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sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A PARTE E O TODO


 

          O termo holos em grego expressa a ideia de inteireza e integridade. Para o conhecimento médio o todo se compõe das partes que o constituem, o todo é a soma dessas partes. Essa forma de conhecer associa parte e todo com o quebra-cabeça, assim como com a natureza inorgânica.

O inusitado surge, no entanto, quando se adentra o universo do orgânico onde um princípio organizador atua não apenas sustentando a forma, como também a transformando. Esse princípio pode ser compreendido como um epifenômeno ou como um nível superior de organização que atua sobre o nível inferior. Em qualquer desses casos, observáveis nos reinos vegetal, animal e humano, o que denominamos todo é sempre maior que a soma de suas partes.

Em outras palavras, enquanto no mundo inorgânico um mais um resulta dois, no mundo orgânico o resultado é sempre maior que dois. Saímos da matemática do inorgânico e adentramos a “matemágica” do orgânico. Esse conceito do todo poder ser maior que suas partes é a melhor aproximação desse termo holos.

Os termos shalom e salam, derivados de línguas semíticas, chegam à nossa gramática como paz. No entanto, naquelas línguas eles compreendem um sentido de integridade que pode ser inclusive transposto para objetos inanimados. Ou seja, posso dizer que uma vassoura está em paz! Pois está inteira e, portanto, íntegra.

Podemos então resgatar a compreensão de saúde enquanto estado pleno do ser. Se estou em paz e se estou inteiro, estou íntegro e integrado. As práticas integrativas almejam e propõem algo justamente nesse sentido.

Pessoas não integradas, ou seja, que romperam consigo mesmas, perderam a relação com sua essência, que em grande parte das tradições está relacionada ao coração. Daí o termo corrupto (cor – coração / rupto – roto); quando rompo com minha porção mais essencial é como se rompesse com o coração. Nessa corrupção, nessa rotura cardíaca está o princípio do adoecimento. Adoecimento que não ocorre como uma patologia que se instala instantaneamente, senão como estado de mal-estar ou de perda da paz interior. As práticas integrativas visam restabelecer a paz interior, a integridade perdida, antes que a doença se manifeste no corpo físico.


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

FAUSTO – GOETHE – MEFISTO




            Goethe viveu a transição de uma época chamada Iluminismo, onde os humanos da época decidiram abrir mão de uma certa qualidade de valores em função de outra. As escolhas daquela época refletem na época atual; alguém disse: quem planta vento colhe tempestade. Quem gosta de chuva forte nem liga, mas quem não gosta tende a ficar cada vez mais ligado.
            Saramago, Guimarães Rosa, Goethe e Tolstoi deixaram rastros, em suas obras literárias, dessa figura bíblica canhestra, esse ser da encruzilhada que se perdeu na caminhada. Na obra Fausto, Goethe o veste com a alcunha de...

MEFISTÓFELES (com seriedade)
Deus o Senhor – sabe-se a causa – quando
Do éter nos exilou à profundeza
Em que arde fogo cêntrico, abraseando
Voraz conflagração em torno acesa,
Vimo-nos lá, na luz exagerada,
Em situação incômoda e apertada.
Pôs-se a tossir toda a mó dos demônios,
Do alto e baixo a expelir bofes medonhos,
O inferno encheu de enxofre, ácido e azia,
Deu isso um gás! monstruoso em demasia,
Até que em breve, apesar de robusta,
Rebentou afinal a térrea crusta.
A cousa agora está por outro bico:
O que antes era a base, hoje é o pico.
Daí o ensino lógico é oriundo:
Virar-se para o mais alto o mais fundo;
Pois escapamos da opressiva esfera,
À integração no ar livre da atmosfera.
É segredo óbvio, muito bem guardado,
Pois aos povos não foi tão cedo revelado. (Ef. 6, 12)

Em Efésios 6,12 lemos:
            “Pois não é contra homens de carne e sangue, que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares. ”

            Quem caminha ao pé na letra trava a luta nos pulmões, quem não, escafandro, na atmosfera. E você Fausto amigo?


quarta-feira, 22 de junho de 2016

OUVIRUMDUM - DIVAGAÇÕES POLÍTICAS PARA UMA NAÇÃO UTÓPICA



Por um instante, consideremos ser menos 12 de outubro e mais 7 de setembro pois só com muito 1º de maio não seremos um eterno 1º de abril. Toda essa tinta no chão me faz perguntar se as coisas não estariam ficando pretas...
Sou estudante na USP, em greve (Veja: Greve na USP) há mais de um mês. Ao invés de escrever as resenhas usuais, aproveito esse tempo de ócio para uma reflexão leve e “macunaímica”.
Como se sabe, o contrário de uma coisa sempre e inexoravelmente é: “a mesma coisa ao contrário”. A solução talvez seja o novo, o inusitado, o impensável. Um impensável que não seja dividido ou partido e muito menos um coração partido, conforme dizia aquele cantor Cazuza, senão talvez uno como o UNI verso.
Que o exemplo de Cristo irradie a luz que carecemos nesse momento e que possamos reencontrar o caminho da roça. Como sempre, aos desavisados sugiro atenção e a bondade de quando cito Cristo seja feita a devida distinção dentre as inúmeras corruptelas e variações do mesmo tema, invariavelmente em oitavas inferiores. Pois Cristo é o coração e as variações são couraçados e desgraçados, e sem a graça já se sabe que a “coisa” fica sem graxa e a engrenagem emperra.


Quando o Janine assumiu a educação estranhei, um pensador filósofo? Será que alguém está de fato interessado em transformar o gigante? Mas, ilusão, durou pouco, quase nada. Janine escreveu um livro muito bom, eu gostei! “A sociedade contra o social” minuciosamente mostra como o tecido embasado nas telenovelas prepara e molda o pensar, se antecipando muitas vezes às mudanças do cenário político do país. Além disso, o autor ressalta o fato corriqueiro no Brasil de se fazer piada de coisa séria. Quando se faz piada de coisas sérias o senso comum e a opinião pública são treinados a perderem a noção de importância de alguns fatos. Fazer piada de coisas sérias é uma forma de alienar e desviar a atenção, você já pensou nisso? De qualquer modo, a nomeação do ministro em tempo quântico não passou de mais uma piada de mau gosto com as coisas sérias. Deve ser uma loucura saber como são os bastidores de fenômenos dessa natureza.
Agora, cá entre nós, fala sério!!!
Era uma casa muito engraçada, não tinha teto não tinha nada... Quanto mais pessoas viviam ali, maior era a necessidade de alimentos e a qualidade nutricional se empobrecia na mesma medida. Não havia comida de qualidade para todos! Os preços subiam e principalmente do feijão. Porque então procriavam, não seria o caso de repensarem a natalidade e suas taxas?
As torcidas, assim como o crime, se organizaram e agora os órgãos públicos estão começando a se organizar. Fala-se em golpe, para alguns de sorte, para outros, nocaute; para você? O fato é que nesse inverno as quadrilhas continuam a solta e nas festas juninas se escuta: olha a cobra! É mentira! Quando eu era criança pensava que quando o ladrão fosse visto roubando precisaria se entregar à autoridade, cresci e aprendi que a escuta ilegal mesmo quando desvenda o crime não pode ser usada como prova no tribunal! O que é ilegal afinal?


Vejamos como Thomas More (A Utopia) descreve em sua obra magna os Utopianos em relação ao quesito legal:
“Possuem apenas um número muito restrito de leis, pois, para um povo tão instruído como os Utopianos, e com tais instituições, poucas leis são necessárias. Desaprovam principalmente nos outros povos o número interminável de leis e comentários sobre as mesmas, e que esses povos consideram ainda insuficientes. Têm como suprema injustiça que se obrigue um homem a obedecer a leis que não consegue conhecer, pois são inúmeras e tão obscuras que ninguém as pode compreender com exatidão. Excluem ainda mais rigorosamente os advogados, procuradores e solicitadores, que manejam habilmente os processos e discutem astuciosamente as leis. Pensam ser mais acertado que cada um defenda a sua própria causa e confesse diretamente ao juiz o mesmo que contaria ao advogado. Deste modo haverá menos ambiguidade, e a verdade descobrir-se-á mais facilmente, pois o juiz pesará e examinará com bom senso as razões de cada um, a quem nenhum advogado instruiu com impostura, defendendo os espíritos ingênuos e simples contra as calúnias maliciosas dos malabaristas de palavras.
É difícil observar esses princípios em países com número de leis intrincadas e equívocas. Na Utopia, no entanto, todos são advogados hábeis, pois é pequeno o número de leis que os regem e sua interpretação mais simples e vulgar é considerada a mais justa. Pois todas estas leis, dizem os Utopianos, são promulgadas com o único intento de que cada homem fique convenientemente informado de seus direitos e deveres. Ora a interpretação cheia de sutilezas e habilidades é acessível a pouca gente e só esclarece um pequeno número, enquanto as leis formuladas com clareza e simplicidade são facilmente compreendidas por todos.”
Quincas Borba, filósofo Machadiano, já havia previsto isso tudo ao entregar as batatas ao vencedor; mas a filosofia moderna ensina que o vencedor mesmo é quem consegue dividir as batatas pelo maior número de pessoas possíveis, assim todos vencem e se alguém descobrir, nada a fazer! O crime perfeito é aquele que não aconteceu, então para que votar se os vencedores já dividiram as batatas antes mesmo da eleição?
Parece-me óbvio que para correr uma maratona é preciso treino. O treino é a poupança necessária para que se consiga terminar a maratona sem morrer no caminho. Mas qual a diferença disso e a poupança necessária para a compra da casa de seus sonhos? Nenhuma! Morrer no caminho e não honrar compromissos são sinônimos; treinar para a maratona e aprender a poupar também. Tudo isso parece muito óbvio, mas porque o brasileiro tem tanta dificuldade em poupar? Alguém saberia explicar? Na festa junina de sábado eles explicaram assim: A ponte caiu! É mentira!


E porque não lembrar Erich Fromm em um trecho do livro “A sobrevivência da humanidade” onde ele faz uma imparcial análise do raciocínio normal e do raciocínio patológico na política. Nesse capítulo o autor alerta sobre os obstáculos que uma sociedade emocionalmente desequilibrada, carente e racionalmente enfraquecida (território fértil para as novelas, reality shows e esportes de massa) oferece a seus habitantes, dificultando a percepção da realidade:
“A maioria das pessoas de qualquer sociedade não tem consciência dessa deformação. Só vê a deformação quando constitui um desvio da atitude da maioria, e está convencida de que as opiniões da maioria são certas e “sãs”. Não obstante, isso não é certo. Tal como existe uma “folie à deux”, há insanidade de milhões, e o consenso no erro não faz dele uma verdade. Para gerações posteriores surgidas anos após a irrupção da insanidade em massa, o caráter insano desse raciocínio, mesmo quando partilhado por quase todos, poderá ser percebido claramente”.


O Dostoievski na obra “Os demônios” (se ainda não leu considere seriamente) descreve com clareza imparcial o modus operandi dos regimes que surgem como alternativa salvadora, mas cujo objetivo é salvarem a si mesmos. Ninguém melhor que ele, vítima do processo político russo, para elucidar como regimes aberrantes se apropriam do poder a partir da instauração sistemática do caos, senão vejamos o que ocorre no epílogo do clássico na página 646 pelo personagem Liámchin:
“À pergunta: por que tantos assassinatos, escândalos e torpezas? – Respondeu com uma pressa exaltada que era “para provocar um abalo sistemático das bases da sociedade, para a desintegração sistemática da sociedade e de todos os princípios; para deixar todo mundo em desalento e transformar tudo numa barafunda e, uma vez assim abalada a sociedade, esmorecida e doente, cínica e descrente, mas com uma sede infinita de alguma ideia diretora e de autopreservação, tomar tudo de repente em suas mãos, erguendo a bandeira da rebelião e apoiando-se em toda uma rede de quintetos, que entrementes agiam, recrutavam gente e procuravam na prática todos os procedimentos e todos os pontos frágeis aos quais podiam agarrar-se.”

Sempre surpreende os momentos em que o passado revisita o presente não acham?

terça-feira, 14 de junho de 2016

POEMA AOS CANALHAS (09/11/11)

     
Esse poeminho escrito cinco anos atrás é para aqueles de nós, que como eu,

querem melhorar, voar e lembrar...



Sabemos que suas intenções não são as melhores

e que o benefício próprio é a razão de seu viver.

Como a corrente que prende,

repare e veja sua vida

onde ela para e de que ela se nutre...

Assim como o abutre voe alto

mas imite a águia  que não anda em bando

Bandidos, projetos de benditos, acordem da letargia

antes que suas próprias vidas e vídeos os intoxiquem

de forma que não possam mais arrancar a máscara colada

por medo de encontrar quem você foi um dia.

E ainda pior!

“LEMBRAR”

o que veio fazer e esqueceu,

quando o tempo já não for seu.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

AINDA SOBRE O ÓCIO EM 2016

Por: Mário Inglesi
Sobre o texto: Por um pouco mais de ócio e menos de negócio



Dr. Ricardo,
Desde há muito tempo, o vocábulo ócio está ligado ao estigma pejorativo de vagabundagem, menosprezo por quaisquer compromissos de trabalho, sejam eles quais forem.
Para isso, não importava o motivo de sua existência, apenas se enxergava o fator da ausência da vontade implícita do trabalho no indivíduo, quer para sustento de si ou de seus familiares.

Nesse contexto Paulo Prado, 1869-1943 evoca:

"São desgraças do Brasil
Um patriotismo fofo
Leis com parolas, preguiça
Ferrugem, formiga e mofo."

A essa situação, em tempos idos, veio juntar-se a descoberta de motivações várias, como doenças provenientes da existência de vermes no indivíduo, a tendência à fadiga motivada pela ingestão de excesso de bebidas alcoólicas, incidência de doenças várias que, em conjunto ou separadamente, impedem o indivíduo e sua vontade, a qualquer ato em seu beneficio ou de outrem ao seu redor.
Foi o que demandou talvez Monteiro Lobato, em sua obra Urupês ao criar o Jeca Tatu, trabalhador rural paulista abandonado pelos poderes públicos às doenças, atraso e à indigência.
Personagem este configurado, porém, como portador de todos os males sociais, em especial a preguiça e com ela a característica principal então definida, em última instância, como vagabundagem.
Com o passar do tempo e as mudanças sociais ficou constatado, que, na maioria dos casos, eram as doenças parasitárias endêmicas que levavam os indivíduos ao ócio, à vagabundagem, à preguiça, à leseira, ou mesmo, influíam para a existência de tal modorra para qualquer atividade.
Mas, hoje, felizmente, tudo mudou ou vem mudando, e o ócio deixou de ser pejorativo, para tornar-se sinônimo de saúde, bem estar, de configurar-se o procurar por si mesmo, em sua intimidade mais profunda, em promover e valer-se do tão almejado lazer, de dar vazão à criatividade, configurado na frase cunhada por Domenico De Masi, “Ócio Criativo”.
E, então, como Macunaíma, de Mário de Andrade, libertos de todas as pechas, juntamo-nos ao coro dos contentes e, em alto e bom som, voltamos a bradar:
“Ai, Que Preguiça!”
Pronto: Estamos, enfim, leves, livres e soltos. Livres para, em preces, cultuar a preguiça, como ócio, meditação intelectual, maneiras de encarar a vida, de filosofar, tendo como máquina fundante geradora de um aprazível viver, em sentidos os mais diversos, como, falar, escrever, se comportar e amar, a exemplo, prazerosamente, do fazer de Manoel Bandeira:

“Então me levantei.
 Bebi o café que eu mesmo preparei
Depois me deitei novamente,
acendi um cigarro e fiquei pensando…
- Humildemente nas mulheres que amei”

A tardança dessa nova situação, entretanto, não só se faz sentir de maneira abrupta como ainda se mostra infinitamente difícil de usufruir, nos tempos atuais, do ócio e seu lazer, nos moldes pretendidos e exigíveis ao atendimento de nosso bem estar e saúde.
 Isto porque já não somos primitivos, como nos viam os colonizadores, e também pelo fato de que com a engrenagem e suas amarras, é manifestamente muito difícil de voltarmos ao primitivismo existencial, e assim desfazer as amarras, nós e laços que ora nos prendem ou envolvem. Primeiro, pela existência de fatores preponderantes à nossa existência, como os inúmeros compromissos que nos envolvem e nos levam a atender, em tempo rápido e necessário, como obter maiores ganhos, destinados a suprir as demandas pessoais de trabalho, de lazer, de imagem e outras tantas que nos fazem derrogar o slogan “mais ócio menos negócio”, em favor de um viver social construído e oferecido por toda a gama de fatores de merchandising, a que estamos atados em “nós” impossíveis de serem desatados, sem a perda, muitas vezes, de conquistas que nos custaram os olhos da cara, e das quais não nos podemos livrar, impunemente.
Ademais, como abraçar o ócio, em meio a tantas injunções sociais e particulares, impingidas autoritariamente contra nós, fazendo-nos, até intuitivamente a portarmo-nos como “robôs”, ou “clowns”, tantas são as demandas e exigências viscerais que nos engolem ou nos fazem engolir a vida cotidiana, agora não mais apenas em grandes metrópoles mas também em cidades circunvizinhas ou não?
Isso sem consideramos as ofertas, que nos impigem diuturnamente pelos meios de comunicação, ou por estabelecimentos bancários, concursos, propaganda e que tais, para usufruirmos de uma vida sempre sonhada, mas nunca, ou raramente, alcançada., a não ser com esforços de maquinações de toda ordem, aceitas por pais e inculcada aos filhos, como obrigação rotineira, desde muito cedo como herança de “ouro de tolo” como muito bem proclamou Raul Seixas em sua música do mesmo nome.
E mais, os índices em baixa, a inflação em alta, a moeda capengando e o desemprego se avolumando dia a dia, a aflição noturna e os pesadelos crescem e o suor noturno aumenta, mormente quando se pensa o que e como fazer para não perder o emprego, o pouco de sono tranquilo e o resquício de ócio, que porventura possa restar, nessa situação tão aflitiva, de durabilidade ou piora a perder de vista, põe em sobressalto um viver que se vislumbrava duradouro, e sem percalços, ainda que delineado por algumas dívidas a serem liquidadas com o correr do tempo, do vento a favor sem menosprezar - claro - a proteção e ajuda divina, continuamente invocadas.
Essa materialidade feroz faz do homem um ser acuado, desalojado de seus valores, que se recusa a formar uma visão de mundo e nela interagir, pois não pretende se enfronhar em encontrar verdades, mas apenas acontecimentos, situações e principalmente, como ele, homens com um olhar assustado sobre a realidade em que vive e atua.
Quer nos parecer, portanto, que o ócio ora preconizado veio em má hora, ou tardiamente, a nossa vagabundagem foi arrastada quiçá, para outras plagas, onde subsistem em sonho, fantasia ou ficção, tal como usufruíram os personagens de “O Mágico de Oz”, de L Frank Baum (1856 -1919) ou os de Alice no País das Maravilhas ou dos Espelhos de Lewis Carroll (1832-1898), e tantos outros personagens à nossa disposição, para usufruir condignamente, em nosso favor, o privilégio do “Ó-C-I-O”, (criativo ou não) que não seja apenas: aquele de “tirar caca do nariz”, ou fazer caretas basbaques, para rir de si mesmo, ou ainda bocejar e espreguiçar, ou lavar a alma em impropérios mil, quando dentro do carro, protegido por Insulfilm, durante um congestionamento infindo e habitual, depois de reuniões de diretoria, almoço de negócio, colocação do expediente em dia, e dar palestra a um público, para merchandising de produtos da firma. Esse minúsculo espaço de ócio, serve para mostrar, - até que enfim! - então, a nossa face inteiriça, primitiva e verdadeira, sem os subterfúgios usuais, de quaisquer maquiagens impostas socialmente, ou de cobranças familiares, bem assim, de dever de ofício ou, ainda salvar-se de imprecações, de caras feias, chiste, ou menosprezo, num raro momento de ócio não programático, numa paz de bebê enlevado pelo sono.
De todo modo, valer-se do ócio, como forma de alcançar, talvez, um substrato para atingir-se “a saúde” tem seu quinhão de validade nada desprezível, e, como tal, não deve ser subestimado, apesar de todos os fatores negativos existentes em pauta.


Mário Inglesi

domingo, 8 de março de 2015

HÁ QUE SE MELHORAR ANTES DE REAJUSTAR

Por: Dra. Viviani H Yamazaki – Médica de Família

Ricardo, boa noite:
            Escrevi o texto abaixo naquele dia de caos  na cidade, que um quarto da população de SP ficou sem energia elétrica (alguns até mais que 24 h), publiquei em minha linha do tempo do facebook. Fiz isso porque muitos amigos reclamaram que o ar condicionado não funcionava, que não era possível conectar o “wi fi”, portão eletrônico, etc... Então, resolvi falar um pouco sobre a situação nos hospitais, quando o gerador demora a ser ativado e a angústia que ocorre nesses momentos. Enfim, recebi várias mensagens de reflexão, afinal nem todo mundo é da área da saúde. Foi legal porque despertou um sentimento de humanidade e impotência em pessoas que levam a vida muitas vezes voltada para outros interesses. Achei interessante encaminhar para você, já que o  blog tem um direcionamento para consciência e reflexão...
Boa semana com muita energia positiva em bomba de infusão contínua!


Ontem resolvi expressar minha indignação, cada vez que chove é esse stress, a luz acaba os semáforos ficam bandeirados, os motoristas disputam cada milímetro de espaço, de forma irracional e muitas vezes violenta. Muita gente se preocupa por que não entrou a internet e a “Tira Visão” a cabo permanece sem sinal, o ar condicionado que não liga, reclamam que a Eletropaulo, empresa suspeita de não ser fiscalizada de forma adequada, é terra de ninguém. Pagamos muitos impostos pelo que recebemos e em muitos países desenvolvidos a rede elétrica é subterrânea, sem a ação dos ventos ou queda de árvores. Sem dúvida, diante de todo contexto, o mais grave de tudo, é a situação nos hospitais. Quando a luz acaba, até entrar o gerador é uma grande correria, são instantes de agonia, o hospital inteiro corre para atender os idosos, pacientes graves e crianças entubadas. Até o gerador funcionar, são realmente segundos e minutos de aflição. Quando o respirador não funciona, a oxigenação é feita manualmente pelos próprios funcionários do hospital, os pacientes de UTI que já estão no limite da vida podem passar em alguns segundos para a morte. Isso em um hospital privado, onde todo o treinamento funciona como uma orquestra sinfônica bem sincronizada, as complicações são mínimas e o exército geralmente é bem treinado. O que me entristece e realmente me preocupa, é que fico pensando quantos são os hospitais da rede pública que não possuem os mesmos recursos, que não seguem os mesmos treinamentos a risca, os chamados procedimentos normativos. É muito triste e inaceitável saber neste que exato momento, quando acaba a eletricidade na cidade de São Paulo, muitas pessoas morrerão reféns do abandono da saúde nos hospitais públicos. Esses atestados de óbito talvez devessem ser preenchidos não pelos médicos, mas pelos governantes e pela empresa Eletropaulo, que não responde às criticas, reclame aqui, não são bem fiscalizadas, fazem e dizem o que querem livres de qualquer punição!! Proclamam em cadeia nacional, que estão preparados com medidas preventivas para evitar a queda de luz na cidade, mas na prática não é exatamente o que observamos nesse período de chuvas. Deixaram toda a população no escuro e totalmente à deriva, sem o menor respeito ou comprometimento com a vida humana!

      Viviani H Yamazaki

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

SLOGANS E FRASES - "CINZAS" DE QUARTA FEIRA

POR: MÁRIO INGLESI

Dr. Ricardo
“Acabou o nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou”

Marcha de Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius de Moraes.

Lamentos de Carnaval – Marcelo Quintanilha & Vania Abreu – G.Gil

Findou-se mais um Carnaval. E, com ele, toda a alegria, prazer e liberdade, que, sempre oferece, a quem está disposto a divertir-se e dar asas à sexualidade, à imaginação, esquecendo o cotidiano insonso e as agruras do dia a dia sensaborão e piegas.
Com um pé num passado não muito distante, quando vigoravam ferreamente, normas religiosas, hoje, já abrandadas ou até deixadas de lado, em favor da permanência ou incremento de fiéis, o Carnaval ainda é considerado a festa do Demo, e portanto, de longeva distância, como “entrudo”, provavelmente no século XVI, em Portugal.
Mas, o que mais chama atenção dentro dessa mistura de ideias e ideais, não é o gostar ou não de Carnaval, é, isto sim, o forte e incisivo horror que permeia, quando se alude ao Tríduo momesco, com a frase gratuita, já que sem qualquer embasamento crítico explicativo, é a atordoante frase “Eu Odeio Carnaval”, Traduz-se mais como um ranço de vingança, ódio ou até mesmo – quem sabe – inveja, de não poder estar ali no meio da multidão, curtindo todo o afã de uma alegria pouco duradoura, mas sempre eternizada a cada ano.
O que causa espécie e espanto nesse ódio é que, ele não se faz presente e não se declara em situações em que, realmente, a fúria deveria estar sob um clamor, realmente dilacerante, como nos casos das guerras, com seus milhares e milhares de mortos, feridos e incapacitados para a vida, ou ainda, nas ocorrências de fome endêmica, abandono de crianças e matanças de pessoas por motivos fúteis como nas tais balas perdidas. Ou, ainda em razão de um consumismo desenfreado, levado a efeito por uma acintosa propaganda maciça, por todos os meios de divulgação, ou, às alterações havidas na linguagem escrita, fazendo-lhe perder a sua real origem e significado. Ora, se a própria religião instituiu a “Quarta Feira de Cinzas”, para oferecer seu perdão a todos os foliões que a procuram, como diagnosticar, o porquê de tanta fúria enrustida, a não ser como um preconceito infundado e insonso, infelizmente, também demonstrado contra outras categorias de pessoas e situações?

Em se tratando do Carnaval é preciso ter em mente que:

“Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor.”

Chico Buarque de Holanda

Essa inapropriação de termos e atitudes vem em detrimento do célebre slogan apregoado aos quatro cantos como a salvação da pátria, “Conhecer-te a ti mesmo”. Ora, como fazê-lo? Apenas com uma autoanálise, ainda que diuturna, e, de todo modo, infrutífera, é “chover no molhado”. Conhecer-se é participar, estar no mundo, correr riscos, conhecer o outro, intermediar conhecimento, aculturar-se, ver a arte, não como refúgio, ou mero entretenimento, mas como substância e substrato da vida. Ainda mais, fazer escolhas, estudar e, principalmente, não fazer pré-julgamentos sobre a vida e as pessoas ou situações, afinal, tudo está envolto em complexidades, e, o homem - ele- , repita-se à exaustão – é uma “metamorfose ambulante”, ainda que o queiram asfixiado, moldado e enquadrado em normas de parâmetros fixos e eternos.
E não é só, para nos iludirmos e nos conformarmos com todos os males que nos rodeiam, inventaram outro slogan – ainda mais esdrúxulo – o “pensar positivo”.
Tal slogan enfaticamente distribuído como “um santo remédio” não é mais que uma propaganda enganosa, pois embute nele a falsa felicidade eterna, consubstanciada no lema laissez faire, laissez passer, le monde va de lui mème. Assim, não se preocupe, não dê bola a problemas individuais ou sociais, nem se deixe levar por críticas, ou por indagações pertinentes, leve a vida, fuja da realidade, crie um universo simbólico próprio ou virtual, dentro do qual o mundo e a vida formem um todo, de algum modo assimilável, sem embates, sem problemas, mas, de todo modo, sob a famosa rubrica: “O Pior Cego É Aquele Que Não Quer Ver”.
Com isso, o ser humano se faz diminuir: perde sua grandeza, sua criatividade, seu alento maior em busca de sua perfeição e da melhoria dos homens e sua sociedade, e, tal qual Macunaíma, de Mário de Andrade, se vê “transformado em nada que sirva aos homens, e, assim, aconchegado apenas num vasto campo do céu sem dar calor e vida a ninguém”. Quem sabe, até, todo encolhido, balbuciando num solilóquio infindo, marcado somente pela tristeza e comiseração: Ai de Mim! Ai de Mim!

Mário Inglesi

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

VOCÊ É INSUBSTITUÍVEL?


            Boa parte do que consideramos saúde decorre do sentido que atribuímos à nossa própria vida.  Nada contra uma vida sem sentido, decorrência natural da fé nos “genes egoístas”, se é que podemos atribuir caráter ao material genético. Mas se por um lado alguns se renderam à ideia do “humano máquina” – resultado das escolhas de seus genes – não somos poucos os que vivem percepção diversa.
        De fato, conforme se vive, com maior clareza se aprecia a distância do comportamento humano daquele das máquinas. Enfatizo só se notar isso entre os optantes pela opção “viver”, pois dentre os que optaram apenas por “existir” ainda é comum se observar o comportamento do tipo máquina. A propósito, acho já lhe perguntei antes, mas repergunto: você está vivendo ou apenas existindo?
O comportamento tipo máquina não possui fundamento próprio senão aquele para o qual a “máquina” foi programada. Isso é muito importante para elas, que se pensassem causariam problemas, mas no caso do humano a situação se inverte, sendo não pensar o gerador do problema. Ironia, justo esse não pensar subjaz ao adoecimento silencioso do ser. Silencioso, pois não há apenas saúde e doença, mas largo espectro de apresentações passando por duas situações geralmente subdiagnosticadas, sejam elas o estado de subsaúde e o de pré-doença. Mais comuns do que se possa imaginar, decorrem da capacidade natural de cada pessoa, eventualmente à revelia, se adaptar a situações e contextos de vida ainda que contrários a seus valores pessoais existenciais.
Esses valores pessoais deveriam funcionar como motivadores existenciais e são únicos a cada ser humano que, reforço, optou por funcionar no modo “viver”. São eles que determinam o sentido pessoal da vida de cada um de nós. Entretanto, conforme cotidianamente a pessoa se afasta dos mesmos, ganha espaço um estado progressivamente comum de esvaziamento interior. Este afastamento é potencializado por estímulos externos ao ser e por outro lado é contornado em situações de cultivo da realidade interior com maior ênfase. Curiosamente hoje a atenção está sendo direcionada cada vez mais para fora que para dentro. Nada contra isso em si, mas do ponto de vista médico tudo contra não se aperceber disso!
Ora, se o sentido da vida é tão imprescindível e Viktor Frankl já falou um pouco a este respeito, pelo menos cabe aos que “vivem” perguntarem-se: “Eu estou vivendo aquilo que para mim faz o maior sentido?” ou ainda: “Faz sentido ao profundo do meu ser a forma como venho vivendo?”.
Essas questões, feitas de maneira honesta e em recolhimento evocam a percepção interior de ser ou não insubstituível naquilo que se faz. Esta noção é fundamental para a compreensão da ideia de saúde. Somos tanto mais saudáveis quanto mais próximos desse sentido pessoal e optaremos melhor tanto quanto nos percebermos únicos dentro deste processo de escolha. A busca pessoal pelo sentido da vida é condição sine qua non para a saúde plena. O afastamento do princípio diretor individual eterno (ser) decorrente das benesses do culto temporal ao ter pode ser prenúncio de caminho pouco auspicioso.


 Temos acompanhado repetidas vezes as dificuldades dos humanos em conseguir não usurpar a coisa pública; diga-se de passagem, colegas nobres com seus genes egoístas advindos de “genética nobre” estão fazendo escola, mas escola de como não fazer. Bom exemplo hoje é artigo de luxo. Quem diria presenciaríamos em vida a eleição, conforme Gil em Guerra Santa, do bom ladrão?!
De qualquer modo, isso tudo parece se relacionar à questão da zona de conforto que muitos cidadãos buscam em sua vida: fazer um pé de meia, comprar uma terrinha, uma casinha na praia e tudo isso para quando eu me aposentar... Tudo indica que muitos pretendem “existir” até a aposentadoria e a partir daí começar a “viver”.
Do ponto de vista médico, entretanto observa-se fenômeno bisonte, seja o adoecimento que se dá, não raro, justo no momento derradeiro da conquista tão esperada. O humano que funcionou até então no modo predatório “ter” tenta passar a operar, aposentado, em modo para o qual não se preparou a vida toda, o modo “ser”. Observo no cotidiano que esta mudança comportamental, quando tardia, cobra alto preço de seus adeptos, sendo a doença em todas as suas nuances o principal sintoma. Assim, acredito ser questão de saúde pública a se considerar: educar as referências sociais para inspirar e instilar saúde nas instituições e nas pessoas que delas fazem parte. Coisa simples para o que boa vontade e amor no coração seriam medicações mais que suficientes.
Neste regime, o supremo tribunal do amor (STA) seria a instância máxima não a punir senão por questão de saúde pública arcar com os custos da internação (eventualmente perpétua) e reabilitação psiquiátrica dos contraventores e megalomaníacos que se perderam de si em favor da cobiça. Veja, por favor, que escrevo isso por acreditar e vir falando que “Saúde é Consciência”, de modo que na atualidade com tudo o que se sabe já se poderia estar em situação razoavelmente melhor...
Bem, tudo isso para chegar à questão título desta pequena reflexão: “Você é insubstituível?”. Para alguém ser insubstituível precisa ser único, ímpar, inigualável, genial, tudo isso sinônimos da palavra indivíduo. Para saber se você é insubstituível imagine que neste instante deixará de existir aqui na terra (Pause 30 segundos...). Se perceber que tudo em que estás envolvido continuará acontecendo com ou sem sua presença, isso sugere que você seja substituível, decorrência de operar no modo existir.
Caso tenha se incomodado, isso não é ótimo, mas é bom sinal e indica haver interesse e vida em você. Ser insubstituível requer ser único! De fato, cada um de nós é único e o que nos torna insubstituíveis é ser e viver este aspecto único que trazemos, sentimos, portamos interiormente e manifestamos. Para alguns de nós este algo único é luminoso e pode ser até mesmo visto ou percebido pelos outros e pelos seus cinco sentidos físicos; para outros este algo único é silencioso e sua luz de tessitura tal que transborda, sustenta e une tudo aquilo que está além dos cinco sentidos físicos. Aqui não há melhor ou pior, é na diferença que o único ganha espaço; a diferença é uma das linhas do tecido do amor, sem a qual ele não se pode manifestar, ao menos não aqui nesse texto...
Ser único não é garantia de vida fácil (zona de conforto), mas garantia de alegria e felicidade pelo simples fato de estar harmonizado ao seu principio diretor, seu sentido existencial. A propósito, felicidade é critério pessoal e não droga ou medicamento encontrado em farmácia ou livro de receitas. Em Jó é possível aprender sobre a dicotomia ter e ser, assim como os benefícios e a superioridade do segundo modo em relação ao primeiro. Ninguém é condenado ou obrigado a ser feliz assim como ninguém deveria acreditar que felicidade significa a mesma coisa para todos, como se tenta definir no dicionário.

"Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade” Mário Quintana

Finalmente, quando se ressalta o aspecto único de cada ser como responsável pelo seu caráter insubstituível, seja lembrada a analogia com o quebra-cabeça. Cada uma de suas peças é única e o todo só se compõe quando cada uma ocupa seu lugar exato. Cobiçar algo, desejar ser como alguém ou mesmo invejar são prerrogativas do modo “ter” que colocam em risco a individualidade, torna as peças do quebra-cabeça iguais e impossibilita sua completude. Houvesse duas ou mais peças iguais e o todo estaria comprometido. Da mesma forma, a pessoa que É se torna insubstituível por transbordar a partir de si e não por algo que lhe foi depositado, atribuído ou que a constitua a partir de fora.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

QUE MEDOOOOOOOOO!!!

       Dr. Ricardo
Há uma onda gigantesca que continua encobrindo avassaladoramente nossas grandes cidades, intimidando, apavorando, atemorizando e paralisando seus cidadãos sob a alcunha, de “medo”.
Ela surgiu como que de repente e foi engrossando à medida que os interesses econômicos e comerciais dela puderam tirar proveito até formarem um conglomerado que, a cada dia se renova e se estende, com a oferta de produtos os mais variados, agora de uso obrigatório na defesa de bens e patrimônio físico e material.
Seu nome comum e familiar cingia-se, inicialmente, a poucas e corriqueiras situações fortuitas e inusitadas – diga-se - de pouca frequência, pois ocupava principalmente, o meio rural, onde, insetos, animais de grande porte ou não, assim como os fenômenos naturais, como raios e trovões, deixavam seus moradores solertes. Aliados a isso, abundavam historietas fantásticas de seres como saci, mula sem cabeça e mil outros seres imaginários que, hoje, boa parte preenche nossas tradições sob a rubrica de folclore.
Isto advinha de situações cercadas de mistérios, e abarcava então objetiva e subjetivamente a maioria das pessoas, afinal não se tinha meios de segurança, a não ser o enfrentamento e morte dos possíveis algozes.
Felizmente, hoje, são bastante restritas tais áreas, dado o avançar do progresso, ungido pelo poder socioeconômico, elevando assim, a patamares citadinos muitas e muitas dessas regiões.
Com isso, o “medo” mudou, tornou-se, ainda mais agudo e ferrenho, fazendo dos sujeitos seres quase impotentes diante da infinitude dos medos imaginários ou não, dominantes e predominantes em cada ser humano.
Daí começou o trancar de portas e janelas com grades e mais grades. Mas isto não bastou, foi preciso promover os guardiões do patrimônio pessoal e físico, os denominados “policiais, seguranças etc.”. Hoje, nem eles servem tanto aos desígnios propostos, pois também caíram em desgraça: do descrédito e da desimportância.
Nesse contesto, apelou-se então para aparelhos como interfones, câmeras, sirenes, olhos mágicos nas portas.
Toda essa parafernália não afastou o medo, que os acometia. Então, surgiu o mais poderoso promotor da tranquilidade: o seguro de bens e pessoas, para salvaguarda financeira dos perdidos
Essa nova modalidade prosperou e prospera a cada dia, oferecendo pacotes e mais pacotes de segurança e indenização.
Paralelamente, recorreu-se, e, ainda recorre-se, a psicólogos, ou a baldes de tranquilizantes, ou então à escolha múltipla de livros de autoajuda ou, ainda, nos esparramamos em ritos e preces nas igrejas das multifacetadas religiões de plantão.
Mas, tudo isso, foi suplantado pelo maior engenho então descoberto e usado, em escala nunca vista e imaginada: “a arma” de fogo, de calibres vários a escolher. Sua grande vantagem é não exigir força do usuário, ser indolor, para quem a usa e, alcançar os objetivos, em caráter de urgência, urgentíssima: Acabar com os medos.
A indústria armamentista pessoal alcançou desde então, pícaros de venda e seus usuários espalharam-se por todas as camadas da população, uma vez que, usufruíram dela, tanto os “bons” quanto os “maus”, - os denominados assassinos – sejam diretos ou de aluguel.
Em caso de dificuldade em comprar ou arranjar armas e seus projéteis, busca-se o seu tráfico, cujo trabalho é fácil e não exige nada além do dinheiro.
Nesse patamar alcançamos, então, a propalada e tão desejada igualdade: a matança alcança um nível geral, indistintamente também, igualitária, seja em que circunstância for, de importância e de requintes ou não.
Com ela, entretanto, perdemos a liberdade. O medo tomou conta de todos. Trancafiamo-nos, e isolamo-nos em verdadeiros “Bunkers”. O outro só vemos do alto de nossos edifícios, a comunicação, caiu por terra, agora só pelos meios eletrônicos, Nada de tête-à-tête. Sair só de carro particular, assim mesmo, com blindagem, sempre que possível.
A paranoia do “medo”, sufoca e paralisa, atingindo-nos com doenças as mais diversas, em sua maioria duradouras, pesarosas e mortais, além de forçar discriminações, e preconceitos, atiçar ódios e revoltas, ver o “outro” apenas como inimigo, a ser combatido e eliminado, nos torna carcereiros covardes, estátuas de olhos que não veem, de ouvidos moucos e bocas sem vozes, mudas como o material que as fez.
Todavia, as indústrias afins ou paralelas, ligadas às doenças e à morte, em razão do “medo” crescem dia a dia e seus índices, hoje, atingem percentuais altíssimos – talvez maiores que os das guerras espalhadas pelo nosso universo -, sendo necessário então, criar, - oh céus! - de maneira “populista” todo um arcabouço de incentivos e, obviamente, programas de incremento ao “mais médicos”, mais hospitais, mais funerárias, mais terrenos destinados à moradia eterna’, mais isso, mais aquilo, etc. e etc.
Afinal, tal como nos declara o poeta português Alexandre O’Neil (1924-1986):

“O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
Mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos”
........................................................

(“O Poema Pouco Original do Medo)

Mas, para todos os fins, tal como no poema de Drummond, precisamos alijar a pedra ou o “medo”, ou qualquer outro empecilho que nos impeça de viver, para podermos então, declarar como o poeta, nesse mesmo poema:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra”

Se não soubermos lidar com os medos que nos afligem – a exemplo das crianças com a sua leitura dos contos de fadas infantis ou trabalhá-los de modo a afugentá-los de vez do nosso cotidiano, com visões e práticas adequadas, isentas de moralismos e ajuizamentos apriorísticos inidôneos – aí sim, os medos nos envolverão objetivamente, em vista de fatos políticos, sociais e econômicos que realmente nos colocarão numa teia kafkiana amedrontadora, de emaranhado sem precedentes e de difícil ou impossível saída ou retrocesso.
Portando, ao abraçar o desfraldar do “Saúde é Consciência”,  conviria lembrar-se - sempre que possível - da abrangência e profundidade que o lema pode ter para o alcance e plenitude de uma vida única, quiçá curta, mas vivida de modo íntegro e participativo, sempre na busca precípua da feliz convivência com todos os nossos pares, neste pequeno e único espaço que habitamos.
Se isso não se fizer- Oh Senhor! – Valei-nos:

“Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente”(1)

Poesias Completas, Vinicius de Moraes. (1), Ed. Aguilar

E mais, sentir medo, - acreditem - é destruir as possibilidades de aceitar e usufruir das coisas novas que a própria modernidade vem mudando radicalmente em nossas vidas com a chegada benfazeja da informática, e de aparelhos novos que ajudam e programam a vida diária, modificando, inclusive, o nosso tempo de ócio, prazer e lazer.

Mário Inglesi