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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CRIATIVIDADE VI

POR: MÁRIO INGLESI
Continuação de:


Dr. Ricardo
Criar nos eleva ao reino dos Deuses e seu infinito, nos dando a tão desejada imortalidade.
Portanto, envidemos todas as nossas forças, no esforço comum de abrir nossa loja de curiosidades, no afã de marcar a magnificência de nossas vidas, eternizando com muitos e muitos traços de humanidade nossa passagem por esse planeta Terra, através da arte, cuja beleza cultiva e faz brilhar nossas mentes, no enfrentamento da realidade parca e mesquinha em que vivemos.
Eia, pois, a postos e avante: - se quiserem, lógico! - alçar essa benfazeja bandeira cujo lema que se cumpre concretizar ilimitadamente, é o da criação, em todas as suas vertentes e direções, para tornar – quem sabe, o mundo melhor e cada vez mais habitável, cercado de beleza infinda, mesmo quando trata de feiuras diversas, mas de espantosa grandiosidade para todos nós humanos, uma vez que se trata de nós para nós, em toda a sua plenitude, e sob os mais diversos ângulos, artísticos, antigos, contemporâneos, e ainda a advirem com o passar e espraiar do tempo, sobre nós e as gerações futuras.
Para tanto, é preciso lembrar que nós, indivíduos, somos irrepetíveis, a menos que num futuro – quem sabe -, sejamos clonados, o que, no momento à mesa, não se toca nesse assunto, tal o desconforto proibitivo.
Assim, nada melhor e mais indicado para firmarmos a nossa presença e, quiçá, a nossa eternidade terrena, do que deixar uma marca insólita e definitiva de nossa presença neste planeta, através de uma criação que nos faça merecedor, tal como, exemplar, a marca da Dra. Nise da Silveira, que rompeu os métodos com os quais os esquizofrênicos eram expostos e tratados, através, - imaginem! do emprego adjutório de alguns cavaletes e tubos de tinta e pincéis.
Afinal, talvez como ela, sua vontade e perspicácia, tivesse tido, em última instância sob alerta contumaz a primeira estrofe do poema “A morte a cavalo”, De Drummond:
 “A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando”

Ela, como tantos e tantos outros, não se abalou com tal provocação, seus intentos eram inabaláveis e profundos, não se deixou se imiscuir por medos, frustrações e, com isso, enclausurar-se em si mesma. Pelo contrário, procurou, sem dúvida, aplacar o galopar desenfreado da praga da morte, para num ato de amor, confiança e desprendimento, impregnar-se de trabalho árduo, fruto de perseverança e muito estudo, para alçar seus voos de proficiência, sem dar azo a qualquer pretensão de obter valorização, ganhar dinheiro ou alçar-se ao panteão da glória com o atendimento das regras mercadológicas.
O que pretendeu – sirva-se de exemplo – foi apenas dar vazão aos seus sonhos, empreender voos, até então, inatingíveis, e com tudo isso, aliada à perseverança e objetivos certeiros, procriar abertura de novas frentes para o alçar humano, de seus males, os mais profundos, como todo bom e digno criador, sempre deve fazê-lo através da criação, da beleza de novas formas e de novos alentos em favor de um renascer humano sempre mais digno e consciente.
Esse impulso criador, no homem, prende-se talvez à vontade de poder eternizar-se, aqui na terra, driblando a morte, através da superação dos seus valores negativos, fincando neste planeta, a marca registrada de sua humanidade, reinventando a si e a sua existência, em toda a sua plenitude.
Caso isso não se fizer, recorra a Pedro Nava, (05,06.1903- 13.05- 1984) e peça, em sua condição de “Defunto”:
“Meus amigos, tenham pena - senão do morto – ao menos dos dois sapatos do morto. Olhem bem para eles. E para os vossos também!”

“Dá pena, mas dá raiva também!” Criar e tecer toda uma elegia amorosa, erótica mitológica como a “Elegia: indo para o leito” de John Donne, (1572-1631), na versão do poeta Augusto de Campos:

“Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo”: hora da cama”

E poder clamar, como no poema amantíssimo “Serei Árvore”, do poeta húngaro Sándor Petofi (1823-1849):

“Se, querida, tu és o paraíso,
Em estrela hei de me transformar,
Se querida, tu és o inferno,
Para nos unirmos, eu me danarei.”

Ah, caros e ilustres criaturas/criadores, realmente criar – ah criar! - é alçar-nos as alturas, usar de toda a liberdade de pensar e de se expressar, é, sonhar, elevar-se aos céus, enfim, é , tudo isso, de per si ou não, sem tirar os pés da Terra e nela eternizar-se, com suas obras, cujo deslumbre e usufruto, por nós outros - pobres mortais, - nos faz viver, sobreviver de maneira sobremodo condigna e prazerosa, inclusive no enfrentamento dos azares desse mundo insano.
Essa situação decorre da invocação de adjetivos que derivam do maravilhoso ainda que haja muitas vezes, um certo estranhamento, em razão do inusitado das obras, cuja contemplação atinge graus de maravilhoso encantamento, sob o olhar de penetrante argúcia e reflexão, na construção do verdadeiro e único “Éden Terrestre, onde a inteligência se alia a fatores dos mais diversos na construção da ciência e da arte, ou na sua conjunção de ambas, no ato criador e sua realização, em prol do ser humano e seu status Terreno.
No que se refere especificamente ao Brasil, o ato criador, desmistifica e, possivelmente, exorciza a visão de exotismo, de pré-conceitos que envolvem o nosso fazer, perfilando, isto sim, um desafio que nos acompanha como povo das Américas, num caldeirão alquímico de influências, mas com a conotação sempre presente da identidade e individualidade do autor da sua língua e do seu lugar de origem. Isto, porque tal ato está subjugado nas entranhas do século, em suas mazelas e na sua face horrendamente doentia da sua realidade, ainda que sinais de entretenimento, beleza e de pertencer ao mundo – vasto mundo - possam aflorar para melhor definir todo arcabouço labiríntico do ato criativo e sua apresentação ou representação.
No intuito de se lhes oferecer exemplificação, basta vagar no ato criador de Machado de Assis (21.6.1839-29.9.1908)- sobre o “amor” que transcende a própria morte:

“Querida! Aos pés do leito derradeiro,
em que descansas dessa longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração do companheiro
Machado de Assis, em seu poema “Carolina,”

Bem, assim, a criação crepuscular, de profunda reflexão, alicerçada por Guimarães Rosa (27.06.1908-19.11.1967) sobre a vida e seu correr:

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem…”

E, para findar esse vagar, de divagações sobre o mesmo tema, as palavras doces e ternas do poeta Vinícius de Moraes (1913-1989) in “Do Amor à Pátria”:
“São doces os caminhos que levam de volta à pátria. Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a outra mais íntima, pacífica e habitual – em cuja terra se comeu em criança, onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde cresceu em sofrimentos e esperanças planando canções, amores e filhos ao sabor das estações”.

Não sem antes, tomar a liberdade de acrescentar, ainda, um fragmento do poema “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”, de Carlos Drummond de Andrade, para ainda ilustrar o ato criador e seu poder de reflexão e beleza:
“Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e fúria
dos ditadores,
ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham
numa estrada de pó e esperança”

De tudo que foi aqui exposto, ficaram de fora, toda uma criação, cuja beleza e atrevimento, exposição de sentimentos e adequação a um viver mais equânime de felicidade e bom senso, pois, o ser humano em sua diversidade de criação, desde os tempos mais remotos, não se fez de rogado em promover, desde, que em ereção seus pés se fincaram no planeta terra, e suas mãos começaram a moldar objetos, a partir do cinzel como uma árvore em florescência, toda a sua gama de sua infinita criatividade floresceu, se expandiu e sofisticou-se, em escolas que, pelo mundo da arte houveram por bem diagnosticar, em profusão com nomes os mais diversificados tendo por finalidade, diagnosticar períodos, caraterísticas, formas, e conteúdos, sempre com o fito maior de enfatizar suas raízes e métodos e, engrandecer com loas, críticas, e ensaios, os autores e suas obras., fazendo-os explicar e entender a si e aos outros em seus sentidos mais amplos e profundos de humanidade, extensiva e reflexiva, não como uma imagem enganosa do espelho, e, muito menos como um “Prometeu” moderno acorrentado, mas como imagem, verdadeira, talvez até cruel do que somos ou nos apresentamos, na obscuridade de nosso íntimo, - consciente e inconsciente -, quando nos travestimos, por exemplo, de “Medéia”, ao nos depararmos com problemas mais profundos e árduos do nosso universo pessoal ou social.
Enfim, para se criar não é preciso hora marcada, nem dia certo, mas, isto sim, vontade, e trabalho, muito trabalho, aliado obviamente à perseverança e insistência no que realmente quer produzir, sem objetivos outros que não sejam produzir, elevando-se com isso à categoria pura e simples de autor, sem priorizar antecipadamente, reconhecimento, notoriedade, ganhos de fortunas e comercialização imediata, pois tal atitude lhe retirará, de imediato a aura de criador-artista, restando à obra apenas o olhar fortuito de amigos e conhecidos, porém isento de qualquer ato reflexivo, de estranhamento, de encantamento, ou de beleza, ainda que imediatista, retirando, portanto, da obra, seu valor intrínseco de arte e do autor o cognome de “artista”.
No tecer dessa imensa rede que envolve a criação e seu criador, o homem alçou-se a alturas inimagináveis de sonhos realizados e ainda, a realizar em futuros próximos ou distantes, dando assim asas a sua imaginação com inteligência, conhecimento e compreensão de si e do social, em prol de uma vida saudável, mais aprazível, com vias mais fáceis de poder transitar em seu dia a dia, no trato diário de seus afazeres e trabalhos, procrastinando os azares que seus males íntimos venham à tona em detrimento de si e dos outros.
Em tudo aqui exposto, está implícito, sem nenhum favor ou pena, gente que vive “nos atalhos esquisitos e estreitos e escamosos do roçado do Bom Deus”: gente das “quebradas do mundaréu” como dizia o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999), pois – quer queiramos ou não - eles se apresentam como o carro chefe , ou seja, o motor da história.

Mário Inglesi

terça-feira, 12 de julho de 2016

O QUE É ESTÉTICA?

FRIEDERICH SCHILLER – nota de rodapé da obra “A Educação Estética do Homem”


                Para leitores que não estejam familiarizados com a significação deste termo tão mal-empregado pela ignorância, sirva de explicação o seguinte. Todas as coisas que de algum modo possam ocorrer no fenômeno são pensáveis sob quatro relações diferentes. Uma coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa existência e bem estar): esta é a sua índole física. Ela pode, também, referir-se a nosso entendimento, possibilitando-nos conhecimento: esta é sua índole lógica. Ela pode, ainda, referir-se à nossa vontade e ser considerada como objeto de escolha para um ser racional: esta é sua índole moral. Ou, finalmente, ela pode referir-se ao todo de nossas diversas faculdades sem ser objeto determinado para nenhuma isolada dentre elas: esta é sua índole estética. Um homem pode ser-nos agradável por sua solicitude; pode, pelo diálogo, dar-nos o que pensar; pode incutir respeito pelo seu caráter; enfim, independentemente disso tudo e sem que tomemos em consideração alguma lei ou fim, ele pode aprazer-nos na mera contemplação e apenas por seu modo de aparecer. Nesta última qualidade, julgamo-lo esteticamente. Existe, assim, uma educação para a saúde, uma educação do pensamento, uma educação para a moralidade, uma educação para o gosto e a beleza. Esta tem por fim desenvolver em máxima harmonia o todo de nossas faculdades sensíveis e espirituais. Para contrariar a corriqueira sedução de um falso gosto, fortalecido também por falsos raciocínios segundo os quais o conceito do estético comporta o do arbitrário, observo ainda uma vez (embora estas cartas sobre a educação estética de nada mais se ocupem além da refutação deste erro) que a mente no estado estético, embora livre, e livre no mais alto grau, de qualquer coerção, de modo algum age livre de leis; e acrescento que a liberdade estética se distingue da necessidade lógica no pensamento e da necessidade moral no querer, apenas pelo fato de que as leis segundo as quais a mente procede ali não são representadas e, como não encontram resistência, não aparecem como constrangimento.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

SUPERANDO O PRECONCEITO DE FALAR SOBRE A MORTE - II

Por: Bel Cesar - Terapeuta. Dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte.


Aqueles que testemunharam o processo de uma morte e se deixaram tocar pelos poderosos efeitos dessa experiência buscaram ampliar a sua visão de mundo. Assistir alguém morrendo torna-nos conscientes de nossos limites humanos e leva-nos a ser mais realistas e menos pretensiosos quanto às nossas possibilidades. Assim como, podemos encarar a morte de maneira positiva, inde­pendentemente deste processo ser sofrido ou não.

Ignorância quanto às provas científicas e depoimentos inspiradores que endossam o fato de que a morte é uma transição para outra realidade e não um fim.

Acreditamos que vamos morrer, mas não sabemos que vamos morrer. Acreditar é uma função mental, uma parte de nós. Mas saber algo envolve todo o nosso ser enquanto seres pensantes, sensíveis e intuitivos. Estamos estancados na crença da ideia de morte como aniquilação.
Nuland escreve em “Como morremos”: “Nenhum de nós parece psicologicamente apto a lidar com o pensamento de nosso estado de morte, com a ideia de uma inconsciência permanente em que não existe vazio nem vácuo - e simplesmente não existe nada. Isso parece tão diferente do nada que precede a vida”.
Como não é natural pensar em algo que não tenha continuidade, não damos sustentação à ideia de não sermos nada. A certeza de uma continuidade após a morte nos ajuda a lidar com o niilismo de nossa cultura materialista, em que o abstrato e o invisível não são reconhecidos como verdadeiros e possíveis. No entanto, não devemos cair no extremo de querer deixar a morte “leve” demais, buscando uma visão poética na qual também estaremos escondendo nosso medo de encará-la.
Associamos a ideia de estarmos vivos à nossa capacidade de nos mantermos em movimento. Portanto, temos a tendência a concluir que onde houver movimento, haverá continuidade. Por isso, quando nos deparamos frente à paralisação do corpo devido à morte, imediatamente concluímos que o processo de continuidade da mente também tenha sido interrompido. Mas tanto as tradições religiosas mais antigas e assim como as recentes pesquisas da metafísica reconhecem que o homem é um ser transcendental.
Jean-Pierre Bayard escreve em “Sentido oculto dos ritos mortuários” (Ed. Paulus): “A maioria das civilizações antigas presta cultos aos antepassados. Seu pensamento é que a pessoa que morreu continua a viver em outra sociedade, sensivelmente da mesma forma que em sua existência terrestre, com alegrias e sofrimentos comparáveis”.
Como em nossa sociedade de consumo os rituais fúnebres são cada vez menos praticados, nós nos distanciamos das práticas que nos levavam a reconhecer a nossa natureza transcendental: quem somos além da matéria física e aparente. Precisamos aprender a ver além das aparências imediatas. Temos que reconhecer a existência dos níveis sutis da realidade, que não são concretos ou mensuráveis.
A física quântica esclareceu que a energia apresenta uma propriedade fundamental: jamais se esgota. Isto é, a energia não se extingue, transforma-se em outra uma forma de energia.
Quando Einstein formulou E=mc² (A energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz), trouxe a ideia da equi­valência entre massa e energia, que podem transformar-se uma na outra, sendo que a densidade da massa - mais ou menos sutil - está relacionada com a velocidade de deslocamento. Desta forma, podemos compreender que quando falamos de “corpo sutil”, podemos estar falando de um estado energético onde a massa desse corpo desloca-se com muito mais velocidade.
A matéria é energia condensada, ou seja, essa energia pode se apresentar em diferentes estados de concentração, dependendo do quanto as partículas ou moléculas estão coesas. Assim, quando temos um estado energético em que as moléculas estão muito coesas, temos uma matéria mais densa ou cristalizada, como nosso corpo físico. Quando as moléculas de energia estão menos coesas, temos o corpo sutil.
Enquanto não ampliarmos a ideia de quem somos, teremos dificuldade de compreender que não somos apenas uma mente pensante!
Podemos observar a continuidade dos ciclos na natureza: quando um quando cai no chão, apodrece, e de sua semente uma nova árvore irá nascer. Ao olharmos para uma semente, reconhecemos o seu potencial de se tornar árvore, mesmo não podendo ainda ver essa árvore. Então, apesar de não podermos assistir o que ocorre entre a morte e o nascimento, podemos reconhecer que, sendo seres naturais, também somos cíclicos!
Atribuir valor à continuidade é uma virtude que independe de crenças sobre a reencarnação. Acreditar ou não em reencarnação é o resultado de uma experiência pessoal. No entanto, vivermos em função da continuidade torna-nos mais responsáveis pelas consequências de nossos atos. Deixar um mundo menos poluído para aqueles que nele permanecem quando nós não estivermos mais presentes é um exemplo desta consciência.
Em vida, resgatamos paz interior, dignidade e bem estar cada vez que aprendemos a optar pelo que nos parece melhor, tanto para nós quanto para os outros.
A ideia de optar por nosso modo de vida já nos exige constante dedicação ao contínuo processo de autoconsciência e compaixão. Por isso, temos que parar para refletir sobre a seguinte pergunta: o que significa optar pelo nosso modo de morrer?
Optar é um termo que indica uma escolha consciente. Escolher é uma forma de controle que nos traz uma sensação de segu­rança, de que podemos nos oferecer o que consideramos melhor. Mas, como podemos escolher se tanto a vida como a morte são processos incertos, portanto incontroláveis?
Não podemos escolher nem controlar os fatos que irão ocorrer em nossa vida e muito menos no momento de nossa morte, mas podemos, sim, escolher - e desta forma controlar, por meio do autoconhecimento e do desenvolvimento da autoconfiança, o modo como iremos reagir perante eles.
Morremos como vivemos: com nossos hábitos mentais, impulsos que podem ser transformados. Podemos escolher cuidarmos de nós mesmos. Podemos educar nossa mente a seguir positivamente, isto é, a reagir positivamente às adversidades. Podemos treinar a mente a atravessar as dificuldades em vez de negá-las ou de criar uma aversão por elas.
Aquele que lida diretamente com suas dificuldades sabe seguir em frente sem se deixar prender por aquilo que deixou para trás.
Aquele que quiser se preparar em vida para o momento de sua morte buscará eliminar seus hábitos mentais negativos, que o impedem de relaxar na sua natureza de confiança incondicional. Como diz o mestre budista tibetano Lama Gangchen Rimpoche: “Se você estiver numa situação negativa no momento de sua morte, deve recordar-se que a negatividade não traz nada. Por isso, volte a atenção para sua concentração interna e para sua autoconfiança”.
Acredito que essa seja uma tarefa para uma vida inteira. Mas enquanto buscarmos a felicidade nas condições externas estaremos lutando para controlar o mundo à nossa volta. Não queremos admitir que essa luta seja inútil, porque não admitimos que estamos continuamente sujeitos aos nossos condicionamentos internos.
Não queremos sentir a vulnerabilidade e a confusão de nosso mundo interno. A subjetividade gera dúvidas. Então, buscamos ser objetivos lidando somente com os fatos do mundo externo. É correto buscar a objetividade, mas o que não podemos fazer é nos afastarmos de nosso interior.
A base de nossa visão externa está em nosso mundo interno. Toda vez que negamos nosso mundo interno estamos nos afastando de nós mesmos e, portanto, também dos outros à nossa volta. Como consequência passamos a nos sentir isolados, sem motivação, desconectados dos fatos externos. Emoções difíceis como vergonha, culpa e ressentimento contaminam nossos pensamentos, palavras e ações, que, por sua vez contaminam nossa realidade externa.
Se nos sentimos isolados em vida, o que dizer da sensação de isolamento que sentiremos quando estivermos enfrentando a morte?
Em vida disfarçamos essa angústia da solidão em atividades cotidianas, em nossos vícios e manias. Mas diante da morte não podemos nos locomover. Não podemos mais buscar alívio para a mente nos prazeres físicos. Temos que encarar a nós mesmos!
O mundo externo é uma projeção coletiva do mundo interno de cada um. As condições físicas e emocionais daqueles que estão morrendo são tão precárias quanto o contato interno que temos com o tema da morte. Precisamos, com urgência, acolher nossa vulnerabilidade frente à morte. Falar sobre ela. Assim, juntos, poderemos desenvolver uma consciência coletiva mais preparada para lidar com as necessidades físicas, emocionais e espirituais daqueles que estão frente à morte.
Ao superarmos o preconceito de falar sobre a morte, atenderemos às nossas necessidades ainda não vistas e consideradas pelo mundo externo. No entanto, só seremos capazes de incluir a morte em nossas vidas quando admitirmos com honestidade onde estamos e para onde queremos ir.

Em geral temos a tendência de reagir com impaciência, irritação e agressividade quando pensamos naquilo em que não queremos pensar. E quando se trata de pensar sobre a nossa própria morte ou a de outra pessoa, essa tendência aumenta ainda mais. Então, vamos encontrar um meio delicado e ao mesmo tempo direto para sondar este tema que desperta áreas obscuras e preconceituosas tanto em nossa cultura como em nosso mundo interno. Vamos falar de coração para coração. Sem preconceitos. Não há nada de errado em morrer quando as causas e condições amadurecem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

SUPERANDO O PRECONCEITO DE FALAR SOBRE A MORTE - I

Por: Bel Cesar - Terapeuta. Dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte.

Veja também:


Se quisermos viver melhor, nos sentirmos inteiros e participantes do mundo, precisaremos superar o preconceito de falar sobre a morte. A morte coloca a vida em perspectiva: definimos melhor os nossos propósitos quando refletimos sobre nosso passado, presente e futuro.
Precisamos superar nossa tendência niilista frente à morte: uma ideia limitada de finitude, de que quando tudo acaba não há mais nada por vir. Ao ampliarmos a visão de quem somos, de onde viemos e para onde vamos podemos incluir a morte em nossa vida como um modo de aprofundar o sentido de estarmos vivos.
Ao encararmos a morte, reconhecemos que não somos perfeitos e sim paradoxais. Quem não conhece a constante luta interna de querer e não querer algo o tempo todo?
Carl Jung dizia que para uma pessoa se sentir completa terá de aceitar o fardo de viver conscientemente com tendências opos­tas, irreconciliáveis inerentes à sua natureza, tragam elas a conotação de bem ou de mal, sejam escuras ou claras. Apenas quando acolhemos nossos paradoxos é que nos sentimos inteiros.
Não queremos falar sobre a morte, mas contamos com a ideia de que vamos morrer para nos sentirmos vivos. A ideia de que um dia vamos morrer, nos ajuda a lidar com os sofrimentos da vida: uma perspectiva de alívio, de que um dia os sofrimentos desta vida acabarão quando morrermos. Mas não queremos morrer.
Esse é um dado importante. Queremos acabar com o sofrimento desta vida, mas não morrer.
Segundo Eliot Jay Rosen, em Colhendo a alma (Ed. Best Seller), a magnitude de nosso desconforto em relação à morte está em proporção direta ao tanto que fomos afetados por meio de três importantes fatores:
1. Até que ponto fomos expostos à visão negativa que a sociedade moderna tem da morte, e como fomos marcados por ela;
2. Falta de informação a respeito dos processos fisiológico, psicológico e espiritual que ocorrem na morte;
3. Ignorância quanto às provas científicas e depoimentos inspiradores que endossam o fato de que a morte é uma transição para outra realidade e não um fim.

Até que ponto fomos expostos à visão negativa que a sociedade moderna tem da morte, e como fomos marcados por ela?

A ideia que temos da morte é o rótulo que damos aos nossos condicionamentos culturais. Em geral, presenciamos a morte de maneira violenta e negativa. Nos jornais e na TV, a morte é assistida com violência, à distância. Parece que ela só acontece com os outros. No entanto, ao não presenciarmos a morte como pacífica e natural, não interiorizamos a possibilidade de nossa própria morte como um evento positivo. Temos medo do dia em que “chegar a nossa vez”.
Podemos superar o preconceito de pensar ou falar sobre a morte, mas enquanto não tivermos alguma experiência direta com a morte, nossa ideia a seu respeito será apenas intelectual, limitada por nossa própria falta de experiência.
Podemos conhecer a morte de um ponto de vista cultural, religioso, científico ou histórico, mas continuamos sem saber o que mais nos toca: quando e como nossa morte ocorrerá. Quando esse momento se aproxima é que nos damos conta de que deveríamos saber muito mais sobre ela. Ao sermos tocados pela ideia de nossa própria morte como uma realidade certa, podemos suavizar esse impacto, ao nos prepararmos desde já para esse momento.
A morte é um conceito que adquirimos de acordo com nossa personalidade, ambiente social, cultural e religioso e educação familiar. Nossa visão de morte está contaminada. Então, temos de revê-la. Se nos concentrarmos nela, vamos perceber que muitas de nossas ideias arquivadas são contraditórias.
Se fecharmos os olhos e repetirmos a palavra “morte”, inúmeras vezes iremos constatar que cada vez que dissermos essa palavra, surgirão pensamentos, imagens e sentimentos diferentes. Na maioria das vezes, eles são antagônicos. Se continuarmos essa experiência de mergulhar até onde leva a palavra “morte”, notaremos que algo muda positivamente em nosso interior. A experiência direta é um antídoto potente para superarmos nossas resistências. Podemos trabalhar com os nossos preconceitos; não estamos destinados a ficar presos a eles.
Recuperar as memórias de infância sobre a morte também pode ajudar-nos a compreender a base onde está alicerçada nossa estrutura emocional frente a mudanças e perdas. Dedicar-se a recordá-las é, portanto, de grande importância para o processo de autoconhecimento.

Falta de informação a respeito dos processos fisiológico, psicológico e espiritual que ocorrem na morte.

Em 1993, Sherwin Nuland, o cirurgião e professor de medicina, movido pela intenção de esclarecer e desmistificar o processo da morte escreveu o livro “Como morremos: reflexões sobre o último capítulo da vida”. Este livro foi lançado no Brasil em 1995, pela Editora Rocco. Nuland escreve: “Todos querem conhecer a morte em detalhes, embora poucos se atrevam a confessar. Seja para antecipar os eventos de nossa doença final ou para melhor compreender o que está acontecendo a um ente querido à beira da morte – ou mais provavelmente devido a essa fascinação do id pela morte que todos nós sentimos – somos atraídos por pen­samentos sobre o fim da vida. Para a maioria das pessoas, a morte permanece um segredo oculto, tão erotizado quanto temido”.
Nuland descreve como se dá o processo da morte causado por um enfarte, por um derrame, por doenças como o mal de Alzhei­mer, AIDS e câncer, bem como formas de suicídio ou por acidentes como sufocamento ou afogamento, por exemplo.
O desejo de muitos é morrer dormindo: uma forma de anestesiar a dor do processo de morrer. No entanto, na grande maioria das vezes o processo da morte se dá de forma lenta e difícil. Hoje a medicina já é capaz de controlar a dor física, mas ainda não considera a dor emocional e espiritual como uma prioridade.
Morrer não é romântico. Precisamos nos preparar para conhecer esse processo de modo a aceitá-lo como uma condição humana e não como uma falha humana. A ideia de proporcionar uma morte digna para aqueles que amamos muitas vezes está inocentemente associada a uma morte sem dor, ausente de processos degenerativos do corpo humano difíceis e desagradáveis de serem testemunhados. Não podemos nos sentir culpados por nossa natureza humana. Isto é, precisamos aceitar o processo natural do envelhecimento, a falência precoce dos órgãos vitais, ou seja, um processo degenerativo da doença como um fenômeno próprio de nossa natureza humana.
O sentimento de impotência frente à morte é frequente naqueles que presenciam um processo de morte sofrido ou precoce. Muitas vezes, surge um sentimento de culpa por “não ter sido capaz de fazer mais nada”.
Esse sentimento de culpa é resultante de uma superavaliação de nós mesmos: pensamos que poderíamos ter feito algo que, na realidade, não nos cabia fazer. Um dos motivos por que isso acontece é por que encaramos a morte sempre como uma derrota. Outro motivo é por que confundimos os nossos sentimentos com os sentimentos dos outros. Aqui incluo um trecho de meu livro “Morrer não se improvisa” (Ed. Gaia), extraído das páginas 179 e 180. Muitas vezes não sabemos o que acontece dentro de nós, mas temos “certeza” do que acontece com os outros. Temos o hábito de concluir, sem consultá-los, o que eles pensam e porque agem de determinada maneira.
Quando a pessoa com quem temos o hábito de pensar “por ela” está morrendo, ilusoriamente pensamos ser capazes de fazer algo no lugar dela. Queremos fazer de tudo para aliviá-la da dor e de seus conflitos emocionais. Mas uma vez que não atingimos nosso objetivo de acalmá-la, sentimos culpa, como se não tivéssemos feito o suficiente. Precisamos compreender e aceitar que nada podemos fazer no lugar de outra pessoa, a não ser inspirá-la a fazer algo por ela mesma. Por isso, é saudável reconhecer que a morte é algo natural e que não há nada de errado em morrer. Assim, poderemos abandonar a culpa, baseada em pensamentos de que sempre poderíamos ter feito mais.
O sentimento de culpa também está presente na pessoa que está morrendo. Muitas vezes, ela se sente “responsável” pela sua doença e um peso para a sua família. Também se sente culpada por “abandonar” aqueles que ficam: pais, filhos ou marido. Essa sensação surge quando pensamos ser capazes de estar sempre presentes quando o outro precisar de nós. Assim como uma mãe gostaria de poder consolar seu filho sempre que ele necessitasse de consolo.
Durante a vida, temos inúmeras oportunidades para aceitar as separações como resultado natural de um encontro - especialmente quando alguém se separa de nós sem esclarecer a razão de sua atitude. Aí temos a oportunidade de superar a ideia, pretensiosa, de que teríamos o direito de compreender a razão de tudo e, portanto, de controlar a situação. Se aprendermos a aceitar de que nada é permanente, poderemos aprender a nos separar. Por isso, também é saudável reconhecer que não há nada de errado em se separar.

Repetir inúmeras vezes as frases não há nada de errado em morrer e não há nada de errado em se separar pode nos ajudar a superar a culpa e a aceitar a realidade. No livro A Arte de Morrer, Marie de Hennezel (Ed. Vozes) escreve: “O ‘tempo de morrer’ tem um valor. Acompanhar esse tempo exige de todos uma aceitação diante do inelutável, do inevitável, que é a morte. Isso implica o reconhecimento de nossos limites humanos. Seja qual for o amor que sintamos por alguém, não podemos impedi-lo de morrer, se esse é o seu destino. Também não podemos evitar um certo sofrimento afetivo e espiritual que faz parte do processo de morrer de cada um. Podemos somente impedir que essa parte de sofrimento seja vivida na solidão e no abandono; podemos envolvê-la de humanidade”.
CONTINUA...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU



Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule


Nos palcos do firmamento
Jesus concebeu um plano
De montar um espetáculo
Para Deus Pai Soberano
E, ao lembrar de um dramaturgo,
Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite,
Mas Ariano não leu.
Estava noutro idioma,
Ele num canto esqueceu,
Nem sequer observou
Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou
Uma segunda missiva.
A secretária do artista
Logo a dita carta arquiva,
Dizendo: — Viagem longa
A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta
Disse torcendo o bigode:
— Eu vejo que Suassuna
É teimoso igual a um bode.
Não pode, mas ele pensa
Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma,
Apelou pra outro suporte.
Para cumprir a missão,
Autorizou Dona Morte:
— Vá buscar o escritor,
Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País
Como turista estrangeiro,
Achando que o Brasil
Era só Rio de Janeiro.
No rastro de Suassuna,
Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo,
Sofreu um constrangimento
Passando em Copacabana,
Um malfazejo elemento
Assaltou ela levando
Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo
E murmurou dessa vez:
— Pra não perder a viagem
Vou vender meu picinez
Para comprar outra foice
Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove
A dita foice comprou.
Passando a mão pelo aço,
Viu que ela enferrujou
E disse: — Vai essa mesma,
Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando,
Sem direção e sem tino,
Perguntando a um e a outro
Pelo escritor nordestino,
Obteve informação,
Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo,
Viu naufragar o seu plano,
Se lembrando da imagem
Disse: — Aqui há um engano.
Perguntou para João
Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo,
Quase ficando maluco,
Tomou um susto arretado,
Quando ali tocou um cuco,
Mas, gaguejando, falou:
—Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se
Dinheiro não tenho mais
Para viajar tão longe,
Mas Ariano é sagaz.
Escapou mais uma vez,
Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu
Com o escritor baiano,
Cristo lhe deu uma bronca:
— Já foi baldado o meu plano.
Pedi um da Paraíba
E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso,
Porém não escreve tudo.
“Viva o Povo Brasileiro”
É sua obra de estudo,
Mas quero peça de humor,
Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos
Pra ressuscitar João,
Mas achou desnecessário,
Pois já era ocasião
Pra ele vir prestar contas
Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte
E disse assim: — Serafina,
Vejo não és mais a mesma.
Tu já foste mais malina,
Tá com pena ou tá com medo,
Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar
Que preciso de dinheiro.
Ariano mora bem
No Nordeste brasileiro.
Disse o Cristo: —Tenho pressa,
Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor.
Pra outro, juro não ia.
Ele que se conformasse
Com o escritor da Bahia.
Se dependesse de mim,
Ariano não morria.

A morte na internet
Comprou passagem barata.
Quase morria de susto
Naquela viagem ingrata.
De vez em quando dizia:
— Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe
Duas barras de cereais.
Diz ela: — Estou de regime.
Por favor, não traga mais,
Porque se vier eu como,
Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife,
Ficou ela de plantão
Na porta de Ariano
Com sua foice na mão,
Resmungando: — Qualquer hora
Ele cai no alçapão!

A morte colonizada,
Pensando em lhe agradar,
Uma faixa com uma frase
Ela mandou preparar,
Dizendo: “Welcome Ariano”,
Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano
Ficou muito revoltado.
Começou a passar mal,
Pediu pra ser internado
E a morte foi lhe seguindo
Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano
Morreu de raiva ou de medo.
Que era contra estrangeirismos,
Isso nunca foi segredo.
Certo é que a morte o matou
Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano,
Tava a porta escancarada.
São Pedro quando o avistou
Resmungando na calçada,
Correu logo pra o portão,
Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado
Foi chamar o Soberano,
Dizendo: - O Senhor agora
Vai concretizar seu plano.
São Pedro mandou dizer
Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado,
Apertando o nó da manta
E disse assim: — Vou lembrar
Dessa data como santa
Que a arte de Ariano
Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão
Recebeu bem Ariano,
Que chegou meio areado,
Meio confuso e sem plano.
Ao perceber que morreu,
Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha
Chegou Ascenso Ferreira,
O grande Câmara Cascudo,
Zé Pacheco e Zé Limeira.
João Firmino Cabral
Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo
(Que foi pra lá por engano)
Veio de braços abertos
Para abraçar Ariano.
E esse falou: - Ubaldo,
Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado
E o ator Paulo Goulart.
Veio também Chico Anysio
Que começou a contar
Uma anedota engraçada
Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo,
Com seu rosto bronzeado.
Veio de braços abertos,
Suassuna emocionado
Disse assim: — Esse é o Mestre,
O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida,
Sonhou em ser imortal,
Entrou para Academia,
Mas percebeu, afinal,
Que imortal é a vida
No plano celestial.

Jesus explicou seus planos
De fazer uma companhia
De teatro e ele era
O escritor que queria
Para escrever suas peças,
Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde:
— Senhor, eu me sinto honrado,
Porém escrever uma obra
É serviço demorado.
Às vezes gasto dez anos
Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou
E disse: — Fique à vontade.
Tempo aqui não é problema,
Estamos na eternidade
E você pode criar
Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino
Com chapeuzinho banzeiro,
Com um singelo instrumento,
Tocou um coco ligeiro
Falando da Paraíba:
Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga,
Lindu do Trio Nordestino,
E apontou Dominguinhos
Junto a José Clementino
E o grande Humberto Teixeira,
Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês
Com Abdias de lado
E Waldick Soriano,
Com um vozeirão impostado,
Cantou “Torturas de Amor”,
Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero
Com Catulo da Paixão,
Suassuna enxugou
As lágrimas de emoção
E Catulo, com seu pinho,
Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros
Junto a Leonardo Mota,
Chegou Juvenal Galeno,
Otacílio Patriota.
Até Rui Barbosa veio
Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado,
Tocada de emoção,
Juntinho de Ariano,
Veio e beijou sua mão
E disse: — Na sua peça
Quero participação.

Ariano dedicou-se
Àquele projeto novo.
Ao concluir sua peça,
Jesus deu o seu aprovo
E a peça foi encenada
Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano
Só participa alma pura.
Ariano virou santo,
Corrigiu sua postura.
Lá no Céu ganhou o título
Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele
Já nutriam grande encanto
Agora estando em apuros,
Residindo em qualquer canto,
Lembra de Santo Ariano
E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote
Que lutou de alma pura.
Contra a arte descartável
Vestiu a sua armadura
Em qualquer dia do ano
Eu digo: viva Ariano
Padroeiro da Cultura!

FIM