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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A LUCIDEZ PERIGOSA




Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
 

Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo. 2ª ed. RJ – Nova Fronteira, 1984.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

MISTÉRIOS DE CLARICE

Por Mário Inglesi


      A pessoa e a literatura de Clarice Lispector (1925-1977) levam sempre a estigmatizá-las sob o rótulo de difíceis de trato a primeira e de leitura não menos subjetiva e inexplorada a segunda.
 
      Esse posicionamento nos parece insuficiente para uma análise mais profunda e abrangente de ambas, configurando sempre em mistérios a serem desvendados com vagar e não menor esforço.
 
      Daí a imagem, - talvez não alusão a Clarice Lispector, mas perfeitamente cabível a ela, dos versos de Caetano Veloso e Capinan: 

Que mistérios tem Clarice?
Que mistérios tem Clarice?
Pra guardar-se assim tão firme
No coração 

      Avessa a entrevistas e à difusão de fatos ou ocorrências de sua vida pessoal, Clarice se escondia quase impenetrável, sempre alegando cansaço, sob uma máscara própria, que segundo ela mesma diz “é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário”.

      Essa atitude, talvez seja decorrência do próprio duelo que ela travava com o mundo do Ter, que a amesquinhava e a compungia literalmente, em detrimento do seu “Ser” – próprio da simplicidade que sempre buscou e lutou em toda a sua vida existencial. 

      Mulher de diplomata, tendo de acompanhá-lo em viagens ocasionais a inúmeros países e tendo de enfrentar o “sucesso social” com agendas de compromissos com pessoas de máscaras fictícias, de inteligência pouca, educação frívola e medíocre, de beleza mentirosa, sempre postadas sob muitos subterfúgios, e de pensamentos ilusórios e propostas mesquinhas de salvar a humanidade, mas com um pensamento único: “Eu”.
 
      Essa situação, só lhe oferece uma única saída – sempre perquirida -, escrever para se renovar e continuar a viver: “Eu nunca pretendi assumir atitude de superintelectual Eu nunca pretendi assumir atitude nenhuma. Levo uma vida corriqueira. Crio meus filhos. Cuido da Casa. Gosto de ver meus amigos. O resto é mito”. “A palavra foi aos poucos me desmistificando e me obrigando a não mentir.”
 
      Essa simplicidade, sob o manto enigmático de uma pessoa difícil e complicada, é revelada em sua literatura, sem mistérios, apenas eivada de muita profundidade. “Sou complicada? Não, eu sou simples como Bach”. E é também configurada pelo seu “gosto pelos bichos, desde a infância quando era rodeada de gatos, que faziam a sua alegria e o inferno para os adultos”.
 
      Assim, apesar de todo o ciclo de fatalidades que a assoberbou, a sua vida, como a separação do marido, nascer mulher, não se entregar a devaneios de luxo e riqueza, Clarice, de todo modo, representa bem a luta insana que ainda se trava em favor do mundo do “Ser” para fugir ao mundo inclemente da superficialidade de mostrar-se apenas como “diferencial” de um inócuo falso brilhante, que se esgota em si mesmo.


Clarice
Veio de um mistério,
Partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
Era Clarice viajando nele.
Carlos Drumond de Andrade

      O perfil de Clarice Lispector aqui pouco bem exposto – dado principalmente à grandiosidade da autora - tem por único objetivo trazer algumas reflexões sobre o mundo do Ser e suas dificuldades de conquista e implantação.
 
      PS.: as declarações de Clarice Lispector, bem como o poema de Drummond foram extraídos de “Clarice Uma Vida que se Conta” de Nádia Batella Gotlitb, da Editora Ática, 1995
 
Abraço maior, de vez em sempre compartilhado
 
Mário Inglesi 07.11.2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

PERDOANDO DEUS - CLARICE LISPECTOR


 
Andando pela Avenida Copacabana, ela teve uma sensação insólita: sentiu-se a mãe de Deus, o qual era a própria Terra, o mundo. Teve um carinho maternal por Deus. Foi quando quase pisou num rato morto. Encheu-se de susto e pavor como uma criança. Então revoltou-se contra Deus. Por que num momento de tanta beleza interior ela tinha topado exatamente com um rato? Teve vontade de negar que Deus existisse como Deus...

Mas percebeu que esse pensamento é a vingança dos fracos quando tomam consciência de sua fraqueza. Concluiu que a sensação tão solene que tivera era falsa, estivera amando um mundo que não existe (“ no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. E porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.(...) Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza?”)
Finalmente, ficou esclarecido na mente dela que estava querendo amar a um Deus só porque ela não se aceitava. Ela estaria amando um Deus que seria seu contraste, esse Deus seria apenas um modo de ela se acusar. “Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe”.