segunda-feira, 7 de março de 2016

ASTROLOGIA - FERNANDO PESSOA



Horóscopo

Indicação Preliminar.
O Ascendente, significador da personalidade, é Balança, signo que é regido por Vênus. Este planeta está em Virgem, que é o seu signo de queda, e opresso pela oposição de Júpiter e pelas quadraturas de Urano e de Plutão. Está, em compensação, em sextil (que é bom aspecto) com o Medium Coeli. Tudo isto quer dizer o seguinte: (1) Que a personalidade, eivada intimamente de uma certa depressão, é diversamente desarmônica em si mesma, pois que a sua sensibilidade superior (Júpiter) está em conflito com a sua sensibilidade inferior (Vênus); que a sua íntima essência é contrariada, por um lado por desejos ou aspirações (Urano) que excedem o seu poder de realização, por outro lado por outras causas que não é possível determinar, visto que de Plutão (que as exprime) não há ainda, por há pouco descoberto, suficiente conhecimento astrológico. (2) Que o que salva e compensa esta desarmonia íntima é a harmonia entre o indivíduo e o ambiente, harmonia que o Destino lhe fornece e fornecerá, para equilíbrio do que sofra em si mesmo. Nunca deve buscar a solidão: a sua defesa contra a guerra civil é, ao contrário do que normalmente sucede nas nações, a paz e a união com os outros.
O Medium Coeli, significador da vida social, é regido pela Lua, que está em Balança (onde é peregrina; isto é, não está mal nem bem), fora de conjunção com o Ascendente, e, aparte não ter qualquer mau aspecto, com a suprema defesa de estar conjunta com a Cabeça do Dragão, que é o escudo abstrato do Destino. Isto vem apenas dizer, de outra maneira, como que em outra linguagem, o que o Ascendente já dissera.
Viva duas vidas separadas, sem que de qualquer d’elas se transborde para a outra — uma, a própria, fechada o mais possível; outra, a social, ampla e sem receio. Mas que a primeira não tente invadir a segunda! Quem é dois tem que ser dois.
Mais tarde se dirá mais. O pormenor, como tudo, tem a sua hora.
11-9-1934

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 41.

sábado, 5 de março de 2016

A FÓRMULA DO BEM "GOODNESS FORMULA"



Por: Henrique Luna
Era uma vez um garoto que apareceu na praia em estado de quase-morte, trazido pelas ondas. Havia fugido com todos os seus familiares do terrorismo religioso, tentando chegar a um lugar mais digno usando um pequeno barco e muita coragem para cruzarem o mar.
Fora achado na areia e trazido ao hospital local, onde ficou internado por quase dois meses. Sobrevivera ao terrorismo e à fuga, mas nada se lembrava sobre seu passado, sobre seus pais ou mesmo sobre seu nome. Por conta disso, foi batizado no hospital como um novo nome - Vida'. Embora tenha sobrevivido, ficou sequelado e não mais poderia falar, ouvir ou ver as coisas.
Ficou famoso pela exposição da mídia e por um texto escrito na areia ao seu lado, quando foi achado na areia. No início desse texto, podia-se observar uma fórmula matemática. Não se sabia o que estava escrito, pois não se conhecia a língua utilizada, nem quem a escreveu, embora alguns acreditem que o próprio garoto possa tê-lo escrito. Hoje saiu o laudo que constatou que a língua utilizada se trata de Aramaico antigo, ou seja, uma língua já extinta, aumentando ainda mais o mistério sobre o texto. No laudo, constava a fórmula e a tradução do texto, apresentados abaixo.
A Beleza ocorre elevada ao quadrado, pois representa o ‘homem’ e a ‘mulher’ formando um corpo único e positivo. Somado ao Amor, à Paz e a uma pequeníssima ‘gota’ de Mal sobre um oceano de Bem. O 'um' representa Aquele que tudo sabe, vê e cria.
 

Once upon a time a boy was found on the sand of a European beach, close to the water in a coma, carried from the sea by the waves. He had tried to escape from an area torn apart by religious conflict and where terrorism was the main voice. Similar to other refugee cases previously seen in the region, his family was apparently seeking a better life in a new land in only a small boat and great courage to cross the sea. Despite the terrorism, the tragic escape adventure, and all injuries he had suffered, the boy was still alive.
He was sent to the local hospital, where he stayed for two months. After his healthy recovery, the staff finally discovered that he was mute, deaf, and blind. Furthermore, he could not remember his past, his parents, or even his own name. Because of this, he was re-baptized in the hospital with a new name - 'Life'.
This boy has become famous due to the media exposure and a message found on the beach by his side. At the beginning of the text, a math formula was presented. No one knew what was really written since nobody knew the language used, or who had written it, though many people believe that the boy had written it himself.
In the Final Report, specialists verified that the language used in the text was an extinct ancient Aramaic dialect, and that the text explains each item of the formula presented. This background information greatly increased the mystery surrounding the case and it is fully reproduced below.
Beauty is squared since it represents a ‘man’ and ‘woman’ joining together in a unique body. This item is then added to Love, Peace, and a small drop of Hell divided by the infinite Heaven's Ocean. The 'One' represents the one who knows, sees, and creates everything.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

DESOSPITALIZAÇÃO FAZ SENTIDO PENSAR ALGO ASSIM?


      O filósofo e pedagogo Ivan Illich é um humano sabidão. Digo “é” pois a qualidade maior do ser e dos que são, é a eternidade. Eternidade lá e aqui, lá fácil entender, mas aqui enquanto privilégio dos que semearam a verdade trazida no coração desde lá longe no sem tempo até o momento do nascimento no tempo aqui no planeta azul. Sabidona é uma pessoa que consegue pensar soluções em meio a situações e ambientes inóspitos.
Por pensar inóspitos, Ivan nos convida à possibilidade de uma sociedade em que a educação poderia acontecer sem escolas e a saúde sem hospitais. Loucura? De forma alguma! Em obra extensa e de clareza admirável, o autor aponta caminhos para a construção da inusitada proposta.
https://vimeo.com/66948476 - Entrevista com Ivan Illich

Os ministérios da educação e saúde podem e devem zelar para que obras de pensadores sabidões e capazes de pensar o novo possam ser traduzidas com mais brevidade, especialmente em países como o Brasil em que os orçamentos destinados ao colegiado, grupo, ministério ou “patota da saúde” são mais rechonchudos comparativamente aos demais ministérios.

Hermes e Asclépio com três de suas filhas e alguém que implora

        Hermes é a divindade grega relacionada ao comércio e seu símbolo é o caduceu; Asclépio se correlaciona com a prática médica, sendo citado logo após Apolo no tradicional Juramento de Hipócrates. Na figura acima, aparece acompanhado de três de suas filhas: Higéia (higiene, limpeza e prevenção), Panacéia (a solução para todos os males, a síntese da saúde) e Meditrina (longevidade). Iaso (recuperação da doença), Agléia (Esplendor, Graça e Beleza) e Aceso (o processo da cura) também são suas filhas, apesar de não retratadas aqui.
      Toda exploração e aproximação simbólica visam auxiliar o humano na lembrança de conceitos e saberes predispostos à corrosão temporal e, portanto dos valores com os quais se relacionam; no presente caso vem à tona a relação entre a arte e os aspectos mercantis relacionados. Caro amigo, observe o olhar de Asclépio para Hermes assim como a posição de súplica do homem na representação acima e compreenderá a que me refiro.
A imagem grita o que palavras apenas balbuciam. Lembre-se ao saborear as belas propagandas oferecidas na atualidade; as maiores mentiras são, geralmente, contadas por personagens bem aparentados, em muitos casos contraexemplos práticos das mensagens propagadas. Já se disse que a mentira repetida muitas vezes se torna verdade; repitamos verdades apenas e que a inanição cumpra sua função com o resto.
Ivan Illich
Illich, no contundente texto Medical Nemesis, apresenta com lucidez ofuscante os tópicos que esclarecem a tensão saúde-doença, assim como a cri$e de confiança que a medicina moderna atrave$$a. Veja-se a situação recente dos hospitais da cidade maravilhosa neste início de 2016. Lembremos conforme se repete aqui ad nauseum que: cuidar da saúde é simples e barato, correr atrás da doença é complexo e dispendioso.
A discussão sobre iatrogênese proposta por Ivan aponta o leigo e não o médico como portador da chave para a solução dos problemas que ele designa como “epidemia iatrogênica”. Emancipação requer vontade e para tal o pensar não pode estar alienado ou anestesiado; a pessoa deve fazer algo para melhorar (ser agente) e não esperar que o terapeuta faça algo por ela (ser paciente). Nas palavras de Ivan em 2003 no Journal of Epidemiology & Community Health :
“A saúde designa um processo de adaptação. Não é resultado de instinto, mas de vida autônoma e reação à realidade experimentada. Ela designa a habilidade de adaptação a ambientes em mudança, de crescer e de envelhecer, de se curar quando lesado, de sofrer e da expectativa pacífica da morte. A Saúde envolve o futuro também e inclui portanto a angústia e os recursos internos para viver com ela.
A habilidade humana em lidar com sua fragilidade, individualidade e capacidade de se relacionar de forma autônoma é fundamental para sua saúde. Na medida em que a pessoa se torna dependente na lida com sua intimidade ela renuncia à sua autonomia e sua saúde declina. O milagre verdadeiro da medicina moderna é diabólico. Ele consiste em fazer não apenas indivíduos, mas populações inteiras sobreviverem em desumanamente baixos níveis de saúde pessoal. Apenas os operadores de sistemas de saúde não sabem que a saúde diminui na mesma medida em que se oferecem mais serviços de saúde, precisamente porque suas estratégias decorrem de sua cegueira à inalienabilidade da saúde.
O nível da saúde pública corresponde ao grau em que os meios e as responsabilidades na lida com a doença estejam distribuídos entre a população total. Esta habilidade em lidar pode ser aumentada, mas nunca trocada pela intervenção médica nas vidas das pessoas ou das características higiênicas do ambiente. Aquela sociedade que possa reduzir a intervenção profissional ao mínimo proverá as melhores condições para a saúde. Quanto maior o potencial para a adaptação autônoma em si, aos outros e ao ambiente, menos procedimentos para adaptação serão necessários ou tolerados.”
Abaixo, um pouco mais do trabalho desse humano que até pouco esteve entre nós: