sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU



Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule


Nos palcos do firmamento
Jesus concebeu um plano
De montar um espetáculo
Para Deus Pai Soberano
E, ao lembrar de um dramaturgo,
Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite,
Mas Ariano não leu.
Estava noutro idioma,
Ele num canto esqueceu,
Nem sequer observou
Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou
Uma segunda missiva.
A secretária do artista
Logo a dita carta arquiva,
Dizendo: — Viagem longa
A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta
Disse torcendo o bigode:
— Eu vejo que Suassuna
É teimoso igual a um bode.
Não pode, mas ele pensa
Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma,
Apelou pra outro suporte.
Para cumprir a missão,
Autorizou Dona Morte:
— Vá buscar o escritor,
Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País
Como turista estrangeiro,
Achando que o Brasil
Era só Rio de Janeiro.
No rastro de Suassuna,
Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo,
Sofreu um constrangimento
Passando em Copacabana,
Um malfazejo elemento
Assaltou ela levando
Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo
E murmurou dessa vez:
— Pra não perder a viagem
Vou vender meu picinez
Para comprar outra foice
Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove
A dita foice comprou.
Passando a mão pelo aço,
Viu que ela enferrujou
E disse: — Vai essa mesma,
Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando,
Sem direção e sem tino,
Perguntando a um e a outro
Pelo escritor nordestino,
Obteve informação,
Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo,
Viu naufragar o seu plano,
Se lembrando da imagem
Disse: — Aqui há um engano.
Perguntou para João
Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo,
Quase ficando maluco,
Tomou um susto arretado,
Quando ali tocou um cuco,
Mas, gaguejando, falou:
—Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se
Dinheiro não tenho mais
Para viajar tão longe,
Mas Ariano é sagaz.
Escapou mais uma vez,
Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu
Com o escritor baiano,
Cristo lhe deu uma bronca:
— Já foi baldado o meu plano.
Pedi um da Paraíba
E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso,
Porém não escreve tudo.
“Viva o Povo Brasileiro”
É sua obra de estudo,
Mas quero peça de humor,
Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos
Pra ressuscitar João,
Mas achou desnecessário,
Pois já era ocasião
Pra ele vir prestar contas
Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte
E disse assim: — Serafina,
Vejo não és mais a mesma.
Tu já foste mais malina,
Tá com pena ou tá com medo,
Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar
Que preciso de dinheiro.
Ariano mora bem
No Nordeste brasileiro.
Disse o Cristo: —Tenho pressa,
Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor.
Pra outro, juro não ia.
Ele que se conformasse
Com o escritor da Bahia.
Se dependesse de mim,
Ariano não morria.

A morte na internet
Comprou passagem barata.
Quase morria de susto
Naquela viagem ingrata.
De vez em quando dizia:
— Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe
Duas barras de cereais.
Diz ela: — Estou de regime.
Por favor, não traga mais,
Porque se vier eu como,
Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife,
Ficou ela de plantão
Na porta de Ariano
Com sua foice na mão,
Resmungando: — Qualquer hora
Ele cai no alçapão!

A morte colonizada,
Pensando em lhe agradar,
Uma faixa com uma frase
Ela mandou preparar,
Dizendo: “Welcome Ariano”,
Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano
Ficou muito revoltado.
Começou a passar mal,
Pediu pra ser internado
E a morte foi lhe seguindo
Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano
Morreu de raiva ou de medo.
Que era contra estrangeirismos,
Isso nunca foi segredo.
Certo é que a morte o matou
Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano,
Tava a porta escancarada.
São Pedro quando o avistou
Resmungando na calçada,
Correu logo pra o portão,
Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado
Foi chamar o Soberano,
Dizendo: - O Senhor agora
Vai concretizar seu plano.
São Pedro mandou dizer
Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado,
Apertando o nó da manta
E disse assim: — Vou lembrar
Dessa data como santa
Que a arte de Ariano
Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão
Recebeu bem Ariano,
Que chegou meio areado,
Meio confuso e sem plano.
Ao perceber que morreu,
Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha
Chegou Ascenso Ferreira,
O grande Câmara Cascudo,
Zé Pacheco e Zé Limeira.
João Firmino Cabral
Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo
(Que foi pra lá por engano)
Veio de braços abertos
Para abraçar Ariano.
E esse falou: - Ubaldo,
Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado
E o ator Paulo Goulart.
Veio também Chico Anysio
Que começou a contar
Uma anedota engraçada
Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo,
Com seu rosto bronzeado.
Veio de braços abertos,
Suassuna emocionado
Disse assim: — Esse é o Mestre,
O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida,
Sonhou em ser imortal,
Entrou para Academia,
Mas percebeu, afinal,
Que imortal é a vida
No plano celestial.

Jesus explicou seus planos
De fazer uma companhia
De teatro e ele era
O escritor que queria
Para escrever suas peças,
Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde:
— Senhor, eu me sinto honrado,
Porém escrever uma obra
É serviço demorado.
Às vezes gasto dez anos
Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou
E disse: — Fique à vontade.
Tempo aqui não é problema,
Estamos na eternidade
E você pode criar
Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino
Com chapeuzinho banzeiro,
Com um singelo instrumento,
Tocou um coco ligeiro
Falando da Paraíba:
Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga,
Lindu do Trio Nordestino,
E apontou Dominguinhos
Junto a José Clementino
E o grande Humberto Teixeira,
Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês
Com Abdias de lado
E Waldick Soriano,
Com um vozeirão impostado,
Cantou “Torturas de Amor”,
Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero
Com Catulo da Paixão,
Suassuna enxugou
As lágrimas de emoção
E Catulo, com seu pinho,
Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros
Junto a Leonardo Mota,
Chegou Juvenal Galeno,
Otacílio Patriota.
Até Rui Barbosa veio
Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado,
Tocada de emoção,
Juntinho de Ariano,
Veio e beijou sua mão
E disse: — Na sua peça
Quero participação.

Ariano dedicou-se
Àquele projeto novo.
Ao concluir sua peça,
Jesus deu o seu aprovo
E a peça foi encenada
Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano
Só participa alma pura.
Ariano virou santo,
Corrigiu sua postura.
Lá no Céu ganhou o título
Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele
Já nutriam grande encanto
Agora estando em apuros,
Residindo em qualquer canto,
Lembra de Santo Ariano
E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote
Que lutou de alma pura.
Contra a arte descartável
Vestiu a sua armadura
Em qualquer dia do ano
Eu digo: viva Ariano
Padroeiro da Cultura!

FIM

CONSUMO E MEDICINA - BLACK FRIDAY x BRIGHT FRIDAY

Por Dra. Ana Cristina Guimarães, médica.

 

Durante o mês de fevereiro, pré-carnaval, com o consultório mais tranquilo, estive lendo um livro que me chamou a atenção, a ponto de desejar repassar alguns conceitos para meus amigos e colegas. Seu nome é “Vidas para Consumo”, o autor Zygmunt Bauman. Nele, nossa sociedade e modo de viver são discutidos de uma maneira tão realista e transparente que nos causa até uma sensação de angústia e nos faz reavaliar alguns atos que realizamos no dia a dia, sem muitas vezes pensar sobre as consequências.

Na sociedade atual, sociedade consumista como o autor chama, nós não vivemos mais para produzir (trabalhar) e sim para consumir. Vivemos para satisfazer nossas necessidades, cada vez mais crescentes e mais caras, sob o impulso de adquirir e juntar. Nosso trabalho é somente uma ponte para podermos comprar coisas, com a consequente diminuição do orgulho do que somos e fazemos.

Para aqueles que acham que isso é um exagero, notem... Em poucos anos os imóveis subiram cinco vezes ou mais (um apartamento de 160m2 está 1.600.000 reais na planta! E pensem rápido porque já é um dos últimos...).

Um carro não é mais um fusquinha... Tem que ser um BMW ou Land Rover mesmo que pago em 100 prestações... E do ano! Uma amiga entrou no meu carro que já tem três anos e fez cara de nojo, - você não vai trocar?!!

A bolsa tem que ser Louis Vitton, a calça Seven, o óculos Gucci, o relógio sei lá qual e com certeza já estou defasada porque estes já não são mais a Última Moda.

E aí entra outro ponto importante! Da mesma maneira que compramos temos que nos livrar dos objetos rapidamente, para podermos comprar outros da Última Moda. Nunca estaremos satisfeitos com o que já temos, pois o Mercado sempre pede novidades. Logo, estamos sempre insatisfeitos, sempre buscando mais... Quero trocar meu carro, minha casa precisa ser maior, meus móveis já estão velhos etc.

É a cultura da insatisfação, da infelicidade! Estimulada por todos os meios de comunicação, novelas, jornais e revistas. É impossível abrir um simples jornal sem que sejamos bombardeados por anúncios gigantescos de apartamentos e carros.

Muitos enquanto leem isto devem estar pensando: e daí, eu quero e eu posso comprar, qual o problema? Quero ter o melhor ou quero dar o melhor para meu filho, esposa...

O problema é que cada vez mais, se não pensarmos no assunto, vamos ter que trabalhar mais – mais rápido, mais horas e com menos qualidade- para mantermos esta roda de consumo que esta cada vez mais cara e veloz. E se trabalhamos muito e consumirmos muito também pensamos menos, aceitamos uma qualidade de vida menor, não ficamos com a família, não vemos os filhos crescerem, não fazemos amigos, enfim, abdicamos de tudo o que realmente importa para ser feliz.

Outro problema- as pessoas também estão se transformando em objetos de consumo. Quantas vezes ouvimos dos amigos ou pacientes – meu Médico é o Fulano de tal, aquele que aparece nas revistas! Especialmente na dermatologia, o médico tem que ter uma marca e um nome, para que os pacientes contem nas rodinhas que ele frequenta Aquela Dermatologista Famosa!

E também nós médicos fazemos a mesma coisa com nossos pacientes, quando atendemos de 10 em 10 minutos , o próximo e rápido, por favor... Muitos entram na sala sem saber o nosso nome e também não sabemos o nome deles. Objetos, números de carteirinhas de convênios...

Outro dia, ouvi que nós médicos somos substituíveis. Dormi vários dias com isso na mente. Como posso não ser substituível? Como posso agir para que meu filho se for médico, não tenha que ouvir estas palavras tão dolorosas...

Uma das maneiras que encontrei foi esta, divulgar um pouco mais o que eu penso. A outra e mais importante é prestar cada vez mais atenção para que eu não trate as pessoas, família, amigos, colegas e pacientes como substituíveis.

            E gastar menos, prestar atenção quando for comprar, ensinar aos filhos que eles têm que SER e não TER!

 Qual a vida e a sociedade que queremos deixar para nossos filhos? Queremos que eles trabalhem até às 3 da manhã por que eles aprenderam que eles PRECISAM de um carro novo? Se eles se tornarem médicos, gostaríamos que eles atendessem 100 pacientes dia a 20 reais a consulta? É o que vai acontecer se fingirmos que está tudo bem. Se não brigarmos agora por eles, se cada um de nós não tomar um pouco de consciência hoje, nossos filhos sofrerão no futuro. Serão mais substituíveis do que nós fomos, ganharão menos por uma consulta, trabalharão muito mais do que já trabalhamos, e serão mais infelizes.

Um dos motivos por que parei de atender os convênios foi por que não aguentava mais não saberem o meu nome (meu nome era aquela médica lá do fundo do corredor...). Outro motivo foi pelos meus filhos.

Muitos vão pensar, ah eu não consigo... mas minha especialidade não é assim... Mentira! Todos conseguem, não de repente, não sem certo sacrifício pessoal, inicio de agendas vazias, sensação de abandono. Mas um paciente particular por dia é igual financeiramente a quantas consultas convênio? E qual é o valor inestimável deste paciente saber o seu nome e falar que veio indicado por alguém, procurando por você e nenhum outro? Não tem preço e não dá para comprar com Mastercard!

Se você já for um milionário ou morar na Islândia talvez o que discuti não tenha nada a ver com a sua vida. Do contrário pare pelo menos 5 minutos para pensar e discutir este assunto e talvez tomar uma atitude, pequena que seja. Talvez você concorde comigo, talvez não, mas o que importa é que parou e pensou. E quando pensamos não fazemos mais parte da manada nem agimos por impulso.

Começamos a nos tornar Humanos e Insubstituíveis!