quinta-feira, 1 de outubro de 2015

SUPERANDO O PRECONCEITO DE FALAR SOBRE A MORTE - I

Por: Bel Cesar - Terapeuta. Dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte.

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Se quisermos viver melhor, nos sentirmos inteiros e participantes do mundo, precisaremos superar o preconceito de falar sobre a morte. A morte coloca a vida em perspectiva: definimos melhor os nossos propósitos quando refletimos sobre nosso passado, presente e futuro.
Precisamos superar nossa tendência niilista frente à morte: uma ideia limitada de finitude, de que quando tudo acaba não há mais nada por vir. Ao ampliarmos a visão de quem somos, de onde viemos e para onde vamos podemos incluir a morte em nossa vida como um modo de aprofundar o sentido de estarmos vivos.
Ao encararmos a morte, reconhecemos que não somos perfeitos e sim paradoxais. Quem não conhece a constante luta interna de querer e não querer algo o tempo todo?
Carl Jung dizia que para uma pessoa se sentir completa terá de aceitar o fardo de viver conscientemente com tendências opos­tas, irreconciliáveis inerentes à sua natureza, tragam elas a conotação de bem ou de mal, sejam escuras ou claras. Apenas quando acolhemos nossos paradoxos é que nos sentimos inteiros.
Não queremos falar sobre a morte, mas contamos com a ideia de que vamos morrer para nos sentirmos vivos. A ideia de que um dia vamos morrer, nos ajuda a lidar com os sofrimentos da vida: uma perspectiva de alívio, de que um dia os sofrimentos desta vida acabarão quando morrermos. Mas não queremos morrer.
Esse é um dado importante. Queremos acabar com o sofrimento desta vida, mas não morrer.
Segundo Eliot Jay Rosen, em Colhendo a alma (Ed. Best Seller), a magnitude de nosso desconforto em relação à morte está em proporção direta ao tanto que fomos afetados por meio de três importantes fatores:
1. Até que ponto fomos expostos à visão negativa que a sociedade moderna tem da morte, e como fomos marcados por ela;
2. Falta de informação a respeito dos processos fisiológico, psicológico e espiritual que ocorrem na morte;
3. Ignorância quanto às provas científicas e depoimentos inspiradores que endossam o fato de que a morte é uma transição para outra realidade e não um fim.

Até que ponto fomos expostos à visão negativa que a sociedade moderna tem da morte, e como fomos marcados por ela?

A ideia que temos da morte é o rótulo que damos aos nossos condicionamentos culturais. Em geral, presenciamos a morte de maneira violenta e negativa. Nos jornais e na TV, a morte é assistida com violência, à distância. Parece que ela só acontece com os outros. No entanto, ao não presenciarmos a morte como pacífica e natural, não interiorizamos a possibilidade de nossa própria morte como um evento positivo. Temos medo do dia em que “chegar a nossa vez”.
Podemos superar o preconceito de pensar ou falar sobre a morte, mas enquanto não tivermos alguma experiência direta com a morte, nossa ideia a seu respeito será apenas intelectual, limitada por nossa própria falta de experiência.
Podemos conhecer a morte de um ponto de vista cultural, religioso, científico ou histórico, mas continuamos sem saber o que mais nos toca: quando e como nossa morte ocorrerá. Quando esse momento se aproxima é que nos damos conta de que deveríamos saber muito mais sobre ela. Ao sermos tocados pela ideia de nossa própria morte como uma realidade certa, podemos suavizar esse impacto, ao nos prepararmos desde já para esse momento.
A morte é um conceito que adquirimos de acordo com nossa personalidade, ambiente social, cultural e religioso e educação familiar. Nossa visão de morte está contaminada. Então, temos de revê-la. Se nos concentrarmos nela, vamos perceber que muitas de nossas ideias arquivadas são contraditórias.
Se fecharmos os olhos e repetirmos a palavra “morte”, inúmeras vezes iremos constatar que cada vez que dissermos essa palavra, surgirão pensamentos, imagens e sentimentos diferentes. Na maioria das vezes, eles são antagônicos. Se continuarmos essa experiência de mergulhar até onde leva a palavra “morte”, notaremos que algo muda positivamente em nosso interior. A experiência direta é um antídoto potente para superarmos nossas resistências. Podemos trabalhar com os nossos preconceitos; não estamos destinados a ficar presos a eles.
Recuperar as memórias de infância sobre a morte também pode ajudar-nos a compreender a base onde está alicerçada nossa estrutura emocional frente a mudanças e perdas. Dedicar-se a recordá-las é, portanto, de grande importância para o processo de autoconhecimento.

Falta de informação a respeito dos processos fisiológico, psicológico e espiritual que ocorrem na morte.

Em 1993, Sherwin Nuland, o cirurgião e professor de medicina, movido pela intenção de esclarecer e desmistificar o processo da morte escreveu o livro “Como morremos: reflexões sobre o último capítulo da vida”. Este livro foi lançado no Brasil em 1995, pela Editora Rocco. Nuland escreve: “Todos querem conhecer a morte em detalhes, embora poucos se atrevam a confessar. Seja para antecipar os eventos de nossa doença final ou para melhor compreender o que está acontecendo a um ente querido à beira da morte – ou mais provavelmente devido a essa fascinação do id pela morte que todos nós sentimos – somos atraídos por pen­samentos sobre o fim da vida. Para a maioria das pessoas, a morte permanece um segredo oculto, tão erotizado quanto temido”.
Nuland descreve como se dá o processo da morte causado por um enfarte, por um derrame, por doenças como o mal de Alzhei­mer, AIDS e câncer, bem como formas de suicídio ou por acidentes como sufocamento ou afogamento, por exemplo.
O desejo de muitos é morrer dormindo: uma forma de anestesiar a dor do processo de morrer. No entanto, na grande maioria das vezes o processo da morte se dá de forma lenta e difícil. Hoje a medicina já é capaz de controlar a dor física, mas ainda não considera a dor emocional e espiritual como uma prioridade.
Morrer não é romântico. Precisamos nos preparar para conhecer esse processo de modo a aceitá-lo como uma condição humana e não como uma falha humana. A ideia de proporcionar uma morte digna para aqueles que amamos muitas vezes está inocentemente associada a uma morte sem dor, ausente de processos degenerativos do corpo humano difíceis e desagradáveis de serem testemunhados. Não podemos nos sentir culpados por nossa natureza humana. Isto é, precisamos aceitar o processo natural do envelhecimento, a falência precoce dos órgãos vitais, ou seja, um processo degenerativo da doença como um fenômeno próprio de nossa natureza humana.
O sentimento de impotência frente à morte é frequente naqueles que presenciam um processo de morte sofrido ou precoce. Muitas vezes, surge um sentimento de culpa por “não ter sido capaz de fazer mais nada”.
Esse sentimento de culpa é resultante de uma superavaliação de nós mesmos: pensamos que poderíamos ter feito algo que, na realidade, não nos cabia fazer. Um dos motivos por que isso acontece é por que encaramos a morte sempre como uma derrota. Outro motivo é por que confundimos os nossos sentimentos com os sentimentos dos outros. Aqui incluo um trecho de meu livro “Morrer não se improvisa” (Ed. Gaia), extraído das páginas 179 e 180. Muitas vezes não sabemos o que acontece dentro de nós, mas temos “certeza” do que acontece com os outros. Temos o hábito de concluir, sem consultá-los, o que eles pensam e porque agem de determinada maneira.
Quando a pessoa com quem temos o hábito de pensar “por ela” está morrendo, ilusoriamente pensamos ser capazes de fazer algo no lugar dela. Queremos fazer de tudo para aliviá-la da dor e de seus conflitos emocionais. Mas uma vez que não atingimos nosso objetivo de acalmá-la, sentimos culpa, como se não tivéssemos feito o suficiente. Precisamos compreender e aceitar que nada podemos fazer no lugar de outra pessoa, a não ser inspirá-la a fazer algo por ela mesma. Por isso, é saudável reconhecer que a morte é algo natural e que não há nada de errado em morrer. Assim, poderemos abandonar a culpa, baseada em pensamentos de que sempre poderíamos ter feito mais.
O sentimento de culpa também está presente na pessoa que está morrendo. Muitas vezes, ela se sente “responsável” pela sua doença e um peso para a sua família. Também se sente culpada por “abandonar” aqueles que ficam: pais, filhos ou marido. Essa sensação surge quando pensamos ser capazes de estar sempre presentes quando o outro precisar de nós. Assim como uma mãe gostaria de poder consolar seu filho sempre que ele necessitasse de consolo.
Durante a vida, temos inúmeras oportunidades para aceitar as separações como resultado natural de um encontro - especialmente quando alguém se separa de nós sem esclarecer a razão de sua atitude. Aí temos a oportunidade de superar a ideia, pretensiosa, de que teríamos o direito de compreender a razão de tudo e, portanto, de controlar a situação. Se aprendermos a aceitar de que nada é permanente, poderemos aprender a nos separar. Por isso, também é saudável reconhecer que não há nada de errado em se separar.

Repetir inúmeras vezes as frases não há nada de errado em morrer e não há nada de errado em se separar pode nos ajudar a superar a culpa e a aceitar a realidade. No livro A Arte de Morrer, Marie de Hennezel (Ed. Vozes) escreve: “O ‘tempo de morrer’ tem um valor. Acompanhar esse tempo exige de todos uma aceitação diante do inelutável, do inevitável, que é a morte. Isso implica o reconhecimento de nossos limites humanos. Seja qual for o amor que sintamos por alguém, não podemos impedi-lo de morrer, se esse é o seu destino. Também não podemos evitar um certo sofrimento afetivo e espiritual que faz parte do processo de morrer de cada um. Podemos somente impedir que essa parte de sofrimento seja vivida na solidão e no abandono; podemos envolvê-la de humanidade”.
CONTINUA...

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

CRIATIVIDADE III

POR MÁRIO INGLESI
Continuação de:


Dr. Ricardo,

É realmente, fantástico o que já criamos e estamos em vias de criar em setores os mais díspares, ou como quis acontecer Lewis Carrol, fazendo Alice se aventurar na descoberta de um mundo inquietante e onírico, sem precedentes, em “Alice no País das Maravilhas”. Assim como também os arcanos do invisível, com cujos fios diretores de cinema, teceram zumbis, o computador de Odisseia no Espaço, ou os fotógrafos que buscaram nas fotos, teias da mediunidade, em tempos idos da arte fotográfica. Ou, ainda, criaram “Comidas” com cores e paladares os mais salutares e edificantes.
Afinal, a vida como repetia exaustivamente o poeta Waly Salomão ”A Vida é Sonho”. Ninguém nos impedirá de sonhar, de fantasiar nossa realidade, seja lá em que grau e altura forem. Primeiro como andarilhos, depois singrando os mares e rios “nunca dantes navegados”, alçando voos aos céus, em aviões cada vez mais velozes, a passeio ou a trabalho, ou cruzando ruas, avenidas, Estados, alçando ou derrubando fronteiras em carros de tipos, tamanhos e luxo, os mais diversos, o ser humano, sempre ele, insaciável em sua curiosidade, em sua visão de futuro, viaja rumo ao espaço em busca de conhecer de perto outros planetas, em naves espaciais, pilotáveis ou, doravante, dirigidas daqui da Terra. Depois como criador de línguas, em prol da comunicação, bem como de escritos, onde sobeja a diversidade de suas faces, seus anseios, seus sentimentos e dores, numa catártica missão de firmar sua identidade e a profundeza de seu ser, isolando quaisquer compromissos ou temor de não ser nada.
Ei-lo, portanto, - Senhor! Perdoai - como um outro Deus, - o do Futuro - plasmado em Criador e Criatura, num gigantismo sem precedentes, marcando com seus feitos a História da Humanidade, por meio dos mais diversos suportes e das mais belas configurações, ainda que, sob aspectos de insanidade, gritos, horrores, dramas de toda ordem inclusive familiares, tragédias, comédias, urros de raiva ou silêncios de angústia ou esplendor, fazendo-nos ver como, mesmo em nossa - tão propalada pequenez -, ainda somos de importância vital para o porvir nosso e do planeta.
Ser humano não se manifesta apenas uma dádiva, mas, isto sim, num trabalho perseverante e diário, consciente, mas também de idealizações de sonhos e fantasias a nos fazer elevar a píncaros de criação nunca dantes vislumbrados. Afinal a vida não é tão bela quanto propalam propagandisticamente. Ela necessita de suportes que nos façam compreendê-la e fazê-la melhor para digeri-la.
Por tudo que já fez, de gerações a gerações até os nossos dias e evidentemente ainda o fará, nos mais diversos, múltiplos e infinitos setores da atividade humana, o “Homem” merece, sem dúvida, figurar no Olimpo, a morada dos Deuses, como o mitólogo “Deus”, da construção, da destruição, da desconstrução e, principalmente, pelo seu alto e desenvolto grau de criatividade, na afirmação de sua contínua individualidade e universalidade.
Ainda mais, por que, com seus segredos escondidos, tirados da manga do paletó e sua vara de condão, como um mágico, de requinte e trabalho excepcionais, não há como exortá-lo continuadamente seja em prosa ou verso, talvez, sempre com os olhos voltados no poema que o identifica: “Pós tudo”:

“Quis
Mudar Tudo
Mudei Tudo
Agora Pós Tudo
                      Extudo (sic)
Mudo”.
Augusto de Campos (SP -1931-) “Pós tudo” in “Folhetim”, 27.01.85.


E, se preciso for, para mostrar firmeza, cantarolar “Começar de Novo”, de Ivan Lins:
“Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado o barco, ter me socorrido”

É lógico que haverá sempre quem diga: e seus lados negativos – que aliás não são poucos e muito menos desprezíveis? Diremos, em coro e em alto e bom som, não há por que desmerecer, tudo faz parte de sua formação e mais ainda, de seu aprendizado, não só difícil, mas também incongruente.
Poder-se-ia dizer, como o poeta Olavo Bilac (1865-1928)
“Não és Bom, nem és mau: és triste e humano”
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
“Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora”

Ou, sob a identificação prevista por Friedrich Nietzsche, (1833-1900) in Ecce Homo declarar, enfaticamente:
“Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.”

Ainda, para ornar a grandeza do homem basta lembrar, as palavras de Albert Camus (1913-1960)”
“Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim”
Se assim é, melhor e mais profícuo é viver intensamente e :
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
“brilhar para sempre
brilhar como um farol
brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar,
que tudo mais vai pro inferno
este é meu slogan
e do sol”

“Verão na Datcha”, Wladimir Maiakovski (1893-1930), tradução: Augusto de Campos.
Se nada do que aqui está dito, servirá para lhe secar as lágrimas, procure ao redor algo que lhe satisfaça, quiçá um:
Consolo
O mundo está cheio de horrores
de tragédias e terrores
e gente de má fuça.
Mas de vez em quando aparece
cada tenista russa!
(Veríssimo, in “Poesia numa hora dessas”)

Caso nem isso lhe aplaque todo a sua negatividade sobre todo esse enaltecer, procure ensimesmar-se, esquecendo todos os possíveis tipos de epítetos, alcunhas, palavrões ou palavrórios que lhe enredam sorrateiramente, nesse seu viver acabrunhante e mesquinho e vá acampar, se assim o quiser, em outra freguesia, sim, se houver, e lhe aprouver, não esquecendo obviamente, dos adeuses de praxe, sem queixumes ou vitupérios que possivelmente enredaram–lhe a vida vazia de sentido, isenta de contrapartida dialogal com quem quer que seja. Plena, portanto tão só, de duvidoso egoísmo.
Nesse fuzuê de sentimentos e feitos nefastos, procure em si, uma réstea de claridade que ainda possa vislumbrar, recorrendo talvez ao poeta Manoel de Barros no poema “Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo”
“Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)”.

 Ou então diga, com Paulo Leminski:
“Não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino”

Se nada disso lhe for possível, o que fazer senão, - meu caro -, quedar-se enfadado e enfartado:
“Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida –
barrigudo
grisalho
e feliz por ter um quarto
… de manhã”
Charles Bukowski (1920-1994) in “Poema nos meus 43 anos,” (trad. Jorge Wanderley).

Por toda essa amostragem poética, neste único setor o da poesia, podemos, inquestionavelmente, elevar o Homem ao trono que lhe oferecemos: de um ícone à altura de “Deus”.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

O SEGREDO DA LONGEVIDADE - PARTE I

Por: Koshiro Nishikuni – Médico da Saúde e yoboku da Igreja Tenryu
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Oyassama disse que, com o espírito sereno podemos viver até os 115 anos de idade. O pesquisador Dan Buettner percorreu o mundo e encontrou cinco regiões onde vivem pessoas centenárias, repletas de alegria e ótima qualidade de vida, livres de doenças e incapacitações.
Foram mapeadas cinco localidades do mundo onde as chances de alcançar os 100 anos de idade são 10 vezes maiores, comparadas a outras regiões. Esses locais são chamados de “Blue Zones” ou “Zonas Azuis”: Okinawa (Japão), região com o maior percentual de centenários no mundo inteiro; Sardenha (Itália); 371 pessoas já haviam completado 100 anos em 2012; Loma Linda (EUA), cidade fundada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia; Península de Nicoya (Costa Rica), localidade com o maior número de centenários no mundo, 400; e Icária (Grécia), estima-se que um terço da população chegará aos 90 anos de idade. A genética desempenha um papel coadjuvante, mas o fator determinante na longevidade humana é, sem dúvida, o estilo de vida. Temos muito a aprender com os moradores dessas cinco regiões. Analisando a pesquisa, notei que a filosofia de vida deles, tem muita semelhança com os ensinamentos de Oyassama. Todos apresentam algumas características em comum:
1. Corpo em movimento
Nas zonas azuis, as pessoas não estão acostumadas a fazer exercícios específicos para atividade física; eles se mantêm em movimento, sem precisar fazer muito esforço para isso. Na Sardenha e em Icária, por exemplo, grande parte da população é acostumada a pastorear animais, mantendo-os sempre em movimento. Cuidar do jardim, caminhar até o trabalho ou, simplesmente, viver em local com escadas, também contribui para se manter em movimento.
2. Alimentação
Boa parte da população é vegetariana; frutas, vegetais e grãos são itens indispensáveis à mesa. Também, bebem com moderação e utilizam pratos pequenos. Em Okinawa, existe uma prática conhecida como hara hachi bu”, que consiste em comer até o estômago estar 80% completo. Devemos sentir gratidão pelo que alimentamos, quando resta este pouquinho de vontade.
3. Espiritualidade:
Independentemente da fé, este item é um ponto forte nessas comunidades. Por exemplo, Loma Linda está relacionada à Igreja Adventista do Sétimo Dia, e os habitantes da Península de Nicoya têm uma profunda fé em Deus. Segundo o pesquisador, participar de atividades relacionadas à fé ao menos quatro vezes por mês, pode adicionar até 14 anos à vida.
4. Senso de comunidade
Família e amigos estão sempre em primeiro lugar. Em Loma Linda, a Igreja é o lugar de reuniões e amizades. Em Okinawa, os habitantes possuem grupos de amigos que os acompanham desde a infância e com quem podem compartilhar as alegrias e tristezas.
5. Propósito de vida
Todos sabem exatamente o motivo que os fazem acordar de manhã: existe um propósito. Também são voluntariados, procurando, desta forma, um sentido a mais para a vida. Isso me fez lembrar do hinokishin e as frases de Oyassama, sobre as três coisas importantes na vida: levantar cedo, ser honesto e ser trabalhador. Cerca de 65% desses idosos são completamente independentes para as atividades diárias. Ainda, para 2015, há a expectativa do número de idosos com mais de 100 anos seja 20 vezes maior do que há 15 anos. “Uma dieta saudável é importante, mas, não pode faltar: rir e se divertir com as pessoas ao redor” – disse a Srª Panchita, de108 anos. O senso de humor é extremamente importante para a qualidade de vida. É exatamente como o ensinamento de Oyassama: “viver com alegria”.
O cientista Kazuo Murakami acredita que a alegria, a gratidão e a oração podem ativar os genes benéficos. O resultado de um experimento relativo ao riso foi a primeira descoberta. Despertar os bons genes que estão adormecidos com a risada. Até então, havia a ideia de que as características genéticas eram imutáveis, porém, as pesquisas revelaram que os genes podem ser mudados, como um interruptor liga/desliga, ou seja, ativa ou desativa. Ativar o gene é fazê-lo trabalhar e desativar é interromper o seu trabalho. A experiência foi feita com 25 voluntários diabéticos, após o almoço, observando-se a variação da taxa de glicemia, após uma estressante explicação médica sobre as consequências da diabetes e uma seção de humor, realizados em dias consecutivos. O resultado apontou um aumento médio de 123 mg de taxa de glicose contra 77 nos respectivos testes. Os médicos ficaram espantados com o resultado. Quando estamos alegres o cérebro libera neurotransmissores como serotonina e endorfina, chamado também de “hormônio da felicidade”. A palavra endorfina se origina das palavras endo (interno) e morfina (analgésico) e constitui nossa morfina endógena, que o próprio corpo produz. Por ser um potente analgésico natural, ao ser liberada no sangue gera sensação de bem estar, conforto, melhora no humor e alegria é sinônimo de saúde. É a “farmácia natural” que Deus nos oferece.
CONTINUA...