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terça-feira, 5 de agosto de 2014

ASTROLOGIA – ARIANO SUASSUNA

Por: Ariano Suassuna - extraído do livro "Romance d'A Pedra do Reino"



Pedro Dinis Quaderna nasceu a 16 de Junho de 1897, na terceira década do Signo de Gêmeos, tempo no qual, segundo os livros de Astrologia, “pode nascer um Gênio verdadeiro”, sendo as pessoas nascidas aí “afetuosas e inconstantes, mas assinaladas e terríveis”. O Planeta desse signo, é Mercúrio, astro que, segundo o Lunário Perpétuo, tem domínio “sobre os Poetas-escrivães, letrados, Pintores, ourives, bordadores, tratantes, diligentes e mercadores”, sendo de notar que, quando há predominância das influências maléficas, aparecem entre os de Gêmeos “os charlatães, Palhaços, embusteiros, ladrões, estelionatários e falsificadores”!
– Como foi que você disse, meu Padrinho? – indaguei como se fosse de modo casual. – Você falou em poetas-escrivães, foi? Ouviu, Samuel? Quer dizer que eu sou como Pero Vaz de Caminha, um poeta-escrivão da Armada Brasileira!
O Fidalgo deu um muxoxo:
– O que você pode ser é um Palhaço, marcado pela “influência maléfica de Gêmeos e Mercúrio”, um embusteiro e falsificador de moeda!
– Não faltando com o respeito, o senhor está enganado, Doutor Samuel! – contestou João Melchíades. – Na terceira década do signo de Gêmeos, os influxos astrais são benéficos, pois Mercúrio já está iluminado pelo Sol! Aliás, Dinis sabe disso melhor do que eu, e pediu ao irmão dele, Taparica, para cortar um taco de madeira, representando o carro de Mercúrio alumiado pelo Sol e conduzido por um Gavião, com o signo de Gêmeos nas rodas!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

DIA DO TRABALHO - 1 DE MAIO 2014


POR MÁRIO INGLESI - VOVÔ E POETA CONTEMPORÂNEO
Veja também: DIA DO TRABALHO - 1 DE MAIO 2013


Dr. Ricardo

Mais um dia comemorativo! Desta feita o “Dia 1o de Maio”, Dia do Trabalho, data estabelecida em homenagem aos operários mortos em confronto policial nos EUA por ocasião de uma gigantesca campanha de reivindicação em prol de melhores condições de trabalho, principalmente, dentre elas a fixação da jornada de trabalho em apenas oito horas, e não catorze horas como vinha ocorrendo.

Essa reivindicação, juntamente com todas as demais que regulam as relações individuais e coletivas do trabalho, formou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) sancionada pelo então presidente Getúlio Vargas em 1943, durante a sua gestão, no Brasil, do chamado Estado Novo.

No intuito de conciliar as relações entre patrões e empregados, já no iniciar do século 20 foram criadas associações sindicais, que, depois se reuniram formando até hoje as Uniões Sindicais, como por exemplo, a CUT e a CGT.

No desenrolar dessas inciativas verificou-se que tais sindicatos estavam à mercê não dos trabalhadores, mas do próprio governo, que lhes arbitrou para seu comando, e administração e manutenção, o Imposto Sindical, até hoje vigente, correspondente à doação anual, pelo trabalhador, do valor de um dia de seu trabalho em favor da manutenção sindical.

Com isso os dirigentes sindicais tomaram a pecha de “pelegos”, ou seja, aqueles elementos que desonram a classe trabalhadora em favor do empresariado em conluio com o governo.

Hoje, mesmo com essa estrutura do toma lá da cá, o movimento sindical, embora ainda vigente, está em declínio vertiginoso, pois os agentes sindicais agora manobram para fazerem parte das diversas vagas do Estado, em campanhas de fortalecimento do status pessoal, ou em seu conluio para obtenção de cargos e favores.

Com isso, o Dia do Trabalho que era data de reivindicações, de demonstração da força do operariado, tornou-se apenas data comemorativa, com grande alarde de oferta de brindes, carros, preferencialmente, e de grandes shows, ou seja, o “pão e circo”, de sempre, para desviar atenções e tensões.

Nesse cenário o trabalhador ficou só, sua situação agora sofre de todas as agruras de seu trabalho, e de sua situação de precariedade trabalhistas, cercado de violência e desmandos: morre “sem querer morrer”, com balas perdidas, quedas de aparelhamentos em obras faraônicas, sem apetrechos de proteção exigidos, desprotegido e desamparado, uma vez que nem as leis trabalhistas, pertinentes às horas de trabalho, e seu descanso diuturno e em dias feriados não mais são respeitados, causando com isso, enfartes súbitos, doenças psicológicas, e doenças provindas de toda sorte de fatores, oriundas da má administração e vigilância do trabalho.

Nessa teia de emaranhado, o trabalhador, já no estertor de sua vitalidade, ainda sobreleva às alturas o seu Deus lhe pague, como relembra Chico Buarque em sua “Construção”:



“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir

Deus lhe pague”.



O seu status de trabalho desmoronou. Hoje, as máquinas fazem muito do que ele, como trabalhador/operário fazia. Assim, quando muito tornou-se um prestador de serviços ou um trabalhador avulso, sem carteira assinada, ou ainda trabalhador terceirizado, ou então, em última instância, objeto de trabalho escravo ou quando muito, trabalhador dito, braçal, ou ainda boia-fria, aquele trabalhador que opera em grandes fazendas ou latifúndios, na colheita de produtos.

Ele, como muitos outros, deixou de ser o operário padrão, com direito a considerar-se um profissional emérito, tal como torneiro-mecânico, eletricista, ou outros. E outros mais...

Assim, apesar das conquistas relevantes que, como trabalhador possui, sua real qualificação, é ele abandado, desqualificado, perdido no cipoal das grandes cidades, tendo como maior agravante a precariedade de sua saúde e de todos os demais que o cercam, uma vez que os bons ofícios da saúde pública, comida com nutrientes necessários, descanso e lazer lhe são frequentemente negados ou ausentes de sua vivência diária.

Mesmo porque, hoje, vigora em caráter prioritário, o senso empreendedor - o empreendedorismo de seu agente, ficando todo o resto, em compasso de espera de algum milagre.

Ou, ainda, como enfatiza Domênico de Masi, o que deve viger é o “ócio criativo”, todo o resto – acautele-se – se já não foi, irá para de baixo do tapete. Afinal, lembre-se: os tempos são outros, mas o trabalho, esse ainda o é, com todo o ranço de antanho, e as agruras da modernidade, nas quais a ausência de amparo e a disparidade de tratamento fazem do trabalhador apenas um objeto descartável.

Mas, sempre é tempo de arrazoado, e ver, como o fez o poeta Vinicius de Moraes, em seu poema “O Operário em Construção”:



“Uma esperança sincera

Cresceu no seu coração

E dentro da tarde mansa

Agigantou-se a razão

De um homem pobre e esquecido

Razão porém que fizera

Em operário construído

O operário em construção”.



Dentro dessa barafunda de sentidos e significados de trabalhador e seu dia comemorativo, onde a manipulação se faz presente, de real, só resta mesmo, curtir o feriadão, mas mesmo assim sem condições físicas e financeiras adequadas para tanto, talvez só reste cantarolar, para si mesmo,



“Mas pra que?

Pra que tanto céu?

Pra que tanto mar? Pra que?

De que serve esta onda que quebra?

E o vento da tarde? De que serve a tarde?

Inútil paisagem”.

Tom Jobim: “Inútil Paisagem”



Ou, então, em havendo possibilidade e o deixarem, durma, tranquilamente, sem culpas ou pesadelos.  Mas – pensando bem - como dormir com um barulho desses? Carros de som zoando pelos locais dos eventos, o som altissonante das aparelhagens de som e toda parafernália de instrumentos próprios dos shows, como guitarras, baterias, cuícas pandeiros e muitos outros mais, e com os ruídos da chuva de fogos que naturalmente encerrará o “Dia”.  Realmente, dormir, com um barulho desses é pura utopia, plausível só no reino do Céu, ou quiçá, trancado num iglu, ou enredado nas montanhas geladas do Evereste, ou ainda boiando depois de percorrer as profundezas de um mar aberto.

Arreda! Arreda!  Senhor, Meu Deus: Afastai de nós tanta euforia!!!


Mário Inglesi

SOBRE ECLIPSES E ELIPSES


A internet, curiosamente, ocupa cada vez mais o espaço da escola antiga. Me refiro àquelas instituições que depositavam informações sobre os estudantes como se ensinassem algo, quando apenas os fazia memorizar. Memorizar é a palavra, pois decorar é outro processo. Memorizar é simplesmente articular a estrutura neural sináptica para criar conexões que quando revisitadas devolvem um conteúdo; já decorar é outra coisa, implica sentido e tem todo um sistema límbico por trás!
Decorar, no inglês “know by heart”, no francês “par coer” e assim por diante, diz respeito a interiorizar um conteúdo que implica em sentido e por isso é guardado no coração, saber de cor é saber de coração. A educação bancária, denunciada pelo sábio moderno Paulo Freire, hoje não é mais considerada educação senão domesticação ou doutrinação, não emancipa senão amanceba. A educação de vanguarda emancipa, faz pensar, torna consciente, gera saúde, visto gerar sentido existencial, visto alcançar o coração. Conforme Exupéry:

“Eis o meu segredo, só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”

Cuidemos então em buscar um coração naquilo que nos propomos conhecer, pois conhecimento é – co-nascimento – nascer para o novo junto. Tudo o que é vivo tem coração e por isso saber decor é saber sobre a vida, que pulsa! Quando a lembrança do conhecimento não é agradável, quando a lembrança do que foi aprendido causa mal estar, certamente seu armazenamento não ocorreu no coração, senão algures... Tudo aquilo que não é conhecimento de coração é conhecimento do tipo “eclipse”, é invisível aos olhos e, portanto carece de luz.
      Bem, seja qual for o idioma escrito, a própria rede hoje se encarrega da tradução de conteúdos para a maioria das línguas; o obstáculo dos idiomas é uma forma de eclipse cada vez menos comum. Veja você este navegador “google chrome”, por exemplo, que sempre ao entrar em página de outro idioma, nos oferece a opção instantânea: “deseja traduzir este conteúdo?”. Quanto mais poética a escrita menos fidedigna a tradução, por outro lado, quanto mais técnica e, portanto “mais morta” a proposta, melhor a tradução. Enfim, benesses de uma humanidade que a cada dia percebe que a colaboração e não a competição e muito menos a exclusividade senão a inclusividade é o caminho a ser tomado. A dificuldade do humano em alcançar um idioma falado que permita a compreensão poética universal é diretamente proporcional ao desenvolvimento de sua capacidade de amar. Este obstáculo entre línguas, que a música dissolve com harmonia, amor em forma de som, é também uma forma de eclipsar o que já se sabe. Escute enquanto lê...

Villa Lobos - Bachianas Brasileiras nº2 - Completa
I. Prelúdio - Canto do Capadócio
II. Ária - Canto da nossa Terra
III. Dança - Lembrança do Sertão
IV. Tocata - Trenzinho do Caipira

       Enfim, enquanto o eclipse é fenômeno celeste, a elipse é terrestre e pode ser geométrica (segunda instância do quadrivium) ou gramatical (primeira instância do trivium); no primeiro caso visível no segundo presumível, está lá, mas não se vê “com os olhos”, como fosse um eclipse gramatical.



Grosso modo, os eclipses celestes são fenômenos bem conhecidos e descritos pela ciência convencional. Trata-se do alinhamento de órbitas de sol e lua em relação à terra.


Pela ilustração é fácil notar que a área da terra em que um eclipse lunar pode ser observado é bem maior que aquela correspondente à de um eclipse solar. Os eclipses podem ser penumbrais, parciais ou totais. No caso da lua, isto depende dela estar em região de sombra (umbra) ou penumbra (figura abaixo); já no caso do sol dependerá da região de observação na terra estar em região de sombra (umbra) ou penumbra – na região de sombra (umbra) o eclipse é total, nas regiões de penumbra penumbrais e na transição destas os eclipses são parciais (vide figuras abaixo).



A lua orbita a terra com um eixo de inclinação que varia de aproximadamente cinco graus em relação à eclíptica. Os pontos da órbita lunar, que prolongados coincidem com a órbita aparente do sol (eclíptica) determinam um eixo conhecido como eixo dos nodos lunares. É a proximidade recíproca entre este eixo e os luminares sol e lua que ocasiona os eclipses. O nodo lunar norte ou ascendente (cabeça do dragão - rahu) marca a passagem da lua do hemisfério sul para o hemisfério norte celeste e o nodo lunar sul ou descendente (cauda do dragão - ketu) o movimento contrário.
          


Outra forma de representar a imagem celeste é projetá-la bidimensionalmente sobre um mapa, conhecido como mapa astral. Neste diagrama o eixo dos nodos lunares é representado simbolicamente conforme abaixo.


Os seguintes mapas ilustram os eclipses de 15 e 29 de abril de 2014; observe-se a proximidade do sol e lua com o eixo nodal, o que caracteriza graficamente em ambos os casos os eclipses respectivamente lunar e solar.


O número de eclipses que podem ocorrer durante o ano oscila entre 2 e 6; geralmente ocorrem 4, dois eclipses solares e dois lunares, sendo fácil notar que o tempo que decorre entre o eclipse lunar e solar é de 14 dias e entre eclipses de mesmo nome 6 meses, conforme pode ser intuído a partir das figuras acima. O aficionado pode encontrar informações adicionais nos sites da NASA e texto abaixo entre outros:






Existe o corpo humano assim como existe o corpo celeste. Na medicina o corpo humano é estudado em anatomia e fisiologia, forma e função. A astronomia é o correlato da anatomia humana aplicada ao céu, variações de “nomias”, uma astro e outra ana, uma fora e outra dentro; enquanto a astrologia tem como correlato a fisiologia, variações de “logias”, uma astro e outra fisio, uma fora e outra dentro. Astro e ostra são anagramas e denotam além de seu aspecto substantivo, aspecto adjetivo passivo de ser aplicado pejorativamente ou não a certas pessoas; assim, alguém pode ser um astro das multidões enquanto outrem uma ostra em suas compreensões. Experimente observar de forma eclíptica e amorosa...
Enquanto a anatomia pode ser acessada de forma direta, pois é estrutura, a fisiologia não, pois é funcional. A astrologia é correlata da fisiologia em medicina e malgrado a desinformação a respeito da mesma, merece atenção caridosa por parte do estudante humano.
O eclipse, enquanto mudança espacial na dinâmica da luz, diz respeito a um movimento de luz, que poderia estar lá e que momentaneamente deixa de estar. Simbolicamente, tudo o que antes seria iluminado por aquela luz deixa de sê-lo. Tudo o que deixa de receber a luz de uma fonte externa passa a depender de "luz interna". O efeito do eclipse do ponto de vista simbólico diz respeito justamente a esta dinâmica. Se o ponto ou o ser em questão sob efeito do eclipse não dispõem de "luz interior", passa por um período temporário de sombra ou penumbra. Este período de vida pode se manifestar como mais trabalhoso quanto às questões pessoais relacionadas às casas terrestres do mapa (CASAS ASTROLÓGICAS).
Vale lembrar que a lua apresenta fases e que durante a lua nova (novilúnio) não há luz lunar projetada sobre a terra, como se fosse um eclipse lunar. Os estudiosos ocultistas sugerem que não se atribua tal efeito à luz lunar como tal, mas a outro tipo de força, mais potente nestas épocas e que provém do sol e da lua simultaneamente, e que evidencia uma força vital, semelhante à emitida pelos corpos vivos, sugerindo finalmente que sol, terra e lua são corpos vivos, como nossos próprios corpos; trata-se de forças que pertencem ao que os ocultistas denominam de éter de vida.
Existe um conceito conhecido como recapitulação solar e lunar. Trata-se do período de 18 a 24 meses seguidos ao eclipse após os quais, no mesmo grau celeste da ocorrência do eclipse é observada a ocorrência de uma lua cheia. Assim, a baixa luminosidade, vivenciada no eclipse e seus aspectos, cumpre simbolicamente seu efeito findo este período. Durante este tempo de recapitulação sugere-se que a experiência dos meses pregressos seja reavaliada no sentido de se destilar um valor construtivo do ponto de vista anímico.
Encontram-se duas explicações quando se procura a respeito do significado da lua de sangue: uma se baseia na cor vermelha decorrente do aspecto da lua quando se encontra inteira no cone de sombra; outra diz respeito ao fato de ser um eclipse lunar que cai em dia de feriados judaicos.




           Sobre estes feriados:






       Que os reservatórios não colapsem, que as informações não sejam eclipsadas e que São Paulo não vire sertão. E se virar, a gente dança a "Lembrança do sertão", pega um "Trenzinho Caipira" e canta o "O canto da nossa terra" enquanto se eclipsa daqui pra Capadócia. Salve Villa Lobos!

terça-feira, 8 de abril de 2014

SIMETRIA IV - UMA POSSIBILIDADE INSÓLITA

Continuação de:

Simetrias I
Simetrias um pouco mais
Simetrias II
Simetrias III




Narciso e Eco - Observe-se a verticalidade x horizontalidade além da cor das vestes


Existe como que uma simetria linguística, conceitual, envolvendo as ciências duras e moles. Dura e mole são, neste caso, sinônimos para o entendimento respectivo das ciências natural e social (Ciência - wikipedia). Grosso modo, a sustentação conceitual para que uma ciência seja considerada dura é a existência de um paradigma (modelo) sobre o qual ela possa ser constituída (Paradigma - wikipedia). Os proponentes mais exaltados deste pensar argumentam que as "ciências moles" não usam o método científico, e que ousam admitir evidências “anedotais” ou não matemáticas, carecendo de rigor em seus métodos!

Oponentes moderados argumentam que as "ciências sociais" se articulam sobre sistemáticos estudos estatísticos em ambientes estritamente controlados e que essas condições nem sempre são respeitadas sequer pelas ciências naturais. Cite-se a Astronomia, ciência observacional que se desenvolve peculiarmente, haja vista as grandezas e distâncias envolvidas.

Galáxia Sombrero

De fato, para uma teoria classificar-se como científica, deve obedecer aos rigores do método científico sem que transcenda o paradigma vigente sob o qual foi concebida. Mas, e se a teoria não couber no paradigma, for maior que ele? Isso implica que para um conhecimento em humanidades adquirir grau de científico, deveria se articular sobre um paradigma. Neste caso, isso implicaria em estabelecer um modelo ou compreensão básica em relação à questão magna: “O que é a Vida?”. Mas como alcançar questionamentos desta envergadura neste momento em que o humano chafurda em preconceitos? Pré conceitos falsos assumidos a priori decorrentes de seu próprio desinteresse a respeito do que seja a vida. Para muitos, até hoje, a Terra orbita um Sol central estático, ignorando o fato do mesmo ser um viajor sideral a cerca de 72000 Km/h ou 20 Km/s!


Supondo que tal paradigma pudesse ser estabelecido, uma ciência, gramaticalmente constituída e funcionalmente equipada, com sua matemática própria e com suas leis daria os ares de sua graça. Curioso notar, entretanto que o próprio método científico e seu atual paradigma dificulta a possibilidade de um novo olhar, visto ser hoje pedra angular de toda estrutura social. Na mesma medida em que é palavra última a respeito do que se trata a vida e sobre qual é a direção do “progresso” e sobre o que é desenvolvimento, silenciosa e sub-repticiamente determina como as pessoas devem viver.



“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (J.G.)



Lembre-se que o humano, sendo sugestionável e respondendo instintivamente a muitas situações, presentemente tem pouca consciência do processo maior que subjaz à própria existência. De fato, viver menos de um século deveras dificulta esta compreensão, especialmente em momentos de liquefação nas relações e aceleração do ritmo de vida decorrente do estado sutil de adoecimento social. Fundamentalmente isso deságua em outra questão magna da qual o humano se afasta mais a cada dia: “Qual é o sentido da vida?”. Ocuparam-se desta questão com propriedade solene, dois pensadores de ascendência judaica, Viktor Frankl e Erich Fromm.

Em vista da insolubilidade epistemológica desta questão, Schrödinger, físico fundamental na elaboração da teoria quântica (cuja equação de onda leva seu nome), interessado em religiões tradicionais e filosofia da física, deu um pequeno passo em seu modesto e profundo ensaio: “O que é a vida” (What is life – 1944). Sem entrar nos pormenores, a parte curiosa diz respeito à sua colocação em relação às simetrias e à biologia. Nesta obra, leitura imprescindível, o autor esmiúça um olhar simétrico e comparativo aos cristais periódicos e aperiódicos. O cromossomo (DNA) pode ser visto como um cristal aperiódico carregador da vida, segundo ele. Em suas palavras:


“Para dar à sentença vida e cor, permita-me antecipar o que será explicado em muito mais detalhes à frente; seja que a parte mais essencial de uma célula viva, o cromossomo, possa ser chamada apropriadamente um cristal aperiódico. Em física temos lidado, até então, apenas com cristais periódicos. Para a mente de um físico humilde, estes são objetos muito interessantes e complicados, constituindo uma das mais fascinantes e complexas estruturas materiais pela qual a natureza inanimada arquiteta sua perspicácia. Ainda assim, comparados aos cristais aperiódicos, eles são mais simples e sem graça. A diferença em estrutura é do mesmo tipo que aquela entre um papel de parede ordinário no qual o mesmo padrão se repete indefinidamente em periodicidade regular e um bordado artístico, digamos uma tapeçaria de Rafael, sem repetições óbvias, mas um desenho elaborado, coerente, significativo traçado pelo grande mestre. Ao chamar o cristal periódico como um dos mais complexos objetos de sua pesquisa, eu tinha em mente o físico propriamente. A química orgânica, na verdade, ao investigar moléculas mais e mais complexas, se aproximou muito mais daquele “cristal aperiódico”, que em minha opinião, é o material carregador da vida.” (E. Schrödinger – What is life? The Physical Aspect of the Living Cell – 1944. p.3-4)




Cerca de nove anos após as palavras de Schrödinger, Watson e Crick em 1953 descreviam a molécula de DNA, sendo em 1962 agraciados com o Nobel de Medicina. Mais recentemente, em 1995, uma nova obra: “O que é a vida? 50 anos depois” – traduzida pela editora UNESP – revisita a proposta de Schrödinger e nos presenteia com várias novas pérolas e especulações sobre o futuro da biologia; merece ler e reler!

Recentemente, alguma atenção foi dada aos cristais aperiódicos conforme citação na segunda parte da presente reflexão, em relação aos quasicristais. Mas enquanto a ciência não monta o “quebra-cabeça”, sempre vale apreciar visões menos convencionais, que fora do paradigma vigente possam oferecer alternativas ao pensamento cristalizado, mineralizado e quiçá morto.


A fim de explicitar graficamente as relações possíveis no mundo fenomênico, os físicos utilizam o diagrama de Minkowiski (Diagrama Minkowski - wikipedia). Pelo diagrama é possível observar três tipos de intervalos na descrição da realidade: tipo tempo, tipo espaço e tipo luz. Grosso modo, habitamos uma realidade do tipo tempo, caracterizada pela observação sucessiva de eventos que interpretamos a partir da noção de que uma causa gera um efeito consequente. Simplificando, no intervalo tipo luz, o tempo pararia e a causalidade cessaria como se fosse um mundo de simultaneidade atemporal. No intervalo tipo espaço, é concebida conceitualmente a ideia de um espaço de realidades fenomênicas ocorrendo a velocidades superiores à da luz, o que ocasionaria um desacoplamento da relação de causa e efeito conforme estamos habituados, podendo o efeito se manifestar antes da causa, por exemplo. Esta concepção aparentemente insana é bem ilustrada por Steiner abaixo. Autores como Alan Lightman em “Sonhos de Einstein” e Italo Calvino em “Cidades Invisíveis” encaram estas ideias com galhardia e estimulam a criar espaço interior para conceber a realidade sob perspectivas inusitadas até o momento presente.

Rudolf Steiner proferiu uma palestra em 17 de maio de 1905 sobre possibilidade insólita e ainda pouco considerada em nossos dias, senão repudiada. Trata-se de um olhar à quarta dimensão como outro plano de existência, chamado pelo autor de mundo astral. O pré-requisito básico para a compreensão das ocorrências neste espaço seria a interpretação simétrica de eventos! Nas palavras de Steiner, os eventos posteriores ocorreriam primeiro e os anteriores ocorreriam a posteriori, ocorrendo aqui como que uma inversão na relação de causalidade (causa-efeito). Se no plano físico o nascimento ocorre primeiro e nascimento significa que algo novo nasceu de algo antigo, no plano astral o antigo emergiria do novo, de modo que a paternidade e a maternidade estariam de fato no interior do filho ou da filha.

Usando a mitologia grega como instrumento, Steiner simboliza três mundos a partir das divindades gregas Urano, Cronos e Zeus. Urano representando o mundo do pensamento (devachan), Cronos o mundo astral e Zeus o mundo físico. É dito que Cronos devorava suas crianças. No mundo astral, a criação não nasce, mas é devorada. Nas palavras de Steiner:

“A questão se torna ainda mais complexa quando consideramos a moralidade no plano astral. A moralidade, também aparece de forma reversa, ou como sua própria imagem espelho (simétrica). Você pode imaginar o quanto as explicações dos eventos lá diferem de nossas explicações habituais no mundo físico. Imagine, por exemplo, que vejamos um animal selvagem se aproximando de nós no mundo astral e que ele nos devora. Assim é como parece para alguém habituado a interpretar eventos externos, mas não podemos interpretar este evento como o faríamos no mundo físico. Na realidade, o animal selvagem é uma qualidade interna, um aspecto de nosso próprio corpo astral que nos devora. O ataque devorador é uma qualidade residente em nossos próprios desejos. Se tivermos um pensamento de vingança, por exemplo, o pensamento pode assumir uma forma exterior e nos atormentar como o Anjo da Morte. Na realidade, tudo no mundo astral irradia de nós. Devemos interpretar tudo que se aproxima de nós no mundo astral como irradiado a partir de nosso interior. Este conteúdo retorna a nós por todos os lados como vindo da periferia, do espaço infinito. Na verdade, entretanto, estamos nos confrontando apenas com o que nosso próprio corpo astral emitiu.” (R. Steiner – The Fourth Dimension – Sacred Geometry, Alchemy and Mathematics – p.20)




É preciso parcimônia neste momento em que tudo parece vitimado por explicações quânticas, apesar de até agora a teoria estar dando conta do recado, ao menos dentro do domínio físico material. Aferir realidades suprassensíveis com técnicas e materiais de uma realidade inferior parece contrassenso a ser repensado. Ao que tudo indica pode ser necessária uma transformação na própria forma como concebemos a realidade antes de prosseguir.



Explicar o inexplicável ou inefável com substratos do mundo da matéria pede atenção! A razão e a lógica são ferramentas indiscutivelmente poderosas dentro de suas arenas, mas podem não sê-lo em outras questões. Um modelo alternativo de elaboração, nem melhor nem pior, apenas diferente, é o pensar analógico que encontra nos mitos sua expressão plena. Os mitos funcionam como um milagre ou espelho que por concessão simétrica nos permite algum vislumbre do incognoscível, desde que haja mínima reverência no coração do buscador pelo fundamento de sua busca (Michael Ende trata disso no capítulo 6 e 7 da obra "História sem Fim").

Não bastasse isso tudo, um afastamento temporal ainda mais ousado, permite o vislumbre de um fenômeno simétrico significativo, ainda pouco compreendido, descrito por Paulo na primeira carta aos Coríntios.
Conversão de Saulo - Note-se a horizontalização do humano e a verticalização do animal - Damasco (Cidade do Jasmin)


“A nossa ciência é parcial, a nossa profecia imperfeita. Quando chegar o que é perfeito o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, julgava como criança, quando me tornei homem, acabei com as coisas de criança. Porque agora vemos por um espelho, obscuramente; mas então veremos face a face. Agora conheço em parte; mas então conhecerei plenamente, assim como também fui plenamente conhecido.”


A provocativa simetria poética do texto acima se faz ainda mais significativa quando vista à luz da concepção Paulina de corpo psíquico (Soma Psuchicon - Psiqué – Alma), corpo alma – que animaria o corpo físico (anima = alma) e permitiria o despertar consciente nos planos suprafísicos; enfim, a ideia de um corpo representando a própria manifestação conceitual e funcional de simetria.

Loucura ou caminho para um pensar mais vivo?