "sumidad": es, propiamente, la sumidad del "techo del mundo".
(29) Manuscrito de Munich, columna 146, fol.35 (Lutz y Perdrizet, II, lám.64): la fotografía nos ha sido proporcionada por A. K. Coomaraswamy; ha sido reproducida en el Art Bulletin, p. 450 y fig. 20, por Erwin Panofski, quien considera esa ilustración como la mas próxima al prototipo y, a ese respecto, habla del lapis in caput anguli ['la piedra en la cabeza del ángulo'] como de una keystone ; se podría decir también, de acuerdo con nuestras precedentes explicaciones, que esa figura representa the bringing forth of the copestone.
(30) A este respecto, podría establecerse una vinculación entre la "piedra descendida del cielo" y el "pan descendido del cielo", pues existen relaciones simbóicas importantes entre la piedra y el pan; pero esto sale de los límites de nuestro tema actual; en todos los casos, el "descenso del cielo" representa, naturalmente, el avatárana ['descenso' o aparición del Avatâra].
(31) Cf. también la piedra simbólica de la Etoile Internelle ['estrella interna'] de que ha hablado l. Charbonneau-Lassay y que, como la esmeralda de Graal, es una piedra facetada; esa piedra, en la copa donde se la pone, corresponde exactamente al "joyel en el loto" (mani padme) del budismo mahâyâna.
(32) Las "leyendas" del Compagnonnage ['compañerazgo', organización artesanal de origen medieval, emparentada con la masonería], en todas sus ramas, dan fe de ello, así como las "superviviencias" propias de la antigua masonería operativa, que hemos considerado aquí.
(33) Así, pues, no podría tratarse de ningún modo, como algunos pretenden, de una alusión a un incidente ocurrido durante la construcción de la "Gran Pirámide" y con motivo del cual ésta habría quedado inconclusa. lo que, por otra parte, es una hipótesis harto dudosa en sí y una cuestión histórica probablemente insoluble; además esa "inconclusión" misma estaría en contradicción directa con el simbolismo según el cual la piedra que había sido rechazada toma finalmente su lugar eminente como "cabeza del ángulo".
(34) Stoudt, "Consider the lilies, how they grow", respecto de la significación de un motivo ornamental en forma de diamante, explicado por escritos donde se habla de CRISTO como del Eckstein. El doble sentido de la palabra se explica, verosímilamente, desde el punto de vista etimológico, por el hecho de que pueda entendérsela a la vez como "piedra de ángulo" y como "piedra en ángulos", es decir, facetada; pero, por supuesto, esta explicación nada quita al valor de la relación simbólica indicada por la reunión de ambos significados en la misma palabra.
(35) El diamante no tallado tiene naturalmente ocho ángulos, y el poste sacrificial (yûpa) debe ser tallado "en ocho ángulos" (ashtâçri) para figuara el vajra (que se entiende aquí a la vez en su otro sentido de 'rayo'); la palabra pâli attansa, literalmente, 'de ocho ángulos' significa a la vez 'diamante' y 'pilar'.
(36) Desde el punto de vista "contructivo", es la perfección de la realización del plan del arquitecto; desde el punto de vista alquímico, es la "perfección" o fin último de la "Gran Obra"; hay exacta corespondencia entre uno y otro.
(37) El diamante entre las piedras y el oro entre los metales son lo más precioso, y tienen además un carácer "luminoso" y "solar"; pero el diamante, al igual que la "piedra filosofal", a la cual se asimila aquí, se considera como más precioso aún que el oro.
(38) El simbolismo de la "piedra angular" se encuentra expresamente mencionado, por ejemplo, en diversos pasajes de las obras herméticas de Robert Fludd, citados por A. E. Waite, The Secret Tradition in Freemasonry, pp. 27-28; por otra parte, debe señalarse que tales pasajes contienen esa confusión con la "piedra fundamental" de que hablábamos al principio; lo que el autor que los cita dice por su cuenta acerca de la "piedra angular" en varios lugares del mismo libro tampoco es muy adecuado para esclarecer el punto, y no puede sino contribuir más bien a mantener la confusión indicada.