segunda-feira, 8 de julho de 2013

POEIRA DO TEMPO

Por: Elisete Dantas – Do livro “Matuta da Gema”


Já tive medo também
            no início
mas enfrentei a fera
e nunca os invadi
com uma gota sequer
            de tinta
além da que me oferece o tempo

Nunca
Nunquinha

Já fui muito incomodada
            instigada
            pressionada
por muitas pessoas, mais no trabalho
Mais ou menos, assim:
“Elisete, por que você fez isso? (Eu havia mudado o jeito de pentear. Repartira de lado e os cabelos brancos apareciam em mechas). “Pinte esse cabelo mulher. Ave Maria!”
Ou então...
“Elisete, por que você não usa hena? Não é tinta, é um xampu natural. Fica parecendo esse seu cabelo assim...”
Mais ainda;
- Você precisa pintar seu cabelo. Pinte esse cabelo.
- Mas eu não quero. Foi o que sempre disse.
É como se essas pessoas se sentissem denunciadas em suas idades escondidas nas tintas que usavam.
Sei que há cabelo pintados muito bonitos
                                    Nas outras pessoas
Em mim
não quis
Não quero

Quero exibir meus cabelos brancos
            marcados
pela poeira do tempo
Declaração por ele assinada
Onde consta que
Já estou matriculada em curso
            com duração
a perder de vista
na escola da Sabedoria
Quero exibir essa carteira de
eterna aprendiz
                        24/01/2010



segunda-feira, 1 de julho de 2013

A IDADE MÍDIA E O PLANETA CONCRETO



A idade mídia, momento em que vivemos, chega silenciosamente, após a idade moda onde o marketing e a comparação interpessoal foram explorados ao máximo e muito tempo depois da idade média, período de grande desenvolvimento do universo das artes plásticas e musicais. Graças à possibilidade da análise de tendências que o mundo moderno permite, pode-se arriscar que a idade vindoura será a idade "muda".

Sem palavras para conseguir explicação de como a raça humana se "diferenciou" em algo tão próximo ao que foi apresentado em 1984 (Orwell), Admirável mundo novo (Huxley), trilogia Matrix (Wachowsky) e Cosmópolis (Cronenberg), só restará o silêncio e a mudez perplexa comuns aos pontos de irreversibilidade.

O humano é suposta ponta de lança da cadeia evolutiva, ao menos para os que cultuam o dissonante olhar Darwiniano, a despeito de suas limitações e incongruências, defendidas ad nauseum por seus Dawkins, Darwins, Hawkings e mídias afins, oitavas ressonantes. Alfred Russel Wallace, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller, Huberto Rohden, Erich Fromm, Rudolf Steiner, gratidão solene às marcas de seus passos! Erasmo Darwin, o que houve com seu netinho Charles na compreensão do que Wallace propunha? Ontem e especialmente hoje, os desvios materialistas assim como os extremamente espiritualistas, são as ilusões e liberdade a serem conquistadas pelo homem consciente.

O míope, longe de cego, apenas enxerga muito bem de perto, mas perde a capacidade de olhar ao longe, a menos que lentes corretivas sejam usadas. Por outro lado, "hipermétropes" como Sócrates, Jesus Cristo, Gandhi e porque não o próprio Kant, um míope puro, quando exclama nas páginas finais da sua hermética "Crítica da Razão Pura":

"Duas coisas enchem de maravilha meu ser, a lei moral no interior do homem e o céu estrelado acima de minha cabeça".


Não, as bactérias, os vírus e seus correlatos não são necessariamente os causadores das doenças. O corpo humano tem em sua constituição mais bactérias que células, e estas bactérias são fundamentais ao equilíbrio e à vida deste corpo. Adoecer é qualidade de um organismo desvitalizado, um psiquismo desequilibrado, uma vida sem um princípio diretor existencial estabelecido; uma vida vazia. O próprio adoecer nesse sentido é uma forma de cura, tentativa de alcançar outro estado de equilíbrio que tire a pessoa das condições de vida em que ela insiste perpetuar.

Fundamental estar atento ao trocadilho sutil: “existe doença que é cura e existe cura que é doença”. O médico escritor Guimarães Rosa vacinava com a caneta e já nos advertiu quanto a isso de outro modo, mas o mesmo:

Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”


Ou ainda, no enfoque do blog, falando na medicina da saúde:

Saudade é ser, depois de ter.” - Guimarães Rosa.


Circunstâncias e mais circunstâncias que se repetem, mas não por isso deve ser deixado de ver com atenção o degenerado estado em que o grosso da humanidade está caminhando, no sentido de sustentar o modelo atual. Josué de Castro, brasileiro renomado mundialmente, aponta com clareza e profundidade típicas aos hipermétropes, este estado de coisas. Inoportunamente, a ciência ainda não consegue explicar o porquê das palavras desta qualidade de ser só ganharem destaque quando não mais habitam entre nós.

Esses semeadores de verdades, milagre da vida neste mundo espaço-tempo, de onde será que tiram suas ideias? Alguns podem pensar, míopes: ora! de seus neurotransmissores!; outros, hipermétropes, estupefatos, como Rupert Sheldrake, suspeitar que as próprias leis que regem o mundo presente manifesto estejam em processo de evolução.

Leis da natureza em evolução? Qual é a surpresa se Kuhn mostra em "A estrutura da revoluções científicas" como um sistema de pensamento científico se sustenta? As teorias de compreensão do porquê as coisas serem como são, nada mais são que tentativas momentâneas de compreender o todo e que raramente sobrevivem o teste do tempo. Porque não vemos? Por que nossa vida é curta demais para a maioria de nós nos preocuparmos com questões de natureza ontológica enquanto há tanto para se divertir, sentir prazer e desfrutar.

Os mais velhos que poderiam auxiliar na abertura de nossa visão são vistos como desatualizados, e por vezes insistiram tanto em repetir o modelo de consumo que o próprio sentido da vida foi incorporado ao sentido de ter. Quanto ao ser, uma coincidência efêmera, produto do acaso, que uma vez expirado ganhou sentido naquilo que se possuiu e excepcionalmente naquilo que se É, para os míopes, naquilo que se foi.

A ALEGRE SORRATEIRA - MAIS UM POUCO






Dr. Ricardo

Caro amigo

            Graças aos seus sempre obsequiosos préstimos, a minissérie sobre a afrontosa e não menos terrificante arma apontada contra os seres humanos e a qualquer tempo, hora ou lugar, disparada, até mesmo sem motivo aparente ou não, chegou ao fim, felizmente, sem maiores traumas de objeções ou discussão que se fizessem necessárias.

De todo modo, ela passou quase incólume e indolor, talvez porque, nos dias de hoje, embora violenta e corriqueira, e em grau de quantidade nunca dantes alcançado, em tempo cada vez menor, o sangue derramado fê-la curtir em silêncio e sem muito lacrimejar a sua audácia lancinante de esparramar-se por todas as vias e cantos.

Muitos, até, conformados ou com os olhos voltados ao supremo infinito, não veem os estragos que ela vem fazendo e continuará fazendo, de modo inclemente e rotineiro às suas vítimas indefesas. Afinal, reiteram muitos e muitos outros, “Deus quis, seja feita a sua vontade”. Assim na Terra como no Céu.

Essa ciranda mortuária, entretanto, restringiu-se tão somente ao homem, seus temores e suas dores e modos de encarar a morte, ou como vê-la de modo diferente, quando lhe acerca a si ou seus entes queridos próximos ou não.

Porém – sempre o indesejado porém, (isto é toque ou ranhetice?) quis – talvez, numa pequena afoiteza de um link postado - que a morte ficasse - creio eu - em segundo plano, dando não mais azo a seus embates humanos, para voltar-se, inopinadamente à violência desmesurada no tratamento de aves e animais e seu abate, em detrimento da saúde do ser humano. Glória seja feita: assunto pertinente e deveras importante de ser levantado, como aliás, fizeram muito bem os interlocutores mostrados no link. Talvez o único senão é que, toda a importância com que ele se reveste, só muito adiante das suas implicações finais ele se adentra à morte dos seres humanos, fugindo, portanto – creio eu – às implicações do tema da caudalosa minissérie, ora finda.

De todo modo, eu e meu texto seriado estamos a salvo, graças sempre aos bons ofícios do prezado amigo e companheiro doutor.


Abraços

Mário Inglesi



Sr. Mário,

Mestre de todas as horas,

            Só me cabe expressar aqui a gratidão merecida, e que ainda acho pouco, pela bondade de sua partilha. A morte é assunto árduo que sempre enriquece quando colocado em perspectiva por quem vive a vida com atenção, especialmente os que têm o privilégio de uma vida rica em extensão.

            Feliz pelo final atraumático, como bem dito pelo amigo, em contrição me penitencio pelo insistente e constante abuso imagético sugerido que acompanhou o texto de cabo a rabo, ousadamente culminando com um réquiem! Creio que a bela escultura literária se manteve naturalmente acima dos temperos e que se em algum momento o azeite ou o sal foram a mais, o mesmo se deu pela indelicadeza de meu paladar de menino aprendiz. Aliás, que aproveita para indicar o belo filme que recém estreou, ainda sobre “a alegre sorrateira”, vestida na história de Orfeu e Eurídice, dirigido pelo nonagenário geminiano Alan Resnais... “Vocês ainda não viram nada - Vous N'Avez Encore Rien Vu, 2012”; imperdível para os apreciadores.

            Como estudante primário da nutrição e seus efeitos, não pude me furtar à oportunidade de apontar a situação do ponto de vista de nossos irmãos menores do reino animal. Antibióticos na ração, formas de confinamento, mudança no tipo de nutrientes e outras “conquistas” que se seguiram à 2ª grande guerra, trouxeram problemas sérios que passam despercebidos ao público leigo no que diz respeito ao que está sendo oferecido nas prateleiras. Enfim, morte empacotada ou eufemisticamente transformada em “longa vida”...

            Quanto a Deus, síntese suprema de caos e cosmos, não ao adeus ou ao hades em suas formas variadas, correlatos da agoureira, não creio associado à morte, mas à vida; assim: “Deus quis, seja feita a sua vontade, assim na Terra como no Céu”. Lembrando ainda as palavras daquele nosso amigo comum, o G. Rosa:


“O Senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, ai é que ele toma conta de tudo.”


            Na esperança de não ter sido tomado felicianamente, reitero a gratidão pela sua rica e saudável presença neste espaço de consciência.


Abraços saudosos e macabros...



Ricardo José de Almeida Leme