Dr. Ricardo,
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| Sono e seu irmão gêmeo Morte - Tela de 1874 por John William Waterhouse |
Sempre que se toca na passagem de vida e morte, é comum associá-la
à imagem de uma ponte, tendo como extremidades o nascer e o fenecer da vida.
Como figuração, isso se mostra até certo ponto cabível, mas, a bem
da verdade, é inteiramente insuficiente para decifrar tal passagem em sua
inteireza.
Isto porque a vida se faz e refaz em seu andamento de laços, nós,
abraços, convivência, conversas, entendimentos ou não, mas principalmente de
ver e respeitar no outro, em quaisquer relacionamentos, as diferenças, e assim,
construir democraticamente uma vida sadia e satisfatória para todos os
envolvidos. E mais, a vida é construção, é abrir portas e janelas, é
compreender os outros, sem ajuizamentos apressados e enganosos, não esquecendo
que as aparências enganam.
Portanto, hoje dia de Finados, deixemos de lado as flores, as
velas, os compromissos e obrigações de visita às campas mortuárias, e pensemos
nos que foram, rezemos por eles, mas não nos atenhamos à morbidez de apenas
cultuá-los. Afinal, o que nos deve restar - isto sim - é a boa lembrança de
momentos marcantes, de carinhos recebidos, e oferecidos, de consideração humana
pelos que se foram.
Afinal, como bem lembrou Vinicius de Moraes com o seu “Samba da Benção”:
“É melhor
ser alegre que ser triste
Alegria é a
melhor coisa que existe
É assim como
a luz no coração.”
No mais, tudo não passa de firulas inócuas. Lágrimas que não
trazem de volta, como também não pagam dívidas, ainda que sentimentais. Melhor
mesmo é cuidar dos vivos, estes sim, precisam de você, assim como você precisa
de todos eles, indistintamente. Pois “quando os sinos dobram” (Hemingway), eles
dobram também por você.
Aos mortos, sempre a lembrança de uma vida já vivida, Aos vivos a oferta
de carinho, da mão amiga, do diálogo, do debate, na construção do outro e de si
mesmo, de um futuro feliz, democrático e o quanto possível igualitário de
possibilidades e aberto a concretudes infindas de sonhos os mais díspares e
dignificantes.
Sei que
amanhã
Quando eu
morrer
Os meus
amigos vão dizer
Que eu tinha
um bom coração
Alguns até
hão de chorar
E querer me
homenagear
Fazendo de
ouro um violão
Mas depois
que o tempo passar
Sei que
ninguém vai se lembrar
Que eu fui
embora
Por isso é
que eu penso assim
Se alguém
quiser fazer por mim
Que faça
agora
Me dê as
flores em vida
O carinho, a
mão amiga,
Para aliviar
meus ais.
Depois que
eu me chamar
Saudade
Não preciso
de vaidade
Quero preces
e nada mais
Quando Eu Me Chamar Saudade (Nelson Cavaquinho)
Quando eu
morrer, não quero choro nem vela
Quero uma
fita amarela gravada com o nome dela
Se existe
alma, se há outra encarnação
Eu queria
que a mulata sapateasse no meu caixão
Não quero
flores nem coroas com espinho
Só quero
choro de flauta, violão e cavaquinho
Fita Amarela (Noel Rosa)
Lembremos que a vida tem seu limite, não a faça perder, como o
Godot de Beckett, limitando-a na espacialidade e fixando-a numa imobilidade
nauseante de ineficácia, numa toca de coelho.
Se ela lhe der rasteiras, e isso sempre ocorrerá, levante-se, o
ciclo da vida lhe ensinará a viver, hirto, de olhos bem abertos e com vontade. E
sempre no ápice da criação. Há milhares de coisas a serem feitas, não
desperdice as oportunidades, fuja das convenções, dos parâmetros, ouse questionar.
Tudo está sujeito a questionamentos, Lembre-se, de Baden Powell e Vinícius de
Moraes em Berimbau:
“Quem de
dentro de si não sai
Vai morrer
sem amar ninguém
Capoeira que
é bom não cai
Mas se um
dia ele cai, cai bem
Capoeira me
mandou dizer que já chegou
Chegou para
lutar.
É bom lembrar que, na vida, até os bolsões de silêncio são
válidos, para podermos olhar para nós mesmos, nossos sentimentos, nossas
querências, nossos anseios, mas também a invalidade de nossa vida programada,
nosso sentido trágico num mundo de ganância, de esnobismo, de aparências, do
“Ter”.
No mundo, não basta abrirmos uma janela, é preciso ver o que
acontece lá fora. Não apenas as intempéries, ou as luzes da cidade, a claridade
do sol ou do luar, é preciso ir imiscuir-se às suas mazelas, os seus horrores,
os seus mortos sem sepulturas.
Viver, ainda que apenas um dia ou algumas horas voltados para o
mundo dos mortos sempre satisfaz, de algum modo, mas a volta à vida, com seus
anseios, exigências loucuras, amores, paixões, amizades e outros e mais outros
que tais, nos fazem saber que não estamos mortos e esse exercício do
aprendizado é fundamental para continuarmos a viver intensa e plenamente.
Nesse contexto, torna-se imprescindível cantar, sempre em alto e
bom som, e com a garra que a canção invoca, os versos de “Gracias a la Vida” de
Violeta Parra
“Gracias a
la vida que me ha dado tanto
Me ha dado
la risa y me ha dado el llanto
Com ellos distingo dicha de quebranto
Los dos
materiales que forman mi canto
Y el canto
de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de
todos que es mi propio canto.”
Esse canto, assim como as homenagens devidas aos mortos não
existiriam sem a luminosidade abençoada da vida humana, em todo o seu esplendor
de florescência, em suas indagações existenciais e de bem-querência para com os
vivos e os mortos.
No dia de finados, muitos vivas aos vivos: deles é o reino da
Terra, e muito carinho e recordações para os que já se foram, ainda que “sem
lenço, sem documento e nada nos bolsos ou nas mãos”. Destes, – quem sabe? –
será o “reino dos Céus, do silêncio, do pó, do passado, do esquecimento”. O
tempo dirá!
Mário Inglesi



